Srila Prabhupada certa
vez comentou que uma brilhante qualidade da literatura védica é sua
apresentação variada de diferentes sendas para diferentes classes de seres
humanos. Assim encontramos dezoito Puranas, por exemplo - seis para aqueles
no modo material da bondade; seis para aqueles na paixão, e seis para os na
ignorância. Adicionalmente, encontramos o
filosóficos Upanishads, os concisos,
sofisticados Vedanta-sutras,
majestosos e atraentes épicos como o Mahabharata
e Ramayana, bem como muitos outros
tipos de escrituras .
Todos estes livros
védicos tem uma meta comum, conforme expressa no Bhagavad-gita 15.15: vedais ca sarvair aham eva vedyah. "Eu, (o Senhor Krishna) posso ser
conhecido através de todos os Vedas." Assim as literaturas védicas se dirigem a
todos seres humanos, em qualquer estado de evolução espiritual ou decadência
que possam estar, ocupando-os,
progressivamente, na senda da perfeição humana, culminando em amor puro por
Deus, consciência de Krishna.
Este fascinante livro
sobre o sagrado dia de Ekadashi, traduzido com tanta capacidade por Sua
Santidade Krishna Balaram Swami, ilustra poderosamente o andamento dinâmico da
literatura védica. Primeiramente, o
livro é autorizado, por ser uma tradução de escrituras padrão tais como o Bhavishya Purana, Brahmanda Purana e Skanda Purana e consistindo em sua maior
parte de conversas entre o próprio Senhor Krishna e grandes devotos como o Rei
Yudhishthira.
Frisamos ainda, que as
bençãos obtidas por observar Ekadashi irão apelar claramente a uma larga faixa
de praticantes espirituais. Assim, por
exemplo, pessoas ocupadas em vida familiar serão atraídas pelas bençãos de bons
filhos, prosperidade, etc., ao passo que aquelas que transcenderam tais apegos
serão motivadas pela oportunidade de rapidamente obter amor puro por Deus.
É claro, a verdadeira
glória de Ekadashi é que todas classes de seres humanos podem rapidamente
progredir rumo à meta de pura consciência de Krishna por observarem
corretamente este sagrado dia. O próprio
Sri Chaitanya Mahaprabhu observava Ekadashi estritamente, e Ele exigia que Seus
seguidores fizessem o mesmo. Uma leitura
sincera deste livro não poderá deixar de aumentar, de forma dramática, nossa
compreensão desta importante observância.
O autor, Krishna Balaram Swami, dá um exemplo ideal neste sentido,
observando estritamente Ekadashi, e ele nos deu uma literatura consciente de
Krishna importante e iluminadora.
Hridayananda das Goswami
Governing Body Commissioner for
the International Society for Krishna Consciousness
(GBC da ISKCON)
PREFACIO
As publicaçöes do Bhaktivedanta
Institute (BBT) lidam com as conclusöes científicas e teológicas dos antigos
escritos conhecidos como Vedas. Os Vedas
formam a base de uma civilização e cultura que dão suprema importância à
elevação da alma do aprisionamento mundano.
Assim a cultura védica nos ensina a adotar um estilo de vida
disciplinado, consciente de Deus, de modo que a alma possa experiemntar
ilimitada felicidade desenvolvendo plena consciência divina, ou consciência de
Krishna.
Na disciplina de
consciência de Krishna, jejuar a intervalos regulares é altamente recomendado
tanto para a melhora física como espiritual.
A ciência da nutrição ensina que o jejum periódico beneficia grandemente
o corpo dando aos órgãos digestivos um descanso e permitindo limpeza
interna. O corpo então funciona mais
eficientemente. Até mais importante para
devotos de Krishna, contudo, é o benefício espiritual a ser obtido por jejuar
em certos dias auspiciosos, seguindo estritamente as regras e regulaçöes. Assim devotos conscientes de Krishna são
orientados a jejuarem duas vezes por mês, no décimo primeiro dia das luas
crescente e minguante. Conforme descrito
neste livro, quem jejua neste dia, chamado Ekadashi, obtém não só benefício
físico, porém tremendo benefício espiritual.
O Instituto Bhaktivedanta
está extremamente satisfeito por apresentar este belo livro - Ekadashi, o Dia do Senhor Hari - por Sua
Santidade Krishna Balaram Swami, um membro do Instituto. Krishna Balaram Swami é um estudioso de
sânscrito e possui extensa experiência em seguir as práticas devocionais desde
a infância. Ele traduziu diligentemente
estes capítulos de vários Puranas
para nossa edificação. Esperamos que
este livro inspire muitos buscadores sinceros da Verdade Absoluta, o Senhor Sri
Krishna, a começar a observar seriamente Ekadashi.
Bhaktisvarupa Damodara
Swami
Diretor Internacional
Instituto
Bhaktivedanta
O MESTRE ESPIRITUAL PERFEITO
Sua Divina Graça A.C.
Bhaktivedhanta Swami Prabhupada apareceu numa família de devotos conscientes de
Krishna em 1896 em Calcutá, India. Desde
sua infância ele demonstrava sinais de ser um devoto puro do Senhor,
ocupando-se em kirtanas e peças
teatrais conscientes de Krishna na escola.
Seu pai, Gour Mohan De, deu-lhe treinamento espiritual adequado.
Srila Prabhupada
conheceu seu mestre espiritual Srila Bhaktisidhanta Saraswati Goswami
(1874-1937) em Calcutá, em 1922. Srila
Bhaktisidhanta Saraswati, fazia parte da sucessão discipular
Brahma-Madhva-Gaudiya Sampradaya, sendo um grande expoente e erudito em
filosofia consciente de Krishna, além de fundador de sessenta e quatro Gaudiya
Maths na India. Em seu primeiro
encontro, Srila Prabhupada recebeu as instruçöes que o inspirariam a provocar
uma revolução espiritual no mundo. Srila
Bhaktisidhanta Saraswati disse:
"Você é um jovem rapaz educado.
Porque não prega a mensagem do Senhor Chaitanya Mahaprabhu pelo mundo
inteiro?" Embora os seguidores dos Vedas adorassem o Senhor Krishna, a
Suprema Personalidade de Deus, desde tempos imemoriais, esta genuína filosofia
e literatura transcendental permaneciam desconhecidas fora da India. Ao seguir seu mestre espiritual, Srila
Prabhupada iria se tornar um elo de importância capital na transmissão dos
ensinamentos originais enunciados pelo próprio Senhor Krishna.
Em 1944 Srila
Prabhupada fundou De Volta Ao Supremo,
uma revista em idioma inglês que expunha a ciência transcendental da
consciência de Krishna. Usando seu
próprio dinheiro e trabalhando sem assistentes, ele escrevia, revisava, editava,
imprimia e distribuía a revista por todo norte da India.
Nos anos que se
seguiram, Srila Prabhupada sonhou várias vezes que Srila Bhaktisidhanta
Saraswati lhe dizia para deixar a vida de chefe-de-família e aceitar a ordem
espiritual mais elevada, a ordem renunciada de sanyasa. Quando Srila
Prabhupada teve este sonho novamente em Vrindavana, a sagrada terra mais
querida de Krishna, resolveu aceitar o desafio.
Em setembro de 1959
Srila Prabhupada aceitou o voto de renúncia das mãos do famoso sábio Srila
Kesava Maharaja em Mathura, recebendo o nome de A.C. Bhaktivedhanta Swami. Como sanyasi,
Srila Prabhupada estava em posição ideal para realizar a ordem de seu mestre
espiritual, porém primeiro ele precisava de livros e assistência financeira
para viajar aos Estados Unidos.
Dependendo plenamente
da misericórdia do Senhor Krishna, Srila Prabhupada começou um projeto
literário monumental - a produção de uma tradução para o inglês com anotaçöes
elaboradas do Srimad Bhagavatam de
Srila Krishna-Dvaipayana Vyasa, a encarnação literária de Deus. O Srimad
Bhagavatam, uma escritura enciclopédica, frequentemente é chamado de
"nata das literaturas Védicas" porque lida exclusivamente com a
personalidade e passatempos transcendentais de Deus. Srila Prabhupada lutou sozinho, escrevendo e
editando esta grande obra e coletando fundos para imprimir os primeiros três
volumes. Após completar o primeiro
volume, ele presenteou uma cópia ao primeiro-ministro
da India, Lal Bahadur Shastri, o qual apreciou o trabalho erudito de Srila
Prabhupada.
Em 1965 o caminho
finalmente estava livre para que Srila
Prabhupada embarcasse em sua jornada histórica ao ocidente. A linha de vapores Scindia deu-lhe passagem
grátis a bordo do cargueiro Jaladuta,
e em agosto de 1965 Srila Prabhupada deixou a India com um caixote de seu Srimad Bhagavatam, um par de karatalas (címbalos), e quarenta rúpias
indianas (aproximadamente sete dólares).
A viagem de quarenta
dias revelou-se árdua. Apenas alguns
dias no mar, e já o Jaladuta passava
por pesadas tempestades, e Srila Prabhupada sofria não só com o enjôo do mar,
mas também teve dois ataques cardíacos.
Por duas noites consecutivas vieram os ataques, e com sua idade de
sessenta e nove anos ele sabia que podiam ser fatais. Na terceira noite, sonhou que o próprio
Senhor Krishna o impelia e oferecia toda proteção. Os ataques não retornaram.
Quando o Jaladuta finalmente aportou no porto de
Boston em 17 de setembro, 1965, Srila Prabhupada escreveu: "Meu querido Senhor Krishna, és tão
caridoso para com esta alma inútil, porém não sei porque Me trouxeste
aqui. Agora podes fazer o que quiseres
comigo... Como farei os ocidentais
compreender a mensagem da consciência de Krishna? Sou muito desafortunado, desqualificado, e
muito caído. Portanto, estou buscando
Tua benção para que possa convencê-los, pois sou incapaz de fazê-lo por conta
própria.
Então, com seus livros
e um dinheirinho, Srila Prabhupada entrou na maior metrópole do mundo, New York
City. Durante o inverno de 1965-66 ele
lutou no clima frio, vendendo algumas cópias de seu Srimad Bhagavatam a estranhos curiosos. Apesar das dificuldades, continuou a
escrever. Eventualmente, mudou-se para o
Lower East Side de Manhattan, alugando um apartamento e uma pequena lojinha na
26ª Avenida.
Brevemente espalhou-se
a notícia entre os jovens buscadores da verdade espiritual que um swami tinha vindo com um "método de
yoga espiritual especial", o cantar do Hare Krishna mantra. Em julho de 1966
Srila Prabhupada oficialmente formou a Sociedade Internacional para Consciência
de Krishna (ISKCON) junto com alguns discípulos. Logo levou seus primeiros discípulos para o
Parque de Washington Square ali perto, para a primeira sessão de cantar Hare
Krishna em público. Sua pequena lojinha
estava começando a atrair atenção no Lower East Side. Apesar de suas regras estritas - não comer
carne, nem praticar sexo ilícito, não intoxicar-se nem jogar, brevemente atraiu
um séquito pequeno porém dedicado.
Dentro de alguns meses
Srila Prabhupada tinha aberto centros em São Francisco, Montreal, Boston, Los
Angeles, e Búfalo. Fundou Nova
Vrindavana (comunidade agrária) na Virginia ocidental e introduziu no ocidente
o sistema gurukula de educação. Srila Prabhupada também inspirou a construção
de diversos grandes centros culturais internacionais na India, tais como o Sri
Chaitanya-chandrodaya Mandir na Bengala ocidental, o Templo e Hospedaria de
Krishna-Balaram em Vrindavana, e um grande centro educacional e templo em
Bombay. Antes de Srila Prabhupada
falecer em 1977, viu seu movimento Hare Krishna se espalhar pelo mundo todo,
com centros na maioria das cidades grandes da América, Europa, Africa, Asia e
Australia.
Embora viajando
constantemente - realizou nada menos que quatorze tours mundiais em doze anos -
Srila Prabhupada nunca parou de escrever sobre a ciência da consciência de
Krishna. Mais de oitenta volumes de seus
livros foram publicados em mais de trinta idiomas, e mais que 150 milhöes de
unidades de sua literatura tem sido distribuídas mundialmente. Estes livros incluem o Bhagavad-gita Como Ele É (1968), Ensinamentos do Senhor Chaitanya (1968), Krishna, a Suprema Personalidade de Deus (1970), O Néctar da Devoção (1970), os dezessete
volumes do Sri Chaitanya-caritamrita
(1973-75) e trinta volumes do Srimad
Bhagavatam (1962-1977). Onde quer
que Srila Prabhupada fosse, ele traduzida literatura védica e nutria seus
discípulos e o movimento.
Srila Prabhupada
realizou estas façanhas inconcebíveis entre a idade de sessenta e nove e
oitenta e um, através de grande esforço pessoal e fé inabalável em Krishna, o
Senhor Supremo. Aqui mencionamos apenas
algumas de suas realizaçöes transcendentais.
Sua biografia completa, por Satsvarupa dasa Goswami, já está
disponível. Chama-se Srila Prabhupada-lilamrita.
É claro que Srila
Prabhupada não era um espiritualista qualquer, mas sim, um grande santo
escolhido e empoderado pelo Senhor Krishna para trazer as pessoas do mundo ao
reino de Deus, entregando-lhes o processo puro de consciência de Krishna. A contribuição mais significante de Srila
Prabhupada nesse sentido são seus livros, altamente respeitados pela comunidade
acadêmica por sua autoridade, profundidade, e clareza. Na verdade, servem como livros-texto em
vários cursos universitários. A
Bhaktivedhanta Book Trust, estabelecida em 1972 para publicar suas obras,
tornou-se a maior editora mundial no campo da religião e filosofia
indiana. Os livros de Srila Prabhupada
poderão beneficiar toda humanidade, pois as palavras deste mestre espiritual
perfeito podem salvar qualquer pessoa deste mundo hipócrita e miserável e
mostrar o caminho para retornar ao lar, de volta para Deus.
INTRODUÇÃO
"Se uma pessoa jejuar no Ekadashi, queimarei
todos seus pecados e concederei a ela Minha morada transcendental... De fato, Ekadashi é o dia mais meritório para
destruir todos tipos de pecado, e apareceu a fim de beneficiar
todos." (Senhor Krishna para
Arjuna, Capítulo I)
Como o Senhor Krishna,
a Suprema Personalidade de Deus, disse no Bhagavad-gita
15.7, as entidades vivas debatendo-se neste mundo material são eternas
centelhas espirituais, parte e parcela Dele, o Espírito Supremo do Todo. Como a
função da parte é naturalmente a de servir o todo, a função natural da entidade
viva é servir o Senhor Krishna. Mas esta
função se tornou artificialmente encoberta pela ignorância devido ao contato da
entidade viva com a natureza material.
Em vez de servir Krishna, esta se identifica com seu corpo e mente, e
tenta assenhorear-se da energia material de Krishna. Esta contaminação, conhecida como falso-ego
ou falsa identificação com a matéria, é a fonte de todo sofrimento para a
alma. Mas assim como a água contaminada
pode ser filtrada e destilada, e assim trazida de volta ao estado normal, puro,
também a entidade viva contaminada pelo falso-ego pode ser purificada pelo
processo transcendental de consciência de Krishna. Uma das principais partes deste processo é a
observância de jejum no Ekadashi.
Ekadashi é um dia de
austeridade observado regularmente por aqueles que seguem sanatana-dharma,
ou consciência de Krishna. Eka
significa "um", e dashi é a
forma feminina da palavra dasha, que
significa "dez". Ekadashi é
portanto o décimo primeiro dia da quinzena clara e obscura de cada mês. Nestes dias especiais devotos jejuam de grãos
e feijões e fazem um esforço extra para prestarem serviço devocional à Suprema
Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna.
Como declara Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, o
fundador-acharya da ISKCON, no Bhagavad-gita Como Ele É 9.14,
significado, "No serviço devocional há certas atividades que são chamadas
determinadas, tais como jejuar em certos dias, como o décimo primeiro dia da
lua, Ekadashi, e no dia de aparecimento do Senhor."
O jejum de Ekadashi
não se destina apenas aos brahmacharis
e sannyasis, ou apenas para viúvas,
como algumas pessoas de mente estreita disseram. Estes sagrados dias de jejum auxiliam
grandemente qualquer alma sincera a obter liberação do nascimento e morte, até
mesmo dentro desta vida. Ekadashi dá um
verdadeiro gosto da renúncia, assim nos auxiliando a deixar a gratificação
sensorial ilusória deste mundo material.
Como Srila Prabhupada escreve no Srimad-Bhagavatam
3.27.22, significado), "Renúncia em consciência de Krishna é tão forte que
não pode ser desviada por qualquer ilusão atraente. A pessoa tem que realizar serviço devocional
em plena tapasya, austeridade. Deve-se jejuar nos dois dias de Ekadashi, que
caem no décimo primeiro dia da lua minguante e crescente, e nos dias de aparecimento
do Senhor Krishna, Senhor Rama, e Chaitanya Mahaprabhu."
Existem dois grupos de
seres humanos neste mundo. Um consiste
dos espiritualmente conscientes, que vivem pelas escrituras védicas, e o outro
consiste das pessoas ignorantes, materialistas, que não o fazem. Porém o Senhor Krishna aceita todas almas
como Seus filhos. Sendo
todo-misericordioso, portanto, Ele estabeleceu neste mundo processos
purificatórios tais como Ekadashi para que todos possam ser elevados
espiritualmente. As almas rendidas, os
devotos de Krishna, observam este jejum para conseguir as bençãos de Krishna,
ficarem livres das garras de Maya, e voltarem para Deus a fim de servir Krishna
eternamente. Os ignorantes, por outro
lado, poderão tirar vantagem desta ocasião auspiciosa para obter benefícios
materiais, que também são concedidos pelo Senhor Krishna. Mas até mesmo materialistas podem
eventualmente obter liberação por continuamente observarem o jejum de Ekadashi. Tal é a grande potência do Ekadashi.
Para conseguir o pleno
benefício de um jejum de Ekadashi, contudo, o obervador deve seguir as regras e
regulações descritas neste livros. Se as
regras forem devidamente seguidas, e se observarmos Ekadashi em plena
consciência de Krishna, esta observância eleva a alma caída a sua posição
constitucional origina como serva amorosa do Senhor. Portanto Ekadashi se chama "a melhor de
todas ocasiões". Todos são
convidados a provarem o maravilhoso fruto de um jejum de Ekadashi.
No dia do jejum devemos se possível evitar trabalho físico estafante, e realizar
apenas atividades de serviço devocional ao Senhor Krishna. Uma carta de Srila Prabhupada para
Jadurani-devi dasi datada de 9 de julho de 1971 confirma esta declaração: "Porque apenas vinte e cinco
voltas?" escreve ele, "Deves cantar tantas voltas quanto
possível. Verdadeiro Ekadashi significa
jejuar e cantar e mais nenhum outro afazer.
Quando se observa jejum, o cantar se torna mais fácil. Assim no Ekadashi outros assuntos devem ser
suspensos ao máximo possível, a não ser que haja algo urgente."
A importância do
Ekadashi é explicada no Chaitanya-caritamrta
(Adi-lila 15.9-10), numa conversa entre Senhor Chaitanya e Sua mãe,
Saci-devi: "Certo dia Sri Chaitanya
Mahaprabhu caiu aos pés de Sua mãe e pediu a ela que Lhe desse uma coisa em
caridade. Sua mãe respondeu: "Meu querido filho, darei o que
pedires." Então o Senhor
disse: "Minha querida mãe, por
favor não coma grãos no dia de Ekadashi."
Em seu significado Srila Prabhupada escreve: "Desde o princípio de Sua infância, Sri
Chaitanya Mahaprabhu introduziu o sistema de observar um jejum no dia de
Ekadashi. No Bhakti-sandarbha de Srila Jiva Goswami, há uma citação do Skanda Purana admoestando a pessoa que
come grãos no Ekadashi a se tornar assassina de sua mãe, pai, irmão, e mestre
espiritual, e mesmo se for elevada a um planeta Vaikuntha, irá cair. No Ekadashi, tudo é cozido para Vishnu,
inclusive os costumeiros grãos e dal,
porém é ordenado que um Vaisnava não deve nem tomar vishnu-prasadam no Ekadashi.
É dito que um Vaisnava não aceita nada comestível que não seja oferecido
ao Senhor Vishnu, mas no Ekadashi um Vaisnava não deve nem mesmo tocar maha-prasadam oferecida a Vishnu, embora
tal prasadam possa ser guardada para
ser comida no dia seguinte. É
estritamente proibido aceitarmos qualquer tipo de grão no Ekadashi, mesmo se
for oferecido ao Senhor Vishnu."
Tanto a medicina
ocidental como a ayurvédica
recomendam jejuar para manter e melhorar a saúde. Na verdade, biólogos modernos e antigos
sábios concordam que jejuar nos melhora fisicamente e mentalmente. Portanto naturalmente se entende que o jejum
de Ekadashi previne e cura muitas doenças.
Srila Prabhupada declara no Srimad-Bhagavatam
1.17.38 significado: "O estado que
deseja erradicar a corrupção pela maioria poderá introduzir os princípios da
religião da seguinte maneira: 1. Dois
dias de jejum compulsório num mês, se não for mais (austeridade). Mesmo do
ponto de vista econômico, esses dois dias de jejum num mês economizarão para o
estado toneladas de alimento, e o sistema também atuará favoravelmente na saúde
geral dos cidadãos."
Neste livro o leitor
descobrirará que algumas pessoas que observam Ekadashi chegam aos planetas
celestiais. Esta meta não deve ser
entendida erroneamente como o propósito final de jejuar no Ekadashi. Muitas figuras mencionadas neste livro
observam o jejum de Ekadashi por acaso; elas não seguem regras e estão imersas
na ignorância. Não sabem que estão observando
Ekadashi, e seus coraçöes estão cheios de desejos materiais. Ainda assim, ambos tipos de pessoas e aqueles
que observam corretamente Ekadashi com fins materiais alcançam suas metas. Mas o devoto consciente de Krishna que deseja
devoção imotivada, pura e sem misturas por Deus, e que observa Ekadashi nesse
espírito, é promovido naturalmente a Goloka Vrndavana, a morada suprema do
Senhor Krishna. De fato, o jejum de
Ekadashi auxilia grandemente no progresso de volta para Deus.
Como Observar Ekadashi
Jejuar em geral
significa abster-se tanto de alimento como de bebida, embora água de acamana e caranamrta (apenas três gotas) possa ser bebida. Achando isso impossível, pode-se comer uma só
refeição única sem grãos de tarde. Esta
refeição - chamada nakta ou ceia -
deve consistir de raízes que crescem sob a terra (exceto beterraba), frutas,
água, laticínios, nozes, açúcar, e vegetais (exceto cogumelos). Deve-se tentar não beber água mais que uma
vez ou comer mais que uma refeição no Ekadashi.
Como o Senhor Krishna diz para Arjuna no Capítulo Um deste livro, a
quantidade total do mérito é concecida àquela pessoa que jejua completamente no
Ekadashi, enquanto quem come apenas jantar obtém a metade desse mérito. É claro, para cada devoto no movimento de consciência
de Krishna, pregar é o dever mais importante, e se um jejum completo de
Ekadashi impede esse dever, não deve ser observado. Mas se um devoto consegue seguir as regras plenas de jejum e ainda cumprir com suas
responsabilidaes, deve de qualquer maneira fazê-lo.
Em todo caso, devemos
evitar estritamente comer grãos ou legumes no Ekadashi. Devemos também evitar dormir durante o dia;
uma massagem com óleo; comer nozes betel; tocar numa mulher menstruada, num candala, num bêbado, ou lavadeira; evitar o barbear e comer com utensílios de
metal de sino. Caso a pessoa coma, além
de grãos e legumes deverá evitar o seguinte:
espinafre, mel, berinjela, comer na casa de outrem, assafétida, e sal
marinho. (Outros tipos de sal, tal como
o salgema, são permitidos). Só quem
estiver doente poderá consumir remédios de ervas neste dia sagrado.
Embora atualmente o
calendário védico comece com o mês Caitra (mar/apr), na antiguidade o ano novo
começava com o mês de Margashirsha, ou nov/dec.
Este é um mês muito auspicioso.
Como o Senhor Sri Krishna declara no Bhagavad-gita
10.35, masanam marga-shirsho 'ham: "Dos meses sou Margashirsha." Portanto quem está começando a observância de
jejuns de Ekadashi usualmente começa durante este mês. Há dois Ekadashis em cada mês, um durante a
quinzena escura e um durante a clara.
São igualmente poderosos para avanço espiritual.
Para começar o jejum,
o devoto deve primeiro determinar ficar firme em seu voto. Então deve procurar um devoto erudito,
duas-vezes nascido do Senhor Supremo e aprender diretamente dele sobre o
sagrado processo de observar um jejum de Ekadashi. Quem é totalmente incapaz de jejuar devido a
doença séria ou velhice deve procurar uma alma altamente avançada e dar alguma
caridade no Ekadashi. Para Vaisnavas,
contudo, a injunção de dar caridade no Ekadashi significa que nesse dia devem
fazer um esforço extra para divulgar consciência de Krishna, o maior
tesouro. Isso é verdadeira caridade. Outra prática importante é ouvir e ler sobre
cada Ekadashi conforme ocorre. O próprio
Senhor Sri Krishna recomenda muito esta prática, pois nos auxilia a conseguir o
resultado de jejuar.
Se por acaso a pessoa
esquece de observar Ekadashi no dia apropriado, poderá observá-lo no dia
seguinte, Dvadashi, e depois quebrar seu jejum no Trayodashi, o dia que se
segue. Conforme dito nas escrituras
védicas:
ekadashi vipluta ced
dvadashi paratah sthita
upasya dvadashim tatra
yadicched paramam padam
"Se uma pessoa
que deseja sinceramente alcançar a morada da Suprema Personalidade de Deus
esquece de observar Ekadashi, deve observá-lo no Dvadashi, porque Ekadashi se
prolonga ao dia seguinte."
Durante o Ekadashi da
quinzena luminosa, se deve meditar nos doze santos nomes do Senhor Vishnu
cantando o mantra: om keshavaya namah
e os outros mantras que devotos do
Senhor recitam sistematicamente quando aplicam tilaka, argila sagrada, em seus corpos. Durante o Ekadashi da quinzena obscura, o
devoto deve meditar nos dezesseis santos nomes das expansöes quádruplas do
Senhor Supremo e suas porçöes plenárias subsequentes. O devoto deve cantar: om
sankarshanaya namah, om govindaya namah, etc. (Por favor refiram-se ao Chaitanya-caritamrta, Madhya-lila
20.195-97).
Durante cada Ekadashi
devemos constantemente meditar na Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Sri
Krishna, dando importância a Suas expansöes plenárias. Também se pode meditar nos aparecimentos
autorizados do Senhor em Sua forma da Deidade, que existe em oito variedades. No Srimad-Bhagavatam
11.27.12 o Senhor Krishna diz para Uddhava:
shaili daru-mayi lauhi
lepya lekhya ca saikati
mano-mayi mani-mayi
pratimashta-vidha smrta
"A forma da
Deidade do Senhor é dito que aparece em oito variedades - pedra, madeira,
metal, terra, tinta, a mente, ou jóias."
Se o Ekadashi
combinar-se astronomicamente com Dashami, o décimo dia da quinzena, n
m,
todo acharya recomenda que todos
membros das quatro ordens sociais e espirituais observem fiel e estritamente
Ekadashi para alcançar a morada suprema de Sri Krishna. Contudo, existe esta instrução sobre mulheres
casadas:
patvo jivati ya nari
upasya vrtam acaret
ayusham harate bhartur
narakam caiva gacchati
"Uma mulher cujo
marido esteja vivo deve pedir a permissão dele para observar jejuns. Se deixar de fazê-lo, ela reduz a duração de
vida dele e o manda para o inferno."
Uma mulher casada portanto deve obter a permissão de seu marido antes de jejuar no Ekadashi.
Na manhã de Ekadashi,
o devoto deve chegar diante da Deidade da Suprema Personalidade de Deus - o
Senhor Sri Krishna ou Senhor Rama - e cantar as oraçöes Purusha-shukta, começando pelo verso cujas primeiras palavras são sahasra-shirsha purushah. O devoto em seguida deve oferecer suas
humildes reverências ao Senhor e meditar em Seus pés de lótus enquanto canta om damodaraya namah, em Suas coxas
enquanto canta om madhavaya namah, em
Suas partes privadas enquanto canta om
kamapataye namah, em Seus quadris enquanto canta om vamanaya namah, em Seu umbigo enquanto canta om vishvamurtaye namah, em Seu coração
enquanto canta om jnanagamyaya namah,
em Sua garganta enquanto canta om
shrikanthaya namah, em Seus braços enquanto canta om sahasrabahave namah, em Seus olhos de lótus enquanto canta om paramayogine namah, em Sua testa
enquanto canta om urugayai namah, em
Seu nariz enquanto canta om narakeshvaraya
namah, em Seu cabelo enquanto canta om
sarvakamadaya namah, e em Sua cabeça enquanto canta om
sahasrashirshaya namah.
Desta maneira o devoto
sincero deve meditar na esplêndida forma espiritual da Suprema Personalidade de
Deus, o Senhor Sri Krishna, e oferecer suas humildes reverências a Ele. O devoto deve cantar Seus gloriosos nomes -
Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama,
Rama Rama, Hare Hare - enquanto toca vários instrumentos musicais, e deve também
cantar silenciosamente nas contas com total reverência e afeição. Se possível, o devoto deve permanecer
acordado toda noite, glorificando o Senhor desta maneira.
Um devoto que segue as
ordens de seu mestre espiritual e observar Ekadashi desta maneira - jejuando
completamente e glorificando o Senhor dia e noite adentro num humor de devoção
amorosa - certamente irá se tornar plenamente absorto em pura consciência de
Krishna.
No Dvadashi, o devoto
deve primeiro limpar seu corpo tomando banho e seu coração cantando o maha-mantra. Então ele deve cozinhar alimento suntuoso
para o prazer do Senhor e oferecer a Ele com grande devoção e oraçöes
sinceras. Após distribuir alimento aos
outros devotos e aos brahmanas, ele
pode quebrar seu jejum e desfrutar do banquete.
Sobre Este Livro
Este livro destina-se
a complementar os livros de Srila Prabhupada.
Consiste da tradução de seleçöes de vários Puranas, que foram escritos por Srila Vyasadeva, a encarnação
literária de Deus. Srila Suta Goswami
está falando para oitenta e oito mil sábios reunidos na floresta de
Naimisharanya. Shaunaka, o principal
dentre todos sábios, indaga de Suta Goswami sobre como se pode ficar livre de
todas reaçöes pecaminosas. A não ser
que se esteja livre de todos pecados, não se pode realizar serviço devocional
puro. Como diz o Senhor Krishna no Bhagavad-gita 7.28: yesham
tv anta-gatam papam jananam punya-karmanam... bhajante mam drdha-vratah. "Pessoas que agiram piedosamente nesta e
em vidas pretéritas, e cujas açöes pecaminosas estão completamente erradicadas,
ocupam-se em Meu serviço com determinação."
Para responder
Shaunaka, Suta Goswami narra vários relatos históricos contendo conversas
mantidas na antiguidade. Alguns podem
pensar que a regras estritas para observar Ekadashi dadas nestas narrativas são
da seção karma-kanda das escrituras,
porém todas estas regras destinam-se a ajudar o devoto aspirante a obter
purificação suprema. A não ser que estas
fossem as histórias mais puras, o Senhor Krishna, Arjuna, Yudhishthira, o
Senhor Brahma, Narada Muni, Suta Goswami, e Shaunaka Rishi não desperdiçariam
seu tempo valioso apresentando os fatos exaustivamente. Além do mais, Sri Dvaipayana Vyasa, a
encarnação literária do Senhor, não escreveria estes fatos nos Puranas que se destinam àqueles no modo
da bondade. Portanto uma pessoa que tem
inclinação espiritual deve aceitar estas injunçöes de todo coração. Elas destinam-se à nossa elevação.
Todo o processo de consciência
de Krishna, conforme ensinado por Sri Chaitanya Mahaprabhu, é baseado no vairagya-vidya,"renúncia e
conhecimento." A observância
estrita do jejum de Ekadashi é um ato de renúncia autorizado, provado, que acentua
a pureza e amor por Krishna do devoto.
Como Srila Prabhupada escreve no Néctar
da Devoção p. 63: "No Brahma-vaivarta Purana é dito que quem
observa jejum no dia de Ekadashi se liberta de todos tipos de reaçöes a
atividades pecaminosas e avança na vida piedosa. O princípio básico não é só jejuar, mas
incrementar nossa fé e amor por Govinda, ou Krishna. A verdadeira razão para observar jejum no
Ekadashi é minimizar as demandas do corpo e ocupar nosso tempo no serviço do
Senhor cantando ou realizando serviço similar.
A melhor coisa a fazer nos dias de jejum é lembrar dos passatempos de
Govinda e ouvir Seu santo nome constantemente."
Assim se deve observar
o jejum de Ekadashi com grande devoção por Krishna, não com motivos
materiais. Como diz Narada Muni para
Vyasadeva no Primeiro Canto do Srimad-Bhagavatam,
devemos tentar obter aquela coisa que não obtivemos por vagar através dos
sistemas superiores e inferiores deste universo, por incontáveis nascimentos
nas muitas espécies de vida. Esta meta é
pura consciência de Krishna, que nos levará de volta para a morada do Senhor
Krishna no céu espiritual.
Por isso encorajamos
todos a aproveitar da grande benção da forma de vida humana civilizada,
adotando a prática do serviço devocional a Krishna, obtendo liberação do
nascimento, velhice, doença, e morte, e retornando ao lar, de volta para
Deus. A devida observância de Sri
Ekadashi aumenta grandemente este serviço devocional puro. Assim, todos são convidados a tomarem parte
no festival de jejuar no Ekadashi.
Finalmente, gostaria
de oferecer meus sinceros agradecimentos e mais humildes reverências aos pés de
lótus de meu amado mestre espiritual, Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami
Prabhupada, que misericordiosamente abriu meus olhos espirituais enquanto eu
estava na escuridão da ignorância. A não
ser que ele tivesse me pegado, não
poderia jamais ter aprendido sobre a ciência de consciência de Krishna e o
mundo espiritual eterno. Também ofereço
meus sinceros agradecimentos a Srila Bhaktisvarupa Damodara Swami, o diretor
internacional do Bhaktivedanta Institute, que publicou este livro, por cuja
misericórdia ainda existo como devoto.
São eles que me inspiram a produzir este livro a fim de que sinceros
devotos do Senhor Krishna possam ter algum conhecimento sobre o jejum de
Ekadashi e estudar melhor os livros de Srila Prabhupada.
Também desejo oferecer
meus sinceros agradecimentos a Sriman Nick Epsilantis por sua generosa doação,
bem como a todos os devotos em seguida relacionados, que trabalharam arduamente
para editar este livro e/ou forneceram apoio financeiro essencial: Sua Santidade Mahanidhi Swami, Sua Santidade
Lokasharanya Swami, Sriman Riktananda dasa, Sriman Dravida dasa, Sriman
Rohinipriya dasa, Sriman Agnideva dasa e família, Sriman Bhayahari dasa e
família, Sriman Bhaktisiddhanta dasa, Sriman Grahila dasa, Sriman Banabhatta
dasa, Sriman Kalpataru dasa, Sriman Kalachandra dasa, Sriman Bopadeva dasa,
Sriman Rudradeva dasa, Sriman Gadagraja dasa, Sriman Manohara dasa, Sriman
Aniruddha dasa e família, Srimati Yashodamayi-devi dasi, e Sriman Sarvasatya
dasa.
INVOCAÇÃO
Suta Goswami
disse: "Existem doze meses num ano,
e dois Ekadashis em cada mês. Portanto
há vinte e quatro Ekadashis num ano completo, e num ano bi-sexto temos dois Ekadashis
a mais. ó grandes sábios, por favor
ouçam atentamente enquanto declaro para vós os nomes destes auspiciosos
Ekadashis. São Utpanna, Mokshada,
Saphala, Putrada, Sat-tila, Jaya, Vijaya, Amalaki, Papamocani, Kamada,
Varuthini, Mohini, Apara, Nirjala, Yogini, Padma (Devashayani), Kamika,
Putrada, Aja, Parivartini, Indira, Papankusha, Rama e Haribodhini
(Devotthani). Os dois Ekadashis extras,
que ocorrem durante o ano bi-sexto, se chamam Padmini e Parama.
ó sábios, quem ouve
sobre estes Ekadashis irá saber como observá-los corretamente. Cada Ekadashi concede determinadas bençãos ao
fiel observador.
Quem está fisicamente
incapacitado de jejuar no Ekadashi poderá ler as glórias de cada Ekadashi
quando ocorrer e recitar todos os nomes dos Ekadashis; assim conseguirá a mesma
meta que a pessoa que observa o voto completo de Ekadashi."
EKADASI
"Há cinco barcos
para as pessoas que estão se afogando no oceano da existência material: o Senhor Vishnu, o Bhagavad-gita, Srimati
Tulasi-devi, a vaca, e Ekadasi. (Senhor
Krishna falando a Garuda, no Garuda Purana)
Quem faz o jejum de
Ekadasi não só se beneficia tremendamente a nível do corpo físico, mas também
espiritualmente. Concede muito avanço
espiritual. Auxilia qualquer alma sincera
a obter liberação do nascimento e da morte, mesmo durante esta vida.
"Se uma pessoa
jejua no Ekadasi, Eu acabo com todos seus pecados e concedo-lhe Minha morada
transcendental... De fato, Ekadasi é o
dia mais cheio de mérito para se destruir todo tipo de pecados, e surgiu a fim
de beneficiar todos." (Senhor
Krishna p/Arjuna no Capítulo 1 ).
Nota da tradutora:
Muitas pessoas seguem Ekadasi (o jejum de grãos sempre 11 dias após a lua
minguante ou lua crescente) mas não sabem exatamente sua história. Aqui vai um resumo do 14º capítulo do Padma
Purana sobre o aparecimento de Sri Ekadasi:
Na verdade a divindade
Sri Ekadasi é uma forma de Vishnu. Ele
apareceu nos primórdios da criação material com o intento de liberar as
entidades que estavam sofrendo nos planetas infernais. Seguindo o voto de Ekadasi, todas estas
entidades alcançaram os planetas espirituais.
Porém a personalidade que encarna todas as atividades pecaminosas, o
"Papa-Purusha", ficou à mingua, prestes a perecer. Conhecendo a natureza de absoluta benesse do
Senhor Vishnu, Papa-Purusha rogou refúgio e vida. Assim, Vishnu concedeu-lhe abrigo nos grãos
alimentícios, mas somente nos dias acima-mencionados, e dessa maneira o
universo material pode manter seu andamento normal.
"Quando se jejua,
os ares vitais (doshas)
desequilibrados se re-equilibram, e nosso corpo e mente se normalizam. Além disso, obtemos leveza física, um apetite
e sede saudável, disposição agradável, boa digestão, bem como força, energia e
vigor." (Ayurveda: Astangahrdayam
1.3)
"Estes são os
benefícios do jejum: purificação dos
órgãos sensoriais e motores, eliminação adequada dos dejetos, leveza do corpo,
apetite saudável, aparecimento de fome e sede nos devidos horários, pureza da
região pericardial, elimina problemas de gases e garganta, relaxa tensão
corporal aguda, confere bom humor e liberta da indolência." (Ayurveda:
Sutrasthanam 14.17)
"Jejuo para
controlar minha mente e alma. Isto me dá
força e determinação para alcançar minha meta.
(Mahatma Ghandi)
1 UTPANNA
EKADASHI
Suta Goswami
disse: "ó brahmanas sábios, há muito tempo atrás o Senhor Sri Krishna, a
Suprema Personalidade de Deus, explicou as glórias auspiciosas de Sri Ekadashi
e as regras e regulaçöes governando cada jejum obervado naquele dia santo. ó melhor dos brahmanas, quem quer que ouça sobre as origens e glórias destes
jejuns sagrados nos dias de Ekadashi vai direto para a morada do Senhor Vishnu
após desfrutar de muitos diferentes tipos de felicidade neste mundo material.
Arjuna, o filho de
Prtha, perguntou ao Senhor: "ó
Janardana, quais são os benefícios piedosos do jejum completo, de apenas
jantar, ou comer somente ao meio-dia no Ekadashi, e quais são as regulaçöes
para observar os vários dias de Ekadashi?
Tenha a bondade de narrar-me tudo isso."
O Senhor Supremo, Sri
Krishna, respondeu: "ó Arjuna, no
início do inverno, no Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do mês de
Margashirsha (Nov/Dec), um noviço deve começar sua prática de observar jejum no
Ekadashi. No Dashami, dia antes de Ekadashi,
deve limpar bem seus dentes. Depois,
durante a oitava porção de Dashami, assim que o sol esteja para se por, deve
comer jantar.
Na manhã seguinte o
devoto deve fazer um voto, segundo as regras e regulaçöes, de observar
jejum. Ao meio-dia deve-se banhar
devidamente num rio, lago, ou pequena lagoa.
Um banho num rio é o mais purificante, num lago algo menos, e numa
pequena lagoa é o menos purificante. Se
nem um rio, lago ou lagoa forem acessíveis, então poderá banhar-se com água de
poço.
O devoto deve cantar
sua oração contendo os nomes da Mãe Terra:
"Oh Ashvakrante! ó
Rathakrante! ó Vishnukrante! ó Vasundhare!
ó Mrttike! ó Mãe Terra!
Bondosamente remova todos os pecados que acumulei por minhas muitas
vidas pretéritas de modo que eu possa entrar na morada sagrada do Senhor
Supremo." Enquanto o devoto canta,
ele deve passar barro em todo seu corpo.
Durante o dia de jejum
o devoto não deve falar com aqueles que caíram de seus deveres religiosos,
comedores de cães, ladröes, ou hipócritas.
Também deve evitar falar com caluniadores, com aqueles que insultam os
semideuses, as literaturas védicas, ou brahmanas,
ou com quaisquer outras personalidades más, tais como os que tem sexo com
mulheres proibidas (1), saqueadores, ou ladröes de templo. Caso falemos ou até mesmo só vejamos uma tal
pessoa durante o Ekadashi, devemos nos purificar olhando diretamente para o
sol.
Depois o devoto deve
adorar respeitosamente o Senhor Govinda com alimento, flores e tudo o mais de
primeira classe. Em seu lar ele deve
oferecer ao Senhor uma lamparina em consciência devocional pura. Deve também evitar dormir durante o dia e
deve abster-se completamente de sexo.
Jejuando de todo alimento e água, deve alegremente cantar as glórias do
Senhor e tocar instrumentos musicais para Seu prazer noite afora. Após permanecer acordado toda noite em
consciência pura, o adorardor deve dar caridade a brahmanas qualificados e oferecer suas humildes reverências a eles,
implorando pelo perdão deles para suas ofensas.
Aqueles que são sérios
quanto ao serviço devocional devem considerar os Ekadashis que ocorrem durante
a quinzena obscura como sendo tão bons quantos os que ocorrem durante as
luminosas. ó rei, nunca devemos
discriminar entre esses dois tipos de Ekadashi.
Por favor ouça enquanto
agora descrevo os resultados obtidos por alguém que observa Ekadashi desta
maneira. Nem o mérito que se recebe por
tomar banho num local sagrado de peregrinação
conhecido como Shankhoddhara, onde o Senhor matou o demônio Shankhasura,
nem o mérito que recebemos por ver o Senhor Gadadhara diretamente, é igual a um
décimo-sexto do mérito obtido por jejuar no Ekadashi. É dito que por doar caridade numa
segunda-feira de lua-cheia, se obtém cem mil vezes os resultados da caridade
comum. ó ganhador de riqueza, quem dá
caridade no dia de sankranti
(equinócio) obtém quatrocentas mil vezes o resultado comum. No entanto, simplesmente por jejuar no
Ekadashi se obtém todos esses resultados piedosos, bem como quaisquer
resultados piedosos que se consiga em Kurukshetra durante um eclipse do sol ou
lua. Além do mais, a alma fíel que
observar jejum completo no Ekadashi consegue cem vezes mais mérito que uma que
realize um Ashvamedha-yajna (sacrifício de cavalo). Quem observa apenas um só jejum de Ekadashi
perfeitamente ganha o mesmo mérito que quem alimenta cem mil mendigos todo dia
durante sessenta mil anos. E uma pessoa
que observa corretamente Ekadashi apenas uma vez ganha mais mérito que uma
pessoa que dá mil vacas em caridade a um brahmana
erudito nos Vedas.
Uma pessoa que
alimenta apenas um brahmachari ganha
dez vezes mais mérito que alguém que alimenta dez bons brahmanas em sua própria casa.
Porém mil vezes mais mérito que o recebido por alimentar um brahmachari é obtido por doar terra a um
brahmana respeitável e necessitado, e
mil vezes mais que isso é obtido por dar uma moça virgem em casamento a um
homem jovem, bem-educado, responsável.
Dez vezes mais benéfico que isto é educar crianças devidamente na senda
espiritual, sem esperar qualquer recompensa em troca. Dez vezes melhor que isso, no entanto, é dar
grãos alimentícios aos esfomeados. De
fato, dar caridade aos necessitados é o melhor, e nunca houve ou haverá
caridade melhor que esta. (2) ó filho de
Kunti, todos antepassados e semideuses no céu ficam muito satisfeitos quando se
dá grãos alimentícios em caridade. Mas o
mérito que se obtém por obervar um jejum completo no Ekadashi é
imensurável. ó Arjuna, melhor de todos
Kurus, o efeito poderoso deste mérito é inconcebível mesmo para os semideuses,
e a metade deste mérito é obtido por quem come apenas o jantar no Ekadashi.
Portanto deve-se
observar jejum no dia do Senhor Hari, seja comendo apenas uma vez ao meio-dia,
abstendo-se de grãos e feijöes; ou comer apenas uma vez à noitinha, abstendo-se
de grãos e feijöes; ou jejuar completamente.
Os processos de permanecer em locais de peregrinação, dar caridade, e
realizar sacrifícios de fogo só podem se gabar enquanto não aparece Ekadashi. Portanto qualquer pessoa temerosa das
misérias da existência material deve observar Ekadashi. No Ekadashi não se deve beber água de uma
concha, matar entidades vivas como peixes ou porcos, ou comer quaisquer grãos
ou feijöes. Assim te descrevi, ó Arjuna,
o melhor de todos métodos de jejum, conforme indagaste a Mim."
Arjuna então
perguntou: "ó Senhor, segundo
falaste, mil sacrifícios védicos não equivalem a um só jejum de Ekadashi. Como pode ser isso? Como é que Ekadashi se tornou o mais
meritório dos dias?"
O Senhor Krishna
respondeu: "Vou te contar porque Ekadashi
é o mais purificante de todos dias. Na
Satya-yuga certa vez vivia um demônio espantosamente aterrorizante chamado
Mura. Sempre muito irado, ele
aterrorizava todos semideuses, derrotando até Indra, o rei do céu; Vivasvan, o
deus do sol; os oito Vasus (3); o Senhor Brahma; Vayu, o deus do vento; e Agni,
o deus do fogo. Com seu terrível poder
colocou todos sob seu controle.
O Senhor Indra então
aproximou-se do Senhor Shiva e disse:
"Todos nós caímos de nossos planetas e agora estamos vagando desprotegidos
na terra. ó Senhor, como poderemos
encontrar alívio desta aflição? Qual
será o destino de nós semideuses?"
O Senhor Shiva
replicou: "ó melhor dos semideuses,
vá para aquele lugar onde o Senhor Vishnu, que cavalga Garuda, reside. Ele é Jagannatha, o soberano de todos
universos e refúgio deles também. Ele
está devotado a proteger todas almas que se renderam a Ele."
O Senhor Krishna
continuou: "ó Arjuna, ganhador da
riqueza, depois que o Senhor Indra ouviu estas palavras do Senhor Shiva, foi com
todos semideuses para o local onde o Senhor Jagannatha, o Senhor do universo,
protetor de todas almas, estava descansando.
Vendo o Senhor dormindo sobre a água, os semideuses juntaram suas palmas
e, liderados por Indra, recitaram as seguintes oraçöes:
"ó Suprema
Personalidade de Deus, todas reverências a Ti. ó Senhor dos Senhores, ó Tu que
és louvado pelos maiores semideuses, ó inimigo de todos demônios, ó Senhor de
olhos de lótus, ó Madhusudana (matador do demônio Madhu), por favor
proteja-nos. Com medo do demônio Mura,
nós semideuses viemos tomar refúgio em Ti.
ó Jagannatha, és quem fazes tudo e criador de tudo. És o pai e a mãe de todos universos. És o criador, o mantenedor, e destruidor de
tudo. És o supremo auxiliar de todos
semideuses, e só Tu podes trazer a paz a eles.
Só Tu és a terra, o céu, e o benfeitor universal.
És Shiva, Brahma e
também Vishnu, o mantenedor dos três mundos.
És os deuses do sol, lua, e fogo.
És a manteiga clarificada, a oblação, o fogo sacrificial, os mantras, os rituais, os sacerdotes, e o
silencioso cantar de japa. És o próprio sacrifício, seu patrocinador, e
o desfrutador de seus resultados, a Suprema Personalidade de Deus. Nada dentro destes três mundos, seja móvel ou
imóvel, pode existir independente de Ti.
ó Senhor Supremo, Senhor dos senhores, és o protetor daqueles que se
abrigam em Ti. ó místico supremo, ó
refúgio dos temerosos, por favor salva e proteja-nos. Nós semideuses fomos derrotados pelos
demônios e assim caímos do reino celestial.
Privados de nossas posiçöes, ó Senhor do universo, estamos agora vagando
sobre este planeta terreno."
O Senhor Krishna
continuou: "Tendo ouvido Indra e os
outros semideuses falarem estas palavras, Sri Vishnu, a Suprema Personalidade
de Deus, respondeu: "Qual demônio possui
tais poderes tão grandes de ilusão que conseguiu derrotar todos os
semideuses? Qual é o nome dele, e onde
mora? De onde consegue sua força e
respaldo? Conte-Me tudo, ó Indra, e não
tema."
O Senhor Indra
respondeu: "ó Supremo Deus, ó
Senhor dos senhores, ó Tu que conquistaste o temor nos coraçöes de Teus devotos
puros, ó Tu que és tão bondoso para com Teus servos fiéis, certa vez havia um
poderoso demônio da dinastia Brahman cujo nome era Nadijangha. Era extraordinariamente atemorizante e completamente
dedicado a destruir os semideuses, e teve um filho infame chamado Mura.
A grande capital de
Mura é Chandravati. Desta base o
terrivelmente mau e poderoso demônio Mura conquistou o mundo inteiro e colocou
todos semideuses sob seu controle, expulsando-os de seu reino celestial. Ele assumiu o papel de Indra, rei dos céus;
de Agni, deus do sol; de Yama, senhor da morte; de Vayu, deus do vento; de
Isha, ou Senhor Shiva; de Soma, o deus da lua; Nairtti, deus das direçöes, e
Pashi, ou Varuna, deus da água. Também
começou a emanar luz no papel de deus do sol e se transformou nas nuvens
também. É impossível para os semideuses
derrotá-lo. ó Senhor Vishnu, por favor
mate este demônio e torne os semideuses vitoriosos."
Ouvindo estas palavras
de Indra, o Senhor Janardana ficou muito zangado e disse: "ó poderosos semideuses, todos juntos
podeis agora avançar sobre a capital de Mura, Chandravati." Assim encorajados, os semideuses reunidos
proseguiram até Chandravati com o Senhor Hari liderando o caminho.
Quando Mura viu os
semideuses, este maior dos demônios começou a rugir alto na companhia de
incontáveis milhares de outros demônios, que estavam segurando armas que
reluziam brilhantemente. Os demônios
poderosamente armados atacaram os semideuses, que começaram a abandonar o campo
de batalha e fugir nas dez direçöes.
Vendo o Supremo Senhor Hrshikesha, o senhor de todos sentidos, presente
no campo de batalha, os furiosos demônios correram para Ele com várias armas em
suas mãos. Enquanto se arremetiam contra
o Senhor, que porta uma espada, disco e maça, Ele imediatamente perfurava todos
seus membros com Suas flechas pontiagudas, venenosas. Assim muitas centenas de demônios morreram
pela mão do Senhor.
Afinal o chefe dos demônios,
Mura, começou a lutar com o Senhor. Mura
usou seu poder místico para tornar inúteis quaisquer armas que o Senhor Supremo
Hrshikesha soltasse. De fato, para o
demônio as armas pareciam flores atingindo-o.
Quando o senhor não conseguiu derrotar o demônio nem mesmo com vários
tipos de armas - sejam lançadas ou empunhadas - Ele começou a lutar com Suas
mãos desprotegidas, que eram fortes como maças cravejadas de pontas de
ferro. O Senhor lutou com Mura durante
mil anos celestiais e então, aparentemente fatigado, foi-se para
Badarikashrama. Ali o Senhor Yogeshvara,
o maior de todos yoguis, o Senhor do
universo, entrou numa caverna muito bela chamada Himavati para descansar. ó Dhananjaya, ganhador da riqueza, esta
caverna tinha noventa e seis milhas de diâmetro e só tinha uma entrada. Fui para lá devido ao temor e também para
dormir. (4) Não há dúvida quanto a isso, ó filho de Pandu, pois a grande luta
Me cansou muito. O demônio seguiu-Me até
essa caverna e, vendo-Me dormindo, começou a pensar em seu coração: "Hoje vou matar esse assassino de todos
demônios, Hari."
Enquanto o malvado
Mura estava fazendo planos desta maneira, de Meu corpo se manifestou uma jovem
moça que tinha uma pele muito luminosa.
ó filho de Pandu, Mura viu que ela estava equipada com varias armas
brilhantes e pronta para lutar.
Desafiado por essa mulher a lutar, Mura preparou-se e então lutou com
ela, porém ficou muito espantado quando viu que ela lutava sem cessar. O rei dos demônios então disse: "Quem criou esta moça irada, temível,
que está lutando comigo tão poderosamente, assim como um raio caindo sobre
mim?" Após dizer isto, o demônio
continuou a lutar com a moça.
De repente aquela
refulgente deusa destroçou todas armas de Mura e num momento privou-o de sua
quadriga. Ele correu para ela a fim de
atacá-la com suas mãos desprotegidas, mas quando ela o viu chegando, enfurecida
cortou-lhe a cabeça. Assim o demônio
imediatamente caiu ao solo e foi para a morada de Yamaraja. O resto dos inimigos do Senhor, por medo e desamparo,
entraram na região subterrânea Patala.
Então o Senhor Supremo
acordou e viu o corpo morto do demônio diante de Si, bem como a donzela
curvando-se diante Dele com as mãos postas.
Seu rosto expressando espanto, o Senhor do universo disse: "Quem matou este demônio depravado? Ele facilmente derrotou todos semideuses,
Gandharvas, e até mesmo o próprio Indra, junto com os companheiros de Indra, os
Maruts, e também derrotou os Nagas (serpentes), governantes dos planetas
inferiores. Ele até derrotou a Mim,
fazendo com que Me escondesse nesta caverna por medo. Quem é que tão misericordiosamente
protegeu-Me depois que corri do campo de batalha e vim dormir nesta
caverna?"
A donzela disse: "Fui eu que matei este demônio após
aparecer de Teu corpo transcendental. De
fato, ó Senhor Hari, quando Te viu dormindo e
que
és tu quem mataste este rei dos demônios.
Desta maneira tornaste os semideuses felizes, prósperos e cheios de bem-aventurança. Porque deste prazer a todos semideuses em
todos três mundos, estou muito satisfeito contigo. Peça qualquer benção que desejar, ó ser
auspicioso. Concederei-a sem dúvida,
embora possa ser muito rara entre os semideuses."
A donzela disse: "ó Senhor, se estás satisfeito comigo e
desejas dar-me uma benção, então confira-me o poder de salvar dos maiores
pecados aquelas pessoas que jejuam neste dia.
Desejo que a metade do crédito piedoso obtido por alguém que jejua, seja
obtido por quem apenas come de noite (abstendo-se de grãos e feijöes), e que
metade deste crédito piedoso seja
recebido por quem só come ao meio-dia.
Também, que a pessoa que observar estritamente um jejum completo no dia
de meu aparecimento, com sentidos controlados, vá para a morada do Senhor
Vishnu por um bilhão de kalpas (5)
depois que tiver desfrutado de todo tipo de prazeres neste mundo. Esta é a benção que desejo obter por Tua
misericórdia, meu Senhor. ó Senhor
Janardana, quer uma pessoa observe jejum completo, coma apenas o jantar, ou
apenas o almoço, por favor conceda-lhe uma atitude religiosa, fortuna, e afinal
a liberação."
A Suprema
Personalidade de Deus disse: "ó mui
auspiciosa senhora, o que pediste está concedido. Todos Meus devotos neste mundo certamente
jejuarão no teu dia, e assim eles se tornarão famosos pelos três mundos, e
finalmente virão e ficarão Comigo em Minha morada. Porque tu, Minha potência transcendental,
apareceste neste décimo primeiro dia da lua minguante, que teu nome seja
Ekadashi. Se uma pessoa jejua no
Ekadashi, queimarei todos seus pecados e conceder-lhe-ei Minha morada
transcendental.
Estes são os dias da
lua crescente e minguante que Me são mais queridos: Trtiya (terceiro dia); Ashtami (oitavo dia);
Navami (nono dia); Caturdasi (décimo quarto dia), e especialmente Ekadashi
(décimo primeiro dia). (6)
O mérito obtido por
jejuar no Ekadashi é maior que o obtido por observar qualquer outro tipo de
jejum ou por ir a um local de peregrinação, e até mesmo maior que o obtido por
dar caridade a brahmanas. Digo-lhe mui enfaticamente que isto é
verdade."
Tendo assim dado Sua
benção à donzela, o Senhor Supremo de repente desapareceu. Desde então o dia de Ekadashi se tornou muito
meritório e famoso em todo universo. ó
Arjuna, se uma pessoa observa estritamente Ekadashi, eu mato todos seus
inimigos e concedo-lhe o destino mais elevado.
De fato, se uma pessoa observa este grande jejum Ekadashi em qualquer
dos modos prescritos, (7) Eu removo todos obstáculos a seu progresso espiritual
e concedo-lhe a perfeição da vida.
Assim, ó filho de
Prtha, descrevi para ti a origem do Ekadashi.
Só este dia remove todos pecados eternamente. De fato, é o dia mais meritório para destruir
todos tipos de pecados, e surgiu a fim de beneficiar todos no universo concedendo
todas variedades de perfeição.
Não se deve
discriminar entre os Ekadashis da lua minguante e crescente; ambos devem ser
observados, ó Partha, e não devem ser diferenciados do Maha-dvadasi. (8) Todos que jejuam no Ekadashi devem reconhecer
que não há diferença entre estes dois Ekadashis, pois consistem no mesmo tithi.
Quem jejua
completamente no Ekadashi, seguindo as regras e regulaçöes, alcançará a suprema
morada do Senhor Vishnu, que cavalga Garuda.
São gloriosos aqueles que se devotam ao Senhor Vishnu e passam todo seu
tempo estudando as glórias do Ekadashi.
Quem faz voto de não comer nada no Ekadashi mas de só comer no dia
seguinte, obtém o mesmo merito que alguém que executa um sacrifício de
cavalo. Quanto a isso não há dúvida.
No Dvadasi, o dia após
Ekadashi, deve-se orar: "ó
Pundarikaksha, ó Senhor dos olhos de lótus, agora vou comer. Por favor proteja-me." Após dizer isso, o devoto sábio deve oferecer
algumas flores e água aos pés de lótus do Senhor e convidar o Senhor para comer
cantando o mantra de oito sílabas
três vezes (9). Se o devoto quer ganhar
os frutos de seu jejum, deve então beber água tirada da vasilha santificada na
qual ofereceu água aos pés de lótus do Senhor.
No Dvadasi se deve
evitar de dormir durante o dia, comer na casa de outrem, comer mais que uma vez,
ter sexo, comer mel, comer de um prato feito de metal para sinos, comer urad dhal, e esfregar óleo no
corpo. O devoto deve abandonar estas
oito coisas no Dvadasi. Se deseja falar
com um proscrito neste dia, deve purificar-se comendo uma folha de tulasi ou uma fruta amalaki. ó melhor dos reis,
do meio-dia de Ekadashi até a madrugada de Dvadashi, a pessoa deve se ocupar em
tomar banhos, adorar o Senhor, e executar atividades devocionais, inclusive
dando caridade e realizando sacrifícios de fogo. Se acontecerem circunstâncias difíceis e não
se puder quebrar o Ekadashi devidamente no Dvadashi, pode-se quebrá-lo bebendo
água, e então não se incorre numa falta por comer após o horário recomendado.
Um devoto do Senhor
Vishnu que dia e noite ouve estes tópicos totalmente auspiciosos concernentes
ao Senhor, da boca de outro devoto, será elevado ao planeta do Senhor e
residirá ali por dez milhöes de kalpas.
(10) E quem ouve mesmo apenas uma frase
sobre as glórias do Ekadashi é libertado das reaçöes a tais pecados como matar
um brahmana. (11) Não há dúvida quanto a isso. Por toda eternidade não haverá melhor maneira
de adorar o Senhor Vishnu que observar um jejum no Ekadashi."
Assim termina a narrativa do Margashirsha-krshna Ekadashi,
ou Utpanna Ekadashi, extraída do Bhavisya-uttara Purana.
Notas:
(1) Na civilização
védica é proibido se desfrutar de sexo com a própria filha, mãe, cunhada, ou
qualquer parenta feminina.
(2) O Mahabharata declara: annadau jaladas caiva aturas ca cikitsakah /
trividham svargam ayati vina yajnena bharatah - "ó Bharata, quem dá
grãos alimentícios, água potável, remédio ou auxílio médico aos necessitados
vai para o céu sem realizar qualquer tipo de sacrifício."
(3) O Amara-kosha dá os nomes dos oito Vasus
conforme a seguir: Dhara, Dhruva, Soma,
Aha, Anila, Anala, Pratyusha, e Prabhava.
(4) É claro, não há
questão de temor ou fadiga para o Senhor Supremo. Ele fingiu isso como parte de Seu passatempo
no qual surgiu Ekadashi-devi.
(5) Um kalpa, ou doze horas do Senhor Brahma,
dura 4.320.000.000 anos. Como o Senhor Krishna diz no Bhagavad-gita 8.21 que "aquele que chega à Minha morada nunca
retorna ao mundo material," entende-se que durante o bilhão de kalpas em que o devoto reside na morada
do Senhor Vishnu, ele realizará serviço devocional e assim se qualificará para
permanecer ali eternamente.
(6) Alguns dos dias de
jejum no calendário védico:
Trtiya: Há um Trtiya em
que se deve jejuar. Este dia ocorre durante a parte iluminada do mês de
Vaisakha (abr/mai). Neste dia se deve
adorar o Brahman Supremo e tomar banho no oceano.
Ashtami: Estes
dias de jejum incluem Krishna-Janmastami, Radhastami, e Gopastami, quando se
deve jejuar até meia-noite, meio-dia, e o por-do-sol, respectivamente.
Navami: Estes incluem Rama
Navami e Akshaya Navami.
Caturdasi: Estes
dias de jejum incluem Nrsimha Caturdasi, Ananta Caturdasi, e Shiva Caturdasi.
Ekadashi:
Dentre todos estes dias de jejum, Ekadashi é o mais querido pelo Senhor
Krishna. Quem não puder observar todos estes
dias de jejum pode ter mérito de cada um
deles apenas por observar Ekadashi uma única vez.
(7) Os três meios
recomendados de observar jejum no Ekadashi são jejuar completamente, comer
apenas no jantar, ou comer apenas em algum outro horário durante o dia. Se a pessoa de fato comer, deve abster-se
totalmente de grãos e feijöes.
(8) As vezes, por
diversas razöes astronômicas, Ekadashi deve ser observado no dia seguinte,
Dvadashi. Este Maha-dvadashi é
considerado muito auspicioso.
(9) O mantra de oito sílabas é om namo Narayanaya.
(10) Vide nota 5.
(11) Quem mata um brahmana e depois ouve sobre as glórias
do Utpanna Ekadashi será aliviado da reação deste pecado. Contudo, não se deve pensar de antemão que se pode matar um brahmana e depois passar sem castigo
simplesmente por ouvir sobre este Ekadashi.
Cometer pecado sabendo isto é uma abominação.
2 MOKSHADA
EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Vishnu, controlador de
todos, ó deleite dos três mundos, ó Senhor do universo, ó criador do mundo, ó
personalidade mais antiga, ó melhor de todos seres, ofereço minhas respeitosas
reverências a Ti. ó Senhor dos senhores, para benefício de todas entidades
vivas, tenha a bondade de responder algumas perguntas que tenho. Qual o nome do Ekadashi que ocorre durante a
quinzena clara do mês de Margashirsha e que remove todos pecados? Como é observado corretamente, e qual Deidade
é adorada nesse dia sagrado? ó Senhor,
por favor explique isto plenamente para mim."
O Senhor Krishna
respondeu: "ó Yudhishthira, tua
indagação é muito auspiciosa e te trará fama.
Assim como anteriormente expliquei-te o mui querido Utpanna
Maha-dvadashi (1) - que ocorre durante a parte obscura do mês de Margashirsha,
que é o dia quando Ekadashi-devi apareceu de Meu corpo para matar o demônio
Mura, e que beneficia tudo que é animado e inanimado nos três mundos - assim te
explicarei agora o Ekadashi que ocorre durante a parte clara de
Margashirsha. Este Ekadashi é famoso
como Mokshada porque purifica o devoto fiel de todas reaçöes pecaminosas e lhe
confere a liberação. A Deidade adorável
deste dia é o Senhor Damodara. Com plena
atenção se deve adorá-Lo com incenso, uma lamparina de ghee, flores, e tulasi manjaris (florescências).
ó melhor dos reis, por
favor ouça enquanto narro para ti a velha e auspiciosa história deste
Ekadashi. Simplesmente por ouvir esta
história se pode obter o mérito acumulado por realizar um sacrifício de
cavalo. Por influência deste mérito,
nossos antepassados, mães, filhos e outros parentes que foram para o inferno
podem ir para o céu. Apenas por esta
razão, ó rei, deves ouvir cuidadosamente esta narrativa.
Uma vez havia uma
linda cidade chamada Champaka-nagara, decorada
com devotados Vaisnavas. Ali o
melhor dos reis santos, Maharaja Vaikhanasa, governava seus súditos como se
fossem seus filhos e filhas. Os brahmanas naquela capital eram todos
peritos em quatro tipos de conhecimento védico.
O rei, enquanto governava corretamente, teve um sonho em certa noite no
qual seu pai estava sofrendo os golpes da tortura num planeta infernal. O rei foi tomado de compaixão e derramou
lágrimas. Na manhã seguinte, Maharaja
Vaikhanasa descreveu seu sonho para seu conselho de brahmanas duas-vezes nascidos.
"ó brahmanas," disse o rei, "num
sonho na noite passada vi meu pai sofrendo num planeta infernal. Ele estava gritando: "ó filho, por favor salva-me do tormento
deste inferno!" Agora não tenho
nenhuma paz, e até mesmo esse belo reino se tornou insuportável para mim. Nem mesmo meus cavalos, elefantes, e quadrigas
me dão qualquer alegria, e meu vasto tesouro não me dá nenhum prazer.
Tudo, ó melhores dos brahmanas, até minha própria esposa e
filhos, se tornou uma fonte de infelicidade desde que vi meu querido pai
sofrendo as torturas do inferno. Onde posso
ir, e que posso fazer, ó brahmanas,
para aliviar esta miséria? Meu corpo
está queimando de temor e tristeza! Por
favor digam-me que tipo de caridade, que modalidade de jejum, qual austeridade,
ou que profunda meditação poderei realizar para salvar meu pai de sua agonia e
conceder liberação à meus antepassados.
ó melhores dos brahmanas, qual
o sentido de ser um filho poderoso se nosso pai deve sofrer num planeta
infernal? Realmente, a vida de tal filho
é totalmente inútil!"
Os brahmanas duas vezes nascidos
replicaram: "ó rei, na floresta
montanhosa não longe daqui fica o ashrama
onde o grande santo Parvata Muni reside.
Por favor vá até ele, pois conhece o passado, presente e futuro de tudo
e certamente pode ajudar-te em tua miséria."
Ao ouvir este
conselho, o pesaroso rei imediatamente partiu numa jornada rumo ao ashrama do famoso sábio Parvata
Muni. O ashrama era muito grande e abrigava muitos sábios eruditos peritos
em cantar os hinos sagrados dos quatro Vedas.
(2) Aproximando-se do sagrado ashrama, o rei contemplou Parvata Muni
sentado entre os sábios como um outro Senhor Brahma, o criador não-nascido.
Maharaja Vaikhanasa
ofereceu suas humildes reverências ao muni,
curvando sua cabeça e então prostrando-se de corpo inteiro. Depois que o rei se sentara, Parvata Muni
perguntou-lhe sobre o bem estar das sete partes de seu extenso reino. (3) O muni também perguntou-lhe se seu reino
estava livre de problemas e se todos estavam tranquilos e felizes. A estas indagaçöes o rei respondeu: "Por sua misericórdia, ó glorioso sábio,
todas sete partes de meu reino estão passando bem. Contudo existe um problema que surgiu
recentemente, e para resolvê-lo vim lhe procurar, ó brahmana, para sua orientação perita."
Então Parvata Muni, o
melhor dos sábios, fechou seus olhos e meditou no passado, presente e futuro do
rei. Após alguns momentos abriu seus
olhos e disse: "Teu pai está
sofrendo os resultados de cometer um grande pecado, e descobri o que é. Em sua vida pretérita ele brigou com a esposa
quando desfrutou dela sexualmente durante seu período menstrual. Ela tentou resistir seus avanços e
gritou: "Alguém por favor
salve-me! Por favor, ó marido, não
interrompa meu período mensal!" Ainda assim ele não a deixou em paz. É devido a este pecado atroz que seu pai caiu
em tal condição infernal."
O Rei Vaikhanasa então
disse: "ó melhor dos sábios, por
qual processo de jejum ou caridade posso liberar meu querido pai de tal
condição? Por favor diga-me como posso
remover o fardo de suas reaçöes pecaminosas, que são um grande obstáculo a seu
progresso para a liberação final."
Parvata Muni
replicou: "Durante a quinzena clara
do mês de Margashirsha ocorre um Ekadashi chamado Mokshada. Se observares este sagrado Ekadashi
estritamente, com um jejum completo, e deres diretamente a teu pai sofredor o
mérito que assim obtiveres, ele será libertado de sua dor e instantaneamente
liberado."
Ouvindo isso, Maharaja
Vaikhanasa agradeceu profusamente o grande sábio e então retornou a seu
palácio. ó Yudhishthira, quando a parte
clara do mês de Margashirsha afinal chegou, Maharaja Vaikhanasa fiel e
perfeitamente observou o jejum de Ekadashi com sua esposa, filhos e outros
parentes. Ele zelosamente entregou o
mérito de seu jejum a seu pai, e enquanto fazia a oferenda, lindas flores
choviam do céu. O pai do rei então foi
louvado por mensageiros dos semideuses e escoltado até as regiöes
celestiais. Enquanto passava por seu
filho, o pai disse para o rei: "Meu
querido filho, toda auspiciosidade para ti!" Afinal ele alcançou o reino celestial. (4)
ó Filho de Pandu, quem
quer que observe estritamente o sagrado Mokshada Ekadashi, seguindo as regras e
regulaçöes estabelecidas, alcança a liberação total e perfeita após a
morte. Não há melhor dia de jejum que
este Ekadashi da quinzena clara do mês de Margashirsha, ó Yudhishthira, pois é
um dia claro como o cristal e sem pecado.
Quem quer que observe fielmente este jejum de Ekadashi, que é como cintamani (uma jóia que realiza todos
desejos), obtém mérito especial que é muito difícil de calcular, pois este dia
pode elevar-nos aos planetas celestiais e mais além - à liberação
perfeita."
Assim termina a narrativa das glórias do Margashirsha
Ekadashi ou Mokshada Ekadashi, do Brahmanda Purana.
Notas:
(1) Quando Ekadashi
cai num Dvadashi, devotos ainda assim chamam-no de Ekadashi.
(2) Os quatro Vedas são o Sama, Yajur, Rg e Atharva.
(3) As sete partes do
domínio de um rei são o próprio rei, seus ministros, seu tesouro, suas forças
armadas, seus aliados, os brahmanas, os
sacrifícios realizados em seu reino, e as necessidades de seus súditos.
(4) Se uma pessoa
observa um jejum de Ekadashi para um antepassado falecido que está sofrendo no
inferno, então o mérito assim obtido capacita o antepassado a deixar o inferno
e entrar no reino celestial, onde poderá então praticar serviço devocional a
Krishna ou Vishnu e retornar a Deus.
Porém quem observa Ekadashi para sua própria elevação espiritual
regressa ele mesmo para Deus, para nunca mais retornar a esse mundo material.
3 PAUSHA-KRISHA OU SAPHALA EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Sri Krishna, qual o nome
do Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Pausha
(dez/jan)? Como é observado, e qual
Deidade é adorada nesse dia? Por favor
narra-me isso plenamente, ó Janardana."
A Suprema
Personalidade de Deus respondeu: "ó
melhor dos reis, porque desejas ouvir, descreverei plenamente para ti as
glórias do Pausha-krishna Ekadashi.
Não fico tão
satisfeito pelo sacrifício ou caridade, como fico quando Meus devotos observam
um jejum total no Ekadashi. Conforme sua
melhor possibilidade, portanto, a pessoa deve jejuar no Ekadashi, o dia do
Senhor Hari.
ó Yudhishthira, urge
que ouças com atenção indesviável as glórias do Pausha-krishna Ekadashi, que
cai no Dvadasi. Conforme expliquei
anteriormente, não se deve diferenciar entre os muitos Ekadashis. ó rei, para beneficiar a humanidade em geral
agora descrever-te-ei o processo de observar Pausha-krishna Ekadashi.
Pausha-krishna
Ekadashi também é conhecido como Saphala Ekadashi. Neste dia sagrado se deve adorar o Senhor
Narayana, pois Ele é sua Deidade governante.
Deve-se seguir o método anteriormente descrito de jejuar. Assim como entre as serpentes Shesha-naga é a
melhor, entre as aves Garuda é o melhor, entre os sacrifícios Ashvamedha-yajna
é o melhor, entre os rios a Mãe Ganga é a melhor, entre os deuses o Senhor
Vishnu é o melhor, e entre os seres
bípedes os brahmanas são os
melhores, assim também entre todos dias de jejum, Ekadashi é o melhor. ó principal dos reis nascidos na dinastia
Bharata, quem quer que observe estritamente Ekadashi se torna muito querido por
Mim e verdadeiramente adorável para Mim de qualquer maneira. Agora ouça enquanto descrevo o processo para
observar Saphala Ekadashi.
No Saphala Ekadashi
Meu devoto deve adorar-Me oferecendo-Me frutas frescas segundo o tempo, lugar e
circunstância, e por meditar em Mim como a completamente auspiciosa
Personalidade Suprema. Ele deve
oferecer-Me frutas jambira, romãs,
betel, côco, goiaba, nozes, cravos, mangas, e diferentes tipos de especiarias
aromáticas. Também deve oferecer-Me
incenso e luminosas lamparinas de ghee, pois tal oferenda de lamparinas no
Saphala Ekadashi é especialmente gloriosa.
O devoto deve tentar ficar acordado a noite toda.
Agora por favor ouça
com a atenção indesviável enquanto te conto quanto mérito se obtém se jejuar e
permanecer acordado durante a noite inteira.
ó melhor dos reis, não existe sacrifício ou peregrinação que confira mérito
equivalente ou maior que o mérito que se obtém por jejuar no Saphala
Ekadashi. Tal jejum - particularmente se
a pessoa puder permanecer acordada a noite toda - confere o mesmo mérito ao
fiel devoto como se realizasse austeridade durante cinco mil anos. ó leão entre os reis, por favor ouça a
gloriosa história deste Ekadashi.
Uma vez havia uma
cidade chamada Campavati, que era governada pelo santo Rei Mahishmata. Tinha ele quatro filhos, o mais velho dos
quais, Lumpaka, sempre estava ocupado em atividades muito pecaminosas - sexo
ilícito com as esposas de outros, jogatina, e contínua associação com
conhecidas prostitutas. Seus maus atos
gradualmente reduziram a fortuna de seu pai, o Rei Mahishmata. Lumpaka também se tornou muito crítico para
com os semideuses e brahmanas, e a
cada dia blasfemava Vaisnavas. Afinal o
Rei Mahishmata, vendo a condição de seu filho, exilou-o na floresta. Por medo do rei, até mesmo parentes
compadecidos não acorreram em defesa de Lumpaka, tão zangado estava o rei e tão
pecaminoso era Lumpaka.
Desnorteado em seu
exílio, Lumpaka pensava consigo mesmo:
"Meu pai me mandou embora, e até meus familiares não levantaram
nenhuma objeção. Que devo fazer
agora?" Ele tramava pecaminosamente
e pensava: "Vou voltar furtivamente
para a cidade, oculto nas trevas e roubar todas riquezas. Durante o dia ficarei de longe na floresta, e
à noite retornarei para a cidade."
Pensando assim, Lumpaka entrou na escura floresta. Matava muitos animais durante o dia, e de
noite roubava artigos valiosos da cidade.
Os habitantes da cidade pegaram-no diversas vezes, porém por temor ao
rei deixaram-no sozinho. Pensavam que
devia ser devido aos pecados de seus nascimentos pretéritos que perdera suas
facilidades reais e que agia tão pecaminosamente.
Embora um carnívoro,
Lumpaka também comia frutas todo dia.
Residia sob uma velha árvore banyan que por acaso era muito querida pelo
Senhor Vasudeva. De fato, muitos
adoravam-na como o deus de todas árvores da floresta. No devido decorrer do tempo, enquanto Lumpaka
estava realizando tantas atividades pecaminosas e condenáveis, chegou Saphala
Ekadashi. Na véspera de Ekadashi,
Lumpaka teve que passar a noite inteira sem dormir devido ao frio severo e sua
pouca roupa de cama. O frio não só
roubou-lhe toda tranquilidade mas também quase o matou. Quando o sol se levantou, seus dentes batiam
e ele estava em coma, e durante toda manhã daquele dia, Ekadashi, ele não
conseguia acordar de seu estupor.
Quando o meio-dia do
Saphala Ekadashi chegou, o pecaminoso Lumpaka finalmente voltou a si e
conseguiu levantar de seu lugar sob a árvore banyan. Mas a cada passo tropeçava e caía no
chão. Como um coxo, andava lenta e
hesitantemente, sofrendo grandemente pela fome e sede em meio à selva. Tão fraco estava Lumpaka que nem sequer
conseguiu matar um só animal naquele dia.
Em vez disso, viu-se reduzido a coletar quaisquer frutas que tivessem
caído ao solo. Na hora em que retornou
para a árvore banyan, o sol se pusera.
Colocando as frutas no
chão perto dele, Lumpaka começou a berrar:
"Oh, que infelicidade! Que
devo fazer? Querido pai, a que ponto
cheguei? ó Sri Hari, por favor seja
misericordioso para comigo e aceite estas frutas!" Novamente foi forçado a ficar acordado a
noite toda sem dormir, mas nesse meio tempo a Suprema Personalidade de Deus,
Madhusudana, ficara satisfeito com a oferenda de Lumpaka das frutas silvestres,
e Ele as aceitou. Lumpaka sem querer
observara um jejum completo de Ekadashi, e assim pelo mérito que angariou
naquele dia, recuperou seu reino sem maiores obstáculos.
Ouça, ó Yudhishthira,
o que aconteceu com o filho do Rei Mahishmata quando apenas um fragmento de
mérito brotou dentro de seu coração.
Enquanto o sol nascia
belamente na manhã seguinte ao Ekadashi, um lindo cavalo aproximou-se de
Lumpaka e postou-se perto dele. Ao mesmo
tempo, uma voz repentinamente falou do céu claro e azul: "Este cavalo é para ti, Lumpaka! Monta nele e rapidamente cavalga para saudar
tua família! ó filho do Rei Mahishmata,
pela misericórdia do Senhor Vasudeva e a força de mérito que adquiriste por
observar Saphala Ekadashi, teu reino lhe foi devolvido sem quaisquer empecilhos
maiores. Tal é o benefício que
adquiriste por jejuar neste dia auspicioso. Agora vai até teu pai e desfruta de
teu devido lugar nesta dinastia."
Ao ouvir estas
palavras celestiais, Lumpaka montou no cavalo e cavalgou de volta para a cidade
de Campavati. Pelo mérito que acumulara
por jejuar no Saphala Ekadashi, ele se tornara um belo príncipe novamente e
pode absorver sua mente nos pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus,
Hari. Em outras palavras, ele se tornara
Meu devoto puro.
Lumpaka ofereceu a seu
pai, o Rei Mahishmata, suas humildes reverências e uma vez mais aceitou suas
responsabilidades de príncipe. Vendo seu
filho decorado com ornamentos Vaisnavas e tilaka,
o Rei Mahishmata deu-lhe o reino, e Lumpaka governou sem oposição por muitos e
muitos anos. Sempre que ocorria
Ekadashi, ele adorava o Senhor Supremo com grande devoção. E pela misericórdia de Sri Krishna ele obteve
uma bela esposa e bom filho. Na velhice
Lumpaka entregou seu reino a seu filho - assim como seu pai, o Rei Mahishmata,
havia feito com ele - e então foi para a floresta servir o Senhor Supremo com a
mente e sentidos controlados. Purificado
de todo desejo material, abandonou seu corpo e retornou ao lar, de volta para
Deus, obtendo um local próximo aos pés de lótus do Senhor Sri Krishna.
ó Yudhishthira, quem
se aproxima de Mim como Lumpaka fez será completamente liberto da lamentação e
ansiedade. Na verdade, qualquer pessoa
que observe corretamente este glorioso Saphala Ekadashi - mesmo que seja sem
saber, tal como Lumpaka - se tornará famosa neste mundo. Tornar-se-á perfeitamente liberada na morte e
retornará para Vaikuntha. Quanto a isso
não há dúvida. Além do mais, quem quer
que simplesmente ouça as glórias do Saphala Ekadashi, obtém o mesmo mérito
derivado por quem realiza um Rajasuya-yajna, e no mínimo vai para o céu em seu
próximo nascimento."
Assim termina a narrativa das glórias do Pausha-krishna
Ekadashi ou Saphala Ekadashi, do Bhavishya-uttara Purana.
4 PUTRADA
EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Senhor, explicaste tão
bem as glórias do auspicioso Saphala Ekadashi, que ocorre durante a quinzena
obscura do mês de Pausha (dez/jan).
Agora por favor seja misericordioso para comigo e explique o Ekadashi da
quinzena luminosa deste mês. Qual é seu
nome, e que Deidade deve ser adorada neste dia sagrado? ó Purushottama, ó Hrshikesha, por favor
também conta-me como podes ser satisfeito neste dia."
O Senhor Sri Krishna
respondeu: "ó rei, para benefício
de toda humanidade, relatarei para ti como observar jejum no Pausha-sukla
Ekadashi.
Conforme expliquei
anteriormente, todos devem observar as regras e regulaçöes de Ekadashi ao
melhor de sua capacidade. Esta injunção
se aplica ao Ekadashi chamado Putrada, que destrói todos pecados e nos eleva à
morada espiritual. Sri Narayana, o
Senhor Supremo e personalidade original, é a Deidade adorável deste Ekadashi, e
para Seu devoto fiel Ele alegremente realiza todos desejos e concede plena
perfeição. Assim entre todos seres
animados e inanimados nos três mundos, não existe melhor personalidade que o
Senhor Narayana.
ó rei, agora narrarei
para ti a história de Putrada Ekadashi, que remove todos tipos de pecados e nos
torna famosos e eruditos.
Uma vez havia um reino
chamado Bhadravati, que era governado pelo Rei Suketuman. Sua rainha era a famosa Shaibya. Porque não tinha filho, ele passou longo
tempo em ansiedade, pensando: "Se
não tiver um filho, quem irá continuar minha dinastia?" Desta maneira o rei meditou numa atitude
religiosa durante longo tempo, pensando:
"Onde devo ir? Que devo
fazer? Como posso conseguir um
filho?" O Rei Suketuman não
conseguia a felicidade em lugar algum em seu reino, mesmo em seu próprio
palácio, e em breve estava passando mais e mais tempo dentro do palácio de sua
esposa, pensando melancolicamente apenas em como conseguir um filho.
Assim ambos, o Rei Suketuman
e a Rainha Shaibya, estavam em grande sofrimento. Mesmo quando ofereciam tarpana (oblaçöes de água para seus antepassados), sua miséria
mútua os fazia pensar que era tão impossível de beber quanto água
fervente. Pensavam que não teriam
descendentes para oferecer-lhes tarpana
quando morressem. O rei e rainha estavam
especialmente perturbados por saberem que seus antepassados estavam preocupados
que dentro em breve não haveria mais ninguém para lhes oferecer tarpana.
Após saberem da
infelicidade de seus antepassados, o rei e a rainha se tornaram mais e mais
miseráveis, e tampouco os ministros, amigos, nem entes amados conseguiam
alegrá-los. Para o rei, seus elefantes e
cavalos e infantaria não eram consolo, e afinal ele ficou praticamente inerte e
desamparado.
O rei pensou: "Dizem que sem filho, o casamento é
perda de tempo. De fato, para um
chefe-de-família sem filho, tanto seu coração e sua esplêndida casa permanecem
vazios e infelizes. Destituído de
filhos, um homem não consegue liquidar a dívida que tem para com seus
antepassados, os semideuses, e outros seres humanos. Portanto todo homem casado deve tentar
conceber um filho; assim ele poderá se tornar famoso dentro deste mundo e
afinal alcançar os auspiciosos reinos celestiais. Um filho é prova das atividades piedosas que
um homem realizou em suas cem vidas pretéritas, e tal pessoa obtém longa
duração de vida neste mundo, junto com boa saúde e grande fortuna. Possuir filhos e netos nesta vida prova que
se adorou o Senhor Vishnu, a Suprema Personalidade de Deus, no passado. As grandes bençãos de filhos, fortuna, e
inteligência aguda podem ser conseguidas apenas por adorar o Senhor Supremo,
Sri Krishna. Isto é minha opinião."
Pensando assim, o rei
não tinha paz. Permanecia em ansiedade
dia e noite, desde a manhã até a noitinha, e desde o momento em que se deitava
para dormir à noite até que o sol nascia pela manhã, seus sonhos eram
igualmente cheios de grande ansiedade.
Sofrendo tal ansiedade e apreensão, o Rei Suketuman decidiu acabar com
sua miséria cometendo suicídio. Porém
percebeu que suicídio lança a pessoa numa condição infernal de renascimento, e
assim abandonou essa idéia. Vendo que
estava gradualmente se destruindo através de sua ansiedade de ter um filho que
o consumia totalmente, o rei afinal montou em seu cavalo e partiu sozinho para
a densa floresta. Ninguém, nem mesmo os
sacerdotes e brahmanas do palácio,
sabiam onde tinha ido.
Nessa floresta, que
era cheia de veados e aves e outros animais, o Rei Suketuman vagou sem destino,
notando todos diferentes tipos de árvores e arbustos, tais como figueiras,
fruta bel, tamareiras, palmeiras,
jaqueiras, árvores bakula, saptaparna,
tinduka e tilaka, bem como shala, tala, tamala, sarala, hingota,
arjuna, labhera, baheda, sallaki, karonda, patala, khaira, shaka e palasha.
Viu veados, tigres, javalis selvagens, leöes, macacos, cobras, grandes
elefantes machos no cio, elefantas com suas crias, e elefantes com quatro
presas junto de seus pares. Havia vacas,
chacais, lebres, leopardos, e hipopótamos.
Contemplando todos esses animais acompanhados de seus pares e rebentos,
o rei lembrou de seu próprio criadouro, especialmente dos elefantes do palácio,
e ficou tão triste que impensadamente vagava no meio deles.
De repente, o rei
ouviu um uivo de chacal à distância.
Espantado, começou a perambular, olhando em todas direçöes. Logo era meio-dia, e o rei começou a cansar. Estava atormentado pela fome e sede. Pensou:
"Que ato pecaminoso possivelmente pratiquei que agora sou forçado a
sofrer assim, com minha garganta ressecada e ardendo? Agradei os semideuses com numerosos
sacrifícios de fogo e abundante adoração devocional. Dei muitos presentees e deliciosos doces como
caridade a todos brahmanas
dignos. E cuidei de meus súditos como se
fossem meus próprios filhos. Porque
estou sofrendo assim? Que pecados
desconhecidos vieram me atormentar desta maneira horrivel?"
Absorto em tais
pensamentos, o Rei Suketuman seguia adiante com esforço, e eventualmente,
devido a seu crédito piedoso, chegou a uma bela lagoa que se assemelhava ao
famoso Lago Manasarovara. Estava cheio
de espécies aquáticas, inclusive crocodilos e muitas variedades de peixes, e
adornado de açucenas. Belos lótus haviam
se aberto ao sol, e cisnes, grous e patos nadavam felizes em suas águas. Perto havia muitos ashramas atraentes, onde residiam muitos santos e sábios que podia
realizar os desejos de qualquer pessoa.
De fato, desejavam o bem de todos.
Quando o rei viu tudo isso, seu braço direito e olho começaram a tremer,
um sinal de que algo auspicioso estava para acontecer.
Enquanto o rei
desmontava de seu cavalo e ficava de pé diante dos sábios, que estavam sentados
na beira da lagoa, viu que estavam cantando os santos nomes de Deus em suas contas
de japa. O rei prestou suas reverências e, de mãos
postas, glorificou-os. Estava mais do
que feliz por estar na presença deles.
Observando o respeito que o rei lhes oferecia, os sábios disseram: "Estamos muito contentes contigo, ó
rei. Tenha a bondade de nos dizer porque
vieste até aqui? Que se passa em tua
mente? Por favor diga-nos o que
desejas."
O rei respondeu: "ó grandes sábios, quem sois? Quais são vossos nomes, ó santos
auspiciosos? Porque viestes a este lindo
lugar? Por favor dizei-me tudo."
Os sábios
responderam: "ó rei, somos os
Vishvedevas (1); viemos até essa maravilhosa lagoa para tomar banho. O mês de Magha estará aqui dentro de cinco
dias, e hoje é o famoso Putrada Ekadashi.
Quem deseja um filho deve observar estritamente este Ekadashi. (2)"
O rei disse: "Tentei com tanto esforço ter um
filho. Se vós grandes sabios estais
satisfeitos comigo, por bondade concedei-me um bom filho."
"O próprio
significado de Putrada"
responderam os sábios, "é "doador de filhos". Portanto por favor observa um jejum completo
neste dia de Ekadashi. Se o fizeres,
então por nossa benção - e pela misericórdia do Senhor Keshava - certamente
obterás um filho."
Com o conselho dos
Vishvedevas, o rei observou o auspicioso dia de jejum de Putrada Ekadashi
conforme todas regras e regulaçöes estabelecidas, e no Dvadashi, após quebrar
seu jejum, ele prestou suas reverências repetidamente a todos eles.
Logo depois que
Suketuman retornou a seu palácio, a Rainha Shaibya ficou grávida, e exatamente
como os sábios Vishvedevas tinham predito, nasceu-lhes um belo filho de rosto
luminoso. No devido tempo ele se tornou
famoso como um príncipe heróico, e o rei de bom grado satisfez seu filho
tornando-o seu sucessor. O filho de
Suketuman cuidou de seus súditos mui conscienciosamente, assim como se fossem
seus próprios filhos.
Concluindo: ó Yudhishthira, quem deseja realizar seus
desejos deve observar estritamente Putrada Ekadashi. Enquanto estiver neste planeta, quem observa estritamente
este Ekadashi certamente obterá um filho, e após a morte obterá a
liberação. Qualquer pessoa que até mesmo
lê ou ouve as glórias de Putrada Ekadashi obtém o mérito acumulado por realizar
um sacrifício de cavalo. É para
beneficiar toda humanidade que expliquei tudo isso para ti."
Assim termina a narrativa das glórias do Pausha-sukla
Ekadashi ou Putrada Ekadashi, do Bhavishya Purana.
Notas:
(1) Os dez
Vishvedevas, os filhos de Vishva, são Vasu, Kratu, Daksha, Kala, Kama, Dhrti,
Pururava, Madrava, e Kuru.
(2) A palavra
sânscrita para "filho" é putra. Pu é o nome de determinado inferno, e tra significa "salvar". Assim a palavra putra significa "uma pessoa que salva alguém do inferno
chamado Pu". Portanto cada homem
casado deve produzir pelo menos um filho e treiná-lo devidamente; então o pai
será salvo de uma condição de vida infernal.
Porém esta injunção não se aplica aos devotos sérios do Senhor Vishnu ou
Krishna, pois o Senhor se torna seu filho, pai, e mãe.
Além do mais Chanakya
Pandita diz:
satyam mata pita jnanam
dharmo bhrata daya sakha
shantih patni kshama putrah
shadete mama vandhavah
"A verdade é
minha mãe, o conhecimento é meu pai, meu dever ocupacional é meu irmão, a
bondade é minha amiga, tranquilidade minha esposa, e o perdão meu filho. Estes seis são os membros de minha
família." Entre as vinte e seis
principais qualidades de um devoto do Senhor, o perdão é o principal. Portanto devotos devem fazer um esforço extra
para desenvolver esta qualidade. Aqui
Chanakya diz: "O perdão é meu
filho," e portanto um devoto do Senhor, mesmo embora possa estar na senda da
renúncia, poderá observar Putrada Ekadashi e orar por obter este tipo de
"filho".
5 SAT-TILA
EKADASHI
Dalbhya Rishi disse
para Pulastya Muni: "Quando a alma
espiritual entra em contato com a energia material, imediatamente começa a
realizar atividades pecaminosas, tais como roubar, matar, e sexo ilícito. Poderá até realizar muitos outros atos
terríveis, tais como matar um brahmana. ó mais pura das personalidades, por favor
conte-me como estas almas desafortunadas podem escapar da punição de serem
mandadas às regiöes infernais da criação.
Por bondade informe como, dando mesmo um pouquinho de caridade, se pode
facilmente ficar livre de seus pecados."
Pulatsya Muni
respondeu: "ó ser afortunado,
perguntaste uma pergunta boa e confidencial, que nem mesmo Brahma, Vishnu,
Shiva ou Indra jamais perguntaram. Por
favor ouça minha resposta muito cuidadosamente.
Com a chegada do mês
de Magha (jan/fev), deve-se tomar banho, controlar cuidadosamente os sentidos
abandonando a luxúria, ira, orgulho, inveja, buscar erros, e cobiça, e meditar
na Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna. Deve-se então juntar algum excremento de vaca
antes que este toque o solo e, após misturá-lo com sementes de gergelim e
algodão, formar 108 bolas. Isto deve ser
feito no dia quando a constelação de Purvashadha-nakshatra chegar. Então se deve seguir as regras e regulaçöes
de Ekadashi, que agora te explicarei.
Após tomar banho, a
pessoa que tenciona observar Ekadashi deve adorar o Senhor Supremo. Enquanto ora ao Senhor Krishna cantando Seu
nome, deve prometer observar o jejum de Ekadashi. Deve permanecer acordada a noite toda e
realizar um homa. Então o devoto deve realizar arati para o Senhor - que segura uma
concha, disco, maça, e assim por diante em Suas mãos - oferecendo-Lhe pasta de
sândalo, incenso, cânfora, uma luminosa lamparina de ghee, e deliciosas
preparaçöes de alimento. Em seguida o
devoto deve oferecer as 108 bolas de excremento de vaca, sementes de gergelim,
e algodão no fogo sagrado enquanto canta os santos nomes do Senhor Supremo, Sri
Krishna. Durante todo o dia e a noite
ele deve também observar o jejum padronizado de Ekadashi, que neste caso é um
jejum de todos grãos e feijöes. Nesta
ocasião se deve oferecer ao Senhor abóbora, côco, e goiaba. Se estes artigos não estiverem disponíveis,
podem ser substituídos por noz de betel.
O devoto deve orar ao
Senhor Janardana, o benfeitor de todos seres, desta maneira: "ó Senhor Sri Krishna, és a mais
misericordiosa Personalidade de Deus e o liberador de todas almas caídas. ó Senhor, nós caímos no oceano da existência material. Por favor seja bondoso para conosco. ó divindade dos olhos de lótus, por favor
aceite nossas mais humildes e afetuosas reverências. ó protetor do mundo, oferecemo-Lhe nossos
respeitos de novo e de novo. ó Espírito
Supremo, ó Ser Supremo, ó fonte de todos nossos antepassados, que Tu e Tua
consorte Srimati Lakshmi-devi possam aceitar estas humildes oferendas."
O devoto deve então
tentar agradar um brahmana
qualificado com uma saudação calorosa, um pote cheio d'água, uma sombrinha, um
par de sapatos, e roupas, pedindo-lhe ao mesmo tempo que conceda suas bençãos,
pelas quais se pode desenvolver amor puro sem misturas por Krishna. Conforme a capacidade da pessoa, se pode doar
uma vaca preta a tal brahmana,
especialmente a um que seja bem versado em todas injunçöes das escrituras
védicas. Deve-se oferecer a ele também
um pote cheio de sementes de gergelim.
ó exaltado Dalbhya
Muni, sementes de gergelim escuro são especialmente apropriadas para adoração
formal e sacrifícios de fogo, enquanto que as brancas ou marrons se destinam a
serem comidas por um brahmana
qualificado. Quem puder providenciar
doação de ambos tipos de sementes de gergelim neste sagrado Sat-tila Ekadashi
será promovido aos planetas celestiais por tantos milhares de anos quanto o número
de sementes que seria produzido se as sementes que dôou fossem plantadas e
crescessem como plantas maduras, dando semente.
Neste Ekadashi, um
pessoa fiel deve banhar-se em água misturada com sementes de gergelim, passar
pasta de gergelim em seu corpo, oferecer sementes de gergelim em sacrifício,
comer sementes de gergelim, dar sementes de gergelim como caridade, e aceitar
dádivas caridosas de sementes de gergelim.
Estes são os seis (sat) meios
em que sementes de gergelim (tila)
são utilizadas para purificação espiritual neste Ekadashi. Portanto se chama de Sat-tila Ekadashi.
O grande Devarishi
Naradaji certa vez perguntou à Suprema Personalidade de Deus, Sri Krishna: "ó Senhor de braços poderosos, ó Tu que
és tão afetuoso para com Teus devotos amorosos, por favor aceita minhas mais
humildes reverências. ó Yadava,
bondosamente diga-me o resultado que se obtém por observar Sat-tila
Ekadashi."
O Senhor Sri Krishna
retrucou: "ó melhor dos duas-vezes
nascidos, vou narrar para ti um relato de um incidente que testemunhei
pessoalmente. Há muito tempo, vivia na
terra uma velha brahmani que Me
adorava todo dia com os sentidos controlados.
Ela mui fielmente observava
bastante jejuns, especialmente em dias especiais em honra a Mim, e Me servia
com plena devoção, sem qualquer motivo pessoal.
Seus jejuns rigorosos a tornaram bastante fraca e magra. Dava caridade aos brahmanas e jovens donzelas, e até mesmo planejava dar sua casa
como caridade. ó melhor dos brahmanas, embora esta mulher de mente
espiritualizada desse donativos caridosos a pessoas dignas, a estranha
característica de sua austeridade era que nunca dava alimento aos brahmanas ou
semideuses.
Comecei a refletir
sobre esta curiosa omissão: "Esta
boa mulher se purificou por jejuar em todas ocasiöes auspiciosas e oferecer-Me
adoração devocional estrita. Portanto
ela certamente se tornou qualificada para entrar em Minha morada pessoal, que é
inatingivel por pessoas comuns."
Portanto desci a este planeta para examiná-la, disfarçando-Me como um seguidor
do Senhor Shiva, completo com guirlanda de crânios ao redor de Meu pescoço e um
pote de mendicante em Minha mão.
Quando Me aproximei
dela, disse-Me: "ó ser respeitável,
diga-me verdadeiramente porque vieste diante de mim."
Retruquei: "ó bela pessoa, vim para pegar alguns
sagrados donativos teus." - ao que ela zangada, jogou um denso bolo de
barro em Meu pote de mendicante! ó
Narada, simplesmente virei e retornei para Minha morada pessoal, espantado com
a peculiar mistura de grande magnanimidade e mesquinhez desta boa brahmani.
Afinal esta austera
senhora chegou ao mundo espiritual naquele mesmo corpo, tão grandes foram seus
esforços de jejum e caridade. E porque
de fato Me oferecera um torrão de barro, transformei aquele barro numa linda casa.
Contudo, ó Naradaji, esta casa em
particular estava completamente destituída de qualquer grão comestível, bem
como de qualquer móvel ou ornamentação, e quando entrou nela, encontrou apenas
uma estrutura vazia. Portanto ela se
aproximou de Mim e disse com grande raiva:
"Jejuei repetidamente em tantas ocasiöes auspiciosas, tornando meu
corpo fraco e magro. Te adorei e orei a
Ti de tantas diferentes maneiras, pois és verdadeiramente o soberano e protetor
de todos universos. Contudo apesar de
tudo isso não há alimento ou riqueza para ser vista em minha nova casa, ó
Janardana. Porquê isso?"
Respondi: "Por favor retorna para tua casa. Daqui a algum tempo as esposas dos semideuses
te farão uma visita devido à curiosidade de ver quem acaba de chegar, mas não
abra tua porta até que tenham descrito as glórias e a importância de Sat-tila
Ekadashi."
Ouvindo isso, ela
retornou para sua casa. Eventualmente as
mulheres dos semideuses ali chegaram e em unísono disseram: "ó ser belo, viemos para obter teu darshana. ó ser auspicioso, por favor abra tua porta e
nos deixe ver-te."
A senhora
respondeu: "ó seres mais queridos,
se quiserem que abra esta porta, devem descrever para mim o mérito obtido por
observar o sagrado jejum de Sat-tila Ekadashi." Mas nenhuma das esposas respondeu.
Mais tarde, contudo,
elas retornaram para a casa, e uma das esposas explicou bem a natureza sublime
deste sagrado Ekadashi. E quando a
senhora afinal abriu sua porta, viram que ela não era nem uma semideusa, nem Gandharvi,
nem demônia, tampouco Naga-patni. Era
simplesmente uma senhora comum.
A partir de então a
senhora observou Sat-tila Ekadashi, que confere gozo material e liberação ao
mesmo tempo, conforme lhe fora descrito.
E ela finalmente recebeu as lindas guarniçöes e grãos que esperava para
seu lar. Além do mais, aquele corpo
material comum de antes, se transformou numa forma espiritual linda com uma
bela compleição. Assim, pela
misericórdia e graça de Sat-tila Ekadashi, tanto a senhora como seu novo lar no
mundo espiritual afinal eram esplêndidos e luminosos com ouro, prata, jóias e
diamantes.
ó Naradaji, uma pessoa
não deve observar ostensivamente Ekadashi por cobiça, na esperança de obter
fortuna desonestamente.
Desinteressadamente, deve simplesmente doar sementes de gergelim,
roupas, e alimento segundo sua capacidade, pois assim fazendo obterá boa saúde
e consciência espiritual exaltada, nascimento após nascimento (2). Afinal, a liberação e o acesso à morada suprema
do Senhor serão suas. Isto é minha
opinião, ó melhor dos semideuses."
"ó Dalbhya
Muni" Pulastya Rishi concluiu, "quem observa devidamente o
maravilhoso Sat-tila Ekadashi com grande fé, se torna livre de todos tipos de
pobreza - espiritual, física, social, e intelectual - bem como de todos tipos
de má sorte e maus presságios. De fato,
seguir este jejum de Ekadashi doando, sacrificando ou comendo sementes de
gergelim, nos livra de todos pecados passados, sem nenhuma dúvida. Não é preciso querer saber como isso
acontece. A rara alma que realiza
corretamente estes atos de caridade no humor devocional certo, seguindo as
injunçöes védicas, se tornará totalmente livre de todas reaçöes pecaminosas e
voltará para Deus, de volta para o mundo espiritual."
Assim termina a narrativa das glórias do Magha-krishna
Ekadashi ou Sat-tila Ekadashi, do Bhavishya-uttara Purana.
Notas:
(1) Embora no mundo
espiritual ira e desejo material estejam totalmente ausentes, Sri Krishna
providenciou para que a senhora demonstrasse estas qualidades para que as glórias
de Sat-tila Ekadashi fossem reveladas.
(2) Para um Vaisnava,
caridade significa dar consciência de Krishna, especialmente o cantar do Hare
Krishna mantra. Como disse Sri Chaitanya Mahaprabhu, eka bar to mullhe hari bol bhai... ei matra
bhiksha cai. "ó irmão, por
favor cante Hare Krishna apenas uma vez... Esta é a única doação que
peço." Se um devoto
chefe-de-família puder arcar com a despesa, deverá dar algumas sementes de
gergelim, roupas, ou alimentos como caridade a uma pessoa digna, mas isso não é
obrigatório.
6 JAYA
EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Senhor dos senhores, Sri
Krishna, todas as glórias a Ti! ó mestre
do universo, só Tu és a fonte dos quatro tipos de entidades vivas - aquelas
nascidas de ovos, aquelas nascidas da transpiração, aquelas nascidas de
sementes, e aquelas nascidas de embriöes.
Só tu és a causa-raiz de tudo, ó Senhor, e portanto Tu és o criador,
mantenedor, e destruidor.
Meu Senhor, explicaste
tão bondosamente para mim o auspicioso dia conhecido como Sat-tila Ekadashi,
que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Magha (jan/fev). Agora por favor explica o Ekadashi que ocorre
durante a quinzena clara deste mês. Por
que nome é conhecido, e qual o processo para se observá-lo? Quem é a Deidade que é adorada neste sublime
dia, que Lhe é tão caro?"
O Senhor Sri Krishna
replicou: "ó Yudhishthira, de bom
grado te contarei sobre o Ekadashi que ocorre durante a metade clara do mês de
Magha. Este Ekadashi oblitera todos tipos
de reaçöes pecaminosas e influências demoníacas que afetam a alma
espiritual. É conhecido como Jaya
Ekadashi, e a alma afortunada que observa um jejum neste dia sagrado é aliviada
do grande fardo da existência fantasmagórica.
Assim não há Ekadashi melhor que este, pois realmente concede liberdade
do nascimento e morte. Deve ser honrado
com muito cuidado e diligentemente.
Assim peço que Me ouças atentamente, ó Pandava, enquanto explico um
episódio histórico maravilhoso referente a esse Ekadashi, um episódio que já relatei
no Padma Purana.
Há muito, muito tempo
atrás, nos planetas celestiais, o Senhor Indra governava seu reino celestial
muito bem, e todos semideuses que viviam ali estavam felizes e contentes. Na floresta de Nandana, que era belamente decorada
com flores parijata, Indra bebia
ambrosia sempre que queria e desfrutava do serviço de cinquenta milhöes de
donzelas celestiais, as Apsaras, que dançavam em êxtase para seu prazer.
Muitos cantores,
liderados por Puspadanta, cantavam em doces vozes sem comparação. Citrasena, chefe dos músicos de Indra, estava
ali na companhia de sua esposa Malini e seu belo filho Malyavan. Uma Apsara chamada Pushpavati ficou muito
atraída por Malyavan; na verdade, as flechas pontiagudas de Cupido trespassaram
o âmago de seu coração. Seu belo corpo e
aparência, junto com os encantadores movimentos de suas sobrancelhas, cativaram
Malyavan.
ó rei, ouça enquanto
descrevo a esplêndida beleza de Pushpavati:
Ela tinha braços incomparavelmente graciosos para abraçar um homem tal como
um fino laço de seda; seu rosto assemelhava-se à lua; seus olhos de lótus
chegavam quase às suas lindas orelhas, que eram adornadas por maravilhosos
brincos; seu fino pescoço ornamentado parecia uma concha; sua cintura era muito
delgada, do tamanho de um punho; seus quadris eram largos, e suas coxas como
troncos de bananeiras; suas feiçöes naturalmente belas eram complementadas por
deslumbrantes ornamentos e vestes; seus seios eram altamente elevados; e olhar
para seus pés era como contemplar recém-brotados lótus vermelhos.
Vendo Pushpavati em
toda sua beleza celestial, Malyavan ficou imediatamente enfeitiçado. Tinham vindo com outros artistas para agradar
o Senhor Indra através do canto e dança encantadora, mas porque havia se
enamorado mutuamente, atingidos no coração pelas flechas de Cupido, a luxúria
personificada, ficaram completamente incapazes de cantar ou dançar devidamente
diante do senhor e controlador dos reinos celestiais (1). Sua pronúncia estava errada e seu ritmo
descuidado. O Senhor Indra entendeu a
fonte dos erros de imediato. Ofendido
ante a discórdia no espetáculo musical, ficou muito zangado e berrou: "Seus tolos inúteis! Fingem cantar para mim enquanto estão num
estupor de paixão mútua! Estão troçando
de mim! Amaldiçôo ambos a sofrerem como pisachas (duendes) daqui em diante. Como marido e mulher, vão para as regiöes
terrenas e colham as reaçöes de suas ofensas."
Mudos diante destas
duras palavras, Malyavan e Pushpavati imediatamente esmoreceram e caíram da
linda Floresta de Nandana no reino do céu, para um pico do Himalaia aqui no
planeta terra. Incalculavelmente angustiados, e com sua inteligência
grandemente diminuída pelos efeitos da temível maldição de Indra, perderam seu
sentido de paladar e olfato, e até mesmo seu sentido do tato. Era tão frio e miseravelmente alto nos
desertos de neve e gelo do Himalaya que nem sequer conseguiam gozar do
esquecimento do sono.
Vagando sem destino
por aqui e por ali naquelas escarpadas alturas, Malyavan e Pushpavati sofriam
mais e mais, de um momento ao outro.
Embora estivessem situados numa caverna, devido à queda da neve e o
frio, seus dentes batiam sem cessar, e seu cabelo se arrepiava de medo e
perplexidade.
Nesta situação
totalmente desesperada, Malyavan disse para Pushpavati: "Que abomináveis
pecados cometemos para termos de sofrer nestes corpos de pisacha, neste meio-ambiente impossível. Isto é absolutamente infernal! Embora o inferno seja muito bárbaro, o
sofrimento que estamos passando aqui é muito mais abominável. Portanto é abundantemente claro que jamais se
deve cometer qualquer pecado."
E assim os aflitos
amantes marchavam penosamente adiante na neve e gelo. Pela grande boa fortuna deles, entretanto,
aconteceu que naquele mesmo dia era Jaya Ekadashi, o Ekadashi da quinzena
luminosa do mês de Magha. Porque em sua
miséria deixaram de beber qualquer água, matar qualquer caça, ou mesmo comer
quaisquer frutas e folhas que estavam disponíveis àquela altura, sem saber
haviam observado Ekadashi jejuando completamente de todo alimento e
bebida. Imersos no sofrimento, Malyavan
e Pushpavati
caíram sob uma árvore
pippal e nem tentaram se levantar. O sol
havia se posto àquela altura.
A noite foi ainda mais
fria e mais desgraçada que o dia.
Tremiam na gélida nevasca enquanto seus dentes batiam em unísono, e
quando ficaram entorpecidos, abraçaram-se apenas para manter o calor. Fechados no abraço mútuo, não conseguiam
desfrutar do sono nem do sexo. Assim
sofreram pela noite toda por essa poderosa maldição de Indra.
Ainda assim, ó
Yudhishthira, pela misericórdia do jejum que por acaso haviam observado no Jaya
Ekadashi, e porque haviam permanecido acordados a noite toda, foram
abençoados. Por favor ouça o que
aconteceu no dia seguinte. Enquanto
alvorecia o Dvadashi, Malyavan e Pushpavati haviam abandonado suas formas
demoníacas e eram novamente belos seres celestiais usando ornamentos luzidios e
vestes seletas. Enquanto se olhavam
espantados, chegou um aeroplano celestial (vimana)
no local. Um côro de habitantes
celestiais cantava seus louvores enquanto o casal entrava na linda aeronave e
proseguia diretamente para as regiöes celestiais, animado pelos bons votos de
todos. Breve Malyavan e Pushpavati
chegaram a Amaravati, a capital do Senhor Indra, e então imediatamente foram
até seu senhor e lhe ofereceram alegres reverências.
O Senhor Indra ficou
espantado de ver como haviam recuperado seu estado e formas originais depois
que os havia amaldiçoado a sofrerem como demônios bem, bem abaixo do reino
celestial. Indra perguntou-lhes: "Que atos extraordinariamente meritórios
realizasteis para que pudesseis abandonar vossos corpos de pisacha tão rápido depois que vos amaldiçoei? Quem vos libertou de minha irresistível
maldição?"
Malyavan
respondeu: "ó senhor, foi pela
misericórdia da Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Vasudeva, e também pela
poderosa influência do Jaya Ekadashi, que fomos libertados de nossa condição
sofredora como pisachas. Isto é a verdade, ó senhor: Porque executamos serviço devocional ao
Senhor Vishnu observando Jaya Ekadashi, o dia que Lhe é mais querido,
felizmente recuperamos nossa posição anterior."
Indra disse: "Porque servistes o Supremo Senhor
Keshava observando Ekadashi, vos tornastes adoráveis para mim, e posso ver que
agora estais purificados do pecado. Quem
quer que se ocupe em serviço devocional ao Senhor Sri Hari ou Senhor Shiva se
torna digno de louvor e adorável até para mim.
Quanto a isso não há dúvida."
O Senhor Indra então deu para Malyavan e Pushpavati a liberdade de
poderem desfrutar um do outro e vagar por seu planeta celestial.
Portanto, ó
Yudhishthira, deve-se obervar estritamente um jejum no dia do Senhor Hari,
especialmente no Jaya Ekadashi, que liberta a pessoa do pecado de matar até
mesmo um brahmana duas vezes
nascido. Uma grande alma que observa
este jejum com plena fé e devoção de fato deu todos tipos de caridade, realizou
todos tipos de sacrifício, e tomou banho em todos lugares sagrados de
peregrinação. Jejuar no Jaya Ekadashi
qualifica a pessoa para residir em Vaikuntha e desfrutar de interminável
felicidade por bilhöes de yugas - na
verdade, para sempre. ó grande rei, quem
até mesmo ouve ou lê estas glórias do Jaya Ekadashi obtém o abençoado mérito
obtido por realizar o sacrifício Agnistoma, durante o qual são recitados hinos
do Sama-veda.
Assim termina a narrativa das glórias do Magha-sukla
Ekadashi ou Jaya Ekadashi, do Bhavishya-uttara Purana.
Notas:
(1) Kamadeva, a
luxúria personificada, tem cinco nomes segundo o dicionário Amara-kosha:
kandarpa darpako 'nanga kamah panca-sharaih smarah. "Cupido tem cinco nomes: 1. Cupido; 2. Darpaka, "aquele que
impede eventos futuros"; 3. Ananga, "aquele que não tem corpo físico;
4. Kama, "a luxúria personificada"; 5. Panca-sharaih, "aquele
que segura cinco flechas".
Kandarpa - no décimo capítulo do Bhagavad-gita 10.28, o Senhor Krishna diz: prajanah
casmi kandarpah: "Dentre as
causas da procriação, Eu sou Kandarpa".
A palavra kandarpa também
significa "muito belo".
Kandarpa apareceu como o filho de Krishna, Pradyumna, em Dvaraka.
Darpaka - este nome indica que Cupido pode perceber o
que está para acontecer e impedí-lo de ocorrer.
Especificamente, ele tenta impedir a atividade espiritual pura, atraindo
nossa mente e por força nos ocupando na gratificação material sensorial.
Ananga - Certa vez, quando Cupido perturbou a meditação do
Senhor Shiva, este poderoso semideus queimou-o até virar cinzas. Ainda assim, Shiva deu a Cupido a benção de
que poderia atuar no mundo mesmo sem um corpo físico.
Kama - No Bhagavad-gita
7.11 o Senhor Krishna diz: dharmaviruddho bhuteshu kamo 'smi,
"Eu sou a vida sexual que não é contrária aos princípios religiosos."
Panca-sharaih - As cinco flechas com as quais Cupido
trespassa a mente das entidades vivas são o paladar, tato, som, olfato e visão.
Estes são os cinco
nomes de Cupido, que encanta todas entidades vivas e as faz fazer o que ele
quer. Sem receber a misericórdia do guru e Krishna, não se pode resistir seu
poder.
7 VIJAYA
EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Senhor Sri Krishna, ó
glorioso filho de Vasudeva, por favor seja misericordioso para comigo e
descreva o Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Phalguna
(fev/mar)." O Senhor Sri Krishna
retrucou: "ó Yudhishthira, ó rei
dos reis, de bom grado contar-te-ei sobre este grande jejum, conhecido como
Vijaya Ekadashi. Quem quer que o observe
certamente obtém sucesso tanto nesta vida como na seguinte. Todos pecados de quem jejua neste Ekadashi e
ouve suas sublimes glórias são erradicados.
Narada Muni certa vez
perguntou ao Senhor Brahma, que se senta num lótus, sobre Vijaya Ekadashi. Narada disse:
"ó melhor dos semideuses, tenha a bondade de me contar que mérito
se pode obter por observar fielmente Vijaya Ekadashi."
O grande pai de Narada
respondeu: "Meu querido filho, este
mais antigo dos dias para jejuar é puro, e nulifica todos pecados. Nunca revelei isto a ninguém até hoje, mas tu
consegues compreender além de qualquer dúvida que este Ekadashi concede o
resultado indicado por seu nome. (vijaya significa "vitória")
Quando o Senhor Rama
foi exilado para a floresta por quatorze anos, Ele, a deusa Sita e Seu divino
irmão Lakshmana permaneceram em Pancavati como mendicantes. Sita foi raptada por Ravana, e Rama
aparentemente ficou desorientado pelo sofrimento. Enquanto procurava por Sua amada consorte, o
Senhor encontrou o moribundo Jatayu e depois disso matou Seu inimigo
Kabandha. O grande devoto-abutre Jatayu
retornou a Vaikuntha após contar para
Rama como Sua querida Sita fora abduzida por Ravana.
Mais tarde, Rama e
Sugriva, o rei dos macacos, ficaram amigos. (1)
Juntos reuniram um grande exército de macacos e ursos e enviaram Hanumanji
a Sri Lanka, onde foi capaz de ver Janaki, Sita-devi, num jardim de ashokas.
Transmitiu a mensagem de Rama para Ela e então retornou a Rama com o
recado Dela para Ele, assim prestando grande serviço ao Senhor Supremo.
Com a ajuda de
Sugriva, o Senhor Rama proseguiu até Sri Lanka.
Ao chegar na beira do oceano com o exército de macacos, Ele pode
entender que a água era incomumente profunda.
Assim disse para Lakshmana:
"ó filho de Sumitra, como poderemos acumular suficiente mérito para
conseguir atravessar este vasto oceano, a morada insondável de Varuna? Não consigo ver nenhuma maneira fácil para
atravessá-lo, assim cheio de tubaröes e outros peixes ferozes."
Lakshmana
respondeu: "ó melhor de todos
seres, ó origem de todos deuses, ó personalidade primordial, o grande sábio
Bakadalbhya vive numa ilha a apenas quatro milhas daqui. ó Raghava, ele viu muitos Brahmas ir e vir,
de tão idoso e sábio que é. Vamos
perguntar a ele como Nós poderemos alcançar Nossa meta em segurança."
Assim Rama e Lakshmana
seguiram até o humilde ashrama do
incomparável Bakadalbhya Muni.
Aproximando-Se dele, os dois Senhores prestaram Suas respeitosas
reverências como se fosse um segundo Vishnu.
Bakadalbhya podia compreender, entretanto, que Rama na verdade era a Suprema
Personalidade de Deus, que por Suas próprias razöes havia aparecido na terra
como um ser humano.
"ó Rama"
disse Bakadalbhya, "ó melhor dos seres humanos, porque vieste a minha
humilde morada?"
O Senhor
respondeu: "ó grande brahmana duas-vezes nascido, vim aqui
até a beira do oceano com Minha falange de macacos e ursos a fim de atravessar
o mar e conquistar Lanka e sua horda de demônios. ó maior dos sábios, por favor seja
misericordioso para Comigo e diga-Me como posso atravessar este vasto oceano. É por isso que vim até aqui hoje."
O sábio disse: "ó Senhor Rama, contarei sobre o mais
exaltado de todos jejuns, que se observado certamente fárá com que conquistes
Ravana e sejas eternamente glorificado. Tenha
a bondade de ouvir com plena atenção.
No dia antes de
Ekadashi, fabrique um pote d'água de ouro ou prata, ou até cobre. Mesmo barro servirá se estes metais não
estiverem disponíveis. Encha o pote com
água pura e então o decore bem com folhas de manga. Cubra-o e coloque-o próximo a um altar sagrado
sobre um montículo de sete grãos. (2)
Agora tome Teu banho matinal, decore o pote d'água com guirlandas de
flores e pasta de sândalo, e na tampa côncava em cima do pote, coloque cevada,
romã, e côco. Agora com grande amor e
devoção adore a Deidade no pote d'água e ofereça-Lhe incenso, pasta de sândalo,
flores, uma lamparina de ghee, e um prato de alimento suntuoso. Permaneça acordado naquela noite junto a este
pote sagrado. Em cima da tampa cheia de
cevada, etc. coloque uma murti
dourada do Senhor Narayana.
Quando Ekadashi
alvorecer, toma Teu banho matinal e então decore o pote d'água com fina pasta
de sândalo e guirlandas. Então adore o
pote com incenso de primeira qualidade, pasta de sândalo, uma lamparina de
ghee, e também coloque devotadamente muitos tipos de alimentos cozidos, romã, e
côco diante do pote d'água. Então
permaneça acordado a noite inteira.
Quando Dvadashi
alvorecer, leve o pote d'água até a margem de um rio sagrado, ou até mesmo para
a beira de uma pequena lagoa. Após
adorá-lo devidamente, ó Rei dos reis, ofereça-o com todos ingredientes
antemencionados a um brahmana perito
na ciência védica. Se Tu e Teus
comandantes militares observarem Vijaya Ekadashi desta maneira, certamente
sereis vitoriosos de qualquer maneira."
O Senhor Ramachandra,
a Suprema Personalidade de Deus, fez assim como Bakadalbhya Muni instruira, e
assim conquistou todas forças demoníacas.
Similarmente, qualquer um que observe Vijaya Ekadashi desta maneira será
sempre vitorioso neste mundo mortal, e após deixar este mundo irá residir para
sempre no reino de Deus.
ó Narada, meu filho,
por esta história podes compreender porque se deve observar este jejum de
Ekadashi corretamente, seguindo estritamente as regras e regulaçöes. Este jejum é suficientemente poderoso para
erradicar todas nossas reaçöes pecaminosas, até as mais abomináveis."
Sri Krishna
concluiu: "ó Yudhishthira,
quem
mais
bela moça na terra, e tanto o deus do sol como Indra se enamoraram dela. Um após o outro, Indra e o deus do sol vieram
até ela na forma de Gautama e tiveram sua união com ela, e Sugriva e Vali foram
o resultado, respectivamente.
A princípio, Sugriva e
Vali pareciam seres humanos, mas quando Gautama descobriu a infidelidade de sua
esposa, irado, lançou ambos meninos no oceano dizendo: "Se não forem meus filhos, que virem
macacos!" Assim viraram
macacos. Sugriva ajudou seu amigo Rama a
encontrar Sita, e em troca Rama ajudou Sugriva a recuperar seu reino de
Kishkindha do seu irmão Vali.
Com relação ao fato de
Gautama possuir uma esposa espetacularmente bela, Chanakya Pandita diz:
rnakarta pita shatruh
mata ca vyabhicarini
bharya
rupavati shatruh
putra shatruh kupanditah
"Neste mundo um
homem tem quatro inimigos: um pai que é
devedor; uma mãe que é prostituta; uma bela esposa; e um filho que não se
interessa pela ciência espiritual."
Uma bela esposa é um inimigo porque muitos outros homens serão atraídos
por ela.
(2) Os sete grãos são
cevada, trigo, arroz, milho, grão-de-bico, kukani
e dal (ou ervilhas).
8 AMALAKI
EKADASHI
O Rei Mandhata certa
vez disse para Vasishtha Muni: "ó
grande sábio, por bondade, seja misericordioso para comigo e conta-me sobre um
jejum sagrado que me beneficiará eternamente."
Vasishtha Muni
respondeu: "ó rei, tenha a bondade de ouvir enquanto descrevo o melhor de
todos dias de jejum, Amalaki Ekadashi.
Aquele que observa fielmente um jejum neste Ekadashi obtém enorme opulência,
livra-se dos efeitos de todo tipo de pecados, e obtém liberação. Jejuar neste Ekadashi é mais purificante que
doar mil vacas em caridade a um brahmana
puro. Portanto por favor me escute
atentamente enquanto conto a história do caçador que, embora diariamente
ocupado em matar animais inocentes para ganhar a vida, obteve liberação por
observar um jejum no Amalaki Ekadashi e seguir as regras e regulaçöes de
adoração prescritas.
Uma vez havia um reino
chamado Vaidisha, onde todos brahmanas,
kshatriyas, vaishyas e shudras
eram igualmente dotados de conhecimento védico, grande força corpórea, e
refinada inteligência. ó leão entre os
reis, o reino inteiro estava cheio de sons védicos, nem uma só pessoa era
ateísta, e ninguém pecava. O governante
deste reino era o Rei Pashabinduka, um membro da dinastia de Soma, a lua. Ele também era conhecido como Citraratha e
era muito religioso e veraz. Dizem que o
Rei Citraratha tinha a força de dez mil elefantes e que era muito rico e
conhecia os seis ramos da sabedoria védica perfeitamente. (1)
Durante o reino de
Maharaja Citraratha, nem uma só pessoa em seu reino tentou praticar o dharma (dever) de outra, tão
perfeitamente ocupados em seus próprios dharmas
estavam todos brahmanas, kshatriyas,
vaishyas e shudras. Não se viam nem miseráveis nem pobretöes pelo
reino afora, e nem havia seca ou inundação.
Na verdade, o reino estava livre de doenças, e todos gozavam de boa
saúde. As pessoas prestavam serviço
devocional amoroso à Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Vishnu, assim como
fazia o rei, que também prestava serviço especial ao Senhor Shiva. Além do mais, duas vezes por mês todos
jejuavam no Ekadashi.
Desta maneira, ó
melhor dos reis, os cidadãos de Vaidisha viviam muitos e longos anos em grande
felicidade e prosperidade. Abandonando
todas variedades de religião materialista, dedicavam-se completamente ao
serviço amoroso ao Senhor Supremo, Hari.
Uma vez, no mês de
Phalguna, veio o sagrado jejum de Amalaki Ekadashi junto com Dvadashi. O Rei Citraratha realizou que este jejum em
particular concederia benefício especialmente grande, e portanto ele e todos
cidadãos de Vaidisha observaram este sagrado Ekadashi mui estritamente,
seguindo cuidadosamente todas regras e regulaçöes.
Após banhar-se num
rio, o rei e todos seus súditos foram ao templo do Senhor Vishnu, onde crescia
uma árvore Amalaki. Primeiro o rei e
seus principais sábios ofereceram à árvore um pote cheio d'água, bem como um
belo dossel, calçados, ouro, diamantes, rubis, pérolas, safiras, e incenso aromático. Então adoraram o Senhor Parashurama com estas
oraçöes: "ó Senhor Parashurama, ó
filho de Renuka, ó ser que agrada a todos, ó libertador de todos mundos, por
bondade venha para baixo desta sagrada árvore Amalaki e aceite nossas humildes
reverências." Então oraram à árvore
Amalaki: "ó Amalaki, ó filha do
Senhor Brahma, tu podes destruir todos tipos de reaçöes pecaminosas. Por favor aceite nossas respeitosas
reverências e estas humildes dádivas. ó
Amalaki, és na verdade a forma do Brahman, e uma vez foste adorada pelo próprio
Senhor Ramachandra. Quem quer que te
circumambule portanto imediatamente é libertado de todos seus pecados."
Após oferecer estas
excelentes oraçöes, o Rei Citraratha e seus súditos permaneceram acordados durante
toda a noite, orando e adorando segundo as regulaçöes que governam um sagrado
jejum de Ekadashi. Foi durante esta
ocasião auspiciosa de jejum e oração que um homem mui irreligioso se aproximou
da assembléia, um homem que mantinha a si e a sua família matando animais. Oprimido pela fadiga e pecado, o caçador viu
o rei e os cidadãos de Vaidisha observando Amalaki Ekadasi realizando uma
vigília a noite toda, jejuando e adorando o Senhor Vishnu no lindo cenário da
floresta, que estava brilhantemente iluminada por muitas lâmpadas. O caçador escondeu-se pertinho, desejando
saber que seria esta extraordinária cena diante dele. "O que está acontecendo aqui?"
pensava. O que viu naquela maravilhosa floresta sob aquela
sagrada árvore Amalaki foi a Deidade do Senhor Damodara sendo adorada sobre a asana do pote d'água, e o que ouviu eram
devotos cantando cançöes sagradas descrevendo as formas e passatempos
transcendentais do Senhor Sri Krishna. Esquecendo-se de si, este ferrenho
assassino irreligioso de inocentes aves e animais passou a noite inteira em
grande espanto enquanto observava a celebração de Ekadashi e ouvia a
glorificação do Senhor.
Logo após o alvorecer,
o rei e seu séquito real - inclusive os sábios ca corte e todos cidadãos -
completaram sua observância de Ekadashi e retornaram à cidade de Vaidisha. O caçador então retornou a sua cabana e comeu
alegre sua refeição. No devido tempo o
caçador morreu, porém o mérito que acumulara por jejuar no Amalaki Ekadashi e
ouvir a glorificação da Suprema Personalidade de Deus, bem como por ser forçado
a ficar acordado a noite toda, tornaram-no qualificado a renascer como um
grande rei com muitas quadrigas, elefantes, cavalos, e soldados. Seu nome era Vasuratha, o filho do Rei
Viduratha, e governava o reino de Jayanti.
O Rei Vasuratha era
forte e destemido, refulgente como o sol, e tão belo como a lua. Em força era como Vishnu, e em matéria de
perdão, tal como a própria terra. Muito
caridoso e sempre veraz, o Rei Vasuratha sempre prestava serviço devocional
amoroso ao Supremo Senhor Sri Vishnu.
Por isso, tornou-se muito bem versado no conhecimento védico. Sempre ativo nos assuntos do estado, gostava
de cuidar muito bem de seus súditos, como se fossem seus próprios filhos. Não gostava que ninguém fosse orgulhoso e
costumava esmagá-lo quando o via.
Realizou muitos tipos de sacrifícios, e sempre certificava-se que os
necessitados de seu reino recebessem suficiente caridade.
Certo dia, enquanto
caçava na selva, o Rei Vasuratha desgarrou-se da trilha e perdeu o
caminho. Vagando durante algum tempo e
eventualmente ficando cansado, fez uma pausa sob uma árvore e, usando seus
braços como travesseiros, caiu no sono.
Enquanto dormia, selvagens bárbaros de uma tribo encontraram-no e,
lembrando de sua inimizade já de longa data para com o rei, começaram a
discutir entre si várias maneiras de matá-lo.
"É porque ele matou nossos pais, mães, cunhados, netos, sobrinhos e
tios que somos forçados a vagar sem rumo como um bando de loucos." Dizendo isto, prepararam-se para matar o Rei
Vasuratha com várias armas, inclusive lanças, espadas, flechas e cordas
místicas.
Mas nenhuma destas
armas mortais conseguia nem mesmo tocar o rei adormecido, e em breve a
incivilizada tribo comedora-de-cães ficou temerosa. O medo consumiu-lhes a força, e logo perderam
o pouco de inteligência que tinham e ficaram quase inconscientes pela
desorientação e fraqueza. De repente uma
linda mulher apareceu do corpo do rei, assustando os aborígenes. Decorada com muitos ornamentos, emitindo uma
fragrância maravilhosa, usando uma excelente guirlanda em redor do pescoço,
suas sobrancelhas franzidas numa expressão de ira feroz, e seus fogosos olhos
vermelhos luzindo, parecia a própria morte personificada. Com sua chamejante chakra rapidamente ela matou todos caçadores tribais, que haviam
tentado assassinar o rei adormecido.
Bem naquele momento o
rei acordou, e vendo toda tribo morta ao redor dele, ficou espantado. Perguntava-se: "Esses são todos grandes inimigos meus! Quem os matou tão violentamente? Quem é meu grande benfeitor?"
Nesse mesmo momento
ouviu uma voz do céu: "Perguntas
quem te ajudou. Bem, quem é aquela
pessoa que só ela pode auxiliar qualquer um atormentado? Não é outro senão Sri Keshava, a Suprema
Personalidade de Deus, Aquele que salva todos que se refugiam Nele sem qualquer
motivo egoísta."
Ao ouvir estas
palavras, o Rei Vasuratha foi tomado de amor pela Suprema Personalidade de
Deus. Retornou a sua capital e governou
ali como um segundo Indra, sem quaisquer obstáculos.
"Portanto, ó Rei
Mandhata" o venerável Vasishtha Muni concluiu, "quem observa o
sagrado Amalaki Ekadashi indubitavelmente alcançará a suprema morada do Senhor
Vishnu, tão grande é o mérito religioso obtido por observar este mais sagrado
dia de jejum."
Assim termina a narrativa das glórias do Phalguna-sukla
Ekadashi ou Amalaki Ekadashi, do Brahmanda Purana.
Notas:
(1) Os seis ramos da
sabedoria védica são: 1. O sistema
Karma-mimamsa de Jaimini; 2. O sistema Sankhya do Senhor Kapila, filho de
Devahuti; 3. Filosofia Nyaya de Gautama e Kamada; 4. Filosofia Mayavada de
Ashtavakra; 5. Yoga-sutra de Patanjali, e 6. Filosofia Bhagavata de Srila
Vyasadeva.
9 PAPAMOCANI
EKADASI
Yudhisthira Maharaja
disse: "ó Senhor Supremo, ouvi de Ti
a explicação sobre Amalaki Ekadasi, que ocorre durante a quinzena do mês
Phalguna (fev/mar), e agora desejo ouvir sobre o Ekadasi que ocorre durante a
quinzena obscura do mês Caitra (mar/abr).
Qual é seu nome, ó Senhor, e que resultados pode-se obter por
praticá-lo?"
A Suprema
Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna, replicou: "ó melhor dos reis, para benefício de
todos com prazer descrever-te-ei as glórias desse Ekadasi, que é conhecido como
Papamocani. A história desse Ekadasi
certa vez foi narrada ao imperador Mandhata por Lomasa Rishi. O Rei Mandhata dirigiu-se ao rishi:
"ó grande sábio, para beneficiar o povo todo, por favor conte-me o
nome do Ekadasi que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Caitra, e por
favor explique o processo para observá-lo.
E ainda, por favor descreva os benefícios que se aufere por observar
este Ekadasi."
Lomasa Rishi
replicou: "O Ekadasi que ocorre
durante a metade obscura do mês de Caitra se chama Papamocani Ekadasi. Para os devotos fiéis remove as influências
de fantasmas e demônios. ó leão dentre
os homens, este Ekadasi também confere as oito perfeiçöes da vida, realiza todo
tipo de desejos, purifica nossa vida de todas reaçöes pecaminosas, e torna a
pessoa perfeitamente virtuosa.
Agora por favor ouça o
relato histórico referente a esse Ekadasi e Citraratha, o chefe dos Gandharvas
(músicos celestiais). Durante a estação
primaveril, na companhia de dançarinas, Citraratha certa vez acho uma linda
floresta cheia de grande variedade de flores desbrochando. Ali ele e as garotas juntaram-se a outros
Gandharvas e muitos Kinnaras, além do próprio Senhor Indra, o rei do céu, que
estava desfrutando de uma visita por lá.
Todos acharam que não havia jardim melhor que essa floresta. Muitos sábios também estavam presentes,
realizando suas austeridades e penitências.
Os semideuses particularmente gostavam de visitar esse jardim celestial
durante os meses de Caitra e Vaisakha (abr/mai).
Um grande sábio
chamado Medhavi residia ali naquela floresta, e as dançarinas muito atraentes
sempre tentavam seduzí-lo. Certa moça
famosa em particular, chamada Manjughosha, concebia muitas maneiras de atrair o
exaltado muni, porém por grande
respeito pelo sábio e medo de seu poder, que fora obtido durante muitos e
muitos anos de ascese, ela não se aproximava muito dele. Num lugar a duas milhas do sábio, armou uma
barraca e começou a cantar muito docemente enquanto tocava uma tamboura. O próprio Cupido ficou excitado quando viu e
ouviu-a tocar tão bem e sentiu a fragância de seu unguento de pasta de
sândalo. Lembrou de sua própria
experiência mal-afortunada com o Senhor Shiva e decidiu se vingar seduzindo
Medhavi. (1)
Usando as
sombrancelhas de Manjughosha como arco, seus olhares como corda, e seus olhos
como flechas, e seus seios como mira, Cupido aproximou-se de Medhavi a fim de
tentá-lo a quebrar seu transe e seus votos.
Em outras palavras, Cupido ocupou Manjughosha como sua assistente, e
quando esta olhou para aquele jovem sábio poderoso e atraente, ela também ficou
agitada pela luxúria. Vendo que ele era
altamente inteligente e erudito, vestido que estava com um cordão de brahmana branco e limpo drapeado sobre
seu ombro, segurando o bastão de sannyasi,
e atraentemente sentado no ashrama de
Cyavana Rishi, Manjughosha veio para diante dele.
Começou a cantar
sedutoramente, e os sininhos de seu cinto e das tornozeleiras, junto com os
braceletes em seus pulsos, produziam uma sinfonia musical encantadora. O sábio Medhavi ficou encantado. Compreendeu que essa bela jovem desejava
unir-se com ele, e naquele instante Cupido aumentou sua atração por Manjughosha
ao soltar suas poderosas armas de sabor, toque, visão, aroma e som.
Lentamente Manjughosha
aproximou-se de Medhavi, seus movimentos corpóreos e doces olhares
atraindo-o. Graciosamente depositou sua tamboura e abraçou o sábio com seus dois
braços, assim como uma liana se enrosca ao redor de uma árvore forte. Cativado, Medhavi abandonou sua meditação e
decidiu desfrutar com ela - e instantâneamente sua pureza de coração e mente abandonaram-no. Esquecendo-se da diferença entre a noite e o
dia, foi com ela para desfrutar durante longo, longo tempo. (2)
Vendo que a santidade
do jovem yogui tinha se erodido
seriamente, Manjughosha decidiu abandoná-lo e retornar a casa. Disse ela:
"ó grande sábio, por favor permita-me retornar para casa."
Medhavi retrucou: "Mas apenas chegaste, ó lindeza, por
favor fica comigo pelo menos até amanhã."
Temerosa dos poderes yoguicos do sábio, Manjughosha ficou com
Medhavi durante precisamente cinquenta e sete anos, nove meses, e três dias,
mas para Medhavi todo esse tempo parecia como um momento. Novamente ela perguntou-lhe: "Por favor permita-me ir embora."
Medhavi
respondeu: "ó querida,
ouça-me. Fique por mais uma noite
apenas, e então poderá ir embora amanhã de manhã. Só fique até depois que eu tiver realizado
meus deveres matinais e cantado o sagrado Gayatri mantra. Por favor espera até
lá."
Manjughosha ainda
estava temerosa pelos grandes poderes yoguicos
do sábio, mas forçou um sorriso e disse:
"Quanto tempo levará para terminar seus rituais e hinos
matinais? Por favor seja misericordioso
e pense em todo tempo que já passaste comigo."
O sábio refletiu nos
anos em que estivera com Manjughosha e então falou muito espantado: "Pudera, passei mais que cinquenta e
sete anos contigo!" Seus olhos
ficaram vermelhos e começaram a emanar faíscas.
Agora ele enxergava Manjughosha como a morte personificada e destruidora
de sua vida espiritual. "Mulher
velhaca! Transformaste todos resultados
duramente obtidos de minhas austeridades em cinzas!" Tremendo de ira, amaldicoou Manjughosha: "ó pecaminosa, ó degradada de coração de
pedra! Só conheces o pecado! Que todos destinos terríveis sejam para
ti! ó mulher velhaca, te amaldiçôo a te
tornares um malvado duende pisaca!"
Amaldiçoada pelo sábio
Medhavi, a bela Manjughosha humildemente implorou: "ó melhor dos brahmanas, por favor seja misericordioso para comigo e revogue
minha maldição! ó grande sábio, dizem
que a associação com devotos puros dá resultados imediatos mas suas maldiçöes
só tem efeito após sete dias. Estive
contigo durante cinquenta e sete anos. ó
mestre, por favor seja bondoso para comigo!"
Medhavi Muni
respondeu: "ó gentil senhora, que poderei fazer? Destruíste todas minhas austeridades. Mas embora tenhas realizado esse ato
pecaminoso, vou contar-te uma maneira de libertar-te de minha ira. Na quinzena obscura do mês Caitra há um
Ekadasi totalmente auspicioso que remove todos nossos pecados. Seu nome é
Papamocani Ekadasi, ó bela, e quem quer que jejue nesse sagrado dia se torna
completamente livre de ter de renascer em qualquer das formas demoníacas."
Com essas palavras, o
sábio partiu imediatamente para o ashram
de seu pai. Vendo-o entrar no eremitério,
Cyavana Muni disse: "ó filho, por
ter agido desregradamente desperdiçaste a fortuna de tuas penitências e
austeridades."
Medhavi replicou: "ó Pai, bondosamente revele que expiação
devo realizar para remover esse pecado obnóxio que incorri por associar-me na
privacidade com a dançarina Manjughosha."
Cyavana Muni
respondeu: "Querido filho, deves
jejuar no Papamocani Ekadasi, que ocorre durante a quinzena obscura do mês de
Caitra. Ele erradica todos pecados, não
importa quão graves possam ser."
Medhavi seguiu o
conselho de seu pai e jejuou no Papamocani Ekadasi. Assim todos seus pecados foram destruídos e
ele se encheu de excelente mérito novamente.
Similarmente, Manjughosha observou o mesmo jejum e ficou livre da
maldição de virar duende. Ascendendo
novamente às esferas celestiais, também ela retornou a sua posição
anterior."
Lomasa Rishi
continuou: "Assim, ó rei, o grande
benefício de jejuar no Papamocani Ekadasi é que quem assim fizer com fé e
devoção, terá todos seus pecados completamente destruídos."
Sri Krishna
concluiu: "ó Rei Yudhisthira, quem
quer que ler ou ouvir sobre Papamocani Ekadasi obtém o mesmo mérito que
receberia se doasse mil vacas como caridade, e também nulifica as reaçöes
pecaminosas que possa ter acumulado por matar um brahmana, matar um embrião por meio de aborto, beber álcool, ou
fazer sexo com a esposa do guru. Tal é o incalculável benefício de se observar
corretamente esse sagrado dia de Papamocani Ekadasi, que Me é tão caro e é tão
cheio de mérito.
Assim termina a narrativa das glórias de Caitra-krsna
Ekadasi, ou Papamocani Ekadasi, conforme aparece no Bhavisya-uttara
Purana.
Notas:
(1) Depois que o Senhor Shiva perdera sua querida
esposa Sati na arena sacrificial de Prajapati Daksha, Shiva destruiu a arena
inteira. Então trouxe de volta à vida
seu sogro Daksha, dando-lhe uma cabeça de bode, e finalmente sentou-se para
meditar durante sessenta mil anos. O
Senhor Brahma, entretanto, arranjou para que Kamadeva (Cupido) viesse e
interrompesse a meditação de Shiva.
Usando suas flechas de som, sabor, toque, visão e aroma, Cupido atacou
Shiva, que afinal acordou de seu transe.
Ficou tão irado por ter sido perturbado que instantâneamente queimou
Cupido até virar cinzas, com apenas um olhar de seu terceiro olho.
(2) Associação
feminina é tão poderosa que um homem esquece do tempo, energia, bens e mesmo da
própria identidade. Como se fala no
Niti-shastra: striya caritram purusasya bhabhyam daivo vijanati kuto manusyah -
"Mesmo os semideuses não conseguem prever o comportamento de uma
mulher. Tampouco conseguem compreender a
fortuna de um homem ou como esta determinará seu destino."
Segundo Yajnavalkya
Muni: "Uma (pessoa celibatária) que
deseja vida espiritual deve abandonar toda associação com mulheres, incluindo
pensar nelas, vê-las, falar com elas em local solitário, aceitar serviço delas,
ou manter relaçöes sexuais com elas."
10 KAMADA
EKADASHI
Srila Suta Goswami
disse: "ó sábios, permitam que eu
ofereça minhas humildes e respeitosas reverências ao Supremo Senhor Hari,
Bhagavan Sri Krishna, o filho de Devaki e Vasudeva, por cuja misericórdia posso
descrever o dia de jejum que remove todos tipos de pecados. Foi para o devotado Yudhishthira que o Senhor
Krishna glorificou os vinte e quatro Ekadashis primários, que destroem pecado,
e agora vou recontar uma dessas narrativas para vós. Grandes sábios eruditos selecionaram estas
vinte e quatro narrativas dos dezoito Puranas, pois são realmente sublimes.
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Senhor Krishna, ó
Vasudeva, por favor aceite minhas humildes reverências. Por favor descreva para mim o Ekadashi que
ocorre durante a parte iluminada do mês de Chaitra (mar/abr). Qual é seu nome e quais são suas glórias?"
O Senhor Sri Krishna
respondeu: "ó Yudhishthira, por
favor ouça-Me atentamente enquanto relato a antiga história deste sagrado
Ekadashi, uma história que Vasishtha Muni certa vez relatou para o Rei Dilipa,
o bisavô do Senhor Ramachandra.
O Rei Dilipa perguntou
ao grande sábio Vasishtha: "ó brahmana sábio, desejo ouvir sobre o
Ekadashi que vem durante a parte iluminada do mês de Caitra. Por favor descreva-o para mim."
Vasishtha Muni
respondeu: "ó rei, tua indagação é
gloriosa. De bom grado contarei o que
desejas saber. O Ekadashi que ocorre
durante a quinzena clara de Caitra é chamado Kamada Ekadashi. Ele consome todos pecados, assim como um
incêndio florestal consome um suprimento de lenha seca. É muito purificante, e confere o mais alto
mérito a quem o observa fielmente. ó
rei, agora ouça uma antiga história, que é tão meritória que remove todos
nossos pecados simplesmente por ser ouvida.
Uma vez, há muito
tempo atrás, existia uma cidade-estado chamada Ratnapura, que era decorada por
ouro e jóias e na qual serpentes de afiadas presas desfrutavam da
intoxicação. O Rei Pundarika era o
governante deste mais belo reino, que contava com muitos Gandharvas, Kinnaras,
e Apsaras entre seus cidadãos.
Entre os Gandharvas
havia Lalita e sua esposa Lalitã, que era uma dançarina especialmente
maravilhosa. Estes dois tinham intensa
atração um pelo outro, e seu lar era cheio de grande riqueza e finos
alimentos. Lalitã amava seu marido
muito, e por sua vez ele também constantemente pensava nela em seu coração.
Uma vez, na corte do
Rei Pundarika, muitos Gandharvas estavam dançando e Lalita estava cantando
sozinho, sem sua esposa. Não pode evitar
de pensar nela enquanto cantava, e por essa distração perdeu-se na métrica e melodia
da canção. De fato, Lalita cantou
indevidamente o final de sua canção, e uma das serpentes invejosas que estava
presente na corte do rei queixou-se ao rei que Lalita estava absorto em pensar
na sua esposa em vez de no seu soberano.
O rei ficou furioso ao ouvir isso, e seus olhos ficaram vermelhos de
raiva. De repente ele berrou: "ó tolo valete, porque estavas pensando
luxuriosamente numa mulher em vez de pensar reverentemente em teu rei enquanto
realizavas teus deveres reais, eu te amaldiçôo imediatamente a virares um canibal!"
ó rei, Lalita
imediatamente virou um temível canibal, um grande demônio comedor de gente,
cuja aparência aterrorizava todo mundo.
Seus braços tinham oito milhas de comprimento, sua boca era grande como
uma enorme caverna, seus olhos eram imponentes como o sol e a lua, suas narinas
assemelhavam-se a enormes fossos na terra, seu pescoço era uma verdadeira
montanha, seus quadris tinham quatro milhas de largura, e seu corpo gigantesco
media sessenta e quatro milhas de altura.
Assim o pobre Lalita, o amoroso cantor Gandharva, teve que sofrer a
reação de sua ofensa contra o Rei Pundarika.
Vendo seu marido
sofrendo como um horrível canibal, Lalitã foi tomada de tristeza. Pensava:
"Agora que meu querido marido está sofrendo os efeitos da maldição
do rei, que será de mim? Que devo
fazer? Para onde devo ir? Desse modo Lalitã lamentava dia e noite. Em vez de gozar da vida como uma esposa de
Gandharva, ela tinha que vagar por toda selva densa com seu monstruoso marido,
que caíra completamente sob o encanto da maldição do rei e estava inteiramente
ocupado em terríveis atividades pecaminosas.
Ele perambulava vacilante pelas regiöes inóspitas, um ex-semideus
Gandharva belo, agora reduzido a um comportamento fantasmagórico de comedor de
gente. Totalmente transtornada ao ver
seu querido marido sofrer tanto em sua horrorosa condição, Lalitã começou a
chorar enquanto seguia sua louca jornada.
Por boa fortuna,
entretanto, Lalitã em certo dia encontrou o sábio Shringi. Estava sentado num pico da famosa Colina Vindhyacala. Aproximando-se dele, imediatamente ela
ofereceu ao asceta suas respeitosas reverências. O sábio notou-a curvando-se diante dele e
disse: "ó mais bela, quem és? De quem és filha, e porque vieste até
aqui? Por favor conta-me tudo de
verdade."
Lalitã respondeu: "ó grande sábio, sou filha do grande
Gandharva Viradhanva, e meu nome é Lalitã.
Vago pelas florestas e planícies com meu querido marido, que o Rei
Pundarika amaldiçôou a se tornar um demônio comedor de gente. ó brahmana,
estou grandemente aflita por ver sua forma feroz e atividades terrívelmente
pecaminosas. ó mestre, por favor
conta-me como poderei realizar algum ato de expiação em prol de meu marido. Que ato piedoso poderei fazer para libertá-lo
de sua forma demoníaca, ó melhor dos brahmanas?"
O sábio respondeu:
"ó donzela celestial, existe um Ekadashi chamado Kamada que ocorre na
quinzena luminosa do mês de Caitra. Está
chegando em breve. Se observares este
jejum de Ekadashi de acordo com suas
regras e regulaçöes e deres o mérito que assim acumulares a teu marido, ele
será liberto da maldição de imediato."
Lalitã ficou muito contente ao ouvir estas palavras do sábio.
Lalitã observou
fielmente o jejum de Kamada Ekadashi segundo as instruçöes do sábio Shringi, e
no Dvadashi el
lo cantor celestial adornado com
muitos ornamentos lindos. Agora, com sua
esposa Lalitã, ele podia desfrutar de mais opulência que antes. Tudo isso se dera pelo poder e glória do
Kamada Ekadashi. Afinal o casal
Gandharva embarcou num aeroplano celestial e ascendeu ao céu."
O Senhor Sri Krishna
continuou: "ó Yudhishthira, melhor
dos reis, quem quer que ouça esta maravilhosa narrativa deve certamente
observar o sagrado Kamada Ekadashi ao melhor de sua capacidade, por conceder
mérito tão grande ao devoto fiel.
Portanto descrevi suas glórias para ti em benefício de toda
humanidade. Não há Ekadashi melhor que
Kamada Ekadashi. Ele pode erradicar até
mesmo o pecado de matar um brahmana,
e também nulifica maldiçöes demoníacas e limpa a consciência. Em todos três mundos, entre as entidades
móveis e imóveis, não existe dia melhor."
Assim termina a narrativa das glórias de Caitra-sukla
Ekadasi, ou Kamada Ekadasi, conforme aparece no Varaha Purana.
11 VARUTHINI
EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Vasudeva, ofereço minhas
mais humildes reverências a Ti. Por
favor agora descreva o Ekadashi da quinzena obscura do mês de Vaisakha
(abr/mai), inclusive seus méritos e influência específicos." O Senhor Sri
Krishna respondeu: "ó rei, neste
mundo e no próximo, o mais auspicioso e magnânimo Ekadashi é Varuthini
Ekadashi, que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Vaisakha. Quem quer que observe um jejum completo neste
dia sagrado tem seus pecados completamente removidos, obtém felicidade
contínua, e consegue toda boa fortuna.
Jejuar no Varuthini Ekadashi torna afortunada até mesmo uma mulher
desafortunada. Este Ekadashi concede a
qualquer um que o observe, o desfrute material nesta vida e liberação após a
morte. Destrói os pecados de todos e
salva as pessoas das misérias do renascimento.
Por observar este
Ekadashi devidamente, o Rei Mandhata foi liberado. Muitos outros reis também se beneficiaram por
observá-lo - reis como Maharaja Dhundhumara, na dinastia Iksvaku, que se tornou
livre da lepra advinda de uma maldição que o
Senhor Shiva lhe impusera como punição.
Qualquer mérito que se obtenha por realizar austeridades e penitências
durante dez mil anos é alcançado por uma pessoa que observa Varuthini
Ekadashi. O mérito obtido por doar
grande quantidade de ouro durante um eclipse solar em Kurukshetra é acumulado
por quem observa este jejum de Ekadashi.
De fato, aquele que observa este único Ekadashi com amor e devoção
certamente obtém suas metas nesta vida e na próxima. Em resumo, este Ekadashi é puro e muito
vivificante e é um destruidor de todos pecados.
Melhor que dar cavalos
em caridade é dar elefantes, e melhor que dar elefantes é dar terra. Mas melhor que dar terra é dar sementes de
gergelim, e melhor que dar isto é dar ouro.
Ainda melhor que dar ouro é dar grãos alimentícios, pois todos
antepassados, semideuses, e seres humanos ficam satisfeitos por comer
grãos. Assim não há melhor caridade que
esta no passado, presente, ou futuro. (1)
Contudo sábios eruditos tem declarado que dar uma jovem em casamento a
uma pessoa digna é igual a dar grãos alimentícios. Além do mais, Sri Krishna, a Suprema
Personalidade de Deus, disse que dar vacas em caridade é igual até mesmo a dar
grãos alimentícios. Ainda melhor que todas
essas caridades é ensinar conhecimento espiritual aos ignorantes. Contudo todos méritos que se pode obter por
realizar todos esses atos de caridade são obtidos por alguém que jejua no
Varuthini Ekadashi.
Quem vive dos bens de
suas filhas sofre uma condição infernal até a inundação do universo inteiro, ó
Bharata. Portanto devemos ter cuidado
especial em não usar os bens de nossa filha. ó melhor dos reis, qualquer
chefe-de-família que pegue os bens de sua filha por cobiça, que tenta vender
sua filha ou aceita dinheiro do homem a quem deu sua filha em casamento - tal
chefe-de-família se torna um reles gato em sua próxima vida. Portanto é dito que quem quer que, como
sagrado ato de caridade, dá em casamento uma donzela decorada com vários
ornamentos, e que também dá um dote com ela, obtém mérito que não pode ser
descrito nem por Citragupta, o principal secretário de Yamaraja nos planetas
celestiais. Este mesmo mérito, contudo,
pode facilmente ser obtido por quem jejua no Varuthini Ekadashi.
As seguintes coisas
devem ser deixadas no Dashami, o dia antes do Ekadashi: comer em pratos de metal de sino; comer
qualquer tipo de urad dal, comer
lentilhas vermelhas, grão-de-bico, kondo
(2), espinafre, mel, comer em casa de outrem, comer mais que uma vez, e sexo. No próprio Ekadashi se deve abandonar o
seguinte: jogatina, esportes, dormir
durante o dia, noz de betel e sua folha, escovar os dentes, espalhar rumores,
encontrar erros, falar com os espiritualmente caídos, ira e mentir. No Dvadashi, o dia após Ekadashi, se deve
deixar o seguinte: comer em pratos de
metal de sino, comer urad dal,
lentilhas vermelhas, ou mel, comer mais
que uma vez, sexo, barbear-se, passar óleo no corpo, e comer na casa de
outrem."
O Senhor Sri Krishna
continuou: "Quem quer que observe
Varuthini Ekadashi desta maneira se torna livre de todas reaçöes pecaminosas e
retorna para a morada espiritual eterna.
Quem adora o Senhor Janardana neste Ekadashi ficando acordado noite
afora, também se torna livre de todos seus pecados e obtém a morada
espiritual. Portanto, ó rei, aquele que
tem medo de seus pecados e suas reaçöes concomitantes, e portanto da própria
morte, deve observar Varuthini Ekadashi jejuando mui estritamente. Finalmente, ó nobre Yudhishthira, aquele que
ouve ou lê esta glorificação do sagrado Varuthini Ekadashi, obtém o mérito
alcançado por doar mil vacas em caridade, e afinal retorna ao lar, a morada do
Senhor Vishnu."
Assim termina a narrativa das glórias de Vaisakha-krsna
Ekadasi, ou Varuthini Ekadasi, do Bhavisya-uttara Purana.
Notas:
(1) Doar grãos em caridade é muito
auspicioso. Certa vez, Yudhishthira
Maharaja perguntou ao Senhor Sri Krishna:
"ó meu Senhor, alguém pode ir para o céu sem realizar sacrifício ou
submeter-se a austeridade?" O Senhor
Krishna respondeu"
annadau jaladas caiva
aturas ca cikitsakah
trividham svargam ayati
vina yajnena bharatah
"ó filho de
Bharata, quem quer que dê grãos alimentícios, água potável, ou remédio aos
necessitados, vai para o céu sem realizar qualquer sacrifício ou submeter-se a
qualquer austeridade." (Mahabharata)
Também, Krishna
declara no Bhagavad-gita 3.14: annad
bhavanti bhutani: "Todos seres
subsistem de grãos alimentícios".
Portanto a dádiva de grãos alimentícios é dito ser a caridade
máxima. Além do mais, se o alimento é prasadam, comestíveis santificados
preparados para e oferecidos ao Senhor Krishna com devoção, então isto confere
ao recebedor liberação deste mundo material.
2. Kondo é um grão comido primariamente
pelas pessoas pobres. Parece semente de
papoula.
12 MOHINI
EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Janardana, qual é o nome
do Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara do mês de Vaisakha
(abr/mai)? Qual é o processo para
observá-lo corretamente? Tenha a bondade de narrar tudo isso para mim."
O Senhor Sri Krishna
respondeu: "ó abençoado filho de
Dharma, o que Vasishtha Muni certa vez falou para o Senhor Ramachandra agora
irei descrever para ti. Por favor
ouça-Me atentamente.
O Senhor Ramachandra
perguntou a Vasishtha Muni: "ó
grande sábio, gostaria de ouvir sobre o melhor de todos dias de jejum - aquele
dia que destrói todos tipos de pecado e sofrimento. Sofri tempo bastante em separação de Minha
querida Sita, e assim desejo ouvir de ti sobre como Meu sofrimento pode ser
terminado."
O sábio Vasishtha
respondeu: "ó Senhor Rama, cuja
inteligência é tão aguda, simplesmente por lembrar de Teu nome se pode atravessar
o oceano deste mundo material.
Perguntaste-me a fim de beneficiar toda humanidade e realizar os desejos
de todos. Agora descreverei aquele dia
de jejum que purifica o mundo inteiro.
ó Rama, aquele dia é
Vaisakha-sukla Ekadashi, que cai no Dvadashi.
Ele remove todos pecados e é famoso como Mohini Ekadashi. (3) Em verdade, ó Rama, o mérito deste Ekadashi
liberta da rede da ilusão a alma afortunada que o observa. Portanto, se quiseres aliviar Teu sofrimento,
observa este auspicioso Ekadashi perfeitamente, pois ele remove todos
obstáculos do nosso caminho e alivia as maiores misérias. Tenha a bondade de ouvir enquanto descrevo
suas glórias, porque até para quem apenas ouve sobre este auspicioso Ekadashi
os maiores pecados são nulificados.
Nas margens do Rio
Sarasvati uma vez havia uma linda cidade chamada Bhadravati, que era governada
pelo Rei Dyutiman. ó Rama, aquele rei
constante, veraz, e altamente inteligente nascera na dinastia da lua. Em seu reino havia um mercador chamado
Dhanapala, que possuia grande riqueza em grãos alimentícios e dinheiro. Era também muito piedoso. Dhanapala providenciou para que fossem
escavados lagos, construidas arenas sacrificiais, e belos jardins cultivados
para o benefício de todos cidadãos de Bhadravati. Era um excelente devoto de Vishnu e tinha
cinco filhos: Sumana, Dyutiman, Medhavi,
Sukrti, e Dhrshtabuddhi.
Infelizmente, seu
filho Dhrshtabuddhi sempre se ocupava em atividades muito pecaminosas, tais como
dormir com prostitutas e se associar com pessoas degradadas. Desfrutava de sexo ilícito, jogatina, e
muitas outras variedades de gratificação sensorial. Desrespeitava os semideuses, brahmanas, antepassados e outros
anciãos, e os hóspedes da família. O
malévolo Dhrshtabuddhi gastou a fortuna do pai indiscriminadamente, sempre
banqueteando-se com alimentos intocáveis e bebendo vinho em excesso.
Certo dia Dhanapala
chutou Dhrshtabhuddhi para fora de casa depois de vê-lo andando pela rua de
braço dado com uma prostituta. Desde
então todos parentes de Dhrshtabuddhi eram altamente criticos sobre ele e
mantinham distância dele. Depois que
havia vendido seus ornamentos e se viu em necessidade, as prostitutas também o
abandonaram e insultaram devido a sua pobreza.
Dhrshtabuddhi estava
agora cheio de ansiedade, e também com fome.
Pensou: "Que devo
fazer? Para onde devo ir? Como poderei me manter?" Então ele começou a roubar. Os guardas do rei prenderam-no, porém quando
souberam que seu pai era o famoso Dhanapala, soltaram-no. Foi pego e solto muitas vezes. Mas afinal o mal-orientado Dhrshtabuddhi foi
preso, algemado e depois surrado. Após
açoitá-lo, os guardas do rei admoestaram-no:
"ó ser malvado! Não há lugar
para ti aqui."
Contudo, Dhrshtabuddhi
foi libertado de suas tribulaçöes por seu pai e imediatamente depois, entrou na
densa floresta. Perambulou aqui e ali,
esfomeado e sedento, sofrendo muito.
Eventualmente ele começou a matar leöes, veados, javalis, e lobos para
alimento. Sempre pronto em sua mão
estava seu arco, e sempre em seu ombro havia uma aljava cheia de pontiagudas
flechas. Também matava aves, tais como cakoras, pavöes, kankas, pombos e tordos. Sem
hesitar massacrava muitas espécies de aves e animais, e assim seus pecados cresciam
dia a dia. Devido a seus pecados
anteriores, agora estava imerso num grande oceano de pecado.
Dhrshtabuddhi estava
sempre infeliz e ansioso, mas certo dia, durante o mês de Vaisakha, pela força
de um pouco de seu mérito passado, acabou encontrando o sagrado ashrama de Kaundinya Muni. O grande sábio acabava de se banhar no Rio
Ganges, e pingava de água. Dhrshtabuddhi
teve a boa fortuna de tocar algumas destas gotas que caíam das roupas do
sábio. Instantaneamente Dhrshtabuddhi se
viu livre da ignorância, e suas reaçöes pecaminosas foram reduzidas. Oferecendo suas humildes reverências a
Kaundinya Muni, Dhrshtabuddhi orou a ele de mãos postas: "ó grande brahmana, por favor descreva algum tipo de expiação que posso
realizar sem muito esforço demais.
Cometi tantos pecados em minha vida, e agora eles me tornaram
pobre."
O grande rishi respondeu: "ó filho, ouça com grande atenção, pois
por me ouvir irás ficar livre de todos teu pecados restantes. Na quinzena clara deste mês, Vaisakha, ocorre
o sagrado Mohini Ekadashi, que tem poder de nulificar pecados vastos e pesados
como o Monte Sumeru. Se seguires meu
conselho e fielmente observares jejum neste Ekadashi, que é tão querido pelo
Senhor Hari, será liberto de todas reaçöes pecaminosas de muitas, muitas
vidas."
Ouvindo estas palavras
com grande alegria, Dhrshtabuddhi prometeu observar um jejum no Mohini Ekadashi
de acordo com as instruçöes do sábio. ó
melhor dos reis, ó Rama, por jejuar completamente no Mohini Ekadashi, o antes
pecaminoso Dhrshtabuddhi, filho pródigo do mercador Dhanapala, ficou sem
pecado. Depois ele conseguiu uma bela
forma transcendental e, livre de todos obstáculos, cavalgou Garuda, a montaria
de Vishnu, para a morada suprema do Senhor.
ó Rama, o dia de jejum
de Mohini Ekadashi remove os mais obscuros apegos ilusórios à existência
material. Portanto não há melhor dia de
jejum em todos três mundos."
O Senhor Krishna
concluiu: "E assim, ó Yudhishthira,
não há local de peregrinação, nem sacrifício, nem caridade que possa conceder
mérito igual a mesmo uma décima sexta parte do mérito que um devoto fiel a Mim
obtém por observar Mohini Ekadashi. E
aquele que ouve e estuda as glórias do Mohini Ekadashi, obtém o mérito de dar
mil vacas em caridade."
Assim termina a narrativa das glórias de Vaisakha-sukla
Ekadasi, ou Mohini Ekadasi, do Kurma Purana.
Notas:
(1) Se o sagrado jejum
cair no Dvadashi, ainda assim é chamado de Ekadashi nas literaturas
védicas. Além do mais, no Garuda Purana 1.125.6 o Senhor Brahma
declara para Narada Muni: "ó brahmana, este jejum deve ser observado
quando há um Ekadashi pleno, uma mistura de Ekadashi e Dvadashi, ou mistura de
três (Ekadashi, Dvadashi e Trayodashi), mas nunca no dia quando houver mistura
de Dashami e Ekadashi."
13 APARA
EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Janardana, qual é o nome
do Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Jyeshtha
(mai/jun)? Desejo ouvir as glórias deste
dia sagrado. Por favor narra-me
tudo."
O Senhor Sri Krishna disse: "ó rei, tua indagação é maravilhosa
porque a resposta irá beneficiar toda sociedade humana. Este Ekadashi é tão sublime e meritório que
até mesmo os maiores pecados podem ser apagados por sua potência. ó grande rei, o nome deste ilimitadamente meritório
Ekadashi é Apara Ekadashi. Quem quer que
jejue neste dia sagrado se torna famoso em todo universo. Mesmo tais pecados como matar um brahmana, uma vaca, ou um embrião;
blasfêmia; ou ter sexo com a esposa de outro homem são completamente erradicados
por observar Apara Ekadashi.
ó rei, pessoas que dão
falso testemunho são muito pecaminosas.
Uma pessoa que glorifica falsa ou sarcasticamente outra; quem engana
enquanto pesa algo numa balança; quem deixa de executar os deveres de seu varna ou ashrama (um homem desqualificado que posa como brahmana, por exemplo, ou uma pessoa que recita os Vedas erroneamente); quem inventa suas
próprias escrituras; quem engana os outros; quem é astrólogo charlatão,
contador trapaceiro, ou falso médico ayurvédico
- todos estes certamente são tão maus quanto uma pessoa que dá falso
testemunho, e estão destinados ao inferno.
Mas simplesmente por obervar Apara Ekadashi, todos estes pecadores se
tornam completamente livres de suas reaçöes pecaminosas.
Guerreiros que caem de
seu kshatriya-dharma e fogem do campo
de batalha vão para um inferno bárbaro.
Porém, ó Yudhishthira, mesmo tal kshatriya
caído, se observar jejum no Apara Ekadashi, se liberta desse grande pecado e
vai para o céu.
É o maior pecado o
discípulo que, após receber uma devida educação espiritual de seu mestre
espiritual, vira-se e o blasfema. Esse
assim-chamado discípulo sofre ilimitadamente.
Mas até ele, se simplesmente observar Apara Ekadashi, pode alcançar o
mundo espiritual. Ouça, ó rei, enquanto
descrevo mais as glórias deste Ekadashi.
O mérito obtido por
quem realiza todos seguintes atos de piedade é igual ao mérito obtido por quem
observa Apara Ekadashi: tomar banho três
vezes ao dia em Pushkara-kshetra (1) durante Kartika (out/nov); tomar banho em
Prayag no mês de Magha (jan/fev) quando o sol está no zodíaco; prestar serviço
ao Senhor Shiva em Varanasi durante Shiva-ratri; oferecer oblaçöes aos
antepassados da pessoa em Gaya; tomar banho no sagrado Rio Gautami quando
Júpiter transita em Leão; obter darshana
do Senhor Shiva em Kedaranatha; ver o Senhor Badrinatha quando o sol transita
no signo de Aquário; e tomar banho na época do eclipse solar em Kurukshetra e
dar vacas, elefantes, e ouro em caridade ali.
Todo mérito que se recebe por realizar estes atos piedosos é obtido por
uma pessoa que observa este jejum de Apara Ekadashi. Também, o mérito obtido por quem doa uma vaca
prenha, junto com ouro e terra fértil, é obtido por quem jejua neste dia.
Em outras palavras,
Apara Ekadashi é um machado que corta a árvore plenamente madura dos atos
pecaminosos; é um incêndio florestal que queima pecados como se fossem lenha; é
o sol que arde diante de nossos obscuros maus atos, e é o leão espreitando a
mansa corça da impiedade. Portanto, ó
Yudhishthira, quem quer que verdadeiramente tenha medo de seus pecados do
passado e presente deve observar Apara Ekadashi mui estritamente. Quem não observa este jejum deve nascer
novamente no mundo material, assim como uma bolha entre milhöes numa enorme
expansão d'água, ou como uma pequena formiga entre todas outras espécies. (2)
Portanto devemos
observar fielmente o sagrado Apara
Ekadashi e adorar a Suprema Personalidade de Deus, Sri Trivikrama. Quem faz isto é libertado de todos seus
pecados e promovido à morada do Senhor Vishnu.
ó Bharata, para
benefício de toda humanidade, descrevi assim para ti a importância do sagrado
Apara Ekadashi. Qualquer um que ouça ou
leia esta descrição certamente se livra de todos tipos de pecados, ó rei."
Assim termina a narrativa das glórias de Jyeshtha-krsna
Ekadasi, ou Apara Ekadasi, do Brahmanda Purana.
Notas:
(1) Pushkara-kshetra,
na India ocidental, é realmente o único local na terra onde se encontra um
templo fidedigno do Senhor Brahma.
(2) Os Vedas declaram narah budhuda samah: "A
forma humana de vida é tal como uma bolha na água." Na água, muitas bolhas se formam e então
repentinamente estouram alguns segundos depois.
Assim se uma pessoa não utiliza seu raro corpo humano para servir a
Suprema Personalidade de Deus, Sri Krishna, sua vida não tem mais valor ou
permanência que uma bolha na água.
Portanto, como o Senhor recomenda aqui, devemos serví-Lo por jejuar no
Hari-vasara ou Ekadashi.
Neste sentido, Srila
Prabhupada escreve no Srimad-Bhagavatam
2.1.4, significado: "O grande
oceano da natureza material está se agitando com as ondas do tempo, e as
assim-chamadas condiçöes de vida são algo como as bolhas espumantes, que
aparecem diante de nós como o eu corpóreo, esposa, filhos, sociedade,
conterrâneos, etc. Devido a uma falta de
conhecimento do eu, nos tornamos vitimados pela força da ignorância e assim
estragamos a valiosa energia da vida humana numa busca vã atrás de condiçöes de
vida permanentes, que é impossível neste mundo material."
14 NIRJALA EKADASHI
Certa vez Bhimasena,
irmão mais novo de Maharaja Yudhishthira, perguntou ao grande sábio Srila
Vyasadeva, avô dos Pandavas, se é possível retornar ao mundo espiritual sem ter
observado as regras e regulaçöes dos jejuns de Ekadashi.
Bhimasena disse: "ó mui inteligente avô, meu irmão
Yudhishthira, minha querida mãe Kunti, e minha amada esposa Draupadi, bem como
Arjuna, Nakula e Sahadeva, jejuam completamente no Ekadashi e seguem
estritamente todas regras e regulaçöes desse dia sagrado. Sendo muito religiosos, sempre me dizem que
também devo jejuar nesse dia. Mas, ó
avô, eu lhes digo que não consigo viver sem comer, porque a fome é intolerável
para mim. Dou bastante caridade e adoro
completamente Sri Keshava, mas não consigo jejuar no Ekadashi. Por favor diga-me como posso obter o mesmo
resultado sem jejuar."
Ouvindo estas
palavras, Srila Vyasadeva respondeu:
"Se desejas ir para os planetas celestiais e evitar os planetas
infernais, deves de fato observar um jejum tanto no Ekadashi iluminado como no
obscuro."
Bhima disse: "ó avô muito inteligente, por favor ouça
minha súplica. ó maior dos munis, como
não consigo viver se apenas comer uma vez por dia, como conseguirei viver se jejuar
completamente? Dentro de meu estômago
arde um fogo especial chamado vrka, o
fogo da digestão. (1) Só quando como até
ficar completamente satisfeito é que esse fogo em meu estômago também fica
satisfeito. ó grande sábio, talvez
conseguisse jejuar apenas uma vez, portanto imploro-te que me digas qual Ekadashi
inclui todos outros Ekadashis.
Observarei fielmente esse jejum e espero que assim me torne qualificado
para liberação."
Srila Vyasadeva
respondeu: "ó rei, ouviste de mim
sobre vários tipos de deveres ocupacionais, tais como cerimônias védicas elaboradas. Na Kali-yuga, entretanto, ninguém irá
conseguir observar todos esses deveres ocupacionais corretamente. Por isso contarei agora, como sem quase
nenhuma despesa, se pode aguentar uma pequena austeridade e conseguir o maior
benefício e resultante felicidade. A
essência do que está escrito nas literaturas védicas conhecidas como os Puranas é que não se deve comer nem no
Ekadashi da quinzena iluminada e nem no da obscura. (2) Quem jejua no Ekadashi é salvo de ir para
planetas infernais."
Ouvindo as palavras de
Vyasadeva, Bhimasena, o mais forte de todos guerreiros, ficou com medo e
começou a tremer como uma folha numa árvore banyan com vento forte. O assustado Bhimasena disse: "ó avô, que devo fazer? Sou completamente incapaz de jejuar duas
vezes por mês o ano todo! Por favor
conte-me sobre algum dia de jejum que possa conceder-me o maior
benefício!"
Vyasadeva
respondeu: "Sem beber nem mesmo
água, deves jejuar no Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara do mês de
Jyeshtha (mai/jun), quando o sol transita pelo signo de Gêmeos e Touro. Segundo as personalidades sábias, nesse dia
se pode tomar banho e realizar acamana
para purificação. Mas enquanto se
realiza acamana se pode tomar apenas
aquela quantidade de água igual a uma gota de ouro, ou a quantidade que pode
submergir apenas uma semente de mostarda.
Só essa quantidade de água deve ser colocada na palma em forma de orelha
de vaca. Se bebermos mais água que isso,
seria como se tivessemos bebido vinho.
Certamente não se deve
comer nada, pois assim fazendo quebra-se o jejum. Este jejum rígido com efeito vai do nascer do
sol no Ekadashi até o nascer do sol de Dvadashi. Se uma pessoa tenta observar esse grande
jejum mui estritamente, facilmente consegue os resultados de observar todos
vinte e quatro jejuns de Ekadashi pelo ano todo.
No Dvadashi o devoto
deve tomar banho cedo de manhã. Então,
conforme as regras e regulaçöes prescritas, e dependendo de sua capacidade,
deve dar algum ouro e água a um brahmana
digno. Finalmente, deve honrar prasadam alegremente com um brahmana.
ó Bhimasena, aquele
que consegue jejuar neste Ekadashi especial desta maneira, colhe o benefício de
ter jejuado em todos Ekadashis durante o ano.
Não há dúvida quanto a isso. ó
Bhima, agora ouça o mérito específico que se consegue por jejuar neste
Ekadashi. O Supremo Senhor Keshava, que
segura uma concha, disco, maça, e lótus, contou pessoalmente para mim: "Todos devem refugiar-se em Mim e seguir
Minhas instruçöes." Então Ele me
contou que quem jejua neste Ekadashi sem beber água ou comer, se torna livre de
todas reaçöes pecaminosas, e quem observa esse difícil jejum nirjala no Jyeshtha-sukla Ekadashi
verdadeiramente colhe o benefício de todos outros jejuns de Ekadashi.
ó Bhimasena, na
Kali-yuga, a era da discórdia e hipocrisia, quando todos princípios dos Vedas terão sido destruídos ou
grandemente minimizados, e em que não haverá a devida caridade ou observância
dos antigos princípios védicos e cerimônias, como haverá algum meio de
purificar o eu? Mas existe a oportunidade
de jejuar no Ekadashi e ficar livre de todos pecados passados.
ó filho de Vayu, que
mais posso dizer-te? Não deves comer
durante os Ekadashis iluminado e obscuro, e deves até mesmo deixar de tomar
água no dia particularmente auspicioso de Jyeshtha-sukla Ekadashi. ó Vrkodara, quem quer que jejue neste
Ekadashi recebe os méritos de tomar banho em todos lugares de peregrinação, dar
todo tipo de caridade, e jejuar em todos Ekadashis claros e escuros. Quanto a isso não há dúvida. ó tigre entre os homens, quem quer que jejue
neste Ekadashi verdadeiramente se torna uma grande pessoa e obtém toda fortuna,
lucros, força, e sáude. E no
atemorizante momento da morte, os terríveis Yamadutas, cuja tez é amarela e
negra, e que brandem grandes maças e giram no ar místicas cordas pasha, recusar-se-ão a se
aproximar. Em vez disso, tal alma fiel
será imediatamente levada para a morada suprema do Senhor Vishnu pelos
Vishnudutas, cujas formas trascendentalmente belas vestem maravilhosas roupas
amareladas e que seguram um disco, maça, concha e lótus em suas quatro
mãos. É para obter todos esses
benefícios que se deve certamente jejuar neste mui importante Ekadashi, até
mesmo de água."
Quando os outros Pandavas
ouviram sobre os benefícios a serem obtidos por seguir Jyeshtha-sukla Ekadashi,
resolveram observá-lo exatamente como Srila Vyasadeva o havia explicado a seu
irmão Bhimasena. Todos Pandavas
observaram-no evitando comer ou beber qualquer coisa, e assim até o dia de hoje
é conhecido como Pandava-nirjala Ekadashi. (3)
Srila Vyasadeva
continuou: "ó Bhima, portanto deves
observar este importante jejum para remmover todas tuas reaçöes pecaminosas
passadas. Deves orar à Suprema
Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna, desta maneira: "ó Senhor de todos semideuses, ó Suprema
Personalidade de Deus, hoje vou observar Ekadashi sem tomar qualquer água. ó ilimitado
caridade
durante este Ekadashi, se por alguma razão ou outra não puder, então deverá dar
a algum brahmana qualificado um
tecido ou um pote cheio d'água. De fato,
o mérito obtido por dar só água iguala aquele obtido por dar ouro dez milhöes
de vezes por dia.
ó Bhima, o Senhor
Krishna disse que quem quer que observe este Ekadashi deve tomar um banho
sagrado, dar caridade a uma pessoa digna, cantar os santos nomes do Senhor num japa-mala, e realizar algum tipo de
sacrifício recomendado, pois por fazer estas coisas neste dia se recebe
benefícios imperecíveis. Não há
necessidade de realizar qualquer outro tipo de dever religioso. Observância só deste jejum de Ekadashi promove a pessoa à suprema morada de
Sri Vishnu. ó melhor dos Kurus, se
doarmos ouro, tecido ou qualquer outra coisa neste dia, o mérito que se obtém é
imperecível.
Lembra-te, quem quer
que coma grãos no Ekadashi se torna contaminado pelo pecado e na verdade come
apenas pecado. Com efeito, já se tornou
um comedor de cachorros, e após a morte irá sofrer uma existência infernal. Mas aquele que observa este sagrado
Jyeshtha-sukla Ekadashi e dá algo em caridade certamente obtém a liberação do
ciclo de repetidos nascimentos e morte e alcança a morada suprema. Observar este Ekadashi, que vem junto com
Dvadashi, liberta a pessoa do horrível pecado de matar um brahmana, beber bebida alcoólica e vinho, ter inveja do próprio
mestre espiritual, e ignorar suas instruçöes, e continuamente contar mentiras.
Além do mais, ó melhor
dos seres, qualquer homem ou mulher que observa este jejum devidamente e adora
o Senhor Supremo Jalashayi (Aquele que dorme sobre a água), e que no dia
seguinte satisfaz um brahmana
qualificado com doces agradáveis e uma doação de vacas e dinheiro - tal pessoa
certamente agrada ao Supremo Senhor Vasudeva, tanto que cem geraçöes anteriores
em sua família indubitavelmente vão para a morada do Senhor Supremo, muito
embora possam ter sido muito pecaminosos, ou de mau caráter, e culpados de
suicídio. De fato, quem observa este
Ekadashi andará num glorioso aeroplano celestial (vimana) até aquela morada.
Quem nesse dia dá a um
brahmana um pote d'água, uma
sombrinha, ou calçados certamente vai para o céu. De fato, aquele que simplesmente ouve estas
glórias também alcança a morada transcendental do Senhor Supremo, Sri Vishnu. Quem quer que realize a cerimônia shraddha para os antepassados no dia da
lua obscura chamado amavasya,
particularmente se ocorre na época do eclipse solar, indubitavelmente obtém
grande mérito. Mas este mesmo mérito é
obtido por quem simplesmente ouve esta sagrada narrativa - tão poderoso e tão
querido pelo Senhor é este Ekadashi.
Deve-se limpar os
dentes devidamente e, sem comer ou beber, observar este Ekadashi para agradar o
Supremo Senhor Keshava. No dia depois de
Ekadashi se deve adorar a Suprema Personalidade de Deus em Sua forma como Trivikrama
oferecendo a Ele água, flores, incenso, e uma luminosa lamparina acesa. Então o devoto deve orar de coração: "ó Senhor dos senhores, ó salvador de
todos, ó Hrsikesha, senhor dos sentidos, tenha a bondade de conceder-me a
dádiva da liberação, embora não te possa oferecer nada mais que este humilde
pote cheio d'água." Então o devoto
deve doar o pote d'água a um brahmana.
ó Bhimasena, após
observar este jejum de Ekadashi e doar os artigos recomendados conforme sua
capacidade, o devoto deve alimentar brahmanas
e depois disso honrar prasadam
silenciosamente.
Srila Vyasadeva
concluiu: "Recomendo grandemente
que jejues neste auspicioso, purificante Dvadashi devorador de pecados, da
maneira como descrevi. Assim ficarás completamente
livre de todos pecados e alcançarás a morada suprema."
Assim termina a narrativa das glórias de Jyeshtha-sukla
Ekadasi, ou Bhimaseni-nirjala Ekadasi, do Brahma-vaivarta Purana.
(1) Agni, o deus do
fogo, descende do Senhor Vishnu através de Brahma, de Brahma a Angirasa, de
Angirasa a Brhaspati, e de Brhaspati a Samyu, que era pai de Agni. Ele é o porteiro encarregado de Nairrtti, a
direção sudeste. Ele é um dos oito
elementos materiais, e tal como Parikshit Maharaja, é muito perito em examinar
coisas. Examinou Maharaja Sibi uma vez
virando um pombo. (Para mais informação
vide Srimad-bhagavatam de Srila
Prabhupada 1.12.20 significado).
Agni se divide em três
categorias: Davagni, o fogo na madeira;
Jatharagni, o fogo da digestão no estômago; e Vadavagni, o fogo que cria
neblina quando correntes quentes e frias se misturam no oceano. Outro nome para o fogo da digestão é
Vrka. Era este poderoso fogo que residia
no estômago de Bhimasena.
2. Conforme declarado
no Srimad-bhagavatam 12.13.12 e 15, o
próprio Bhagavatam é a essência de
toda filosofia Vedanta (sara-vedanta-saram),
e a mensagem inequívoca do Bhagavatam
é plena rendição ao Senhor Krishna e a prestação de serviço devocional amoroso
a Ele. Observar Ekadashi estritamente é
um grande auxílio neste processo e aqui Srila Vyasadeva está simplesmente
sublinhando para Bhima a importância do Ekadashi.
3. Embora
astrologicamente o jejum caia no Dvadashi, na civilização védica ainda é
conhecido como Ekadashi.
15 YOGINI EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Senhor Supremo, ouvi as
glórias do Nirjala Ekadashi, que ocorre durante a quinzena clara do mês de
Jyeshtha. Agora desejo ouvir sobre o Ekadashi
que ocorre durante a parte obscura do mês de Ashadha (jun/jul). Tenha a bondade de descrevê-lo para mim em
detalhe, ó matador do demônio Madhu."
O Senhor Supremo, Sri
Krishna, respondeu: "ó rei, vou
contar sobre o melhor dos dias de jejum, o Ekadashi que vem durante a parte
obscura do mês de Ashadha. Famoso como
Yogini Ekadashi, remove todos tipos de reaçöes pecaminosas e concede a
liberação suprema.
ó melhor dos reis,
este Ekadashi salva pessoas que estão se afogando no vasto oceano da existência
material e as transporta para a margem do mundo espiritual. Em todos três mundos, é o principal entre os
sagrados dias de jejum. Vou revelar esta
verdade a ti narrando a história recontada nos Puranas.
O rei de Alakapuri -
Kuvera, o tesoureiro dos semideuses - era um devoto firme do Senhor Shiva. Empregava um servo chamado Hemamali como seu
jardineiro pessoal. Hemamali, um Yaksha,
tinha muita atração luxuriosa por sua deslumbrante esposa, Svarupa-vati, que
tinha grandes olhos encantadores.
O dever diário de
Hemamali era visitar o Lago Manasarovara e trazer de volta flores para seu
patrão Kuvera, que então eram usadas para adorar o Senhor Shiva. Certo dia, após colher as flores, Hemamali
foi ter com sua esposa em vez de retornar diretamente ao seu patrão e cumprir
com seu dever. Absorto em assuntos
amorosos com sua esposa, esqueceu que tinha que retornar à morada de Kuvera.
ó rei, enquanto
Hemamali estava desfrutando com sua esposa, Kuvera começou a adorar o Senhor
Shiva em seu palácio e em breve descobriu que não havia flores prontas para o puja do meio-dia. A falta de um artigo tão importante irou o
grande semideus, e ele perguntou a um mensageiro Yaksha: "Porque aquele Hemamali de coração
imundo não veio com a oferenda diária de flores? Vai descobrir a razão exata e na volta
reporte-se a mim pessoalmente." O
Yaksha retornou e contou para Kuvera:
"ó caro senhor, Hemamali está desfrutando livremente de sexo com
sua esposa."
Kuvera ficou
extremamente irado quando ouviu isso e imediatamente intimou o baixo Hemamali a
vir diante dele. Sabendo que fossa
remisso e que fizera hora sem cumprir com o dever, Hemamali se aproximou do
patrão em grande temor. O jardineiro
primeiro prestou suas reverências e depois ficou de pé perante seu senhor,
cujos olhos haviam se tornado vermelhos de raiva e cujos lábios tremiam. Irado, Kuvera gritou para Hemamali: "ó patife pecaminoso! ó destruidor dos princípios religiosos! És uma ofensa aos semideuses! Por isso te amaldiçôo a sofrer de lepra
branca e separar-te de tua amada esposa!
Só grande sofrimento é o que mereces!
ó tolo de nascimento baixo, deixa este local imediatamente e vai-te para
os planetas inferiores!"
E assim Hemamali
imediatamente caiu de Alakapuri e se tornou doente com a terrível aflição da
lepra branca. Acordou numa densa e
assustadora floresta, onde não havia
nada para comer ou beber. Assim passava
seus dias na miséria, incapaz de dormir à noite devido à dor. Sofria tanto no verão quanto no inverno, mas
porque continuava a adorar o Senhor Shiva fielmente, sua consciência permanecia
pura e constante. Embora implicado em
grande pecado e suas reaçöes concomitantes, lembrava de sua vida passada devido
a sua piedade.
Após vagar durante
algum tempo aqui e ali, por montanhas e planícies, Hemamali eventualmente
chegou à vasta cadeia do Himalaia. Ali
teve a boa fortuna de encontrar com o grande santo Markandeya Rishi, o melhor
dos ascetas, cuja duração de vida, dizem, se estende a sete dias de Brahma.
(1) Markandeya estava sentado
pacificamente em seu ashrama,
parecendo tão refulgente quanto um segundo Brahma. Hemamali, sentindo-se muito pecaminoso, ficou
a certa distância do magnífico sábio e ofereceu suas humildes reverências e
oraçöes. Sempre interessado no bem-estar
dos outros, Markandeya viu o leproso e clamou:
"ó tu, que espécie de atos pecaminosos realizaste para merecer esta
horrível aflição?"
Ouvindo isso, Hemamali
respondeu: "Caro senhor, sou um
servo Yaksha do Senhor Kuvera, e meu nome é Hemamali. Era meu serviço diário pegar flores do Lago
Manasarovara para a adoração de meu patrão ao Senhor Shiva, mas certo dia
atrasei na hora de voltar com a oferenda porque fui tomado de paixão por minha
bela esposa. Quando meu patrão descobriu
que estava atrasado, amaldiçôou-me com muita ira. Assim agora estou sem casa, esposa, e
serviço. Mas afortunadamente encontrei
com o senhor, e agora espero receber sua auspiciosa benção, pois sei que
devotos do Senhor Supremo sempre trazem o interesse dos outros bem no alto de
seus coraçöes. Essa é sua grande
natureza. ó melhor dos sábios, por favor
ajude-me!" (2)
Markandeya Rishi
respondeu: "Porque me contaste a
verdade, vou contar-te sobre um dia de jejum que irá beneficiar-te
grandemente. Se jejuares no Ekadashi que
vem durante a quinzena obscura do mês de Ashadha, irás certamente ficar livre
desta terrível maldição." Ao ouvir
estas abençoadas palavras do conhecido sábio, Hemamali caiu ao solo em completa
gratidão e ofereceu suas humildes reverências.
Mas Markandeya ficou de pé e levantou Hemamali, enchendo-o de
inexprimível felicidade.
Assim, como o sábio o instruíra,
Hemamali fielmente observou o jejum de Ekadashi, e por sua influência novamente
se tornou um belo Yaksha. Então retornou
para casa, onde viveu feliz com sua esposa."
O Senhor Krishna
concluiu: "Assim, como podes
prontamente ver, ó Yudhishthira, esse jejum no Yogini Ekadashi é muito poderoso
e auspicioso. Qualquer mérito que se
obtenha por alimentar quarenta e oito mil piedosos brahmanas também é obtido por simplesmente observar um jejum
estrito no Yogini Ekadashi. Para quem
jejua neste sagrado Ekadashi, montes de reaçöes pecaminosas passadas são
destruídas e ele faz com que a pessoa se torne piedosa. ó rei, assim explique-te a pureza do Yogini
Ekadashi."
Assim termina a narrativa das glórias de Ashadha-krsna
Ekadasi, ou Yogini Ekadasi, do Brahma-vaivarta Purana.
Notas:
(1) Um dia de Brahma (doze horas) é dito durar
mil ciclos das quatro yugas - Satya,
Treta, Dvapara, e Kali. Como estas
quatro eras duram 4.320.000 anos, um dia de 24 horas completas de Brahma é de
aproximadamente 60.480.000.000 anos.
Este é o espantoso tempo de vida de Markandeya, o mais longo da terra.
(2) A literatura
védica declara:
pibanti nadya svayam eva na jalam
svayam na khadhanti phalani vrksha
nadanti sashyam khalu parivaha
paropakaraya satam vibhutayah
"Assim como os
rios não bebem sua própria água mas fluem para benefício dos outros, assim como
as árvores frutíferas não comem seu próprio fruto mas produzem-no para os
outros, e assim como as nuvens não bebem sua própria chuva mas chovem para os
outros, também os santos vivem simplesmente para os outros."
Chanakya Pandita diz:
sadhunam darshanam punyam
tirtha-bhutar hi sadhavah
kalena phalate tirtha
sadyah sadhu-samagamah
"Meramente ver um
devoto puro de Krishna é mais purificante que visitar um local de peregrinação
sagrado, pois enquanto um lugar santo pode purificar depois de longo tempo, a
vista de um devoto puro purifica imediatamente."
(3) Porque Hemamali
desejou retornar aos planetas celestiais e sua esposa, sua observância do
Ekadashi resultou na obtenção de sua meta material. Mas um devoto de Krishna observa Ekadashi
apenas com o desejo de aumentar sua devoção pelo Senhor e assim ele obtém um
resultado espiritual.
16 PADMA EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Keshava, qual o nome do
Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara do mês de Ashadha (jun/jul)? Qual é a Deidade adorável para esse dia
auspicioso, e qual o processo de observá-lo?"
O Senhor Sri Krishna
respondeu: "ó zelador deste planeta
terreno, de bom grado contar-te-ei uma maravilhosa história que o Senhor Brahma
certa vez narrou a seu filho Naradaji.
Certo dia Narada
perguntou a seu pai: "Qual o nome
do Ekadashi que vem durante a parte clara do mês de Ashadha? Por gentileza conta-me como posso observar
este Ekadashi e assim agradar o Senhor Supremo, Vishnu."
O Senhor Brahma
respondeu: "ó grande orador, ó
melhor de todos sábios, ó mais puro devoto do Senhor Vishnu, tua pergunta é
excelente. Não há nada melhor que
Ekadashi, o dia do Senhor Hari, neste ou em qualquer outro mundo. Ele nulifica até mesmo os piores pecados se
observado corretamente. Por esta razão
vou contar-te sobre Ashadha-sukla Ekadashi.
Jejuar neste Ekadashi
nos purifica de todos pecados e realiza todos nossos desejos. Portanto, quem quer que deixe de obserar este
sagrado dia de jejum é um bom candidato a entrar no inferno. Ashadha-sukla Ekadashi também é famoso como
Padma Ekadashi. Só para agradar a
Hrshikesha, o senhor dos sentidos, deve-se jejuar neste dia. Ouça cuidadosamente, ó Narada, enquanto
relato para ti uma história maravilhosa das escrituras sobre este Ekadashi. Apenas por ouvir este relato já se destroem
todos tipos de pecados, junto com todos obstáculos na senda da perfeição
espiritual.
ó filho, certa vez
havia um rei santo na dinastia solar cujo nome era Mandhata. Porque sempre defendia a verdade, foi nomeado
imperador. Cuidava de seus súditos como
se fossem seus próprios filhos. Devido a
sua piedade e grande religiosidade, não havia pestilência, seca, ou doença de
qualquer tipo em seu reino. Todos seus súditos não só estavam livres de todos
tipos de perturbaçöes mas também eram muito ricos. O tesouro do próprio rei estava livre de
dinheiro ganho por meios não-recomendados, e assim ele governou felizmente por
muitos anos.
Certa vez entretanto,
devido a algum pecado em seu reino, houve seca durante três anos. Os súditos
viram-se atormentados pela fome. A falta
de grãos alimentícios tornava impossível para eles realizarem os sacrifícios
védicos, oferecer oblaçöes a seus antepassados e semideuses, realizarem adoração
ritualística, ou até mesmo estudar as literaturas védicas. Finalmente, todos vieram diante do amado rei
numa grande assebléia e disseram:
"ó rei, sempre tratas de nosso bem-estar, portanto humildemente
imploramos vossa assistência agora. Todo
mundo e tudo neste mundo precisa de água.
Sem água, quase tudo se torna inútil ou morto. Os Vedas
chamam a água de nara, e porque a
Suprema Personalidade de Deus dorme sobre a água, Seu nome é Narayana. Deus faz Sua própria morada na água e ali faz
Seu descanso. (1) Na Sua forma como as
nuvens, o Senhor Supremo está presente pelo céu afora e derrama a chuva, da
qual crescem os grãos que mantém toda entidade viva.
ó rei, a severa seca
causou uma falta de valiosos grãos; assim estamos sofrendo, e a população está
diminuindo. ó melhor governante da terra,
por favor encontre alguma solução para este problema e traga-nos uma vez mais a
paz e prosperidade."
O rei respondeu: "Falais a verdade, pois os grãos são
como Brahman, a Verdade Absoluta, que vive dentro dos grãos e assim sustenta
todos seres. De fato, é por causa dos
grãos que o mundo inteiro vive. Agora,
porque está havendo uma terrível seca no nosso reino? As escrituras sagradas discutem este assunto
mui profundamente. Se um rei é
irreligioso, tanto ele como seus súditos sofrem. Meditei na causa de nosso problema durante
muito tempo, mas após examinar meu caráter passado e atual, honestamente posso
dizer que não encontro pecado. Ainda
assim, para o bem de todos vós súditos, tentarei remediar a situação."
Pensando assim, o Rei
Mandhata reuniu seu exército e séquito, prestou suas reverências a Mim, e
depois entrou na floresta. Vagou por
aqui e por ali, buscando grandes sábios em seus ashramas e indagando sobre como resolver a crise em seu reino. Afinal encontrou o ashrama de um de Meus outros filhos, Angira Muni, cuja refulgência
iluminava todas direçöes. Sentado em seu
eremitério, Angira parecia um segundo Brahma.
O rei Mandhata estava muito feliz por ver esse exaltado sábio, cujos
sentidos estavam completamente sob controle.
O rei imediatamente
desmontou de seu cavalo e ofereceu suas respeitosas reverências aos pés de
lótus de Angira Rishi. Então o rei
juntou suas palmas e orou por suas bençãos.
Aquela pessoa santa reciprocou abençoando o rei com mantras sagrados, depois perguntou-lhe sobre o bem-estar dos sete
membros de seu reino. (2)
Após contar ao sábio
como iam os sete membros de seu reino, o rei Mandhata perguntou sobre a
felicidade do próprio sábio. Então
Angira Rishi perguntou ao rei porque empreendera tão difícil jornada na floresta,
e o rei contou-lhe sobre a aflição que seu reino estava passando. O rei disse:
"ó grande sábio, estou governando e mantendo meu reino enquanto
sigo as injunçöes védicas, e assim não sei qual o motivo da seca. Para resolver este mistério, aproximei-me de
ti para tua ajuda. Por favor ajuda-me a
aliviar o sofrimento de meus súditos."
Angira Rishi disse
para o rei: "A presente era,
Satya-yuga, é a melhor de todas eras, pois nessa era o Dharma se apoia nas
quatro pernas. (3) Nesta era todos respeitam
brahmanas como os membros mais
elevados da sociedade. Também, todos
cumprem com seus deveres ocupacionais, e apenas brahmanas duas-vezes nascidos podem realizar austeridades védicas e
penitências. Embora isto seja o padrão,
ó leão entre os reis, há um shudra
que ilegalmente realiza os ritos da austeridade e penitência em teu reino. É por isso que não há chuva no teu país. Por isso deves castigar este trabalhador com
a morte, pois por assim fazer removerás a contaminação e restituirás a paz aos
teus súditos."
O rei replicou: "Como posso matar um realizador de
austeridades sem ofensa? Por favor dá-me
alguma solução espiritual."
O grande sábio Angira
disse: "ó rei, deves observar um jejum
no Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara do mês de Ashadha. Este dia auspicioso se chama Padma Ekadashi,
e por sua influência abundantes chuvas certamente retornarão a teu reino. Este Ekadashi confere a perfeição tanto aos
fiéis observadores, como remove todo tipo de maus elementos, e destrói todos
obstáculos na senda da perfeição. ó rei,
tu, teus parentes e teus súditos devem todos observar este sagrado jejum de
Ekadashi. Então tudo em vosso reino irá
indubitavelmente retornar ao normal."
Ao ouvir estas
palavras, o rei ofereceu suas reverências e depois retornou a seu palácio. Quando chegou Padma Ekadashi, o rei Mandhata
reuniu todos os brahmanas, kshatriyas,
vaishyas e shudras em seu reino e
instruiu-os a observarem estritamente este importante dia de jejum. Depois que o haviam observado, caíram as
chuvas, assim como o sábio havia predito, e no devido tempo houve colheitas
fartas e uma rica safra de grãos. Pela
misericórdia do Senhor Supremo Hrishikesha, o senhor de todos sentidos, todos
súditos do rei Mandhata se tornaram extremamente felizes e prósperos.
Portanto, ó Narada,
todos devem observar este jejum de Ekadashi mui estritamente, pois confere toda
sorte de felicidade, bem como a liberação final, ao devoto fiel."
O Senhor Sri Krishna
concluiu: "Meu querido
Yudhishthira, Padma Ekadashi é tão poderoso que se pode simplesmente ler ou
ouvir suas glórias e ficar completamente sem pecado. ó Pandava, quem deseja agradar-Me deve
observar estritamente este Ekadashi, que também é conhecido como Deva-shayani
Ekadashi. (1) ó leão entre os reis, quem
quer que queira liberação deve regularmente jejuar neste Ekadashi, que também é
o dia em que o jejum de Chaturmasya principia."
Assim termina a narrativa das glórias de Ashadha-sukla
Ekadasi, ou Padma Ekadasi, do Bhavishya-uttara Purana.
Notas:
(1) Dizem que três
coisas não podem existir sem água:
pérolas, seres humanos, e farinha.
A qualidade essencial de uma pérola é seu brilho, e isso é devido à
água. A essência de um homem é seu
sêmen, cujo principal componente é água.
E sem água, não se pode transformar farinha em massa para depois cozinhar e comer. As vezes a água é chamada de jala narayana, o Senhor Supremo na forma
da água.
(2) Os sete membros do
domínio de um rei são o próprio rei, seus ministros, seu tesouro, suas forças
armadas, seus aliados, os brahmanas,
os sacrifícios realizados em seu reino, e as necessidades de seus súditos.
(3) As quatro pernas
do Dharma são veracidade, austeridade, misericórdia e limpeza.
(4) Deva-shayani ou
Vishnu-shayani, indica o dia em que o Senhor Vishnu vai dormir com todos
semideuses. É dito que depois desse dia
não se deve realizar quaisquer novas cerimônias até Devotthani Ekadashi, que
ocorre durante o mês de Kartika (out/nov), porque os semideuses, estando
adormecidos, não podem ser convidados para a arena sacrificial e porque o sol
está viajando no curso meridional.
17 KAMIKA EKADASHI
Maharaja Yudhisthira
disse: "ó Senhor Supremo, ouvi de
ti as glórias de jejuar no Deva-shayani Ekadashi, que ocorre durante a parte
clara do mês de Ashadha. Agora gostaria
de ouvir sobre o Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do mês de
Shravana (jul/ago). ó Govinda, por favor
seja misericordioso para comigo e explique suas glórias. ó Vasudeva, ofereço minhas humildes
reverências a Ti."
O Senhor Supremo, Sri
Krishna, respondeu: "ó rei, por
favor ouça atentamente enquanto descrevo a influência auspiciosa deste sagrado
dia de jejum, que remove todos pecados. Narada
Muni certa vez perguntou ao Senhor Brahma sobre este mesmo tópico: "ó regente de todos" disse
Naradaji, "ó ser que sentas sobre um trono de lótus, por favor conta-me o
nome do Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Shravana. Por favor também conta-me qual Deidade é
adorada neste sagrado dia, qual processo se deve seguir para observá-lo, e que
mérito concede."
O Senhor Brahma
respondeu: "Meu querido filho
Narada, para benefício de toda humanidade, de bom grado contarei tudo que desejas
saber, pois apenas ouvir as glórias de Kamika Ekadashi confere mérito igual ao
obtido por quem realiza um sacrifício de cavalo. Certamente, grande mérito é obtido por quem
adora, e também medita nos pés de lótus do Senhor Gadadhara de quatro braços,
que segura uma concha, disco, maça e lótus em Suas mãaos e que também é
conhecido como Sridhara, Hari, Vishnu, Madhava, e Madhusudana. E as bençãos obtidas por uma pessoa que adora
o Senhor Vishnu exclusivamente são bem maiores que aquelas obtidas por quem
toma um banho sagrado no Ganges em Kashi (Varanasi), na floresta de
Naimisharanya, ou em Pushkara, onde sou adorado. (1) Mas quem observa Kamika Ekadashi e também
adora o Senhor Sri Krishna obtém maior mérito do que quem obtém darshana do Senhor Kedaranatha nos
Himalayas, ou quem se banha em Kurukshetra durante um eclipse solar, ou quem
doa a Terra toda como caridade, inclusive suas florestas e oceanos, ou quem se
banha nos Rios Gandaki ou Godavari num dia de lua cheia que caia numa
segunda-feira quando Leão e Júpiter estão em conjunção.
Observar Kamika
Ekadashi confere o mesmo mérito que doar uma vaca leiteira e seu bezerro, junto
com a alimentação deles. Neste dia, quem
quer que adore o Senhor Sridhara-deva, Vishnu, é glorificado pelos semideuses,
Gandharvas, Pannagas, e Nagas.
Aqueles que tem medo
de seus pecados passados e estão completamente imersos na vida material
pecaminosa, devem observar este melhor dos Ekadashis segundo sua capacidade e
assim obter liberação. Este Ekadashi é o
mais puro de todos dias e o mais poderoso para remover pecados, ó Narada. O próprio Senhor Sri Hari certa vez disse
sobre este Ekadashi: "Quem jejua no
Kamika Ekadashi obtém muito mais mérito que quem estuda todas literaturas
espirituais."
Quem quer que jejue
neste dia em particular, e permaneça acordado noite afora, nunca irá
experimentar a ira de Yamaraja, a morte personificada. Quem quer que observe Kamika Ekadashi não
terá de sofrer nascimentos futuros, e no passado muitos yogis que jejuaram neste dia foram ao mundo espiritual. Portanto deve-se seguir nos passos
auspiciosos deles e observar estritamente um jejum neste Ekadashi.
Quem quer que adore o
Senhor Hari com folhas de tulasi se
liberta de toda implicação em pecado. De
fato, vive intocado pelo pecado, assim como a folha de lótus, embora estando na
água, não é tocada por ela. Quem quer
que ofereça a Sri Hari ainda que uma só folha de uma árvore tulasi obtém tanto mérito quanto alguém
que dá em caridade duzentas gramas de ouro e oitocentas gramas de prata. A Suprema Personalidade de Deus fica mais
satisfeito com quem oferece a Ele uma única folha de tulasi que por alguém que O adore com pérolas, rubis, topázios,
diamantes, lápis-lazuli, safiras, gemas gomeda
e olho-de-gato, e coral. Quem oferecer
ao Senhor Keshava manjaris
recém-brotados da sagrada planta tulasi
se livra de todos pecados que cometeu durante esta e outras vidas
pretéritas. De fato, o mero darshana de tulasi no Kamika Ekadashi remove todos pecados, e meramente tocá-la
e orar a ela remove todos tipos de doença.
Quem agua tulasi nunca precisa
temer o senhor da morte. Quem planta ou
transplanta tulasi eventualmente irá
residir com o Senhor Krishna em Sua própria morada. Portanto para Srimati Tulasi-devi, que
concede liberação em serviço devocional, devemos oferecer diariamente nossas
plenas reverências.
Mesmo Citragupta,
secretário de Yamaraja, não consegue calcular o mérito obtido por quem oferecce
a Srimati Tulasi-devi uma lamparina perpetuamente acesa. Esse Ekadashi é tão querido pela Suprema
Personalidade de Deus que todos antepassados de quem oferece uma luminosa
lamparina de ghee ao Senhor Krishna neste dia, ascendem aos planetas celestiais
e ali bebem néctar. Quem quer que
ofereça seja uma lamparina de ghee, ou de óleo de gergelim para Sri Krishna
neste dia, se liberta de todos seus pecados e entra na morada de Surya, o deus
do sol, com um corpo tão brilhante como dez milhöes de lamparinas." (2)
"ó
Yudhishthira" concluiu o Senhor Sri Krishna, "estas foram as palavras
faladas pelo Senhor Brahma para Narada Muni sobre as incalculáveis glórias do
Kamika Ekadashi, que remove todos pecados.
Este sagrado dia nulifica até mesmo o pecado de matar um brahmana ou matar uma criança
não-nascida no ventre, e promove a pessoa ao mundo espiritual por torná-la
supremamente meritória. (2) Quem quer
que ouça estas glórias de Kamika Ekadashi com fé se torna livre de todos
pecados e retorna ao lar, de volta para Vishnu-loka."
Assim termina a narrativa das glórias de Shravana-krsna
Ekadasi, ou Kamika Ekadasi, do Brahma-vaivarta Purana.
Notas:
(1) Em
Pushkara-kshetra fica o único templo na terra em que se adora o Senhor Brahma
formalmente.
(2) Este Ekadashi é
tão poderoso que se quem não pode jejuar simplesmente seguir as práticas aqui
mencionadas, será elevado aos planetas celestiais, junto com seus antepassados.
(3) Quem mata um brahmana, etc. e depois ouve as glórias
do Kamika Ekadashi será aliviado da reação a seu pecado. Contudo, não se deve pensar de ante-mão que se pode matar um brahmana e depois passar sem castigo
simplesmente por observar este Ekadashi.
Cometer pecado sabendo disto é uma abominação.
18 PUTRADA EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Madhusudana, ó matador do
demônio Madhu, por favor seja misericordioso para comigo e descreve para mim o
Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara do mês de Shravana
(jul/ago)." O Supremo Senhor Sri
Krishna respondeu: "Sim, ó rei, de
bom grado narrarei suas glórias para ti, pois apenas por ouvir sobre este
sagrado Ekadashi já se obtém o mérito de realizar um sacrifício de cavalo.
No alvorecer da
Dvapara-yuga, vivia um rei chamado Mahijita, que governava o reino de
Mahismati-puri. Porque não tinha filho,
seu reino inteiro parecia sem graça para ele.
Um homem casado que não tem filho não tem felicidade nesta vida ou na
próxima. (1) Durante longo tempo este
rei tentou mui arduamente obter um herdeiro, sem sucesso. Vendo os anos avançando, o Rei Mahijita
tornou-se cada vez mais ansioso. Certo
dia disse para uma assembléia de seus conselheiros: "Não cometi nenhum pecado nesta vida, e
não há nenhuma riqueza ilícita em meu tesouro.
Nunca usurpei as oferendas aos semideuses ou brahmanas. Quando fiz guerra
e conquistei reinos, segui as regras e regulaçöes da arte militar, e protegi
meus súditos como se fossem meus próprios filhos. Puni até mesmo meus próprios parentes se
transgredissem a lei, e se meu inimigo era gentil e religioso, dava-lhe as boas-vindas. ó almas duas-vezes nascidas, embora eu seja
religioso e fiel seguidor dos padröes védicos, ainda assim meu lar está sem
filho. Por gentileza me contem a razão
disso."
Ouvindo isso, os
conselheiros brahmanas do rei
discutiram o assunto entre si, e com a meta de beneficiarem o rei visitaram os
varios ashramas dos grandes
sábios. Afinal chegaram a um sábio que
era austero, puro, e auto-satisfeito, e que estava observando estritamente um
voto de jejum. Seus sentidos estavam
completamente sob controle, havia conquistado sua ira, e era perito em realizar
seu dever ocupacional. De fato, este
grande sábio era perito em todas conclusöes dos Vedas, e tinha aumentado seu tempo de vida até o do próprio Senhor
Brahma. Seu nome era Lomasa Rishi, e
conhecia o passado, presente e futuro.
Depois que cada kalpa passava,
caía um pelo de seu corpo. (2) Todos os
conselheiros brahmanas do rei
aproximaram-se muito contentes, um a um, para oferecer seus humildes respeitos.
Cativados por esta
grande alma, os conselheiros do Rei Mahijita ofereceram suas reverências a ele
e disseram mui respeitosamente:
"Apenas por nossa grande boa fortuna tivemos permissão, ó sábio, de
poder ver-te."
Lomasa Rishi os viu
prestando-lhe reverências e respondeu:
"Por gentileza, digam porque vieram até aqui. Porque estão me louvando? Preciso fazer tudo que puder para resolver
seus problemas, pois sábios como eu só possuem um interesse: ajudar os outros. Não duvidem disso." (3)
Os representantes do
rei disseram: "Viemos ver-te, ó
exaltado sábio, para pedir tua ajuda para resolver um problema sério. ó sábio, és como o Senhor Brahma. De fato, não há melhor sábio no mundo
inteiro. Nosso rei, Mahijita, está sem
filho, embora tenha nos mantido e protegido como se fossemos seus filhos. Vendo-o assim tão infeliz devido a não ter
filhos, ficamos muito tristes, ó sábio,
e portanto entramos na floresta para realizar severas austeridades. Por nossa boa fortuna encontramos contigo. Os desejos e atividades de todos tem sucesso
só por teu darshana. Assim humildemente pedimos que conte como
nosso bondoso rei pode obter um filho."
Ouvindo esta súplica
sincera, Lomasa Rishi absorveu-se em profunda meditação por um momento e de
imediato compreendeu a vida pretérita do rei.
Então disse: "Seu governante
era um mercador na vida passada, e achando seus bens insuficientes, cometeu
atos pecaminosos. Viajou a muitos
vilarejos para trocar suas mercadorias.
Uma vez, ao meio-dia depois do Ekadashi que vem durante a parte clara do
mês de Jyeshtha, ficou com sede enquanto viajava de lugar em lugar. Chegou numa linda lagoa nas cercanias de um
vilarejo, mas assim que estava para beber da lagoa, chegou ali uma vaca com seu
bezerro recém-nascido. Ambas criaturas
também estavam muito sedentas devido ao calor, mas quando a vaca e o bezerro
começaram a beber, o mercador grosseiramente empurrou-os para o lado e
egoistamente saciou sua própria sede.
Esta ofensa contra uma vaca e seu bezerro resultou no fato de seu rei
não ter filhos agora. Mas os bons atos
que realizou em sua vida anterior lhe proporcionaram o governo sobre um reino
sem perturbação."
Ouvindo isso, os
conselheiros do rei responderam: "ó
famoso rishi, ouvimos que os Vedas dizem que se pode nulificar os
efeitos de nossos pecados anteriores, adquirindo mérito. Por gentileza, nos dê alguma instrução
através da qual os pecados de nosso rei poderão ser destruídos; por favor dê
sua misericórdia a ele, para que nasça um príncipe em sua família."
Lomasa Rishi
disse: "Existe um Ekadashi chamado
Putrada, que vem durante a quinzena clara do mês de Shravana. Neste dia todos vocês, inclusive seu rei,
devem jejuar e ficar acordados a noite inteira, seguindo estritamente as regras
e regulaçöes. Então devem dar ao rei
qualquer mérito que tenham obtido por este jejum. Se seguirem estas minhas instruçöes, ele
certamente será abençoado com um bom filho."
Todos conselheiros do
rei ficaram muito contentes ao ouvirem estas palavras de Lomasa Rishi, e todos
ofereceram suas gratas reverências.
Então, com seus olhos brilhando de felicidade, retornaram para casa.