Srila Prabhupada certa
vez comentou que uma brilhante qualidade da literatura védica é sua apresentação
variada de diferentes sendas para diferentes classes de seres humanos. Assim encontramos dezoito Puranas, por exemplo - seis para aqueles
no modo material da bondade; seis para aqueles na paixão, e seis para os na
ignorância. Adicionalmente, encontramos
o filosóficos Upanishads, os
concisos, sofisticados Vedanta-sutras,
majestosos e atraentes épicos como o Mahabharata
e Ramayana, bem como muitos outros
tipos de escrituras .
Todos estes livros
védicos tem uma meta comum, conforme expressa no Bhagavad-gita 15.15: vedais ca sarvair aham eva vedyah. "Eu, (o Senhor Krishna) posso ser
conhecido através de todos os Vedas." Assim as literaturas védicas se dirigem a
todos seres humanos, em qualquer estado de evolução espiritual ou decadência
que possam estar, ocupando-os,
progressivamente, na senda da perfeição humana, culminando em amor puro por
Deus, consciência de Krishna.
Este fascinante livro
sobre o sagrado dia de Ekadashi, traduzido com tanta capacidade por Sua
Santidade Krishna Balaram Swami, ilustra poderosamente o andamento dinâmico da
literatura védica. Primeiramente, o
livro é autorizado, por ser uma tradução de escrituras padrão tais como o Bhavishya Purana, Brahmanda Purana e Skanda Purana e consistindo em sua maior
parte de conversas entre o próprio Senhor Krishna e grandes devotos como o Rei
Yudhishthira.
Frisamos ainda, que as
bençãos obtidas por observar Ekadashi irão apelar claramente a uma larga faixa
de praticantes espirituais. Assim, por exemplo,
pessoas ocupadas em vida familiar serão atraídas pelas bençãos de bons filhos,
prosperidade, etc., ao passo que aquelas que transcenderam tais apegos serão
motivadas pela oportunidade de rapidamente obter amor puro por Deus.
É claro, a verdadeira
glória de Ekadashi é que todas classes de seres humanos podem rapidamente
progredir rumo à meta de pura consciência de Krishna por observarem
corretamente este sagrado dia. O próprio
Sri Chaitanya Mahaprabhu observava Ekadashi estritamente, e Ele exigia que Seus
seguidores fizessem o mesmo. Uma leitura
sincera deste livro não poderá deixar de aumentar, de forma dramática, nossa
compreensão desta importante observância.
O autor, Krishna Balaram Swami, dá um exemplo ideal neste sentido,
observando estritamente Ekadashi, e ele nos deu uma literatura consciente de
Krishna importante e iluminadora.
Hridayananda das Goswami
Governing Body Commissioner for
the International Society for Krishna Consciousness
(GBC da ISKCON)
PREFACIO
As publicaçöes do
Bhaktivedanta Institute (BBT) lidam com as conclusöes científicas e teológicas
dos antigos escritos conhecidos como Vedas. Os Vedas
formam a base de uma civilização e cultura que dão suprema importância à
elevação da alma do aprisionamento mundano.
Assim a cultura védica nos ensina a adotar um estilo de vida
disciplinado, consciente de Deus, de modo que a alma possa experiemntar
ilimitada felicidade desenvolvendo plena consciência divina, ou consciência de
Krishna.
Na disciplina de
consciência de Krishna, jejuar a intervalos regulares é altamente recomendado
tanto para a melhora física como espiritual.
A ciência da nutrição ensina que o jejum periódico beneficia grandemente
o corpo dando aos órgãos digestivos um descanso e permitindo limpeza
interna. O corpo então funciona mais
eficientemente. Até mais importante para
devotos de Krishna, contudo, é o benefício espiritual a ser obtido por jejuar
em certos dias auspiciosos, seguindo estritamente as regras e regulaçöes. Assim devotos conscientes de Krishna são
orientados a jejuarem duas vezes por mês, no décimo primeiro dia das luas
crescente e minguante. Conforme descrito
neste livro, quem jejua neste dia, chamado Ekadashi, obtém não só benefício
físico, porém tremendo benefício espiritual.
O Instituto Bhaktivedanta
está extremamente satisfeito por apresentar este belo livro - Ekadashi, o Dia do Senhor Hari - por Sua
Santidade Krishna Balaram Swami, um membro do Instituto. Krishna Balaram Swami é um estudioso de
sânscrito e possui extensa experiência em seguir as práticas devocionais desde
a infância. Ele traduziu diligentemente
estes capítulos de vários Puranas
para nossa edificação. Esperamos que
este livro inspire muitos buscadores sinceros da Verdade Absoluta, o Senhor Sri
Krishna, a começar a observar seriamente Ekadashi.
Bhaktisvarupa Damodara
Swami
Diretor Internacional
Instituto
Bhaktivedanta
O MESTRE ESPIRITUAL PERFEITO
Sua Divina Graça A.C.
Bhaktivedhanta Swami Prabhupada apareceu numa família de devotos conscientes de
Krishna em 1896 em Calcutá, India. Desde
sua infância ele demonstrava sinais de ser um devoto puro do Senhor,
ocupando-se em kirtanas e peças
teatrais conscientes de Krishna na escola.
Seu pai, Gour Mohan De, deu-lhe treinamento espiritual adequado.
Srila Prabhupada
conheceu seu mestre espiritual Srila Bhaktisidhanta Saraswati Goswami
(1874-1937) em Calcutá, em 1922. Srila
Bhaktisidhanta Saraswati, fazia parte da sucessão discipular
Brahma-Madhva-Gaudiya Sampradaya, sendo um grande expoente e erudito em
filosofia consciente de Krishna, além de fundador de sessenta e quatro Gaudiya
Maths na India. Em seu primeiro
encontro, Srila Prabhupada recebeu as instruçöes que o inspirariam a provocar
uma revolução espiritual no mundo. Srila
Bhaktisidhanta Saraswati disse:
"Você é um jovem rapaz educado.
Porque não prega a mensagem do Senhor Chaitanya Mahaprabhu pelo mundo
inteiro?" Embora os seguidores dos Vedas adorassem o Senhor Krishna, a
Suprema Personalidade de Deus, desde tempos imemoriais, esta genuína filosofia
e literatura transcendental permaneciam desconhecidas fora da India. Ao seguir seu mestre espiritual, Srila
Prabhupada iria se tornar um elo de importância capital na transmissão dos
ensinamentos originais enunciados pelo próprio Senhor Krishna.
Em 1944 Srila
Prabhupada fundou De Volta Ao Supremo,
uma revista em idioma inglês que expunha a ciência transcendental da
consciência de Krishna. Usando seu
próprio dinheiro e trabalhando sem assistentes, ele escrevia, revisava,
editava, imprimia e distribuía a revista por todo norte da India.
Nos anos que se
seguiram, Srila Prabhupada sonhou várias vezes que Srila Bhaktisidhanta
Saraswati lhe dizia para deixar a vida de chefe-de-família e aceitar a ordem
espiritual mais elevada, a ordem renunciada de sanyasa. Quando Srila
Prabhupada teve este sonho novamente em Vrindavana, a sagrada terra mais
querida de Krishna, resolveu aceitar o desafio.
Em setembro de 1959
Srila Prabhupada aceitou o voto de renúncia das mãos do famoso sábio Srila
Kesava Maharaja em Mathura, recebendo o nome de A.C. Bhaktivedhanta Swami. Como sanyasi,
Srila Prabhupada estava em posição ideal para realizar a ordem de seu mestre
espiritual, porém primeiro ele precisava de livros e assistência financeira
para viajar aos Estados Unidos.
Dependendo plenamente
da misericórdia do Senhor Krishna, Srila Prabhupada começou um projeto
literário monumental - a produção de uma tradução para o inglês com anotaçöes
elaboradas do Srimad Bhagavatam de Srila
Krishna-Dvaipayana Vyasa, a encarnação literária de Deus. O Srimad
Bhagavatam, uma escritura enciclopédica, frequentemente é chamado de
"nata das literaturas Védicas" porque lida exclusivamente com a
personalidade e passatempos transcendentais de Deus. Srila Prabhupada lutou sozinho, escrevendo e
editando esta grande obra e coletando fundos para imprimir os primeiros três
volumes. Após completar o primeiro
volume, ele presenteou uma cópia ao
primeiro-ministro da India, Lal Bahadur Shastri, o qual apreciou o trabalho
erudito de Srila Prabhupada.
Em 1965 o caminho
finalmente estava livre para que Srila
Prabhupada embarcasse em sua jornada histórica ao ocidente. A linha de vapores Scindia deu-lhe passagem
grátis a bordo do cargueiro Jaladuta,
e em agosto de 1965 Srila Prabhupada deixou a India com um caixote de seu Srimad Bhagavatam, um par de karatalas (címbalos), e quarenta rúpias
indianas (aproximadamente sete dólares).
A viagem de quarenta
dias revelou-se árdua. Apenas alguns
dias no mar, e já o Jaladuta passava
por pesadas tempestades, e Srila Prabhupada sofria não só com o enjôo do mar,
mas também teve dois ataques cardíacos.
Por duas noites consecutivas vieram os ataques, e com sua idade de
sessenta e nove anos ele sabia que podiam ser fatais. Na terceira noite, sonhou que o próprio
Senhor Krishna o impelia e oferecia toda proteção. Os ataques não retornaram.
Quando o Jaladuta finalmente aportou no porto de
Boston em 17 de setembro, 1965, Srila Prabhupada escreveu: "Meu querido Senhor Krishna, és tão
caridoso para com esta alma inútil, porém não sei porque Me trouxeste
aqui. Agora podes fazer o que quiseres
comigo... Como farei os ocidentais
compreender a mensagem da consciência de Krishna? Sou muito desafortunado, desqualificado, e muito
caído. Portanto, estou buscando Tua
benção para que possa convencê-los, pois sou incapaz de fazê-lo por conta
própria.
Então, com seus livros
e um dinheirinho, Srila Prabhupada entrou na maior metrópole do mundo, New York
City. Durante o inverno de 1965-66 ele
lutou no clima frio, vendendo algumas cópias de seu Srimad Bhagavatam a estranhos curiosos. Apesar das dificuldades, continuou a
escrever. Eventualmente, mudou-se para o
Lower East Side de Manhattan, alugando um apartamento e uma pequena lojinha na
26ª Avenida.
Brevemente espalhou-se
a notícia entre os jovens buscadores da verdade espiritual que um swami tinha vindo com um "método de
yoga espiritual especial", o cantar do Hare Krishna mantra. Em julho de 1966
Srila Prabhupada oficialmente formou a Sociedade Internacional para Consciência
de Krishna (ISKCON) junto com alguns discípulos. Logo levou seus primeiros discípulos para o
Parque de Washington Square ali perto, para a primeira sessão de cantar Hare
Krishna em público. Sua pequena lojinha
estava começando a atrair atenção no Lower East Side. Apesar de suas regras estritas - não comer
carne, nem praticar sexo ilícito, não intoxicar-se nem jogar, brevemente atraiu
um séquito pequeno porém dedicado.
Dentro de alguns meses
Srila Prabhupada tinha aberto centros em São Francisco, Montreal, Boston, Los
Angeles, e Búfalo. Fundou Nova
Vrindavana (comunidade agrária) na Virginia ocidental e introduziu no ocidente
o sistema gurukula de educação. Srila Prabhupada também inspirou a construção
de diversos grandes centros culturais internacionais na India, tais como o Sri
Chaitanya-chandrodaya Mandir na Bengala ocidental, o Templo e Hospedaria de
Krishna-Balaram em Vrindavana, e um grande centro educacional e templo em
Bombay. Antes de Srila Prabhupada
falecer em 1977, viu seu movimento Hare Krishna se espalhar pelo mundo todo,
com centros na maioria das cidades grandes da América, Europa, Africa, Asia e
Australia.
Embora viajando
constantemente - realizou nada menos que quatorze tours mundiais em doze anos -
Srila Prabhupada nunca parou de escrever sobre a ciência da consciência de
Krishna. Mais de oitenta volumes de seus
livros foram publicados em mais de trinta idiomas, e mais que 150 milhöes de
unidades de sua literatura tem sido distribuídas mundialmente. Estes livros incluem o Bhagavad-gita Como Ele É (1968), Ensinamentos do Senhor Chaitanya (1968), Krishna, a Suprema Personalidade de Deus (1970), O Néctar da Devoção (1970), os dezessete
volumes do Sri Chaitanya-caritamrita
(1973-75) e trinta volumes do Srimad
Bhagavatam (1962-1977). Onde quer
que Srila Prabhupada fosse, ele traduzida literatura védica e nutria seus
discípulos e o movimento.
Srila Prabhupada
realizou estas façanhas inconcebíveis entre a idade de sessenta e nove e
oitenta e um, através de grande esforço pessoal e fé inabalável em Krishna, o
Senhor Supremo. Aqui mencionamos apenas
algumas de suas realizaçöes transcendentais.
Sua biografia completa, por Satsvarupa dasa Goswami, já está
disponível. Chama-se Srila Prabhupada-lilamrita.
É claro que Srila
Prabhupada não era um espiritualista qualquer, mas sim, um grande santo
escolhido e empoderado pelo Senhor Krishna para trazer as pessoas do mundo ao
reino de Deus, entregando-lhes o processo puro de consciência de Krishna. A contribuição mais significante de Srila
Prabhupada nesse sentido são seus livros, altamente respeitados pela comunidade
acadêmica por sua autoridade, profundidade, e clareza. Na verdade, servem como livros-texto em vários
cursos universitários. A Bhaktivedhanta
Book Trust, estabelecida em 1972 para publicar suas obras, tornou-se a maior
editora mundial no campo da religião e filosofia indiana. Os livros de Srila Prabhupada poderão
beneficiar toda humanidade, pois as palavras deste mestre espiritual perfeito
podem salvar qualquer pessoa deste mundo hipócrita e miserável e mostrar o
caminho para retornar ao lar, de volta para Deus.
INTRODUÇÃO
"Se uma pessoa jejuar no Ekadashi, queimarei
todos seus pecados e concederei a ela Minha morada transcendental... De fato, Ekadashi é o dia mais meritório para
destruir todos tipos de pecado, e apareceu a fim de beneficiar
todos." (Senhor Krishna para
Arjuna, Capítulo I)
Como o Senhor Krishna,
a Suprema Personalidade de Deus, disse no Bhagavad-gita
15.7, as entidades vivas debatendo-se neste mundo material são eternas
centelhas espirituais, parte e parcela Dele, o Espírito Supremo do Todo. Como a
função da parte é naturalmente a de servir o todo, a função natural da entidade
viva é servir o Senhor Krishna. Mas esta
função se tornou artificialmente encoberta pela ignorância devido ao contato da
entidade viva com a natureza material.
Em vez de servir Krishna, esta se identifica com seu corpo e mente, e
tenta assenhorear-se da energia material de Krishna. Esta contaminação, conhecida como falso-ego
ou falsa identificação com a matéria, é a fonte de todo sofrimento para a
alma. Mas assim como a água contaminada
pode ser filtrada e destilada, e assim trazida de volta ao estado normal, puro,
também a entidade viva contaminada pelo falso-ego pode ser purificada pelo
processo transcendental de consciência de Krishna. Uma das principais partes deste processo é a
observância de jejum no Ekadashi.
Ekadashi é um dia de
austeridade observado regularmente por aqueles que seguem sanatana-dharma,
ou consciência de Krishna. Eka
significa "um", e dashi é a
forma feminina da palavra dasha, que
significa "dez". Ekadashi é
portanto o décimo primeiro dia da quinzena clara e obscura de cada mês. Nestes dias especiais devotos jejuam de grãos
e feijões e fazem um esforço extra para prestarem serviço devocional à Suprema
Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna.
Como declara Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, o
fundador-acharya da ISKCON, no Bhagavad-gita Como Ele É 9.14,
significado, "No serviço devocional há certas atividades que são chamadas
determinadas, tais como jejuar em certos dias, como o décimo primeiro dia da
lua, Ekadashi, e no dia de aparecimento do Senhor."
O jejum de Ekadashi
não se destina apenas aos brahmacharis
e sannyasis, ou apenas para viúvas,
como algumas pessoas de mente estreita disseram. Estes sagrados dias de jejum auxiliam
grandemente qualquer alma sincera a obter liberação do nascimento e morte, até
mesmo dentro desta vida. Ekadashi dá um
verdadeiro gosto da renúncia, assim nos auxiliando a deixar a gratificação
sensorial ilusória deste mundo material.
Como Srila Prabhupada escreve no Srimad-Bhagavatam
3.27.22, significado), "Renúncia em consciência de Krishna é tão forte que
não pode ser desviada por qualquer ilusão atraente. A pessoa tem que realizar serviço devocional
em plena tapasya, austeridade. Deve-se jejuar nos dois dias de Ekadashi, que
caem no décimo primeiro dia da lua minguante e crescente, e nos dias de aparecimento
do Senhor Krishna, Senhor Rama, e Chaitanya Mahaprabhu."
Existem dois grupos de
seres humanos neste mundo. Um consiste
dos espiritualmente conscientes, que vivem pelas escrituras védicas, e o outro
consiste das pessoas ignorantes, materialistas, que não o fazem. Porém o Senhor Krishna aceita todas almas
como Seus filhos. Sendo
todo-misericordioso, portanto, Ele estabeleceu neste mundo processos
purificatórios tais como Ekadashi para que todos possam ser elevados
espiritualmente. As almas rendidas, os
devotos de Krishna, observam este jejum para conseguir as bençãos de Krishna,
ficarem livres das garras de Maya, e voltarem para Deus a fim de servir Krishna
eternamente. Os ignorantes, por outro
lado, poderão tirar vantagem desta ocasião auspiciosa para obter benefícios
materiais, que também são concedidos pelo Senhor Krishna. Mas até mesmo materialistas podem
eventualmente obter liberação por continuamente observarem o jejum de Ekadashi. Tal é a grande potência do Ekadashi.
Para conseguir o pleno
benefício de um jejum de Ekadashi, contudo, o obervador deve seguir as regras e
regulações descritas neste livros. Se as
regras forem devidamente seguidas, e se observarmos Ekadashi em plena
consciência de Krishna, esta observância eleva a alma caída a sua posição
constitucional origina como serva amorosa do Senhor. Portanto Ekadashi se chama "a melhor de
todas ocasiões". Todos são
convidados a provarem o maravilhoso fruto de um jejum de Ekadashi.
No dia do jejum devemos se possível evitar trabalho físico estafante, e realizar
apenas atividades de serviço devocional ao Senhor Krishna. Uma carta de Srila Prabhupada para
Jadurani-devi dasi datada de 9 de julho de 1971 confirma esta declaração: "Porque apenas vinte e cinco
voltas?" escreve ele, "Deves cantar tantas voltas quanto
possível. Verdadeiro Ekadashi significa
jejuar e cantar e mais nenhum outro afazer.
Quando se observa jejum, o cantar se torna mais fácil. Assim no Ekadashi outros assuntos devem ser
suspensos ao máximo possível, a não ser que haja algo urgente."
A importância do
Ekadashi é explicada no Chaitanya-caritamrta
(Adi-lila 15.9-10), numa conversa entre Senhor Chaitanya e Sua mãe,
Saci-devi: "Certo dia Sri Chaitanya
Mahaprabhu caiu aos pés de Sua mãe e pediu a ela que Lhe desse uma coisa em
caridade. Sua mãe respondeu: "Meu querido filho, darei o que
pedires." Então o Senhor disse: "Minha querida mãe, por favor não coma
grãos no dia de Ekadashi." Em seu
significado Srila Prabhupada escreve:
"Desde o princípio de Sua infância, Sri Chaitanya Mahaprabhu
introduziu o sistema de observar um jejum no dia de Ekadashi. No Bhakti-sandarbha
de Srila Jiva Goswami, há uma citação do Skanda
Purana admoestando a pessoa que come grãos no Ekadashi a se tornar
assassina de sua mãe, pai, irmão, e mestre espiritual, e mesmo se for elevada a
um planeta Vaikuntha, irá cair. No
Ekadashi, tudo é cozido para Vishnu, inclusive os costumeiros grãos e dal, porém é ordenado que um Vaisnava
não deve nem tomar vishnu-prasadam no
Ekadashi. É dito que um Vaisnava não
aceita nada comestível que não seja oferecido ao Senhor Vishnu, mas no Ekadashi
um Vaisnava não deve nem mesmo tocar maha-prasadam
oferecida a Vishnu, embora tal prasadam
possa ser guardada para ser comida no dia seguinte. É estritamente proibido aceitarmos qualquer
tipo de grão no Ekadashi, mesmo se for oferecido ao Senhor Vishnu."
Tanto a medicina
ocidental como a ayurvédica
recomendam jejuar para manter e melhorar a saúde. Na verdade, biólogos modernos e antigos
sábios concordam que jejuar nos melhora fisicamente e mentalmente. Portanto naturalmente se entende que o jejum
de Ekadashi previne e cura muitas doenças.
Srila Prabhupada declara no Srimad-Bhagavatam
1.17.38 significado: "O estado que
deseja erradicar a corrupção pela maioria poderá introduzir os princípios da
religião da seguinte maneira: 1. Dois
dias de jejum compulsório num mês, se não for mais (austeridade). Mesmo do
ponto de vista econômico, esses dois dias de jejum num mês economizarão para o
estado toneladas de alimento, e o sistema também atuará favoravelmente na saúde
geral dos cidadãos."
Neste livro o leitor
descobrirará que algumas pessoas que observam Ekadashi chegam aos planetas
celestiais. Esta meta não deve ser
entendida erroneamente como o propósito final de jejuar no Ekadashi. Muitas figuras mencionadas neste livro
observam o jejum de Ekadashi por acaso; elas não seguem regras e estão imersas
na ignorância. Não sabem que estão observando
Ekadashi, e seus coraçöes estão cheios de desejos materiais. Ainda assim, ambos tipos de pessoas e aqueles
que observam corretamente Ekadashi com fins materiais alcançam suas metas. Mas o devoto consciente de Krishna que deseja
devoção imotivada, pura e sem misturas por Deus, e que observa Ekadashi nesse
espírito, é promovido naturalmente a Goloka Vrndavana, a morada suprema do
Senhor Krishna. De fato, o jejum de
Ekadashi auxilia grandemente no progresso de volta para Deus.
Como Observar Ekadashi
Jejuar em geral significa
abster-se tanto de alimento como de bebida, embora água de acamana e caranamrta
(apenas três gotas) possa ser bebida.
Achando isso impossível, pode-se comer uma só refeição única sem grãos
de tarde. Esta refeição - chamada nakta ou ceia - deve consistir de raízes
que crescem sob a terra (exceto beterraba), frutas, água, laticínios, nozes,
açúcar, e vegetais (exceto cogumelos).
Deve-se tentar não beber água mais que uma vez ou comer mais que uma
refeição no Ekadashi. Como o Senhor
Krishna diz para Arjuna no Capítulo Um deste livro, a quantidade total do
mérito é concecida àquela pessoa que jejua completamente no Ekadashi, enquanto
quem come apenas jantar obtém a metade desse mérito. É claro, para cada devoto no movimento de
consciência de Krishna, pregar é o dever mais importante, e se um jejum
completo de Ekadashi impede esse dever, não deve ser observado. Mas se um devoto consegue seguir as regras plenas de jejum e ainda cumprir com suas
responsabilidaes, deve de qualquer maneira fazê-lo.
Em todo caso, devemos
evitar estritamente comer grãos ou legumes no Ekadashi. Devemos também evitar dormir durante o dia;
uma massagem com óleo; comer nozes betel; tocar numa mulher menstruada, num candala, num bêbado, ou lavadeira; evitar o barbear e comer com utensílios de
metal de sino. Caso a pessoa coma, além
de grãos e legumes deverá evitar o seguinte:
espinafre, mel, berinjela, comer na casa de outrem, assafétida, e sal marinho. (Outros tipos de sal, tal como o salgema, são
permitidos). Só quem estiver doente
poderá consumir remédios de ervas neste dia sagrado.
Embora atualmente o
calendário védico comece com o mês Caitra (mar/apr), na antiguidade o ano novo
começava com o mês de Margashirsha, ou nov/dec.
Este é um mês muito auspicioso. Como
o Senhor Sri Krishna declara no Bhagavad-gita
10.35, masanam marga-shirsho 'ham: "Dos meses sou Margashirsha." Portanto quem está começando a observância de
jejuns de Ekadashi usualmente começa durante este mês. Há dois Ekadashis em cada mês, um durante a
quinzena escura e um durante a clara.
São igualmente poderosos para avanço espiritual.
Para começar o jejum,
o devoto deve primeiro determinar ficar firme em seu voto. Então deve procurar um devoto erudito,
duas-vezes nascido do Senhor Supremo e aprender diretamente dele sobre o
sagrado processo de observar um jejum de Ekadashi. Quem é totalmente incapaz de jejuar devido a
doença séria ou velhice deve procurar uma alma altamente avançada e dar alguma
caridade no Ekadashi. Para Vaisnavas,
contudo, a injunção de dar caridade no Ekadashi significa que nesse dia devem
fazer um esforço extra para divulgar consciência de Krishna, o maior
tesouro. Isso é verdadeira
caridade. Outra prática importante é
ouvir e ler sobre cada Ekadashi conforme ocorre. O próprio Senhor Sri Krishna recomenda muito
esta prática, pois nos auxilia a conseguir o resultado de jejuar.
Se por acaso a pessoa
esquece de observar Ekadashi no dia apropriado, poderá observá-lo no dia
seguinte, Dvadashi, e depois quebrar seu jejum no Trayodashi, o dia que se
segue. Conforme dito nas escrituras
védicas:
ekadashi vipluta ced
dvadashi paratah sthita
upasya dvadashim tatra
yadicched paramam padam
"Se uma pessoa
que deseja sinceramente alcançar a morada da Suprema Personalidade de Deus
esquece de observar Ekadashi, deve observá-lo no Dvadashi, porque Ekadashi se
prolonga ao dia seguinte."
Durante o Ekadashi da
quinzena luminosa, se deve meditar nos doze santos nomes do Senhor Vishnu
cantando o mantra: om keshavaya namah
e os outros mantras que devotos do
Senhor recitam sistematicamente quando aplicam tilaka, argila sagrada, em seus corpos. Durante o Ekadashi da quinzena obscura, o
devoto deve meditar nos dezesseis santos nomes das expansöes quádruplas do
Senhor Supremo e suas porçöes plenárias subsequentes. O devoto deve cantar: om
sankarshanaya namah, om govindaya namah, etc. (Por favor refiram-se ao Chaitanya-caritamrta, Madhya-lila
20.195-97).
Durante cada Ekadashi
devemos constantemente meditar na Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Sri
Krishna, dando importância a Suas expansöes plenárias. Também se pode meditar nos aparecimentos
autorizados do Senhor em Sua forma da Deidade, que existe em oito variedades. No Srimad-Bhagavatam
11.27.12 o Senhor Krishna diz para Uddhava:
shaili daru-mayi lauhi
lepya lekhya ca saikati
mano-mayi mani-mayi
pratimashta-vidha smrta
"A forma da
Deidade do Senhor é dito que aparece em oito variedades - pedra, madeira,
metal, terra, tinta, a mente, ou jóias."
Se o Ekadashi combinar-se
astronomicamente com Dashami, o décimo dia da quinzena, n
m,
todo acharya recomenda que todos
membros das quatro ordens sociais e espirituais observem fiel e estritamente
Ekadashi para alcançar a morada suprema de Sri Krishna. Contudo, existe esta instrução sobre mulheres
casadas:
patvo jivati ya nari
upasya vrtam acaret
ayusham harate bhartur
narakam caiva gacchati
"Uma mulher cujo
marido esteja vivo deve pedir a permissão dele para observar jejuns. Se deixar de fazê-lo, ela reduz a duração de
vida dele e o manda para o inferno."
Uma mulher casada portanto deve obter a permissão de seu marido antes de jejuar no Ekadashi.
Na manhã de Ekadashi,
o devoto deve chegar diante da Deidade da Suprema Personalidade de Deus - o
Senhor Sri Krishna ou Senhor Rama - e cantar as oraçöes Purusha-shukta, começando pelo verso cujas primeiras palavras são sahasra-shirsha purushah. O devoto em seguida deve oferecer suas
humildes reverências ao Senhor e meditar em Seus pés de lótus enquanto canta om damodaraya namah, em Suas coxas
enquanto canta om madhavaya namah, em
Suas partes privadas enquanto canta om
kamapataye namah, em Seus quadris enquanto canta om vamanaya namah, em Seu umbigo enquanto canta om vishvamurtaye namah, em Seu coração
enquanto canta om jnanagamyaya namah,
em Sua garganta enquanto canta om
shrikanthaya namah, em Seus braços enquanto canta om sahasrabahave namah, em Seus olhos de lótus enquanto canta om paramayogine namah, em Sua testa
enquanto canta om urugayai namah, em
Seu nariz enquanto canta om
narakeshvaraya namah, em Seu cabelo enquanto canta om sarvakamadaya namah, e em Sua cabeça enquanto canta om
sahasrashirshaya namah.
Desta maneira o devoto
sincero deve meditar na esplêndida forma espiritual da Suprema Personalidade de
Deus, o Senhor Sri Krishna, e oferecer suas humildes reverências a Ele. O devoto deve cantar Seus gloriosos nomes -
Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare / Hare Rama, Hare Rama,
Rama Rama, Hare Hare - enquanto toca vários instrumentos musicais, e deve
também cantar silenciosamente nas contas com total reverência e afeição. Se possível, o devoto deve permanecer
acordado toda noite, glorificando o Senhor desta maneira.
Um devoto que segue as
ordens de seu mestre espiritual e observar Ekadashi desta maneira - jejuando
completamente e glorificando o Senhor dia e noite adentro num humor de devoção
amorosa - certamente irá se tornar plenamente absorto em pura consciência de
Krishna.
No Dvadashi, o devoto
deve primeiro limpar seu corpo tomando banho e seu coração cantando o maha-mantra. Então ele deve cozinhar alimento suntuoso
para o prazer do Senhor e oferecer a Ele com grande devoção e oraçöes
sinceras. Após distribuir alimento aos
outros devotos e aos brahmanas, ele
pode quebrar seu jejum e desfrutar do banquete.
Sobre Este Livro
Este livro destina-se
a complementar os livros de Srila Prabhupada.
Consiste da tradução de seleçöes de vários Puranas, que foram escritos por Srila Vyasadeva, a encarnação
literária de Deus. Srila Suta Goswami
está falando para oitenta e oito mil sábios reunidos na floresta de
Naimisharanya. Shaunaka, o principal
dentre todos sábios, indaga de Suta Goswami sobre como se pode ficar livre de
todas reaçöes pecaminosas. A não ser
que se esteja livre de todos pecados, não se pode realizar serviço devocional
puro. Como diz o Senhor Krishna no Bhagavad-gita 7.28: yesham
tv anta-gatam papam jananam punya-karmanam... bhajante mam drdha-vratah. "Pessoas que agiram piedosamente nesta e
em vidas pretéritas, e cujas açöes pecaminosas estão completamente erradicadas,
ocupam-se em Meu serviço com determinação."
Para responder
Shaunaka, Suta Goswami narra vários relatos históricos contendo conversas
mantidas na antiguidade. Alguns podem pensar
que a regras estritas para observar Ekadashi dadas nestas narrativas são da
seção karma-kanda das escrituras,
porém todas estas regras destinam-se a ajudar o devoto aspirante a obter
purificação suprema. A não ser que estas
fossem as histórias mais puras, o Senhor Krishna, Arjuna, Yudhishthira, o
Senhor Brahma, Narada Muni, Suta Goswami, e Shaunaka Rishi não desperdiçariam
seu tempo valioso apresentando os fatos exaustivamente. Além do mais, Sri Dvaipayana Vyasa, a
encarnação literária do Senhor, não escreveria estes fatos nos Puranas que se destinam àqueles no modo
da bondade. Portanto uma pessoa que tem
inclinação espiritual deve aceitar estas injunçöes de todo coração. Elas destinam-se à nossa elevação.
Todo o processo de
consciência de Krishna, conforme ensinado por Sri Chaitanya Mahaprabhu, é
baseado no vairagya-vidya,"renúncia
e conhecimento." A observância
estrita do jejum de Ekadashi é um ato de renúncia autorizado, provado, que
acentua a pureza e amor por Krishna do devoto.
Como Srila Prabhupada escreve no Néctar
da Devoção p. 63: "No Brahma-vaivarta Purana é dito que quem
observa jejum no dia de Ekadashi se liberta de todos tipos de reaçöes a
atividades pecaminosas e avança na vida piedosa. O princípio básico não é só jejuar, mas
incrementar nossa fé e amor por Govinda, ou Krishna. A verdadeira razão para observar jejum no
Ekadashi é minimizar as demandas do corpo e ocupar nosso tempo no serviço do
Senhor cantando ou realizando serviço similar.
A melhor coisa a fazer nos dias de jejum é lembrar dos passatempos de
Govinda e ouvir Seu santo nome constantemente."
Assim se deve observar
o jejum de Ekadashi com grande devoção por Krishna, não com motivos
materiais. Como diz Narada Muni para
Vyasadeva no Primeiro Canto do Srimad-Bhagavatam,
devemos tentar obter aquela coisa que não obtivemos por vagar através dos
sistemas superiores e inferiores deste universo, por incontáveis nascimentos
nas muitas espécies de vida. Esta meta é
pura consciência de Krishna, que nos levará de volta para a morada do Senhor
Krishna no céu espiritual.
Por isso encorajamos
todos a aproveitar da grande benção da forma de vida humana civilizada,
adotando a prática do serviço devocional a Krishna, obtendo liberação do nascimento,
velhice, doença, e morte, e retornando ao lar, de volta para Deus. A devida observância de Sri Ekadashi aumenta
grandemente este serviço devocional puro.
Assim, todos são convidados a tomarem parte no festival de jejuar no
Ekadashi.
Finalmente, gostaria
de oferecer meus sinceros agradecimentos e mais humildes reverências aos pés de
lótus de meu amado mestre espiritual, Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami
Prabhupada, que misericordiosamente abriu meus olhos espirituais enquanto eu
estava na escuridão da ignorância. A não
ser que ele tivesse me pegado, não
poderia jamais ter aprendido sobre a ciência de consciência de Krishna e o
mundo espiritual eterno. Também ofereço
meus sinceros agradecimentos a Srila Bhaktisvarupa Damodara Swami, o diretor
internacional do Bhaktivedanta Institute, que publicou este livro, por cuja
misericórdia ainda existo como devoto.
São eles que me inspiram a produzir este livro a fim de que sinceros
devotos do Senhor Krishna possam ter algum conhecimento sobre o jejum de
Ekadashi e estudar melhor os livros de Srila Prabhupada.
Também desejo oferecer
meus sinceros agradecimentos a Sriman Nick Epsilantis por sua generosa doação,
bem como a todos os devotos em seguida relacionados, que trabalharam arduamente
para editar este livro e/ou forneceram apoio financeiro essencial: Sua Santidade Mahanidhi Swami, Sua Santidade
Lokasharanya Swami, Sriman Riktananda dasa, Sriman Dravida dasa, Sriman
Rohinipriya dasa, Sriman Agnideva dasa e família, Sriman Bhayahari dasa e família,
Sriman Bhaktisiddhanta dasa, Sriman Grahila dasa, Sriman Banabhatta dasa,
Sriman Kalpataru dasa, Sriman Kalachandra dasa, Sriman Bopadeva dasa, Sriman
Rudradeva dasa, Sriman Gadagraja dasa, Sriman Manohara dasa, Sriman Aniruddha
dasa e família, Srimati Yashodamayi-devi dasi, e Sriman Sarvasatya dasa.
INVOCAÇÃO
Suta Goswami
disse: "Existem doze meses num ano,
e dois Ekadashis em cada mês. Portanto
há vinte e quatro Ekadashis num ano completo, e num ano bi-sexto temos dois
Ekadashis a mais. ó grandes sábios, por
favor ouçam atentamente enquanto declaro para vós os nomes destes auspiciosos
Ekadashis. São Utpanna, Mokshada,
Saphala, Putrada, Sat-tila, Jaya, Vijaya, Amalaki, Papamocani, Kamada,
Varuthini, Mohini, Apara, Nirjala, Yogini, Padma (Devashayani), Kamika,
Putrada, Aja, Parivartini, Indira, Papankusha, Rama e Haribodhini
(Devotthani). Os dois Ekadashis extras,
que ocorrem durante o ano bi-sexto, se chamam Padmini e Parama.
ó sábios, quem ouve
sobre estes Ekadashis irá saber como observá-los corretamente. Cada Ekadashi concede determinadas bençãos ao
fiel observador.
Quem está fisicamente
incapacitado de jejuar no Ekadashi poderá ler as glórias de cada Ekadashi
quando ocorrer e recitar todos os nomes dos Ekadashis; assim conseguirá a mesma
meta que a pessoa que observa o voto completo de Ekadashi."
EKADASI
"Há cinco barcos
para as pessoas que estão se afogando no oceano da existência material: o Senhor Vishnu, o Bhagavad-gita, Srimati
Tulasi-devi, a vaca, e Ekadasi. (Senhor Krishna
falando a Garuda, no Garuda Purana)
Quem faz o jejum de
Ekadasi não só se beneficia tremendamente a nível do corpo físico, mas também
espiritualmente. Concede muito avanço
espiritual. Auxilia qualquer alma sincera
a obter liberação do nascimento e da morte, mesmo durante esta vida.
"Se uma pessoa
jejua no Ekadasi, Eu acabo com todos seus pecados e concedo-lhe Minha morada
transcendental... De fato, Ekadasi é o
dia mais cheio de mérito para se destruir todo tipo de pecados, e surgiu a fim de
beneficiar todos." (Senhor Krishna
p/Arjuna no Capítulo 1 ).
Nota da tradutora:
Muitas pessoas seguem Ekadasi (o jejum de grãos sempre 11 dias após a lua
minguante ou lua crescente) mas não sabem exatamente sua história. Aqui vai um resumo do 14º capítulo do Padma
Purana sobre o aparecimento de Sri Ekadasi:
Na verdade a divindade
Sri Ekadasi é uma forma de Vishnu. Ele
apareceu nos primórdios da criação material com o intento de liberar as
entidades que estavam sofrendo nos planetas infernais. Seguindo o voto de Ekadasi, todas estas
entidades alcançaram os planetas espirituais.
Porém a personalidade que encarna todas as atividades pecaminosas, o
"Papa-Purusha", ficou à mingua, prestes a perecer. Conhecendo a natureza de absoluta benesse do
Senhor Vishnu, Papa-Purusha rogou refúgio e vida. Assim, Vishnu concedeu-lhe abrigo nos grãos
alimentícios, mas somente nos dias acima-mencionados, e dessa maneira o
universo material pode manter seu andamento normal.
"Quando se jejua,
os ares vitais (doshas) desequilibrados
se re-equilibram, e nosso corpo e mente se normalizam. Além disso, obtemos leveza física, um apetite
e sede saudável, disposição agradável, boa digestão, bem como força, energia e
vigor." (Ayurveda: Astangahrdayam
1.3)
"Estes são os
benefícios do jejum: purificação dos
órgãos sensoriais e motores, eliminação adequada dos dejetos, leveza do corpo,
apetite saudável, aparecimento de fome e sede nos devidos horários, pureza da
região pericardial, elimina problemas de gases e garganta, relaxa tensão
corporal aguda, confere bom humor e liberta da indolência." (Ayurveda:
Sutrasthanam 14.17)
"Jejuo para
controlar minha mente e alma. Isto me dá
força e determinação para alcançar minha meta.
(Mahatma Ghandi)
1 UTPANNA
EKADASHI
Suta Goswami disse: "ó brahmanas
sábios, há muito tempo atrás o Senhor Sri Krishna, a Suprema Personalidade de
Deus, explicou as glórias auspiciosas de Sri Ekadashi e as regras e regulaçöes
governando cada jejum obervado naquele dia santo. ó melhor dos brahmanas, quem quer que ouça sobre as origens e glórias destes
jejuns sagrados nos dias de Ekadashi vai direto para a morada do Senhor Vishnu
após desfrutar de muitos diferentes tipos de felicidade neste mundo material.
Arjuna, o filho de
Prtha, perguntou ao Senhor: "ó Janardana,
quais são os benefícios piedosos do jejum completo, de apenas jantar, ou comer
somente ao meio-dia no Ekadashi, e quais são as regulaçöes para observar os
vários dias de Ekadashi? Tenha a bondade
de narrar-me tudo isso."
O Senhor Supremo, Sri
Krishna, respondeu: "ó Arjuna, no
início do inverno, no Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do mês de
Margashirsha (Nov/Dec), um noviço deve começar sua prática de observar jejum no
Ekadashi. No Dashami, dia antes de
Ekadashi, deve limpar bem seus dentes.
Depois, durante a oitava porção de Dashami, assim que o sol esteja para
se por, deve comer jantar.
Na manhã seguinte o
devoto deve fazer um voto, segundo as regras e regulaçöes, de observar
jejum. Ao meio-dia deve-se banhar
devidamente num rio, lago, ou pequena lagoa.
Um banho num rio é o mais purificante, num lago algo menos, e numa
pequena lagoa é o menos purificante. Se
nem um rio, lago ou lagoa forem acessíveis, então poderá banhar-se com água de
poço.
O devoto deve cantar sua
oração contendo os nomes da Mãe Terra:
"Oh Ashvakrante! ó
Rathakrante! ó Vishnukrante! ó Vasundhare!
ó Mrttike! ó Mãe Terra!
Bondosamente remova todos os pecados que acumulei por minhas muitas
vidas pretéritas de modo que eu possa entrar na morada sagrada do Senhor
Supremo." Enquanto o devoto canta,
ele deve passar barro em todo seu corpo.
Durante o dia de jejum
o devoto não deve falar com aqueles que caíram de seus deveres religiosos,
comedores de cães, ladröes, ou hipócritas.
Também deve evitar falar com caluniadores, com aqueles que insultam os
semideuses, as literaturas védicas, ou brahmanas,
ou com quaisquer outras personalidades más, tais como os que tem sexo com
mulheres proibidas (1), saqueadores, ou ladröes de templo. Caso falemos ou até mesmo só vejamos uma tal
pessoa durante o Ekadashi, devemos nos purificar olhando diretamente para o
sol.
Depois o devoto deve
adorar respeitosamente o Senhor Govinda com alimento, flores e tudo o mais de
primeira classe. Em seu lar ele deve
oferecer ao Senhor uma lamparina em consciência devocional pura. Deve também evitar dormir durante o dia e
deve abster-se completamente de sexo.
Jejuando de todo alimento e água, deve alegremente cantar as glórias do
Senhor e tocar instrumentos musicais para Seu prazer noite afora. Após permanecer acordado toda noite em
consciência pura, o adorardor deve dar caridade a brahmanas qualificados e oferecer suas humildes reverências a eles,
implorando pelo perdão deles para suas ofensas.
Aqueles que são sérios
quanto ao serviço devocional devem considerar os Ekadashis que ocorrem durante
a quinzena obscura como sendo tão bons quantos os que ocorrem durante as
luminosas. ó rei, nunca devemos
discriminar entre esses dois tipos de Ekadashi.
Por favor ouça
enquanto agora descrevo os resultados obtidos por alguém que observa Ekadashi
desta maneira. Nem o mérito que se
recebe por tomar banho num local sagrado de peregrinação conhecido como Shankhoddhara, onde o Senhor
matou o demônio Shankhasura, nem o mérito que recebemos por ver o Senhor
Gadadhara diretamente, é igual a um décimo-sexto do mérito obtido por jejuar no
Ekadashi. É dito que por doar caridade
numa segunda-feira de lua-cheia, se obtém cem mil vezes os resultados da caridade
comum. ó ganhador de riqueza, quem dá
caridade no dia de sankranti
(equinócio) obtém quatrocentas mil vezes o resultado comum. No entanto, simplesmente por jejuar no
Ekadashi se obtém todos esses resultados piedosos, bem como quaisquer
resultados piedosos que se consiga em Kurukshetra durante um eclipse do sol ou
lua. Além do mais, a alma fíel que
observar jejum completo no Ekadashi consegue cem vezes mais mérito que uma que
realize um Ashvamedha-yajna (sacrifício de cavalo). Quem observa apenas um só jejum de Ekadashi
perfeitamente ganha o mesmo mérito que quem alimenta cem mil mendigos todo dia
durante sessenta mil anos. E uma pessoa
que observa corretamente Ekadashi apenas uma vez ganha mais mérito que uma
pessoa que dá mil vacas em caridade a um brahmana
erudito nos Vedas.
Uma pessoa que
alimenta apenas um brahmachari ganha
dez vezes mais mérito que alguém que alimenta dez bons brahmanas em sua própria casa.
Porém mil vezes mais mérito que o recebido por alimentar um brahmachari é obtido por doar terra a um
brahmana respeitável e necessitado, e
mil vezes mais que isso é obtido por dar uma moça virgem em casamento a um
homem jovem, bem-educado, responsável.
Dez vezes mais benéfico que isto é educar crianças devidamente na senda
espiritual, sem esperar qualquer recompensa em troca. Dez vezes melhor que isso, no entanto, é dar
grãos alimentícios aos esfomeados. De
fato, dar caridade aos necessitados é o melhor, e nunca houve ou haverá
caridade melhor que esta. (2) ó filho de
Kunti, todos antepassados e semideuses no céu ficam muito satisfeitos quando se
dá grãos alimentícios em caridade. Mas o
mérito que se obtém por obervar um jejum completo no Ekadashi é
imensurável. ó Arjuna, melhor de todos
Kurus, o efeito poderoso deste mérito é inconcebível mesmo para os semideuses,
e a metade deste mérito é obtido por quem come apenas o jantar no Ekadashi.
Portanto deve-se
observar jejum no dia do Senhor Hari, seja comendo apenas uma vez ao meio-dia,
abstendo-se de grãos e feijöes; ou comer apenas uma vez à noitinha, abstendo-se
de grãos e feijöes; ou jejuar completamente.
Os processos de permanecer em locais de peregrinação, dar caridade, e
realizar sacrifícios de fogo só podem se gabar enquanto não aparece
Ekadashi. Portanto qualquer pessoa
temerosa das misérias da existência material deve observar Ekadashi. No Ekadashi não se deve beber água de uma
concha, matar entidades vivas como peixes ou porcos, ou comer quaisquer grãos
ou feijöes. Assim te descrevi, ó Arjuna,
o melhor de todos métodos de jejum, conforme indagaste a Mim."
Arjuna então
perguntou: "ó Senhor, segundo
falaste, mil sacrifícios védicos não equivalem a um só jejum de Ekadashi. Como pode ser isso? Como é que Ekadashi se tornou o mais
meritório dos dias?"
O Senhor Krishna
respondeu: "Vou te contar porque
Ekadashi é o mais purificante de todos dias.
Na Satya-yuga certa vez vivia um demônio espantosamente aterrorizante
chamado Mura. Sempre muito irado, ele
aterrorizava todos semideuses, derrotando até Indra, o rei do céu; Vivasvan, o
deus do sol; os oito Vasus (3); o Senhor Brahma; Vayu, o deus do vento; e Agni,
o deus do fogo. Com seu terrível poder
colocou todos sob seu controle.
O Senhor Indra então
aproximou-se do Senhor Shiva e disse:
"Todos nós caímos de nossos planetas e agora estamos vagando
desprotegidos na terra. ó Senhor, como
poderemos encontrar alívio desta aflição?
Qual será o destino de nós semideuses?"
O Senhor Shiva
replicou: "ó melhor dos semideuses,
vá para aquele lugar onde o Senhor Vishnu, que cavalga Garuda, reside. Ele é Jagannatha, o soberano de todos
universos e refúgio deles também. Ele
está devotado a proteger todas almas que se renderam a Ele."
O Senhor Krishna
continuou: "ó Arjuna, ganhador da
riqueza, depois que o Senhor Indra ouviu estas palavras do Senhor Shiva, foi
com todos semideuses para o local onde o Senhor Jagannatha, o Senhor do
universo, protetor de todas almas, estava descansando. Vendo o Senhor dormindo sobre a água, os
semideuses juntaram suas palmas e, liderados por Indra, recitaram as seguintes
oraçöes:
"ó Suprema Personalidade
de Deus, todas reverências a Ti. ó Senhor dos Senhores, ó Tu que és louvado
pelos maiores semideuses, ó inimigo de todos demônios, ó Senhor de olhos de
lótus, ó Madhusudana (matador do demônio Madhu), por favor proteja-nos. Com medo do demônio Mura, nós semideuses
viemos tomar refúgio em Ti. ó
Jagannatha, és quem fazes tudo e criador de tudo. És o pai e a mãe de todos universos. És o criador, o mantenedor, e destruidor de
tudo. És o supremo auxiliar de todos
semideuses, e só Tu podes trazer a paz a eles.
Só Tu és a terra, o céu, e o benfeitor universal.
És Shiva, Brahma e
também Vishnu, o mantenedor dos três mundos.
És os deuses do sol, lua, e fogo.
És a manteiga clarificada, a oblação, o fogo sacrificial, os mantras, os rituais, os sacerdotes, e o
silencioso cantar de japa. És o próprio sacrifício, seu patrocinador, e
o desfrutador de seus resultados, a Suprema Personalidade de Deus. Nada dentro destes três mundos, seja móvel ou
imóvel, pode existir independente de Ti.
ó Senhor Supremo, Senhor dos senhores, és o protetor daqueles que se
abrigam em Ti. ó místico supremo, ó
refúgio dos temerosos, por favor salva e proteja-nos. Nós semideuses fomos derrotados pelos
demônios e assim caímos do reino celestial.
Privados de nossas posiçöes, ó Senhor do universo, estamos agora vagando
sobre este planeta terreno."
O Senhor Krishna
continuou: "Tendo ouvido Indra e os
outros semideuses falarem estas palavras, Sri Vishnu, a Suprema Personalidade
de Deus, respondeu: "Qual demônio
possui tais poderes tão grandes de ilusão que conseguiu derrotar todos os
semideuses? Qual é o nome dele, e onde
mora? De onde consegue sua força e
respaldo? Conte-Me tudo, ó Indra, e não
tema."
O Senhor Indra
respondeu: "ó Supremo Deus, ó Senhor
dos senhores, ó Tu que conquistaste o temor nos coraçöes de Teus devotos puros,
ó Tu que és tão bondoso para com Teus servos fiéis, certa vez havia um poderoso
demônio da dinastia Brahman cujo nome era Nadijangha. Era extraordinariamente atemorizante e
completamente dedicado a destruir os semideuses, e teve um filho infame chamado
Mura.
A grande capital de
Mura é Chandravati. Desta base o
terrivelmente mau e poderoso demônio Mura conquistou o mundo inteiro e colocou
todos semideuses sob seu controle, expulsando-os de seu reino celestial. Ele assumiu o papel de Indra, rei dos céus;
de Agni, deus do sol; de Yama, senhor da morte; de Vayu, deus do vento; de
Isha, ou Senhor Shiva; de Soma, o deus da lua; Nairtti, deus das direçöes, e
Pashi, ou Varuna, deus da água. Também
começou a emanar luz no papel de deus do sol e se transformou nas nuvens
também. É impossível para os semideuses
derrotá-lo. ó Senhor Vishnu, por favor
mate este demônio e torne os semideuses vitoriosos."
Ouvindo estas palavras
de Indra, o Senhor Janardana ficou muito zangado e disse: "ó poderosos semideuses, todos juntos
podeis agora avançar sobre a capital de Mura, Chandravati." Assim encorajados, os semideuses reunidos
proseguiram até Chandravati com o Senhor Hari liderando o caminho.
Quando Mura viu os
semideuses, este maior dos demônios começou a rugir alto na companhia de
incontáveis milhares de outros demônios, que estavam segurando armas que
reluziam brilhantemente. Os demônios
poderosamente armados atacaram os semideuses, que começaram a abandonar o campo
de batalha e fugir nas dez direçöes.
Vendo o Supremo Senhor Hrshikesha, o senhor de todos sentidos, presente
no campo de batalha, os furiosos demônios correram para Ele com várias armas em
suas mãos. Enquanto se arremetiam contra
o Senhor, que porta uma espada, disco e maça, Ele imediatamente perfurava todos
seus membros com Suas flechas pontiagudas, venenosas. Assim muitas centenas de demônios morreram
pela mão do Senhor.
Afinal o chefe dos
demônios, Mura, começou a lutar com o Senhor.
Mura usou seu poder místico para tornar inúteis quaisquer armas que o
Senhor Supremo Hrshikesha soltasse. De
fato, para o demônio as armas pareciam flores atingindo-o. Quando o senhor não conseguiu derrotar o
demônio nem mesmo com vários tipos de armas - sejam lançadas ou empunhadas -
Ele começou a lutar com Suas mãos desprotegidas, que eram fortes como maças
cravejadas de pontas de ferro. O Senhor
lutou com Mura durante mil anos celestiais e então, aparentemente fatigado,
foi-se para Badarikashrama. Ali o Senhor
Yogeshvara, o maior de todos yoguis,
o Senhor do universo, entrou numa caverna muito bela chamada Himavati para
descansar. ó Dhananjaya, ganhador da
riqueza, esta caverna tinha noventa e seis milhas de diâmetro e só tinha uma
entrada. Fui para lá devido ao temor e
também para dormir. (4) Não há dúvida quanto a isso, ó filho de Pandu, pois a
grande luta Me cansou muito. O demônio
seguiu-Me até essa caverna e, vendo-Me dormindo, começou a pensar em seu
coração: "Hoje vou matar esse
assassino de todos demônios, Hari."
Enquanto o malvado
Mura estava fazendo planos desta maneira, de Meu corpo se manifestou uma jovem
moça que tinha uma pele muito luminosa.
ó filho de Pandu, Mura viu que ela estava equipada com varias armas brilhantes
e pronta para lutar. Desafiado por essa
mulher a lutar, Mura preparou-se e então lutou com ela, porém ficou muito
espantado quando viu que ela lutava sem cessar.
O rei dos demônios então disse:
"Quem criou esta moça irada, temível, que está lutando comigo tão
poderosamente, assim como um raio caindo sobre mim?" Após dizer isto, o demônio continuou a lutar
com a moça.
De repente aquela
refulgente deusa destroçou todas armas de Mura e num momento privou-o de sua
quadriga. Ele correu para ela a fim de
atacá-la com suas mãos desprotegidas, mas quando ela o viu chegando, enfurecida
cortou-lhe a cabeça. Assim o demônio
imediatamente caiu ao solo e foi para a morada de Yamaraja. O resto dos inimigos do Senhor, por medo e
desamparo, entraram na região subterrânea Patala.
Então o Senhor Supremo
acordou e viu o corpo morto do demônio diante de Si, bem como a donzela
curvando-se diante Dele com as mãos postas.
Seu rosto expressando espanto, o Senhor do universo disse: "Quem matou este demônio depravado? Ele facilmente derrotou todos semideuses,
Gandharvas, e até mesmo o próprio Indra, junto com os companheiros de Indra, os
Maruts, e também derrotou os Nagas (serpentes), governantes dos planetas
inferiores. Ele até derrotou a Mim,
fazendo com que Me escondesse nesta caverna por medo. Quem é que tão misericordiosamente
protegeu-Me depois que corri do campo de batalha e vim dormir nesta
caverna?"
A donzela disse: "Fui eu que matei este demônio após
aparecer de Teu corpo transcendental. De
fato, ó Senhor Hari, quando Te viu dormindo e
que és tu
quem mataste este rei dos demônios.
Desta maneira tornaste os semideuses felizes, prósperos e cheios de
bem-aventurança. Porque deste prazer a
todos semideuses em todos três mundos, estou muito satisfeito contigo. Peça qualquer benção que desejar, ó ser
auspicioso. Concederei-a sem dúvida,
embora possa ser muito rara entre os semideuses."
A donzela disse: "ó Senhor, se estás satisfeito comigo e
desejas dar-me uma benção, então confira-me o poder de salvar dos maiores
pecados aquelas pessoas que jejuam neste dia.
Desejo que a metade do crédito piedoso obtido por alguém que jejua, seja
obtido por quem apenas come de noite (abstendo-se de grãos e feijöes), e que
metade deste crédito piedoso seja
recebido por quem só come ao meio-dia.
Também, que a pessoa que observar estritamente um jejum completo no dia
de meu aparecimento, com sentidos controlados, vá para a morada do Senhor
Vishnu por um bilhão de kalpas (5)
depois que tiver desfrutado de todo tipo de prazeres neste mundo. Esta é a benção que desejo obter por Tua
misericórdia, meu Senhor. ó Senhor
Janardana, quer uma pessoa observe jejum completo, coma apenas o jantar, ou
apenas o almoço, por favor conceda-lhe uma atitude religiosa, fortuna, e afinal
a liberação."
A Suprema
Personalidade de Deus disse: "ó mui
auspiciosa senhora, o que pediste está concedido. Todos Meus devotos neste mundo certamente
jejuarão no teu dia, e assim eles se tornarão famosos pelos três mundos, e
finalmente virão e ficarão Comigo em Minha morada. Porque tu, Minha potência transcendental,
apareceste neste décimo primeiro dia da lua minguante, que teu nome seja
Ekadashi. Se uma pessoa jejua no
Ekadashi, queimarei todos seus pecados e conceder-lhe-ei Minha morada
transcendental.
Estes são os dias da
lua crescente e minguante que Me são mais queridos: Trtiya (terceiro dia); Ashtami (oitavo dia);
Navami (nono dia); Caturdasi (décimo quarto dia), e especialmente Ekadashi
(décimo primeiro dia). (6)
O mérito obtido por jejuar
no Ekadashi é maior que o obtido por observar qualquer outro tipo de jejum ou
por ir a um local de peregrinação, e até mesmo maior que o obtido por dar
caridade a brahmanas. Digo-lhe mui enfaticamente que isto é
verdade."
Tendo assim dado Sua
benção à donzela, o Senhor Supremo de repente desapareceu. Desde então o dia de Ekadashi se tornou muito
meritório e famoso em todo universo. ó
Arjuna, se uma pessoa observa estritamente Ekadashi, eu mato todos seus
inimigos e concedo-lhe o destino mais elevado.
De fato, se uma pessoa observa este grande jejum Ekadashi em qualquer
dos modos prescritos, (7) Eu removo todos obstáculos a seu progresso espiritual
e concedo-lhe a perfeição da vida.
Assim, ó filho de
Prtha, descrevi para ti a origem do Ekadashi. Só este dia remove todos pecados
eternamente. De fato, é o dia mais
meritório para destruir todos tipos de pecados, e surgiu a fim de beneficiar
todos no universo concedendo todas variedades de perfeição.
Não se deve
discriminar entre os Ekadashis da lua minguante e crescente; ambos devem ser
observados, ó Partha, e não devem ser diferenciados do Maha-dvadasi. (8) Todos que jejuam no Ekadashi devem reconhecer
que não há diferença entre estes dois Ekadashis, pois consistem no mesmo tithi.
Quem jejua completamente
no Ekadashi, seguindo as regras e regulaçöes, alcançará a suprema morada do
Senhor Vishnu, que cavalga Garuda. São
gloriosos aqueles que se devotam ao Senhor Vishnu e passam todo seu tempo
estudando as glórias do Ekadashi. Quem
faz voto de não comer nada no Ekadashi mas de só comer no dia seguinte, obtém o
mesmo merito que alguém que executa um sacrifício de cavalo. Quanto a isso não há dúvida.
No Dvadasi, o dia após
Ekadashi, deve-se orar: "ó
Pundarikaksha, ó Senhor dos olhos de lótus, agora vou comer. Por favor proteja-me." Após dizer isso, o devoto sábio deve oferecer
algumas flores e água aos pés de lótus do Senhor e convidar o Senhor para comer
cantando o mantra de oito sílabas
três vezes (9). Se o devoto quer ganhar
os frutos de seu jejum, deve então beber água tirada da vasilha santificada na
qual ofereceu água aos pés de lótus do Senhor.
No Dvadasi se deve
evitar de dormir durante o dia, comer na casa de outrem, comer mais que uma
vez, ter sexo, comer mel, comer de um prato feito de metal para sinos, comer urad dhal, e esfregar óleo no
corpo. O devoto deve abandonar estas
oito coisas no Dvadasi. Se deseja falar
com um proscrito neste dia, deve purificar-se comendo uma folha de tulasi ou uma fruta amalaki. ó melhor dos reis,
do meio-dia de Ekadashi até a madrugada de Dvadashi, a pessoa deve se ocupar em
tomar banhos, adorar o Senhor, e executar atividades devocionais, inclusive
dando caridade e realizando sacrifícios de fogo. Se acontecerem circunstâncias difíceis e não
se puder quebrar o Ekadashi devidamente no Dvadashi, pode-se quebrá-lo bebendo
água, e então não se incorre numa falta por comer após o horário recomendado.
Um devoto do Senhor
Vishnu que dia e noite ouve estes tópicos totalmente auspiciosos concernentes
ao Senhor, da boca de outro devoto, será elevado ao planeta do Senhor e
residirá ali por dez milhöes de kalpas.
(10) E quem ouve mesmo apenas uma frase
sobre as glórias do Ekadashi é libertado das reaçöes a tais pecados como matar
um brahmana. (11) Não há dúvida quanto a isso. Por toda eternidade não haverá melhor maneira
de adorar o Senhor Vishnu que observar um jejum no Ekadashi."
Assim termina a narrativa do Margashirsha-krshna Ekadashi,
ou Utpanna Ekadashi, extraída do Bhavisya-uttara Purana.
Notas:
(1) Na civilização
védica é proibido se desfrutar de sexo com a própria filha, mãe, cunhada, ou
qualquer parenta feminina.
(2) O Mahabharata declara: annadau jaladas caiva aturas ca cikitsakah /
trividham svargam ayati vina yajnena bharatah - "ó Bharata, quem dá
grãos alimentícios, água potável, remédio ou auxílio médico aos necessitados
vai para o céu sem realizar qualquer tipo de sacrifício."
(3) O Amara-kosha dá os nomes dos oito Vasus
conforme a seguir: Dhara, Dhruva, Soma,
Aha, Anila, Anala, Pratyusha, e Prabhava.
(4) É claro, não há
questão de temor ou fadiga para o Senhor Supremo. Ele fingiu isso como parte de Seu passatempo
no qual surgiu Ekadashi-devi.
(5) Um kalpa, ou doze horas do Senhor Brahma,
dura 4.320.000.000 anos. Como o Senhor Krishna diz no Bhagavad-gita 8.21 que "aquele que chega à Minha morada nunca
retorna ao mundo material," entende-se que durante o bilhão de kalpas em que o devoto reside na morada
do Senhor Vishnu, ele realizará serviço devocional e assim se qualificará para
permanecer ali eternamente.
(6) Alguns dos dias de
jejum no calendário védico:
Trtiya: Há um Trtiya em
que se deve jejuar. Este dia ocorre durante a parte iluminada do mês de
Vaisakha (abr/mai). Neste dia se deve
adorar o Brahman Supremo e tomar banho no oceano.
Ashtami: Estes
dias de jejum incluem Krishna-Janmastami, Radhastami, e Gopastami, quando se
deve jejuar até meia-noite, meio-dia, e o por-do-sol, respectivamente.
Navami: Estes incluem
Rama Navami e Akshaya Navami.
Caturdasi: Estes
dias de jejum incluem Nrsimha Caturdasi, Ananta Caturdasi, e Shiva Caturdasi.
Ekadashi:
Dentre todos estes dias de jejum, Ekadashi é o mais querido pelo Senhor
Krishna. Quem não puder observar todos
estes dias de jejum pode ter mérito de
cada um deles apenas por observar Ekadashi uma única vez.
(7) Os três meios
recomendados de observar jejum no Ekadashi são jejuar completamente, comer
apenas no jantar, ou comer apenas em algum outro horário durante o dia. Se a pessoa de fato comer, deve abster-se totalmente
de grãos e feijöes.
(8) As vezes, por
diversas razöes astronômicas, Ekadashi deve ser observado no dia seguinte,
Dvadashi. Este Maha-dvadashi é
considerado muito auspicioso.
(9) O mantra de oito sílabas é om namo Narayanaya.
(10) Vide nota 5.
(11) Quem mata um brahmana e depois ouve sobre as glórias
do Utpanna Ekadashi será aliviado da reação deste pecado. Contudo, não se deve pensar de antemão que se pode matar um brahmana e depois passar sem castigo
simplesmente por ouvir sobre este Ekadashi.
Cometer pecado sabendo isto é uma abominação.
2 MOKSHADA
EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Vishnu, controlador de
todos, ó deleite dos três mundos, ó Senhor do universo, ó criador do mundo, ó personalidade
mais antiga, ó melhor de todos seres, ofereço minhas respeitosas reverências a
Ti. ó Senhor dos senhores, para benefício de todas entidades vivas, tenha a
bondade de responder algumas perguntas que tenho. Qual o nome do Ekadashi que ocorre durante a
quinzena clara do mês de Margashirsha e que remove todos pecados? Como é observado corretamente, e qual Deidade
é adorada nesse dia sagrado? ó Senhor,
por favor explique isto plenamente para mim."
O Senhor Krishna
respondeu: "ó Yudhishthira, tua
indagação é muito auspiciosa e te trará fama.
Assim como anteriormente expliquei-te o mui querido Utpanna
Maha-dvadashi (1) - que ocorre durante a parte obscura do mês de Margashirsha,
que é o dia quando Ekadashi-devi apareceu de Meu corpo para matar o demônio
Mura, e que beneficia tudo que é animado e inanimado nos três mundos - assim te
explicarei agora o Ekadashi que ocorre durante a parte clara de
Margashirsha. Este Ekadashi é famoso
como Mokshada porque purifica o devoto fiel de todas reaçöes pecaminosas e lhe
confere a liberação. A Deidade adorável
deste dia é o Senhor Damodara. Com plena
atenção se deve adorá-Lo com incenso, uma lamparina de ghee, flores, e tulasi manjaris (florescências).
ó melhor dos reis, por
favor ouça enquanto narro para ti a velha e auspiciosa história deste
Ekadashi. Simplesmente por ouvir esta
história se pode obter o mérito acumulado por realizar um sacrifício de
cavalo. Por influência deste mérito,
nossos antepassados, mães, filhos e outros parentes que foram para o inferno
podem ir para o céu. Apenas por esta
razão, ó rei, deves ouvir cuidadosamente esta narrativa.
Uma vez havia uma
linda cidade chamada Champaka-nagara, decorada
com devotados Vaisnavas. Ali o
melhor dos reis santos, Maharaja Vaikhanasa, governava seus súditos como se
fossem seus filhos e filhas. Os brahmanas naquela capital eram todos
peritos em quatro tipos de conhecimento védico.
O rei, enquanto governava corretamente, teve um sonho em certa noite no
qual seu pai estava sofrendo os golpes da tortura num planeta infernal. O rei foi tomado de compaixão e derramou
lágrimas. Na manhã seguinte, Maharaja
Vaikhanasa descreveu seu sonho para seu conselho de brahmanas duas-vezes nascidos.
"ó brahmanas," disse o rei, "num
sonho na noite passada vi meu pai sofrendo num planeta infernal. Ele estava gritando: "ó filho, por favor salva-me do tormento
deste inferno!" Agora não tenho
nenhuma paz, e até mesmo esse belo reino se tornou insuportável para mim. Nem mesmo meus cavalos, elefantes, e
quadrigas me dão qualquer alegria, e meu vasto tesouro não me dá nenhum prazer.
Tudo, ó melhores dos brahmanas, até minha própria esposa e
filhos, se tornou uma fonte de infelicidade desde que vi meu querido pai
sofrendo as torturas do inferno. Onde
posso ir, e que posso fazer, ó brahmanas,
para aliviar esta miséria? Meu corpo
está queimando de temor e tristeza! Por
favor digam-me que tipo de caridade, que modalidade de jejum, qual austeridade,
ou que profunda meditação poderei realizar para salvar meu pai de sua agonia e
conceder liberação à meus antepassados.
ó melhores dos brahmanas, qual
o sentido de ser um filho poderoso se nosso pai deve sofrer num planeta
infernal? Realmente, a vida de tal filho
é totalmente inútil!"
Os brahmanas duas vezes nascidos replicaram: "ó rei, na floresta montanhosa não longe
daqui fica o ashrama onde o grande
santo Parvata Muni reside. Por favor vá
até ele, pois conhece o passado, presente e futuro de tudo e certamente pode
ajudar-te em tua miséria."
Ao ouvir este
conselho, o pesaroso rei imediatamente partiu numa jornada rumo ao ashrama do famoso sábio Parvata
Muni. O ashrama era muito grande e abrigava muitos sábios eruditos peritos
em cantar os hinos sagrados dos quatro Vedas.
(2) Aproximando-se do sagrado ashrama, o rei contemplou Parvata Muni
sentado entre os sábios como um outro Senhor Brahma, o criador não-nascido.
Maharaja Vaikhanasa
ofereceu suas humildes reverências ao muni,
curvando sua cabeça e então prostrando-se de corpo inteiro. Depois que o rei se sentara, Parvata Muni
perguntou-lhe sobre o bem estar das sete partes de seu extenso reino. (3) O muni também perguntou-lhe se seu reino
estava livre de problemas e se todos estavam tranquilos e felizes. A estas indagaçöes o rei respondeu: "Por sua misericórdia, ó glorioso sábio,
todas sete partes de meu reino estão passando bem. Contudo existe um problema que surgiu
recentemente, e para resolvê-lo vim lhe procurar, ó brahmana, para sua orientação perita."
Então Parvata Muni, o
melhor dos sábios, fechou seus olhos e meditou no passado, presente e futuro do
rei. Após alguns momentos abriu seus
olhos e disse: "Teu pai está
sofrendo os resultados de cometer um grande pecado, e descobri o que é. Em sua vida pretérita ele brigou com a esposa
quando desfrutou dela sexualmente durante seu período menstrual. Ela tentou resistir seus avanços e
gritou: "Alguém por favor
salve-me! Por favor, ó marido, não
interrompa meu período mensal!" Ainda assim ele não a deixou em paz. É devido a este pecado atroz que seu pai caiu
em tal condição infernal."
O Rei Vaikhanasa então
disse: "ó melhor dos sábios, por
qual processo de jejum ou caridade posso liberar meu querido pai de tal
condição? Por favor diga-me como posso
remover o fardo de suas reaçöes pecaminosas, que são um grande obstáculo a seu
progresso para a liberação final."
Parvata Muni
replicou: "Durante a quinzena clara
do mês de Margashirsha ocorre um Ekadashi chamado Mokshada. Se observares este sagrado Ekadashi
estritamente, com um jejum completo, e deres diretamente a teu pai sofredor o
mérito que assim obtiveres, ele será libertado de sua dor e instantaneamente
liberado."
Ouvindo isso, Maharaja
Vaikhanasa agradeceu profusamente o grande sábio e então retornou a seu
palácio. ó Yudhishthira, quando a parte clara
do mês de Margashirsha afinal chegou, Maharaja Vaikhanasa fiel e perfeitamente
observou o jejum de Ekadashi com sua esposa, filhos e outros parentes. Ele zelosamente entregou o mérito de seu
jejum a seu pai, e enquanto fazia a oferenda, lindas flores choviam do
céu. O pai do rei então foi louvado por
mensageiros dos semideuses e escoltado até as regiöes celestiais. Enquanto passava por seu filho, o pai disse
para o rei: "Meu querido filho,
toda auspiciosidade para ti!"
Afinal ele alcançou o reino celestial. (4)
ó Filho de Pandu, quem
quer que observe estritamente o sagrado Mokshada Ekadashi, seguindo as regras e
regulaçöes estabelecidas, alcança a liberação total e perfeita após a
morte. Não há melhor dia de jejum que
este Ekadashi da quinzena clara do mês de Margashirsha, ó Yudhishthira, pois é
um dia claro como o cristal e sem pecado.
Quem quer que observe fielmente este jejum de Ekadashi, que é como cintamani (uma jóia que realiza todos
desejos), obtém mérito especial que é muito difícil de calcular, pois este dia
pode elevar-nos aos planetas celestiais e mais além - à liberação
perfeita."
Assim termina a narrativa das glórias do Margashirsha
Ekadashi ou Mokshada Ekadashi, do Brahmanda Purana.
Notas:
(1) Quando Ekadashi
cai num Dvadashi, devotos ainda assim chamam-no de Ekadashi.
(2) Os quatro Vedas são o Sama, Yajur, Rg e Atharva.
(3) As sete partes do
domínio de um rei são o próprio rei, seus ministros, seu tesouro, suas forças
armadas, seus aliados, os brahmanas,
os sacrifícios realizados em seu reino, e as necessidades de seus súditos.
(4) Se uma pessoa
observa um jejum de Ekadashi para um antepassado falecido que está sofrendo no
inferno, então o mérito assim obtido capacita o antepassado a deixar o inferno
e entrar no reino celestial, onde poderá então praticar serviço devocional a
Krishna ou Vishnu e retornar a Deus.
Porém quem observa Ekadashi para sua própria elevação espiritual
regressa ele mesmo para Deus, para nunca mais retornar a esse mundo material.
3 PAUSHA-KRISHA
OU SAPHALA EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Sri Krishna, qual o nome
do Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Pausha
(dez/jan)? Como é observado, e qual
Deidade é adorada nesse dia? Por favor
narra-me isso plenamente, ó Janardana."
A Suprema
Personalidade de Deus respondeu: "ó
melhor dos reis, porque desejas ouvir, descreverei plenamente para ti as
glórias do Pausha-krishna Ekadashi.
Não fico tão
satisfeito pelo sacrifício ou caridade, como fico quando Meus devotos observam
um jejum total no Ekadashi. Conforme sua
melhor possibilidade, portanto, a pessoa deve jejuar no Ekadashi, o dia do
Senhor Hari.
ó Yudhishthira, urge
que ouças com atenção indesviável as glórias do Pausha-krishna Ekadashi, que
cai no Dvadasi. Conforme expliquei
anteriormente, não se deve diferenciar entre os muitos Ekadashis. ó rei, para beneficiar a humanidade em geral
agora descrever-te-ei o processo de observar Pausha-krishna Ekadashi.
Pausha-krishna Ekadashi
também é conhecido como Saphala Ekadashi.
Neste dia sagrado se deve adorar o Senhor Narayana, pois Ele é sua
Deidade governante. Deve-se seguir o
método anteriormente descrito de jejuar.
Assim como entre as serpentes Shesha-naga é a melhor, entre as aves
Garuda é o melhor, entre os sacrifícios Ashvamedha-yajna é o melhor, entre os
rios a Mãe Ganga é a melhor, entre os deuses o Senhor Vishnu é o melhor, e
entre os seres bípedes os brahmanas são os melhores, assim também
entre todos dias de jejum, Ekadashi é o melhor.
ó principal dos reis nascidos na dinastia Bharata, quem quer que observe
estritamente Ekadashi se torna muito querido por Mim e verdadeiramente adorável
para Mim de qualquer maneira. Agora ouça
enquanto descrevo o processo para observar Saphala Ekadashi.
No Saphala Ekadashi
Meu devoto deve adorar-Me oferecendo-Me frutas frescas segundo o tempo, lugar e
circunstância, e por meditar em Mim como a completamente auspiciosa
Personalidade Suprema. Ele deve
oferecer-Me frutas jambira, romãs,
betel, côco, goiaba, nozes, cravos, mangas, e diferentes tipos de especiarias
aromáticas. Também deve oferecer-Me
incenso e luminosas lamparinas de ghee, pois tal oferenda de lamparinas no
Saphala Ekadashi é especialmente gloriosa.
O devoto deve tentar ficar acordado a noite toda.
Agora por favor ouça
com a atenção indesviável enquanto te conto quanto mérito se obtém se jejuar e
permanecer acordado durante a noite inteira.
ó melhor dos reis, não existe sacrifício ou peregrinação que confira mérito
equivalente ou maior que o mérito que se obtém por jejuar no Saphala
Ekadashi. Tal jejum - particularmente se
a pessoa puder permanecer acordada a noite toda - confere o mesmo mérito ao
fiel devoto como se realizasse austeridade durante cinco mil anos. ó leão entre os reis, por favor ouça a
gloriosa história deste Ekadashi.
Uma vez havia uma
cidade chamada Campavati, que era governada pelo santo Rei Mahishmata. Tinha ele quatro filhos, o mais velho dos
quais, Lumpaka, sempre estava ocupado em atividades muito pecaminosas - sexo
ilícito com as esposas de outros, jogatina, e contínua associação com
conhecidas prostitutas. Seus maus atos
gradualmente reduziram a fortuna de seu pai, o Rei Mahishmata. Lumpaka também se tornou muito crítico para
com os semideuses e brahmanas, e a
cada dia blasfemava Vaisnavas. Afinal o
Rei Mahishmata, vendo a condição de seu filho, exilou-o na floresta. Por medo do rei, até mesmo parentes
compadecidos não acorreram em defesa de Lumpaka, tão zangado estava o rei e tão
pecaminoso era Lumpaka.
Desnorteado em seu
exílio, Lumpaka pensava consigo mesmo:
"Meu pai me mandou embora, e até meus familiares não levantaram
nenhuma objeção. Que devo fazer
agora?" Ele tramava pecaminosamente
e pensava: "Vou voltar furtivamente
para a cidade, oculto nas trevas e roubar todas riquezas. Durante o dia ficarei de longe na floresta, e
à noite retornarei para a cidade."
Pensando assim, Lumpaka entrou na escura floresta. Matava muitos animais durante o dia, e de
noite roubava artigos valiosos da cidade.
Os habitantes da cidade pegaram-no diversas vezes, porém por temor ao
rei deixaram-no sozinho. Pensavam que
devia ser devido aos pecados de seus nascimentos pretéritos que perdera suas
facilidades reais e que agia tão pecaminosamente.
Embora um carnívoro,
Lumpaka também comia frutas todo dia.
Residia sob uma velha árvore banyan que por acaso era muito querida pelo
Senhor Vasudeva. De fato, muitos
adoravam-na como o deus de todas árvores da floresta. No devido decorrer do tempo, enquanto Lumpaka
estava realizando tantas atividades pecaminosas e condenáveis, chegou Saphala
Ekadashi. Na véspera de Ekadashi,
Lumpaka teve que passar a noite inteira sem dormir devido ao frio severo e sua
pouca roupa de cama. O frio não só
roubou-lhe toda tranquilidade mas também quase o matou. Quando o sol se levantou, seus dentes batiam
e ele estava em coma, e durante toda manhã daquele dia, Ekadashi, ele não
conseguia acordar de seu estupor.
Quando o meio-dia do
Saphala Ekadashi chegou, o pecaminoso Lumpaka finalmente voltou a si e
conseguiu levantar de seu lugar sob a árvore banyan. Mas a cada passo tropeçava e caía no
chão. Como um coxo, andava lenta e
hesitantemente, sofrendo grandemente pela fome e sede em meio à selva. Tão fraco estava Lumpaka que nem sequer
conseguiu matar um só animal naquele dia.
Em vez disso, viu-se reduzido a coletar quaisquer frutas que tivessem
caído ao solo. Na hora em que retornou
para a árvore banyan, o sol se pusera.
Colocando as frutas no
chão perto dele, Lumpaka começou a berrar:
"Oh, que infelicidade! Que
devo fazer? Querido pai, a que ponto
cheguei? ó Sri Hari, por favor seja
misericordioso para comigo e aceite estas frutas!" Novamente foi forçado a ficar acordado a
noite toda sem dormir, mas nesse meio tempo a Suprema Personalidade de Deus,
Madhusudana, ficara satisfeito com a oferenda de Lumpaka das frutas silvestres,
e Ele as aceitou. Lumpaka sem querer
observara um jejum completo de Ekadashi, e assim pelo mérito que angariou
naquele dia, recuperou seu reino sem maiores obstáculos.
Ouça, ó Yudhishthira,
o que aconteceu com o filho do Rei Mahishmata quando apenas um fragmento de
mérito brotou dentro de seu coração.
Enquanto o sol nascia
belamente na manhã seguinte ao Ekadashi, um lindo cavalo aproximou-se de Lumpaka
e postou-se perto dele. Ao mesmo tempo,
uma voz repentinamente falou do céu claro e azul: "Este cavalo é para ti, Lumpaka! Monta nele e rapidamente cavalga para saudar
tua família! ó filho do Rei Mahishmata,
pela misericórdia do Senhor Vasudeva e a força de mérito que adquiriste por
observar Saphala Ekadashi, teu reino lhe foi devolvido sem quaisquer empecilhos
maiores. Tal é o benefício que
adquiriste por jejuar neste dia auspicioso. Agora vai até teu pai e desfruta de
teu devido lugar nesta dinastia."
Ao ouvir estas
palavras celestiais, Lumpaka montou no cavalo e cavalgou de volta para a cidade
de Campavati. Pelo mérito que acumulara
por jejuar no Saphala Ekadashi, ele se tornara um belo príncipe novamente e
pode absorver sua mente nos pés de lótus da Suprema Personalidade de Deus,
Hari. Em outras palavras, ele se tornara
Meu devoto puro.
Lumpaka ofereceu a seu
pai, o Rei Mahishmata, suas humildes reverências e uma vez mais aceitou suas
responsabilidades de príncipe. Vendo seu
filho decorado com ornamentos Vaisnavas e tilaka,
o Rei Mahishmata deu-lhe o reino, e Lumpaka governou sem oposição por muitos e
muitos anos. Sempre que ocorria
Ekadashi, ele adorava o Senhor Supremo com grande devoção. E pela misericórdia de Sri Krishna ele obteve
uma bela esposa e bom filho. Na velhice
Lumpaka entregou seu reino a seu filho - assim como seu pai, o Rei Mahishmata,
havia feito com ele - e então foi para a floresta servir o Senhor Supremo com a
mente e sentidos controlados. Purificado
de todo desejo material, abandonou seu corpo e retornou ao lar, de volta para
Deus, obtendo um local próximo aos pés de lótus do Senhor Sri Krishna.
ó Yudhishthira, quem
se aproxima de Mim como Lumpaka fez será completamente liberto da lamentação e
ansiedade. Na verdade, qualquer pessoa
que observe corretamente este glorioso Saphala Ekadashi - mesmo que seja sem
saber, tal como Lumpaka - se tornará famosa neste mundo. Tornar-se-á perfeitamente liberada na morte e
retornará para Vaikuntha. Quanto a isso
não há dúvida. Além do mais, quem quer
que simplesmente ouça as glórias do Saphala Ekadashi, obtém o mesmo mérito
derivado por quem realiza um Rajasuya-yajna, e no mínimo vai para o céu em seu
próximo nascimento."
Assim termina a narrativa das glórias do Pausha-krishna
Ekadashi ou Saphala Ekadashi, do Bhavishya-uttara Purana.
4 PUTRADA
EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Senhor, explicaste tão
bem as glórias do auspicioso Saphala Ekadashi, que ocorre durante a quinzena obscura
do mês de Pausha (dez/jan). Agora por
favor seja misericordioso para comigo e explique o Ekadashi da quinzena
luminosa deste mês. Qual é seu nome, e
que Deidade deve ser adorada neste dia sagrado?
ó Purushottama, ó Hrshikesha, por favor também conta-me como podes ser
satisfeito neste dia."
O Senhor Sri Krishna
respondeu: "ó rei, para benefício
de toda humanidade, relatarei para ti como observar jejum no Pausha-sukla
Ekadashi.
Conforme expliquei
anteriormente, todos devem observar as regras e regulaçöes de Ekadashi ao
melhor de sua capacidade. Esta injunção
se aplica ao Ekadashi chamado Putrada, que destrói todos pecados e nos eleva à
morada espiritual. Sri Narayana, o
Senhor Supremo e personalidade original, é a Deidade adorável deste Ekadashi, e
para Seu devoto fiel Ele alegremente realiza todos desejos e concede plena
perfeição. Assim entre todos seres
animados e inanimados nos três mundos, não existe melhor personalidade que o
Senhor Narayana.
ó rei, agora narrarei
para ti a história de Putrada Ekadashi, que remove todos tipos de pecados e nos
torna famosos e eruditos.
Uma vez havia um reino
chamado Bhadravati, que era governado pelo Rei Suketuman. Sua rainha era a famosa Shaibya. Porque não tinha filho, ele passou longo
tempo em ansiedade, pensando: "Se
não tiver um filho, quem irá continuar minha dinastia?" Desta maneira o rei meditou numa atitude
religiosa durante longo tempo, pensando:
"Onde devo ir? Que devo
fazer? Como posso conseguir um
filho?" O Rei Suketuman não conseguia
a felicidade em lugar algum em seu reino, mesmo em seu próprio palácio, e em
breve estava passando mais e mais tempo dentro do palácio de sua esposa,
pensando melancolicamente apenas em como conseguir um filho.
Assim ambos, o Rei
Suketuman e a Rainha Shaibya, estavam em grande sofrimento. Mesmo quando ofereciam tarpana (oblaçöes de água para seus antepassados), sua miséria
mútua os fazia pensar que era tão impossível de beber quanto água
fervente. Pensavam que não teriam
descendentes para oferecer-lhes tarpana
quando morressem. O rei e rainha estavam
especialmente perturbados por saberem que seus antepassados estavam preocupados
que dentro em breve não haveria mais ninguém para lhes oferecer tarpana.
Após saberem da
infelicidade de seus antepassados, o rei e a rainha se tornaram mais e mais
miseráveis, e tampouco os ministros, amigos, nem entes amados conseguiam
alegrá-los. Para o rei, seus elefantes e
cavalos e infantaria não eram consolo, e afinal ele ficou praticamente inerte e
desamparado.
O rei pensou: "Dizem que sem filho, o casamento é
perda de tempo. De fato, para um
chefe-de-família sem filho, tanto seu coração e sua esplêndida casa permanecem
vazios e infelizes. Destituído de
filhos, um homem não consegue liquidar a dívida que tem para com seus
antepassados, os semideuses, e outros seres humanos. Portanto todo homem casado deve tentar
conceber um filho; assim ele poderá se tornar famoso dentro deste mundo e
afinal alcançar os auspiciosos reinos celestiais. Um filho é prova das atividades piedosas que
um homem realizou em suas cem vidas pretéritas, e tal pessoa obtém longa
duração de vida neste mundo, junto com boa saúde e grande fortuna. Possuir filhos e netos nesta vida prova que
se adorou o Senhor Vishnu, a Suprema Personalidade de Deus, no passado. As grandes bençãos de filhos, fortuna, e
inteligência aguda podem ser conseguidas apenas por adorar o Senhor Supremo,
Sri Krishna. Isto é minha opinião."
Pensando assim, o rei
não tinha paz. Permanecia em ansiedade
dia e noite, desde a manhã até a noitinha, e desde o momento em que se deitava
para dormir à noite até que o sol nascia pela manhã, seus sonhos eram
igualmente cheios de grande ansiedade.
Sofrendo tal ansiedade e apreensão, o Rei Suketuman decidiu acabar com
sua miséria cometendo suicídio. Porém
percebeu que suicídio lança a pessoa numa condição infernal de renascimento, e
assim abandonou essa idéia. Vendo que
estava gradualmente se destruindo através de sua ansiedade de ter um filho que
o consumia totalmente, o rei afinal montou em seu cavalo e partiu sozinho para
a densa floresta. Ninguém, nem mesmo os
sacerdotes e brahmanas do palácio,
sabiam onde tinha ido.
Nessa floresta, que
era cheia de veados e aves e outros animais, o Rei Suketuman vagou sem destino,
notando todos diferentes tipos de árvores e arbustos, tais como figueiras,
fruta bel, tamareiras, palmeiras,
jaqueiras, árvores bakula, saptaparna,
tinduka e tilaka, bem como shala, tala, tamala, sarala, hingota, arjuna,
labhera, baheda, sallaki, karonda, patala, khaira, shaka e palasha.
Viu veados, tigres, javalis selvagens, leöes, macacos, cobras, grandes
elefantes machos no cio, elefantas com suas crias, e elefantes com quatro
presas junto de seus pares. Havia vacas,
chacais, lebres, leopardos, e hipopótamos.
Contemplando todos esses animais acompanhados de seus pares e rebentos,
o rei lembrou de seu próprio criadouro, especialmente dos elefantes do palácio,
e ficou tão triste que impensadamente vagava no meio deles.
De repente, o rei
ouviu um uivo de chacal à distância.
Espantado, começou a perambular, olhando em todas direçöes. Logo era meio-dia, e o rei começou a cansar. Estava atormentado pela fome e sede. Pensou:
"Que ato pecaminoso possivelmente pratiquei que agora sou forçado a
sofrer assim, com minha garganta ressecada e ardendo? Agradei os semideuses com numerosos
sacrifícios de fogo e abundante adoração devocional. Dei muitos presentees e deliciosos doces como
caridade a todos brahmanas dignos. E cuidei de meus súditos como se fossem meus
próprios filhos. Porque estou sofrendo
assim? Que pecados desconhecidos vieram
me atormentar desta maneira horrivel?"
Absorto em tais
pensamentos, o Rei Suketuman seguia adiante com esforço, e eventualmente,
devido a seu crédito piedoso, chegou a uma bela lagoa que se assemelhava ao
famoso Lago Manasarovara. Estava cheio
de espécies aquáticas, inclusive crocodilos e muitas variedades de peixes, e
adornado de açucenas. Belos lótus haviam
se aberto ao sol, e cisnes, grous e patos nadavam felizes em suas águas. Perto havia muitos ashramas atraentes, onde residiam muitos santos e sábios que podia
realizar os desejos de qualquer pessoa.
De fato, desejavam o bem de todos.
Quando o rei viu tudo isso, seu braço direito e olho começaram a tremer,
um sinal de que algo auspicioso estava para acontecer.
Enquanto o rei
desmontava de seu cavalo e ficava de pé diante dos sábios, que estavam sentados
na beira da lagoa, viu que estavam cantando os santos nomes de Deus em suas
contas de japa. O rei prestou suas reverências e, de mãos
postas, glorificou-os. Estava mais do
que feliz por estar na presença deles.
Observando o respeito que o rei lhes oferecia, os sábios disseram: "Estamos muito contentes contigo, ó
rei. Tenha a bondade de nos dizer porque
vieste até aqui? Que se passa em tua
mente? Por favor diga-nos o que
desejas."
O rei respondeu: "ó grandes sábios, quem sois? Quais são vossos nomes, ó santos
auspiciosos? Porque viestes a este lindo
lugar? Por favor dizei-me tudo."
Os sábios
responderam: "ó rei, somos os
Vishvedevas (1); viemos até essa maravilhosa lagoa para tomar banho. O mês de Magha estará aqui dentro de cinco
dias, e hoje é o famoso Putrada Ekadashi.
Quem deseja um filho deve observar estritamente este Ekadashi. (2)"
O rei disse: "Tentei com tanto esforço ter um
filho. Se vós grandes sabios estais
satisfeitos comigo, por bondade concedei-me um bom filho."
"O próprio significado
de Putrada" responderam os
sábios, "é "doador de filhos".
Portanto por favor observa um jejum completo neste dia de Ekadashi. Se o fizeres, então por nossa benção - e pela
misericórdia do Senhor Keshava - certamente obterás um filho."
Com o conselho dos
Vishvedevas, o rei observou o auspicioso dia de jejum de Putrada Ekadashi
conforme todas regras e regulaçöes estabelecidas, e no Dvadashi, após quebrar
seu jejum, ele prestou suas reverências repetidamente a todos eles.
Logo depois que
Suketuman retornou a seu palácio, a Rainha Shaibya ficou grávida, e exatamente
como os sábios Vishvedevas tinham predito, nasceu-lhes um belo filho de rosto
luminoso. No devido tempo ele se tornou
famoso como um príncipe heróico, e o rei de bom grado satisfez seu filho
tornando-o seu sucessor. O filho de
Suketuman cuidou de seus súditos mui conscienciosamente, assim como se fossem
seus próprios filhos.
Concluindo: ó Yudhishthira, quem deseja realizar seus
desejos deve observar estritamente Putrada Ekadashi. Enquanto estiver neste planeta, quem observa
estritamente este Ekadashi certamente obterá um filho, e após a morte obterá a
liberação. Qualquer pessoa que até mesmo
lê ou ouve as glórias de Putrada Ekadashi obtém o mérito acumulado por realizar
um sacrifício de cavalo. É para
beneficiar toda humanidade que expliquei tudo isso para ti."
Assim termina a narrativa das glórias do Pausha-sukla
Ekadashi ou Putrada Ekadashi, do Bhavishya Purana.
Notas:
(1) Os dez
Vishvedevas, os filhos de Vishva, são Vasu, Kratu, Daksha, Kala, Kama, Dhrti,
Pururava, Madrava, e Kuru.
(2) A palavra
sânscrita para "filho" é putra. Pu é o nome de determinado inferno, e tra significa "salvar". Assim a palavra putra significa "uma pessoa que salva alguém do inferno
chamado Pu". Portanto cada homem
casado deve produzir pelo menos um filho e treiná-lo devidamente; então o pai
será salvo de uma condição de vida infernal.
Porém esta injunção não se aplica aos devotos sérios do Senhor Vishnu ou
Krishna, pois o Senhor se torna seu filho, pai, e mãe.
Além do mais Chanakya
Pandita diz:
satyam mata pita jnanam
dharmo bhrata daya sakha
shantih patni kshama putrah
shadete mama vandhavah
"A verdade é minha
mãe, o conhecimento é meu pai, meu dever ocupacional é meu irmão, a bondade é
minha amiga, tranquilidade minha esposa, e o perdão meu filho. Estes seis são os membros de minha
família." Entre as vinte e seis
principais qualidades de um devoto do Senhor, o perdão é o principal. Portanto devotos devem fazer um esforço extra
para desenvolver esta qualidade. Aqui
Chanakya diz: "O perdão é meu
filho," e portanto um devoto do Senhor, mesmo embora possa estar na senda
da renúncia, poderá observar Putrada Ekadashi e orar por obter este tipo de
"filho".
5 SAT-TILA
EKADASHI
Dalbhya Rishi disse
para Pulastya Muni: "Quando a alma
espiritual entra em contato com a energia material, imediatamente começa a
realizar atividades pecaminosas, tais como roubar, matar, e sexo ilícito. Poderá até realizar muitos outros atos
terríveis, tais como matar um brahmana. ó mais pura das personalidades, por favor
conte-me como estas almas desafortunadas podem escapar da punição de serem
mandadas às regiöes infernais da criação.
Por bondade informe como, dando mesmo um pouquinho de caridade, se pode
facilmente ficar livre de seus pecados."
Pulatsya Muni
respondeu: "ó ser afortunado,
perguntaste uma pergunta boa e confidencial, que nem mesmo Brahma, Vishnu,
Shiva ou Indra jamais perguntaram. Por
favor ouça minha resposta muito cuidadosamente.
Com a chegada do mês
de Magha (jan/fev), deve-se tomar banho, controlar cuidadosamente os sentidos
abandonando a luxúria, ira, orgulho, inveja, buscar erros, e cobiça, e meditar
na Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna. Deve-se então juntar algum excremento de vaca
antes que este toque o solo e, após misturá-lo com sementes de gergelim e
algodão, formar 108 bolas. Isto deve ser
feito no dia quando a constelação de Purvashadha-nakshatra chegar. Então se deve seguir as regras e regulaçöes
de Ekadashi, que agora te explicarei.
Após tomar banho, a
pessoa que tenciona observar Ekadashi deve adorar o Senhor Supremo. Enquanto ora ao Senhor Krishna cantando Seu
nome, deve prometer observar o jejum de Ekadashi. Deve permanecer acordada a noite toda e
realizar um homa. Então o devoto deve realizar arati para o Senhor - que segura uma
concha, disco, maça, e assim por diante em Suas mãos - oferecendo-Lhe pasta de
sândalo, incenso, cânfora, uma luminosa lamparina de ghee, e deliciosas
preparaçöes de alimento. Em seguida o
devoto deve oferecer as 108 bolas de excremento de vaca, sementes de gergelim,
e algodão no fogo sagrado enquanto canta os santos nomes do Senhor Supremo, Sri
Krishna. Durante todo o dia e a noite
ele deve também observar o jejum padronizado de Ekadashi, que neste caso é um
jejum de todos grãos e feijöes. Nesta
ocasião se deve oferecer ao Senhor abóbora, côco, e goiaba. Se estes artigos não estiverem disponíveis,
podem ser substituídos por noz de betel.
O devoto deve orar ao
Senhor Janardana, o benfeitor de todos seres, desta maneira: "ó Senhor Sri Krishna, és a mais
misericordiosa Personalidade de Deus e o liberador de todas almas caídas. ó Senhor, nós caímos no oceano da existência
material. Por favor seja bondoso para
conosco. ó divindade dos olhos de lótus,
por favor aceite nossas mais humildes e afetuosas reverências. ó protetor do mundo, oferecemo-Lhe nossos
respeitos de novo e de novo. ó Espírito
Supremo, ó Ser Supremo, ó fonte de todos nossos antepassados, que Tu e Tua
consorte Srimati Lakshmi-devi possam aceitar estas humildes oferendas."
O devoto deve então
tentar agradar um brahmana
qualificado com uma saudação calorosa, um pote cheio d'água, uma sombrinha, um
par de sapatos, e roupas, pedindo-lhe ao mesmo tempo que conceda suas bençãos,
pelas quais se pode desenvolver amor puro sem misturas por Krishna. Conforme a capacidade da pessoa, se pode doar
uma vaca preta a tal brahmana,
especialmente a um que seja bem versado em todas injunçöes das escrituras
védicas. Deve-se oferecer a ele também
um pote cheio de sementes de gergelim.
ó exaltado Dalbhya
Muni, sementes de gergelim escuro são especialmente apropriadas para adoração
formal e sacrifícios de fogo, enquanto que as brancas ou marrons se destinam a
serem comidas por um brahmana
qualificado. Quem puder providenciar
doação de ambos tipos de sementes de gergelim neste sagrado Sat-tila Ekadashi
será promovido aos planetas celestiais por tantos milhares de anos quanto o
número de sementes que seria produzido se as sementes que dôou fossem plantadas
e crescessem como plantas maduras, dando semente.
Neste Ekadashi, um
pessoa fiel deve banhar-se em água misturada com sementes de gergelim, passar
pasta de gergelim em seu corpo, oferecer sementes de gergelim em sacrifício,
comer sementes de gergelim, dar sementes de gergelim como caridade, e aceitar
dádivas caridosas de sementes de gergelim.
Estes são os seis (sat) meios
em que sementes de gergelim (tila)
são utilizadas para purificação espiritual neste Ekadashi. Portanto se chama de Sat-tila Ekadashi.
O grande Devarishi
Naradaji certa vez perguntou à Suprema Personalidade de Deus, Sri Krishna: "ó Senhor de braços poderosos, ó Tu que
és tão afetuoso para com Teus devotos amorosos, por favor aceita minhas mais
humildes reverências. ó Yadava,
bondosamente diga-me o resultado que se obtém por observar Sat-tila
Ekadashi."
O Senhor Sri Krishna
retrucou: "ó melhor dos duas-vezes
nascidos, vou narrar para ti um relato de um incidente que testemunhei
pessoalmente. Há muito tempo, vivia na
terra uma velha brahmani que Me
adorava todo dia com os sentidos controlados.
Ela mui fielmente observava
bastante jejuns, especialmente em dias especiais em honra a Mim, e Me servia
com plena devoção, sem qualquer motivo pessoal.
Seus jejuns rigorosos a tornaram bastante fraca e magra. Dava caridade aos brahmanas e jovens donzelas, e até mesmo planejava dar sua casa
como caridade. ó melhor dos brahmanas, embora esta mulher de mente
espiritualizada desse donativos caridosos a pessoas dignas, a estranha
característica de sua austeridade era que nunca dava alimento aos brahmanas ou
semideuses.
Comecei a refletir
sobre esta curiosa omissão: "Esta
boa mulher se purificou por jejuar em todas ocasiöes auspiciosas e oferecer-Me
adoração devocional estrita. Portanto
ela certamente se tornou qualificada para entrar em Minha morada pessoal, que é
inatingivel por pessoas comuns."
Portanto desci a este planeta para examiná-la, disfarçando-Me como um
seguidor do Senhor Shiva, completo com guirlanda de crânios ao redor de Meu
pescoço e um pote de mendicante em Minha mão.
Quando Me aproximei
dela, disse-Me: "ó ser respeitável,
diga-me verdadeiramente porque vieste diante de mim."
Retruquei: "ó bela pessoa, vim para pegar alguns
sagrados donativos teus." - ao que ela zangada, jogou um denso bolo de
barro em Meu pote de mendicante! ó
Narada, simplesmente virei e retornei para Minha morada pessoal, espantado com
a peculiar mistura de grande magnanimidade e mesquinhez desta boa brahmani.
Afinal esta austera
senhora chegou ao mundo espiritual naquele mesmo corpo, tão grandes foram seus
esforços de jejum e caridade. E porque
de fato Me oferecera um torrão de barro, transformei aquele barro numa linda
casa. Contudo, ó Naradaji, esta casa em
particular estava completamente destituída de qualquer grão comestível, bem
como de qualquer móvel ou ornamentação, e quando entrou nela, encontrou apenas
uma estrutura vazia. Portanto ela se
aproximou de Mim e disse com grande raiva:
"Jejuei repetidamente em tantas ocasiöes auspiciosas, tornando meu
corpo fraco e magro. Te adorei e orei a
Ti de tantas diferentes maneiras, pois és verdadeiramente o soberano e protetor
de todos universos. Contudo apesar de
tudo isso não há alimento ou riqueza para ser vista em minha nova casa, ó
Janardana. Porquê isso?"
Respondi: "Por favor retorna para tua casa. Daqui a algum tempo as esposas dos semideuses
te farão uma visita devido à curiosidade de ver quem acaba de chegar, mas não
abra tua porta até que tenham descrito as glórias e a importância de Sat-tila
Ekadashi."
Ouvindo isso, ela
retornou para sua casa. Eventualmente as
mulheres dos semideuses ali chegaram e em unísono disseram: "ó ser belo, viemos para obter teu darshana. ó ser auspicioso, por favor abra tua porta e
nos deixe ver-te."
A senhora
respondeu: "ó seres mais queridos,
se quiserem que abra esta porta, devem descrever para mim o mérito obtido por
observar o sagrado jejum de Sat-tila Ekadashi." Mas nenhuma das esposas respondeu.
Mais tarde, contudo,
elas retornaram para a casa, e uma das esposas explicou bem a natureza sublime
deste sagrado Ekadashi. E quando a
senhora afinal abriu sua porta, viram que ela não era nem uma semideusa, nem
Gandharvi, nem demônia, tampouco Naga-patni.
Era simplesmente uma senhora comum.
A partir de então a
senhora observou Sat-tila Ekadashi, que confere gozo material e liberação ao
mesmo tempo, conforme lhe fora descrito.
E ela finalmente recebeu as lindas guarniçöes e grãos que esperava para
seu lar. Além do mais, aquele corpo
material comum de antes, se transformou numa forma espiritual linda com uma
bela compleição. Assim, pela
misericórdia e graça de Sat-tila Ekadashi, tanto a senhora como seu novo lar no
mundo espiritual afinal eram esplêndidos e luminosos com ouro, prata, jóias e
diamantes.
ó Naradaji, uma pessoa
não deve observar ostensivamente Ekadashi por cobiça, na esperança de obter
fortuna desonestamente.
Desinteressadamente, deve simplesmente doar sementes de gergelim,
roupas, e alimento segundo sua capacidade, pois assim fazendo obterá boa saúde
e consciência espiritual exaltada, nascimento após nascimento (2). Afinal, a liberação e o acesso à morada
suprema do Senhor serão suas. Isto é
minha opinião, ó melhor dos semideuses."
"ó Dalbhya
Muni" Pulastya Rishi concluiu, "quem observa devidamente o
maravilhoso Sat-tila Ekadashi com grande fé, se torna livre de todos tipos de
pobreza - espiritual, física, social, e intelectual - bem como de todos tipos
de má sorte e maus presságios. De fato,
seguir este jejum de Ekadashi doando, sacrificando ou comendo sementes de
gergelim, nos livra de todos pecados passados, sem nenhuma dúvida. Não é preciso querer saber como isso
acontece. A rara alma que realiza
corretamente estes atos de caridade no humor devocional certo, seguindo as
injunçöes védicas, se tornará totalmente livre de todas reaçöes pecaminosas e
voltará para Deus, de volta para o mundo espiritual."
Assim termina a narrativa das glórias do Magha-krishna
Ekadashi ou Sat-tila Ekadashi, do Bhavishya-uttara Purana.
Notas:
(1) Embora no mundo
espiritual ira e desejo material estejam totalmente ausentes, Sri Krishna
providenciou para que a senhora demonstrasse estas qualidades para que as
glórias de Sat-tila Ekadashi fossem reveladas.
(2) Para um Vaisnava,
caridade significa dar consciência de Krishna, especialmente o cantar do Hare
Krishna mantra. Como disse Sri Chaitanya Mahaprabhu, eka bar to mullhe hari bol bhai... ei matra
bhiksha cai. "ó irmão, por
favor cante Hare Krishna apenas uma vez... Esta é a única doação que
peço." Se um devoto
chefe-de-família puder arcar com a despesa, deverá dar algumas sementes de
gergelim, roupas, ou alimentos como caridade a uma pessoa digna, mas isso não é
obrigatório.
6 JAYA
EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Senhor dos senhores, Sri
Krishna, todas as glórias a Ti! ó mestre
do universo, só Tu és a fonte dos quatro tipos de entidades vivas - aquelas
nascidas de ovos, aquelas nascidas da transpiração, aquelas nascidas de
sementes, e aquelas nascidas de embriöes.
Só tu és a causa-raiz de tudo, ó Senhor, e portanto Tu és o criador,
mantenedor, e destruidor.
Meu Senhor, explicaste
tão bondosamente para mim o auspicioso dia conhecido como Sat-tila Ekadashi,
que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Magha (jan/fev). Agora por favor explica o Ekadashi que ocorre
durante a quinzena clara deste mês. Por
que nome é conhecido, e qual o processo para se observá-lo? Quem é a Deidade que é adorada neste sublime
dia, que Lhe é tão caro?"
O Senhor Sri Krishna
replicou: "ó Yudhishthira, de bom
grado te contarei sobre o Ekadashi que ocorre durante a metade clara do mês de
Magha. Este Ekadashi oblitera todos
tipos de reaçöes pecaminosas e influências demoníacas que afetam a alma
espiritual. É conhecido como Jaya
Ekadashi, e a alma afortunada que observa um jejum neste dia sagrado é aliviada
do grande fardo da existência fantasmagórica.
Assim não há Ekadashi melhor que este, pois realmente concede liberdade
do nascimento e morte. Deve ser honrado
com muito cuidado e diligentemente.
Assim peço que Me ouças atentamente, ó Pandava, enquanto explico um
episódio histórico maravilhoso referente a esse Ekadashi, um episódio que já
relatei no Padma Purana.
Há muito, muito tempo
atrás, nos planetas celestiais, o Senhor Indra governava seu reino celestial
muito bem, e todos semideuses que viviam ali estavam felizes e contentes. Na floresta de Nandana, que era belamente
decorada com flores parijata, Indra
bebia ambrosia sempre que queria e desfrutava do serviço de cinquenta milhöes
de donzelas celestiais, as Apsaras, que dançavam em êxtase para seu prazer.
Muitos cantores,
liderados por Puspadanta, cantavam em doces vozes sem comparação. Citrasena, chefe dos músicos de Indra, estava
ali na companhia de sua esposa Malini e seu belo filho Malyavan. Uma Apsara chamada Pushpavati ficou muito
atraída por Malyavan; na verdade, as flechas pontiagudas de Cupido trespassaram
o âmago de seu coração. Seu belo corpo e
aparência, junto com os encantadores movimentos de suas sobrancelhas, cativaram
Malyavan.
ó rei, ouça enquanto
descrevo a esplêndida beleza de Pushpavati:
Ela tinha braços incomparavelmente graciosos para abraçar um homem tal
como um fino laço de seda; seu rosto assemelhava-se à lua; seus olhos de lótus
chegavam quase às suas lindas orelhas, que eram adornadas por maravilhosos
brincos; seu fino pescoço ornamentado parecia uma concha; sua cintura era muito
delgada, do tamanho de um punho; seus quadris eram largos, e suas coxas como
troncos de bananeiras; suas feiçöes naturalmente belas eram complementadas por
deslumbrantes ornamentos e vestes; seus seios eram altamente elevados; e olhar
para seus pés era como contemplar recém-brotados lótus vermelhos.
Vendo Pushpavati em
toda sua beleza celestial, Malyavan ficou imediatamente enfeitiçado. Tinham vindo com outros artistas para agradar
o Senhor Indra através do canto e dança encantadora, mas porque havia se
enamorado mutuamente, atingidos no coração pelas flechas de Cupido, a luxúria
personificada, ficaram completamente incapazes de cantar ou dançar devidamente
diante do senhor e controlador dos reinos celestiais (1). Sua pronúncia estava errada e seu ritmo
descuidado. O Senhor Indra entendeu a
fonte dos erros de imediato. Ofendido
ante a discórdia no espetáculo musical, ficou muito zangado e berrou: "Seus tolos inúteis! Fingem cantar para mim enquanto estão num
estupor de paixão mútua! Estão troçando
de mim! Amaldiçôo ambos a sofrerem como pisachas (duendes) daqui em diante. Como marido e mulher, vão para as regiöes
terrenas e colham as reaçöes de suas ofensas."
Mudos diante destas
duras palavras, Malyavan e Pushpavati imediatamente esmoreceram e caíram da
linda Floresta de Nandana no reino do céu, para um pico do Himalaia aqui no
planeta terra. Incalculavelmente angustiados, e com sua inteligência
grandemente diminuída pelos efeitos da temível maldição de Indra, perderam seu
sentido de paladar e olfato, e até mesmo seu sentido do tato. Era tão frio e miseravelmente alto nos
desertos de neve e gelo do Himalaya que nem sequer conseguiam gozar do
esquecimento do sono.
Vagando sem destino
por aqui e por ali naquelas escarpadas alturas, Malyavan e Pushpavati sofriam
mais e mais, de um momento ao outro.
Embora estivessem situados numa caverna, devido à queda da neve e o
frio, seus dentes batiam sem cessar, e seu cabelo se arrepiava de medo e
perplexidade.
Nesta situação totalmente
desesperada, Malyavan disse para Pushpavati: "Que abomináveis pecados
cometemos para termos de sofrer nestes corpos de pisacha, neste meio-ambiente impossível. Isto é absolutamente infernal! Embora o inferno seja muito bárbaro, o
sofrimento que estamos passando aqui é muito mais abominável. Portanto é abundantemente claro que jamais se
deve cometer qualquer pecado."
E assim os aflitos
amantes marchavam penosamente adiante na neve e gelo. Pela grande boa fortuna deles, entretanto,
aconteceu que naquele mesmo dia era Jaya Ekadashi, o Ekadashi da quinzena
luminosa do mês de Magha. Porque em sua
miséria deixaram de beber qualquer água, matar qualquer caça, ou mesmo comer
quaisquer frutas e folhas que estavam disponíveis àquela altura, sem saber haviam
observado Ekadashi jejuando completamente de todo alimento e bebida. Imersos no sofrimento, Malyavan e Pushpavati
caíram sob uma árvore
pippal e nem tentaram se levantar. O sol
havia se posto àquela altura.
A noite foi ainda mais
fria e mais desgraçada que o dia.
Tremiam na gélida nevasca enquanto seus dentes batiam em unísono, e
quando ficaram entorpecidos, abraçaram-se apenas para manter o calor. Fechados no abraço mútuo, não conseguiam
desfrutar do sono nem do sexo. Assim sofreram
pela noite toda por essa poderosa maldição de Indra.
Ainda assim, ó
Yudhishthira, pela misericórdia do jejum que por acaso haviam observado no Jaya
Ekadashi, e porque haviam permanecido acordados a noite toda, foram
abençoados. Por favor ouça o que
aconteceu no dia seguinte. Enquanto
alvorecia o Dvadashi, Malyavan e Pushpavati haviam abandonado suas formas
demoníacas e eram novamente belos seres celestiais usando ornamentos luzidios e
vestes seletas. Enquanto se olhavam
espantados, chegou um aeroplano celestial (vimana)
no local. Um côro de habitantes
celestiais cantava seus louvores enquanto o casal entrava na linda aeronave e
proseguia diretamente para as regiöes celestiais, animado pelos bons votos de
todos. Breve Malyavan e Pushpavati
chegaram a Amaravati, a capital do Senhor Indra, e então imediatamente foram
até seu senhor e lhe ofereceram alegres reverências.
O Senhor Indra ficou
espantado de ver como haviam recuperado seu estado e formas originais depois
que os havia amaldiçoado a sofrerem como demônios bem, bem abaixo do reino
celestial. Indra perguntou-lhes: "Que atos extraordinariamente meritórios
realizasteis para que pudesseis abandonar vossos corpos de pisacha tão rápido depois que vos amaldiçoei? Quem vos libertou de minha irresistível
maldição?"
Malyavan
respondeu: "ó senhor, foi pela
misericórdia da Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Vasudeva, e também pela
poderosa influência do Jaya Ekadashi, que fomos libertados de nossa condição
sofredora como pisachas. Isto é a verdade, ó senhor: Porque executamos serviço devocional ao
Senhor Vishnu observando Jaya Ekadashi, o dia que Lhe é mais querido,
felizmente recuperamos nossa posição anterior."
Indra disse: "Porque servistes o Supremo Senhor
Keshava observando Ekadashi, vos tornastes adoráveis para mim, e posso ver que
agora estais purificados do pecado. Quem
quer que se ocupe em serviço devocional ao Senhor Sri Hari ou Senhor Shiva se
torna digno de louvor e adorável até para mim.
Quanto a isso não há dúvida."
O Senhor Indra então deu para Malyavan e Pushpavati a liberdade de
poderem desfrutar um do outro e vagar por seu planeta celestial.
Portanto, ó
Yudhishthira, deve-se obervar estritamente um jejum no dia do Senhor Hari,
especialmente no Jaya Ekadashi, que liberta a pessoa do pecado de matar até
mesmo um brahmana duas vezes
nascido. Uma grande alma que observa
este jejum com plena fé e devoção de fato deu todos tipos de caridade, realizou
todos tipos de sacrifício, e tomou banho em todos lugares sagrados de peregrinação. Jejuar no Jaya Ekadashi qualifica a pessoa
para residir em Vaikuntha e desfrutar de interminável felicidade por bilhöes de
yugas - na verdade, para sempre. ó grande rei, quem até mesmo ouve ou lê estas
glórias do Jaya Ekadashi obtém o abençoado mérito obtido por realizar o
sacrifício Agnistoma, durante o qual são recitados hinos do Sama-veda.
Assim termina a narrativa das glórias do Magha-sukla
Ekadashi ou Jaya Ekadashi, do Bhavishya-uttara Purana.
Notas:
(1) Kamadeva, a luxúria
personificada, tem cinco nomes segundo o dicionário Amara-kosha: kandarpa darpako
'nanga kamah panca-sharaih smarah.
"Cupido tem cinco nomes: 1.
Cupido; 2. Darpaka, "aquele que impede eventos futuros"; 3. Ananga,
"aquele que não tem corpo físico; 4. Kama, "a luxúria
personificada"; 5. Panca-sharaih, "aquele que segura cinco
flechas".
Kandarpa - no décimo capítulo do Bhagavad-gita 10.28, o Senhor Krishna diz: prajanah
casmi kandarpah: "Dentre as
causas da procriação, Eu sou Kandarpa".
A palavra kandarpa também
significa "muito belo".
Kandarpa apareceu como o filho de Krishna, Pradyumna, em Dvaraka.
Darpaka - este nome indica que Cupido pode perceber o
que está para acontecer e impedí-lo de ocorrer.
Especificamente, ele tenta impedir a atividade espiritual pura, atraindo
nossa mente e por força nos ocupando na gratificação material sensorial.
Ananga - Certa vez, quando Cupido perturbou a meditação do
Senhor Shiva, este poderoso semideus queimou-o até virar cinzas. Ainda assim, Shiva deu a Cupido a benção de
que poderia atuar no mundo mesmo sem um corpo físico.
Kama - No Bhagavad-gita
7.11 o Senhor Krishna diz: dharmaviruddho bhuteshu kamo 'smi,
"Eu sou a vida sexual que não é contrária aos princípios religiosos."
Panca-sharaih - As cinco flechas com as quais Cupido
trespassa a mente das entidades vivas são o paladar, tato, som, olfato e visão.
Estes são os cinco
nomes de Cupido, que encanta todas entidades vivas e as faz fazer o que ele
quer. Sem receber a misericórdia do guru e Krishna, não se pode resistir seu
poder.
7 VIJAYA
EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Senhor Sri Krishna, ó
glorioso filho de Vasudeva, por favor seja misericordioso para comigo e
descreva o Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Phalguna
(fev/mar)." O Senhor Sri Krishna
retrucou: "ó Yudhishthira, ó rei
dos reis, de bom grado contar-te-ei sobre este grande jejum, conhecido como
Vijaya Ekadashi. Quem quer que o observe
certamente obtém sucesso tanto nesta vida como na seguinte. Todos pecados de quem jejua neste Ekadashi e
ouve suas sublimes glórias são erradicados.
Narada Muni certa vez
perguntou ao Senhor Brahma, que se senta num lótus, sobre Vijaya Ekadashi. Narada disse:
"ó melhor dos semideuses, tenha a bondade de me contar que mérito
se pode obter por observar fielmente Vijaya Ekadashi."
O grande pai de Narada
respondeu: "Meu querido filho, este
mais antigo dos dias para jejuar é puro, e nulifica todos pecados. Nunca revelei isto a ninguém até hoje, mas tu
consegues compreender além de qualquer dúvida que este Ekadashi concede o
resultado indicado por seu nome. (vijaya significa "vitória")
Quando o Senhor Rama
foi exilado para a floresta por quatorze anos, Ele, a deusa Sita e Seu divino
irmão Lakshmana permaneceram em Pancavati como mendicantes. Sita foi raptada por Ravana, e Rama
aparentemente ficou desorientado pelo sofrimento. Enquanto procurava por Sua amada consorte, o
Senhor encontrou o moribundo Jatayu e depois disso matou Seu inimigo
Kabandha. O grande devoto-abutre Jatayu
retornou a Vaikuntha após contar para
Rama como Sua querida Sita fora abduzida por Ravana.
Mais tarde, Rama e
Sugriva, o rei dos macacos, ficaram amigos. (1)
Juntos reuniram um grande exército de macacos e ursos e enviaram
Hanumanji a Sri Lanka, onde foi capaz de ver Janaki, Sita-devi, num jardim de ashokas.
Transmitiu a mensagem de Rama para Ela e então retornou a Rama com o
recado Dela para Ele, assim prestando grande serviço ao Senhor Supremo.
Com a ajuda de
Sugriva, o Senhor Rama proseguiu até Sri Lanka.
Ao chegar na beira do oceano com o exército de macacos, Ele pode
entender que a água era incomumente profunda.
Assim disse para Lakshmana:
"ó filho de Sumitra, como poderemos acumular suficiente mérito para
conseguir atravessar este vasto oceano, a morada insondável de Varuna? Não consigo ver nenhuma maneira fácil para
atravessá-lo, assim cheio de tubaröes e outros peixes ferozes."
Lakshmana
respondeu: "ó melhor de todos
seres, ó origem de todos deuses, ó personalidade primordial, o grande sábio
Bakadalbhya vive numa ilha a apenas quatro milhas daqui. ó Raghava, ele viu muitos Brahmas ir e vir,
de tão idoso e sábio que é. Vamos
perguntar a ele como Nós poderemos alcançar Nossa meta em segurança."
Assim Rama e Lakshmana
seguiram até o humilde ashrama do
incomparável Bakadalbhya Muni.
Aproximando-Se dele, os dois Senhores prestaram Suas respeitosas
reverências como se fosse um segundo Vishnu.
Bakadalbhya podia compreender, entretanto, que Rama na verdade era a
Suprema Personalidade de Deus, que por Suas próprias razöes havia aparecido na
terra como um ser humano.
"ó Rama"
disse Bakadalbhya, "ó melhor dos seres humanos, porque vieste a minha
humilde morada?"
O Senhor
respondeu: "ó grande brahmana duas-vezes nascido, vim aqui
até a beira do oceano com Minha falange de macacos e ursos a fim de atravessar
o mar e conquistar Lanka e sua horda de demônios. ó maior dos sábios, por favor seja
misericordioso para Comigo e diga-Me como posso atravessar este vasto
oceano. É por isso que vim até aqui
hoje."
O sábio disse: "ó Senhor Rama, contarei sobre o mais
exaltado de todos jejuns, que se observado certamente fárá com que conquistes
Ravana e sejas eternamente glorificado. Tenha
a bondade de ouvir com plena atenção.
No dia antes de
Ekadashi, fabrique um pote d'água de ouro ou prata, ou até cobre. Mesmo barro servirá se estes metais não
estiverem disponíveis. Encha o pote com
água pura e então o decore bem com folhas de manga. Cubra-o e coloque-o próximo a um altar
sagrado sobre um montículo de sete grãos. (2)
Agora tome Teu banho matinal, decore o pote d'água com guirlandas de
flores e pasta de sândalo, e na tampa côncava em cima do pote, coloque cevada,
romã, e côco. Agora com grande amor e
devoção adore a Deidade no pote d'água e ofereça-Lhe incenso, pasta de sândalo,
flores, uma lamparina de ghee, e um prato de alimento suntuoso. Permaneça acordado naquela noite junto a este
pote sagrado. Em cima da tampa cheia de
cevada, etc. coloque uma murti
dourada do Senhor Narayana.
Quando Ekadashi
alvorecer, toma Teu banho matinal e então decore o pote d'água com fina pasta
de sândalo e guirlandas. Então adore o
pote com incenso de primeira qualidade, pasta de sândalo, uma lamparina de
ghee, e também coloque devotadamente muitos tipos de alimentos cozidos, romã, e
côco diante do pote d'água. Então
permaneça acordado a noite inteira.
Quando Dvadashi
alvorecer, leve o pote d'água até a margem de um rio sagrado, ou até mesmo para
a beira de uma pequena lagoa. Após
adorá-lo devidamente, ó Rei dos reis, ofereça-o com todos ingredientes
antemencionados a um brahmana perito
na ciência védica. Se Tu e Teus
comandantes militares observarem Vijaya Ekadashi desta maneira, certamente
sereis vitoriosos de qualquer maneira."
O Senhor Ramachandra,
a Suprema Personalidade de Deus, fez assim como Bakadalbhya Muni instruira, e
assim conquistou todas forças demoníacas.
Similarmente, qualquer um que observe Vijaya Ekadashi desta maneira será
sempre vitorioso neste mundo mortal, e após deixar este mundo irá residir para
sempre no reino de Deus.
ó Narada, meu filho,
por esta história podes compreender porque se deve observar este jejum de
Ekadashi corretamente, seguindo estritamente as regras e regulaçöes. Este jejum é suficientemente poderoso para
erradicar todas nossas reaçöes pecaminosas, até as mais abomináveis."
Sri Krishna
concluiu: "ó Yudhishthira,
quem
mais
bela moça na terra, e tanto o deus do sol como Indra se enamoraram dela. Um após o outro, Indra e o deus do sol vieram
até ela na forma de Gautama e tiveram sua união com ela, e Sugriva e Vali foram
o resultado, respectivamente.
A princípio, Sugriva e
Vali pareciam seres humanos, mas quando Gautama descobriu a infidelidade de sua
esposa, irado, lançou ambos meninos no oceano dizendo: "Se não forem meus filhos, que virem
macacos!" Assim viraram
macacos. Sugriva ajudou seu amigo Rama a
encontrar Sita, e em troca Rama ajudou Sugriva a recuperar seu reino de
Kishkindha do seu irmão Vali.
Com relação ao fato de
Gautama possuir uma esposa espetacularmente bela, Chanakya Pandita diz:
rnakarta pita shatruh
mata ca vyabhicarini
bharya
rupavati shatruh
putra shatruh kupanditah
"Neste mundo um
homem tem quatro inimigos: um pai que é
devedor; uma mãe que é prostituta; uma bela esposa; e um filho que não se
interessa pela ciência espiritual."
Uma bela esposa é um inimigo porque muitos outros homens serão atraídos
por ela.
(2) Os sete grãos são
cevada, trigo, arroz, milho, grão-de-bico, kukani
e dal (ou ervilhas).
8 AMALAKI
EKADASHI
O Rei Mandhata certa
vez disse para Vasishtha Muni: "ó grande
sábio, por bondade, seja misericordioso para comigo e conta-me sobre um jejum
sagrado que me beneficiará eternamente."
Vasishtha Muni
respondeu: "ó rei, tenha a bondade de ouvir enquanto descrevo o melhor de
todos dias de jejum, Amalaki Ekadashi. Aquele
que observa fielmente um jejum neste Ekadashi obtém enorme opulência, livra-se
dos efeitos de todo tipo de pecados, e obtém liberação. Jejuar neste Ekadashi é mais purificante que
doar mil vacas em caridade a um brahmana
puro. Portanto por favor me escute
atentamente enquanto conto a história do caçador que, embora diariamente
ocupado em matar animais inocentes para ganhar a vida, obteve liberação por
observar um jejum no Amalaki Ekadashi e seguir as regras e regulaçöes de
adoração prescritas.
Uma vez havia um reino
chamado Vaidisha, onde todos brahmanas,
kshatriyas, vaishyas e shudras
eram igualmente dotados de conhecimento védico, grande força corpórea, e
refinada inteligência. ó leão entre os
reis, o reino inteiro estava cheio de sons védicos, nem uma só pessoa era
ateísta, e ninguém pecava. O governante
deste reino era o Rei Pashabinduka, um membro da dinastia de Soma, a lua. Ele também era conhecido como Citraratha e
era muito religioso e veraz. Dizem que o
Rei Citraratha tinha a força de dez mil elefantes e que era muito rico e
conhecia os seis ramos da sabedoria védica perfeitamente. (1)
Durante o reino de
Maharaja Citraratha, nem uma só pessoa em seu reino tentou praticar o dharma (dever) de outra, tão
perfeitamente ocupados em seus próprios dharmas
estavam todos brahmanas, kshatriyas,
vaishyas e shudras. Não se viam nem miseráveis nem pobretöes pelo
reino afora, e nem havia seca ou inundação.
Na verdade, o reino estava livre de doenças, e todos gozavam de boa
saúde. As pessoas prestavam serviço
devocional amoroso à Suprema Personalidade de Deus, o Senhor Vishnu, assim como
fazia o rei, que também prestava serviço especial ao Senhor Shiva. Além do mais, duas vezes por mês todos
jejuavam no Ekadashi.
Desta maneira, ó
melhor dos reis, os cidadãos de Vaidisha viviam muitos e longos anos em grande
felicidade e prosperidade. Abandonando
todas variedades de religião materialista, dedicavam-se completamente ao
serviço amoroso ao Senhor Supremo, Hari.
Uma vez, no mês de
Phalguna, veio o sagrado jejum de Amalaki Ekadashi junto com Dvadashi. O Rei Citraratha realizou que este jejum em
particular concederia benefício especialmente grande, e portanto ele e todos
cidadãos de Vaidisha observaram este sagrado Ekadashi mui estritamente,
seguindo cuidadosamente todas regras e regulaçöes.
Após banhar-se num
rio, o rei e todos seus súditos foram ao templo do Senhor Vishnu, onde crescia
uma árvore Amalaki. Primeiro o rei e
seus principais sábios ofereceram à árvore um pote cheio d'água, bem como um
belo dossel, calçados, ouro, diamantes, rubis, pérolas, safiras, e incenso
aromático. Então adoraram o Senhor
Parashurama com estas oraçöes: "ó
Senhor Parashurama, ó filho de Renuka, ó ser que agrada a todos, ó libertador
de todos mundos, por bondade venha para baixo desta sagrada árvore Amalaki e
aceite nossas humildes reverências."
Então oraram à árvore Amalaki:
"ó Amalaki, ó filha do Senhor Brahma, tu podes destruir todos tipos
de reaçöes pecaminosas. Por favor aceite
nossas respeitosas reverências e estas humildes dádivas. ó Amalaki, és na verdade a forma do Brahman,
e uma vez foste adorada pelo próprio Senhor Ramachandra. Quem quer que te circumambule portanto
imediatamente é libertado de todos seus pecados."
Após oferecer estas
excelentes oraçöes, o Rei Citraratha e seus súditos permaneceram acordados
durante toda a noite, orando e adorando segundo as regulaçöes que governam um
sagrado jejum de Ekadashi. Foi durante
esta ocasião auspiciosa de jejum e oração que um homem mui irreligioso se
aproximou da assembléia, um homem que mantinha a si e a sua família matando
animais. Oprimido pela fadiga e pecado,
o caçador viu o rei e os cidadãos de Vaidisha observando Amalaki Ekadasi
realizando uma vigília a noite toda, jejuando e adorando o Senhor Vishnu no
lindo cenário da floresta, que estava brilhantemente iluminada por muitas
lâmpadas. O caçador escondeu-se
pertinho, desejando saber que seria esta extraordinária cena diante dele. "O que está acontecendo aqui?"
pensava. O que viu naquela maravilhosa floresta sob aquela
sagrada árvore Amalaki foi a Deidade do Senhor Damodara sendo adorada sobre a asana do pote d'água, e o que ouviu eram
devotos cantando cançöes sagradas descrevendo as formas e passatempos transcendentais
do Senhor Sri Krishna. Esquecendo-se de si, este ferrenho assassino irreligioso
de inocentes aves e animais passou a noite inteira em grande espanto enquanto
observava a celebração de Ekadashi e ouvia a glorificação do Senhor.
Logo após o alvorecer,
o rei e seu séquito real - inclusive os sábios ca corte e todos cidadãos -
completaram sua observância de Ekadashi e retornaram à cidade de Vaidisha. O caçador então retornou a sua cabana e comeu
alegre sua refeição. No devido tempo o
caçador morreu, porém o mérito que acumulara por jejuar no Amalaki Ekadashi e
ouvir a glorificação da Suprema Personalidade de Deus, bem como por ser forçado
a ficar acordado a noite toda, tornaram-no qualificado a renascer como um
grande rei com muitas quadrigas, elefantes, cavalos, e soldados. Seu nome era Vasuratha, o filho do Rei
Viduratha, e governava o reino de Jayanti.
O Rei Vasuratha era
forte e destemido, refulgente como o sol, e tão belo como a lua. Em força era como Vishnu, e em matéria de
perdão, tal como a própria terra. Muito
caridoso e sempre veraz, o Rei Vasuratha sempre prestava serviço devocional
amoroso ao Supremo Senhor Sri Vishnu.
Por isso, tornou-se muito bem versado no conhecimento védico. Sempre ativo nos assuntos do estado, gostava
de cuidar muito bem de seus súditos, como se fossem seus próprios filhos. Não gostava que ninguém fosse orgulhoso e
costumava esmagá-lo quando o via.
Realizou muitos tipos de sacrifícios, e sempre certificava-se que os
necessitados de seu reino recebessem suficiente caridade.
Certo dia, enquanto
caçava na selva, o Rei Vasuratha desgarrou-se da trilha e perdeu o
caminho. Vagando durante algum tempo e
eventualmente ficando cansado, fez uma pausa sob uma árvore e, usando seus
braços como travesseiros, caiu no sono.
Enquanto dormia, selvagens bárbaros de uma tribo encontraram-no e,
lembrando de sua inimizade já de longa data para com o rei, começaram a
discutir entre si várias maneiras de matá-lo.
"É porque ele matou nossos pais, mães, cunhados, netos, sobrinhos e
tios que somos forçados a vagar sem rumo como um bando de loucos." Dizendo isto, prepararam-se para matar o Rei
Vasuratha com várias armas, inclusive lanças, espadas, flechas e cordas
místicas.
Mas nenhuma destas
armas mortais conseguia nem mesmo tocar o rei adormecido, e em breve a
incivilizada tribo comedora-de-cães ficou temerosa. O medo consumiu-lhes a força, e logo perderam
o pouco de inteligência que tinham e ficaram quase inconscientes pela desorientação
e fraqueza. De repente uma linda mulher
apareceu do corpo do rei, assustando os aborígenes. Decorada com muitos ornamentos, emitindo uma
fragrância maravilhosa, usando uma excelente guirlanda em redor do pescoço,
suas sobrancelhas franzidas numa expressão de ira feroz, e seus fogosos olhos
vermelhos luzindo, parecia a própria morte personificada. Com sua chamejante chakra rapidamente ela matou todos caçadores tribais, que haviam
tentado assassinar o rei adormecido.
Bem naquele momento o
rei acordou, e vendo toda tribo morta ao redor dele, ficou espantado. Perguntava-se: "Esses são todos grandes inimigos
meus! Quem os matou tão violentamente? Quem é meu grande benfeitor?"
Nesse mesmo momento
ouviu uma voz do céu: "Perguntas
quem te ajudou. Bem, quem é aquela
pessoa que só ela pode auxiliar qualquer um atormentado? Não é outro senão Sri Keshava, a Suprema
Personalidade de Deus, Aquele que salva todos que se refugiam Nele sem qualquer
motivo egoísta."
Ao ouvir estas palavras,
o Rei Vasuratha foi tomado de amor pela Suprema Personalidade de Deus. Retornou a sua capital e governou ali como um
segundo Indra, sem quaisquer obstáculos.
"Portanto, ó Rei
Mandhata" o venerável Vasishtha Muni concluiu, "quem observa o sagrado
Amalaki Ekadashi indubitavelmente alcançará a suprema morada do Senhor Vishnu,
tão grande é o mérito religioso obtido por observar este mais sagrado dia de
jejum."
Assim termina a narrativa das glórias do Phalguna-sukla
Ekadashi ou Amalaki Ekadashi, do Brahmanda Purana.
Notas:
(1) Os seis ramos da
sabedoria védica são: 1. O sistema
Karma-mimamsa de Jaimini; 2. O sistema Sankhya do Senhor Kapila, filho de
Devahuti; 3. Filosofia Nyaya de Gautama e Kamada; 4. Filosofia Mayavada de
Ashtavakra; 5. Yoga-sutra de Patanjali, e 6. Filosofia Bhagavata de Srila
Vyasadeva.
9 PAPAMOCANI
EKADASI
Yudhisthira Maharaja
disse: "ó Senhor Supremo, ouvi de
Ti a explicação sobre Amalaki Ekadasi, que ocorre durante a quinzena do mês
Phalguna (fev/mar), e agora desejo ouvir sobre o Ekadasi que ocorre durante a
quinzena obscura do mês Caitra (mar/abr).
Qual é seu nome, ó Senhor, e que resultados pode-se obter por
praticá-lo?"
A Suprema
Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna, replicou: "ó melhor dos reis, para benefício de
todos com prazer descrever-te-ei as glórias desse Ekadasi, que é conhecido como
Papamocani. A história desse Ekadasi
certa vez foi narrada ao imperador Mandhata por Lomasa Rishi. O Rei Mandhata dirigiu-se ao rishi:
"ó grande sábio, para beneficiar o povo todo, por favor conte-me o
nome do Ekadasi que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Caitra, e por
favor explique o processo para observá-lo.
E ainda, por favor descreva os benefícios que se aufere por observar
este Ekadasi."
Lomasa Rishi
replicou: "O Ekadasi que ocorre
durante a metade obscura do mês de Caitra se chama Papamocani Ekadasi. Para os devotos fiéis remove as influências
de fantasmas e demônios. ó leão dentre
os homens, este Ekadasi também confere as oito perfeiçöes da vida, realiza todo
tipo de desejos, purifica nossa vida de todas reaçöes pecaminosas, e torna a
pessoa perfeitamente virtuosa.
Agora por favor ouça o
relato histórico referente a esse Ekadasi e Citraratha, o chefe dos Gandharvas
(músicos celestiais). Durante a estação
primaveril, na companhia de dançarinas, Citraratha certa vez acho uma linda
floresta cheia de grande variedade de flores desbrochando. Ali ele e as garotas juntaram-se a outros
Gandharvas e muitos Kinnaras, além do próprio Senhor Indra, o rei do céu, que
estava desfrutando de uma visita por lá.
Todos acharam que não havia jardim melhor que essa floresta. Muitos sábios também estavam presentes,
realizando suas austeridades e penitências.
Os semideuses particularmente gostavam de visitar esse jardim celestial
durante os meses de Caitra e Vaisakha (abr/mai).
Um grande sábio
chamado Medhavi residia ali naquela floresta, e as dançarinas muito atraentes
sempre tentavam seduzí-lo. Certa moça
famosa em particular, chamada Manjughosha, concebia muitas maneiras de atrair o
exaltado muni, porém por grande
respeito pelo sábio e medo de seu poder, que fora obtido durante muitos e
muitos anos de ascese, ela não se aproximava muito dele. Num lugar a duas milhas do sábio, armou uma
barraca e começou a cantar muito docemente enquanto tocava uma tamboura. O próprio Cupido ficou excitado quando viu e
ouviu-a tocar tão bem e sentiu a fragância de seu unguento de pasta de
sândalo. Lembrou de sua própria
experiência mal-afortunada com o Senhor Shiva e decidiu se vingar seduzindo
Medhavi. (1)
Usando as
sombrancelhas de Manjughosha como arco, seus olhares como corda, e seus olhos
como flechas, e seus seios como mira, Cupido aproximou-se de Medhavi a fim de
tentá-lo a quebrar seu transe e seus votos.
Em outras palavras, Cupido ocupou Manjughosha como sua assistente, e
quando esta olhou para aquele jovem sábio poderoso e atraente, ela também ficou
agitada pela luxúria. Vendo que ele era
altamente inteligente e erudito, vestido que estava com um cordão de brahmana branco e limpo drapeado sobre
seu ombro, segurando o bastão de sannyasi,
e atraentemente sentado no ashrama de
Cyavana Rishi, Manjughosha veio para diante dele.
Começou a cantar
sedutoramente, e os sininhos de seu cinto e das tornozeleiras, junto com os braceletes
em seus pulsos, produziam uma sinfonia musical encantadora. O sábio Medhavi ficou encantado. Compreendeu que essa bela jovem desejava
unir-se com ele, e naquele instante Cupido aumentou sua atração por Manjughosha
ao soltar suas poderosas armas de sabor, toque, visão, aroma e som.
Lentamente Manjughosha
aproximou-se de Medhavi, seus movimentos corpóreos e doces olhares
atraindo-o. Graciosamente depositou sua tamboura e abraçou o sábio com seus dois
braços, assim como uma liana se enrosca ao redor de uma árvore forte. Cativado, Medhavi abandonou sua meditação e
decidiu desfrutar com ela - e instantâneamente sua pureza de coração e mente abandonaram-no. Esquecendo-se da diferença entre a noite e o
dia, foi com ela para desfrutar durante longo, longo tempo. (2)
Vendo que a santidade
do jovem yogui tinha se erodido
seriamente, Manjughosha decidiu abandoná-lo e retornar a casa. Disse ela:
"ó grande sábio, por favor permita-me retornar para casa."
Medhavi retrucou: "Mas apenas chegaste, ó lindeza, por
favor fica comigo pelo menos até amanhã."
Temerosa dos poderes yoguicos do sábio, Manjughosha ficou com
Medhavi durante precisamente cinquenta e sete anos, nove meses, e três dias,
mas para Medhavi todo esse tempo parecia como um momento. Novamente ela perguntou-lhe: "Por favor permita-me ir
embora."
Medhavi
respondeu: "ó querida,
ouça-me. Fique por mais uma noite
apenas, e então poderá ir embora amanhã de manhã. Só fique até depois que eu tiver realizado
meus deveres matinais e cantado o sagrado Gayatri mantra. Por favor espera até
lá."
Manjughosha ainda
estava temerosa pelos grandes poderes yoguicos
do sábio, mas forçou um sorriso e disse:
"Quanto tempo levará para terminar seus rituais e hinos
matinais? Por favor seja misericordioso
e pense em todo tempo que já passaste comigo."
O sábio refletiu nos
anos em que estivera com Manjughosha e então falou muito espantado: "Pudera, passei mais que cinquenta e
sete anos contigo!" Seus olhos
ficaram vermelhos e começaram a emanar faíscas.
Agora ele enxergava Manjughosha como a morte personificada e destruidora
de sua vida espiritual. "Mulher
velhaca! Transformaste todos resultados
duramente obtidos de minhas austeridades em cinzas!" Tremendo de ira, amaldicoou Manjughosha: "ó pecaminosa, ó degradada de coração de
pedra! Só conheces o pecado! Que todos destinos terríveis sejam para
ti! ó mulher velhaca, te amaldiçôo a te
tornares um malvado duende pisaca!"
Amaldiçoada pelo sábio
Medhavi, a bela Manjughosha humildemente implorou: "ó melhor dos brahmanas, por favor seja misericordioso para comigo e revogue
minha maldição! ó grande sábio, dizem
que a associação com devotos puros dá resultados imediatos mas suas maldiçöes
só tem efeito após sete dias. Estive
contigo durante cinquenta e sete anos. ó
mestre, por favor seja bondoso para comigo!"
Medhavi Muni
respondeu: "ó gentil senhora, que poderei fazer? Destruíste todas minhas austeridades. Mas embora tenhas realizado esse ato
pecaminoso, vou contar-te uma maneira de libertar-te de minha ira. Na quinzena obscura do mês Caitra há um
Ekadasi totalmente auspicioso que remove todos nossos pecados. Seu nome é
Papamocani Ekadasi, ó bela, e quem quer que jejue nesse sagrado dia se torna
completamente livre de ter de renascer em qualquer das formas demoníacas."
Com essas palavras, o
sábio partiu imediatamente para o ashram
de seu pai. Vendo-o entrar no
eremitério, Cyavana Muni disse: "ó
filho, por ter agido desregradamente desperdiçaste a fortuna de tuas
penitências e austeridades."
Medhavi replicou: "ó Pai, bondosamente revele que expiação
devo realizar para remover esse pecado obnóxio que incorri por associar-me na
privacidade com a dançarina Manjughosha."
Cyavana Muni
respondeu: "Querido filho, deves
jejuar no Papamocani Ekadasi, que ocorre durante a quinzena obscura do mês de
Caitra. Ele erradica todos pecados, não
importa quão graves possam ser."
Medhavi seguiu o
conselho de seu pai e jejuou no Papamocani Ekadasi. Assim todos seus pecados foram destruídos e
ele se encheu de excelente mérito novamente.
Similarmente, Manjughosha observou o mesmo jejum e ficou livre da
maldição de virar duende. Ascendendo
novamente às esferas celestiais, também ela retornou a sua posição
anterior."
Lomasa Rishi
continuou: "Assim, ó rei, o grande
benefício de jejuar no Papamocani Ekadasi é que quem assim fizer com fé e
devoção, terá todos seus pecados completamente destruídos."
Sri Krishna
concluiu: "ó Rei Yudhisthira, quem
quer que ler ou ouvir sobre Papamocani Ekadasi obtém o mesmo mérito que
receberia se doasse mil vacas como caridade, e também nulifica as reaçöes
pecaminosas que possa ter acumulado por matar um brahmana, matar um embrião por meio de aborto, beber álcool, ou
fazer sexo com a esposa do guru. Tal é o incalculável benefício de se observar
corretamente esse sagrado dia de Papamocani Ekadasi, que Me é tão caro e é tão
cheio de mérito.
Assim termina a narrativa das glórias de Caitra-krsna
Ekadasi, ou Papamocani Ekadasi, conforme aparece no Bhavisya-uttara Purana.
Notas:
(1) Depois que o Senhor Shiva perdera sua querida
esposa Sati na arena sacrificial de Prajapati Daksha, Shiva destruiu a arena
inteira. Então trouxe de volta à vida
seu sogro Daksha, dando-lhe uma cabeça de bode, e finalmente sentou-se para meditar
durante sessenta mil anos. O Senhor
Brahma, entretanto, arranjou para que Kamadeva (Cupido) viesse e interrompesse
a meditação de Shiva. Usando suas
flechas de som, sabor, toque, visão e aroma, Cupido atacou Shiva, que afinal
acordou de seu transe. Ficou tão irado
por ter sido perturbado que instantâneamente queimou Cupido até virar cinzas,
com apenas um olhar de seu terceiro olho.
(2) Associação
feminina é tão poderosa que um homem esquece do tempo, energia, bens e mesmo da
própria identidade. Como se fala no
Niti-shastra: striya caritram purusasya bhabhyam daivo vijanati kuto manusyah -
"Mesmo os semideuses não conseguem prever o comportamento de uma
mulher. Tampouco conseguem compreender a
fortuna de um homem ou como esta determinará seu destino."
Segundo Yajnavalkya
Muni: "Uma (pessoa celibatária) que
deseja vida espiritual deve abandonar toda associação com mulheres, incluindo
pensar nelas, vê-las, falar com elas em local solitário, aceitar serviço delas,
ou manter relaçöes sexuais com elas."
10 KAMADA
EKADASHI
Srila Suta Goswami
disse: "ó sábios, permitam que eu
ofereça minhas humildes e respeitosas reverências ao Supremo Senhor Hari,
Bhagavan Sri Krishna, o filho de Devaki e Vasudeva, por cuja misericórdia posso
descrever o dia de jejum que remove todos tipos de pecados. Foi para o devotado Yudhishthira que o Senhor
Krishna glorificou os vinte e quatro Ekadashis primários, que destroem pecado,
e agora vou recontar uma dessas narrativas para vós. Grandes sábios eruditos selecionaram estas
vinte e quatro narrativas dos dezoito Puranas, pois são realmente sublimes.
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Senhor Krishna, ó
Vasudeva, por favor aceite minhas humildes reverências. Por favor descreva para mim o Ekadashi que
ocorre durante a parte iluminada do mês de Chaitra (mar/abr). Qual é seu nome e quais são suas
glórias?"
O Senhor Sri Krishna
respondeu: "ó Yudhishthira, por
favor ouça-Me atentamente enquanto relato a antiga história deste sagrado
Ekadashi, uma história que Vasishtha Muni certa vez relatou para o Rei Dilipa,
o bisavô do Senhor Ramachandra.
O Rei Dilipa perguntou
ao grande sábio Vasishtha: "ó brahmana sábio, desejo ouvir sobre o
Ekadashi que vem durante a parte iluminada do mês de Caitra. Por favor descreva-o para mim."
Vasishtha Muni
respondeu: "ó rei, tua indagação é
gloriosa. De bom grado contarei o que
desejas saber. O Ekadashi que ocorre
durante a quinzena clara de Caitra é chamado Kamada Ekadashi. Ele consome todos pecados, assim como um incêndio
florestal consome um suprimento de lenha seca.
É muito purificante, e confere o mais alto mérito a quem o observa
fielmente. ó rei, agora ouça uma antiga
história, que é tão meritória que remove todos nossos pecados simplesmente por
ser ouvida.
Uma vez, há muito
tempo atrás, existia uma cidade-estado chamada Ratnapura, que era decorada por
ouro e jóias e na qual serpentes de afiadas presas desfrutavam da
intoxicação. O Rei Pundarika era o
governante deste mais belo reino, que contava com muitos Gandharvas, Kinnaras,
e Apsaras entre seus cidadãos.
Entre os Gandharvas
havia Lalita e sua esposa Lalitã, que era uma dançarina especialmente
maravilhosa. Estes dois tinham intensa
atração um pelo outro, e seu lar era cheio de grande riqueza e finos alimentos. Lalitã amava seu marido muito, e por sua vez
ele também constantemente pensava nela em seu coração.
Uma vez, na corte do
Rei Pundarika, muitos Gandharvas estavam dançando e Lalita estava cantando
sozinho, sem sua esposa. Não pode evitar
de pensar nela enquanto cantava, e por essa distração perdeu-se na métrica e
melodia da canção. De fato, Lalita
cantou indevidamente o final de sua canção, e uma das serpentes invejosas que
estava presente na corte do rei queixou-se ao rei que Lalita estava absorto em
pensar na sua esposa em vez de no seu soberano.
O rei ficou furioso ao ouvir isso, e seus olhos ficaram vermelhos de
raiva. De repente ele berrou: "ó tolo valete, porque estavas pensando
luxuriosamente numa mulher em vez de pensar reverentemente em teu rei enquanto
realizavas teus deveres reais, eu te amaldiçôo imediatamente a virares um
canibal!"
ó rei, Lalita
imediatamente virou um temível canibal, um grande demônio comedor de gente,
cuja aparência aterrorizava todo mundo.
Seus braços tinham oito milhas de comprimento, sua boca era grande como
uma enorme caverna, seus olhos eram imponentes como o sol e a lua, suas narinas
assemelhavam-se a enormes fossos na terra, seu pescoço era uma verdadeira
montanha, seus quadris tinham quatro milhas de largura, e seu corpo gigantesco
media sessenta e quatro milhas de altura.
Assim o pobre Lalita, o amoroso cantor Gandharva, teve que sofrer a
reação de sua ofensa contra o Rei Pundarika.
Vendo seu marido
sofrendo como um horrível canibal, Lalitã foi tomada de tristeza. Pensava:
"Agora que meu querido marido está sofrendo os efeitos da maldição
do rei, que será de mim? Que devo fazer? Para onde devo ir? Desse modo Lalitã lamentava dia e noite. Em vez de gozar da vida como uma esposa de
Gandharva, ela tinha que vagar por toda selva densa com seu monstruoso marido,
que caíra completamente sob o encanto da maldição do rei e estava inteiramente
ocupado em terríveis atividades pecaminosas.
Ele perambulava vacilante pelas regiöes inóspitas, um ex-semideus Gandharva
belo, agora reduzido a um comportamento fantasmagórico de comedor de
gente. Totalmente transtornada ao ver
seu querido marido sofrer tanto em sua horrorosa condição, Lalitã começou a
chorar enquanto seguia sua louca jornada.
Por boa fortuna, entretanto,
Lalitã em certo dia encontrou o sábio Shringi.
Estava sentado num pico da famosa Colina Vindhyacala. Aproximando-se dele, imediatamente ela
ofereceu ao asceta suas respeitosas reverências. O sábio notou-a curvando-se diante dele e
disse: "ó mais bela, quem és? De quem és filha, e porque vieste até
aqui? Por favor conta-me tudo de
verdade."
Lalitã respondeu: "ó grande sábio, sou filha do grande
Gandharva Viradhanva, e meu nome é Lalitã.
Vago pelas florestas e planícies com meu querido marido, que o Rei
Pundarika amaldiçôou a se tornar um demônio comedor de gente. ó brahmana,
estou grandemente aflita por ver sua forma feroz e atividades terrívelmente
pecaminosas. ó mestre, por favor
conta-me como poderei realizar algum ato de expiação em prol de meu
marido. Que ato piedoso poderei fazer
para libertá-lo de sua forma demoníaca, ó melhor dos brahmanas?"
O sábio respondeu:
"ó donzela celestial, existe um Ekadashi chamado Kamada que ocorre na
quinzena luminosa do mês de Caitra. Está
chegando em breve. Se observares este
jejum de Ekadashi de acordo com suas
regras e regulaçöes e deres o mérito que assim acumulares a teu marido, ele
será liberto da maldição de imediato."
Lalitã ficou muito contente ao ouvir estas palavras do sábio.
Lalitã observou
fielmente o jejum de Kamada Ekadashi segundo as instruçöes do sábio Shringi, e
no Dvadashi el
lo
cantor celestial adornado com muitos ornamentos lindos. Agora, com sua esposa Lalitã, ele podia
desfrutar de mais opulência que antes.
Tudo isso se dera pelo poder e glória do Kamada Ekadashi. Afinal o casal Gandharva embarcou num
aeroplano celestial e ascendeu ao céu."
O Senhor Sri Krishna
continuou: "ó Yudhishthira, melhor
dos reis, quem quer que ouça esta maravilhosa narrativa deve certamente observar
o sagrado Kamada Ekadashi ao melhor de sua capacidade, por conceder mérito tão
grande ao devoto fiel. Portanto descrevi
suas glórias para ti em benefício de toda humanidade. Não há Ekadashi melhor que Kamada
Ekadashi. Ele pode erradicar até mesmo o
pecado de matar um brahmana, e também
nulifica maldiçöes demoníacas e limpa a consciência. Em todos três mundos, entre as entidades
móveis e imóveis, não existe dia melhor."
Assim termina a narrativa das glórias de Caitra-sukla
Ekadasi, ou Kamada Ekadasi, conforme aparece no Varaha Purana.
11 VARUTHINI
EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Vasudeva, ofereço minhas
mais humildes reverências a Ti. Por
favor agora descreva o Ekadashi da quinzena obscura do mês de Vaisakha (abr/mai),
inclusive seus méritos e influência específicos." O Senhor Sri Krishna
respondeu: "ó rei, neste mundo e no
próximo, o mais auspicioso e magnânimo Ekadashi é Varuthini Ekadashi, que
ocorre durante a quinzena obscura do mês de Vaisakha. Quem quer que observe um jejum completo neste
dia sagrado tem seus pecados completamente removidos, obtém felicidade
contínua, e consegue toda boa fortuna.
Jejuar no Varuthini Ekadashi torna afortunada até mesmo uma mulher
desafortunada. Este Ekadashi concede a
qualquer um que o observe, o desfrute material nesta vida e liberação após a
morte. Destrói os pecados de todos e
salva as pessoas das misérias do renascimento.
Por observar este
Ekadashi devidamente, o Rei Mandhata foi liberado. Muitos outros reis também se beneficiaram por
observá-lo - reis como Maharaja Dhundhumara, na dinastia Iksvaku, que se tornou
livre da lepra advinda de uma maldição que o
Senhor Shiva lhe impusera como punição.
Qualquer mérito que se obtenha por realizar austeridades e penitências
durante dez mil anos é alcançado por uma pessoa que observa Varuthini
Ekadashi. O mérito obtido por doar
grande quantidade de ouro durante um eclipse solar em Kurukshetra é acumulado
por quem observa este jejum de Ekadashi.
De fato, aquele que observa este único Ekadashi com amor e devoção
certamente obtém suas metas nesta vida e na próxima. Em resumo, este Ekadashi é puro e muito
vivificante e é um destruidor de todos pecados.
Melhor que dar cavalos
em caridade é dar elefantes, e melhor que dar elefantes é dar terra. Mas melhor que dar terra é dar sementes de
gergelim, e melhor que dar isto é dar ouro.
Ainda melhor que dar ouro é dar grãos alimentícios, pois todos
antepassados, semideuses, e seres humanos ficam satisfeitos por comer
grãos. Assim não há melhor caridade que
esta no passado, presente, ou futuro. (1)
Contudo sábios eruditos tem declarado que dar uma jovem em casamento a
uma pessoa digna é igual a dar grãos alimentícios. Além do mais, Sri Krishna, a Suprema
Personalidade de Deus, disse que dar vacas em caridade é igual até mesmo a dar
grãos alimentícios. Ainda melhor que
todas essas caridades é ensinar conhecimento espiritual aos ignorantes. Contudo todos méritos que se pode obter por
realizar todos esses atos de caridade são obtidos por alguém que jejua no
Varuthini Ekadashi.
Quem vive dos bens de
suas filhas sofre uma condição infernal até a inundação do universo inteiro, ó
Bharata. Portanto devemos ter cuidado
especial em não usar os bens de nossa filha. ó melhor dos reis, qualquer
chefe-de-família que pegue os bens de sua filha por cobiça, que tenta vender
sua filha ou aceita dinheiro do homem a quem deu sua filha em casamento - tal
chefe-de-família se torna um reles gato em sua próxima vida. Portanto é dito que quem quer que, como
sagrado ato de caridade, dá em casamento uma donzela decorada com vários
ornamentos, e que também dá um dote com ela, obtém mérito que não pode ser
descrito nem por Citragupta, o principal secretário de Yamaraja nos planetas
celestiais. Este mesmo mérito, contudo,
pode facilmente ser obtido por quem jejua no Varuthini Ekadashi.
As seguintes coisas
devem ser deixadas no Dashami, o dia antes do Ekadashi: comer em pratos de metal de sino; comer
qualquer tipo de urad dal, comer
lentilhas vermelhas, grão-de-bico, kondo
(2), espinafre, mel, comer em casa de outrem, comer mais que uma vez, e
sexo. No próprio Ekadashi se deve
abandonar o seguinte: jogatina,
esportes, dormir durante o dia, noz de betel e sua folha, escovar os dentes,
espalhar rumores, encontrar erros, falar com os espiritualmente caídos, ira e
mentir. No Dvadashi, o dia após
Ekadashi, se deve deixar o seguinte: comer
em pratos de metal de sino, comer urad
dal, lentilhas vermelhas, ou mel, comer
mais que uma vez, sexo, barbear-se, passar óleo no corpo, e comer na casa de
outrem."
O Senhor Sri Krishna
continuou: "Quem quer que observe
Varuthini Ekadashi desta maneira se torna livre de todas reaçöes pecaminosas e
retorna para a morada espiritual eterna.
Quem adora o Senhor Janardana neste Ekadashi ficando acordado noite
afora, também se torna livre de todos seus pecados e obtém a morada
espiritual. Portanto, ó rei, aquele que
tem medo de seus pecados e suas reaçöes concomitantes, e portanto da própria
morte, deve observar Varuthini Ekadashi jejuando mui estritamente. Finalmente, ó nobre Yudhishthira, aquele que
ouve ou lê esta glorificação do sagrado Varuthini Ekadashi, obtém o mérito
alcançado por doar mil vacas em caridade, e afinal retorna ao lar, a morada do
Senhor Vishnu."
Assim termina a narrativa das glórias de Vaisakha-krsna
Ekadasi, ou Varuthini Ekadasi, do Bhavisya-uttara Purana.
Notas:
(1) Doar grãos em caridade é muito
auspicioso. Certa vez, Yudhishthira
Maharaja perguntou ao Senhor Sri Krishna:
"ó meu Senhor, alguém pode ir para o céu sem realizar sacrifício ou
submeter-se a austeridade?" O
Senhor Krishna respondeu"
annadau jaladas caiva
aturas ca cikitsakah
trividham svargam ayati
vina yajnena bharatah
"ó filho de
Bharata, quem quer que dê grãos alimentícios, água potável, ou remédio aos
necessitados, vai para o céu sem realizar qualquer sacrifício ou submeter-se a
qualquer austeridade." (Mahabharata)
Também, Krishna
declara no Bhagavad-gita 3.14: annad
bhavanti bhutani: "Todos seres
subsistem de grãos alimentícios".
Portanto a dádiva de grãos alimentícios é dito ser a caridade
máxima. Além do mais, se o alimento é prasadam, comestíveis santificados
preparados para e oferecidos ao Senhor Krishna com devoção, então isto confere
ao recebedor liberação deste mundo material.
2. Kondo é um grão comido primariamente
pelas pessoas pobres. Parece semente de
papoula.
12 MOHINI EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Janardana, qual é o nome
do Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara do mês de Vaisakha
(abr/mai)? Qual é o processo para
observá-lo corretamente? Tenha a bondade de narrar tudo isso para mim."
O Senhor Sri Krishna
respondeu: "ó abençoado filho de
Dharma, o que Vasishtha Muni certa vez falou para o Senhor Ramachandra agora
irei descrever para ti. Por favor ouça-Me
atentamente.
O Senhor Ramachandra
perguntou a Vasishtha Muni: "ó
grande sábio, gostaria de ouvir sobre o melhor de todos dias de jejum - aquele
dia que destrói todos tipos de pecado e sofrimento. Sofri tempo bastante em separação de Minha
querida Sita, e assim desejo ouvir de ti sobre como Meu sofrimento pode ser
terminado."
O sábio Vasishtha
respondeu: "ó Senhor Rama, cuja
inteligência é tão aguda, simplesmente por lembrar de Teu nome se pode
atravessar o oceano deste mundo material.
Perguntaste-me a fim de beneficiar toda humanidade e realizar os desejos
de todos. Agora descreverei aquele dia
de jejum que purifica o mundo inteiro.
ó Rama, aquele dia é
Vaisakha-sukla Ekadashi, que cai no Dvadashi.
Ele remove todos pecados e é famoso como Mohini Ekadashi. (3) Em verdade, ó Rama, o mérito deste Ekadashi
liberta da rede da ilusão a alma afortunada que o observa. Portanto, se quiseres aliviar Teu sofrimento,
observa este auspicioso Ekadashi perfeitamente, pois ele remove todos
obstáculos do nosso caminho e alivia as maiores misérias. Tenha a bondade de ouvir enquanto descrevo
suas glórias, porque até para quem apenas ouve sobre este auspicioso Ekadashi
os maiores pecados são nulificados.
Nas margens do Rio
Sarasvati uma vez havia uma linda cidade chamada Bhadravati, que era governada
pelo Rei Dyutiman. ó Rama, aquele rei
constante, veraz, e altamente inteligente nascera na dinastia da lua. Em seu reino havia um mercador chamado
Dhanapala, que possuia grande riqueza em grãos alimentícios e dinheiro. Era também muito piedoso. Dhanapala providenciou para que fossem
escavados lagos, construidas arenas sacrificiais, e belos jardins cultivados
para o benefício de todos cidadãos de Bhadravati. Era um excelente devoto de Vishnu e tinha
cinco filhos: Sumana, Dyutiman, Medhavi,
Sukrti, e Dhrshtabuddhi.
Infelizmente, seu
filho Dhrshtabuddhi sempre se ocupava em atividades muito pecaminosas, tais
como dormir com prostitutas e se associar com pessoas degradadas. Desfrutava de sexo ilícito, jogatina, e
muitas outras variedades de gratificação sensorial. Desrespeitava os semideuses, brahmanas, antepassados e outros
anciãos, e os hóspedes da família. O
malévolo Dhrshtabuddhi gastou a fortuna do pai indiscriminadamente, sempre
banqueteando-se com alimentos intocáveis e bebendo vinho em excesso.
Certo dia Dhanapala
chutou Dhrshtabhuddhi para fora de casa depois de vê-lo andando pela rua de
braço dado com uma prostituta. Desde
então todos parentes de Dhrshtabuddhi eram altamente criticos sobre ele e
mantinham distância dele. Depois que
havia vendido seus ornamentos e se viu em necessidade, as prostitutas também o
abandonaram e insultaram devido a sua pobreza.
Dhrshtabuddhi estava
agora cheio de ansiedade, e também com fome.
Pensou: "Que devo
fazer? Para onde devo ir? Como poderei me manter?" Então ele começou a roubar. Os guardas do rei prenderam-no, porém quando
souberam que seu pai era o famoso Dhanapala, soltaram-no. Foi pego e solto muitas vezes. Mas afinal o mal-orientado Dhrshtabuddhi foi
preso, algemado e depois surrado. Após
açoitá-lo, os guardas do rei admoestaram-no:
"ó ser malvado! Não há lugar
para ti aqui."
Contudo, Dhrshtabuddhi
foi libertado de suas tribulaçöes por seu pai e imediatamente depois, entrou na
densa floresta. Perambulou aqui e ali,
esfomeado e sedento, sofrendo muito.
Eventualmente ele começou a matar leöes, veados, javalis, e lobos para
alimento. Sempre pronto em sua mão
estava seu arco, e sempre em seu ombro havia uma aljava cheia de pontiagudas
flechas. Também matava aves, tais como cakoras, pavöes, kankas, pombos e tordos. Sem
hesitar massacrava muitas espécies de aves e animais, e assim seus pecados
cresciam dia a dia. Devido a seus
pecados anteriores, agora estava imerso num grande oceano de pecado.
Dhrshtabuddhi estava
sempre infeliz e ansioso, mas certo dia, durante o mês de Vaisakha, pela força
de um pouco de seu mérito passado, acabou encontrando o sagrado ashrama de Kaundinya Muni. O grande sábio acabava de se banhar no Rio
Ganges, e pingava de água. Dhrshtabuddhi
teve a boa fortuna de tocar algumas destas gotas que caíam das roupas do
sábio. Instantaneamente Dhrshtabuddhi se
viu livre da ignorância, e suas reaçöes pecaminosas foram reduzidas. Oferecendo suas humildes reverências a
Kaundinya Muni, Dhrshtabuddhi orou a ele de mãos postas: "ó grande brahmana, por favor descreva algum tipo de expiação que posso
realizar sem muito esforço demais.
Cometi tantos pecados em minha vida, e agora eles me tornaram
pobre."
O grande rishi respondeu: "ó filho, ouça com grande atenção, pois
por me ouvir irás ficar livre de todos teu pecados restantes. Na quinzena clara deste mês, Vaisakha, ocorre
o sagrado Mohini Ekadashi, que tem poder de nulificar pecados vastos e pesados
como o Monte Sumeru. Se seguires meu
conselho e fielmente observares jejum neste Ekadashi, que é tão querido pelo
Senhor Hari, será liberto de todas reaçöes pecaminosas de muitas, muitas
vidas."
Ouvindo estas palavras
com grande alegria, Dhrshtabuddhi prometeu observar um jejum no Mohini Ekadashi
de acordo com as instruçöes do sábio. ó
melhor dos reis, ó Rama, por jejuar completamente no Mohini Ekadashi, o antes
pecaminoso Dhrshtabuddhi, filho pródigo do mercador Dhanapala, ficou sem
pecado. Depois ele conseguiu uma bela
forma transcendental e, livre de todos obstáculos, cavalgou Garuda, a montaria
de Vishnu, para a morada suprema do Senhor.
ó Rama, o dia de jejum
de Mohini Ekadashi remove os mais obscuros apegos ilusórios à existência
material. Portanto não há melhor dia de
jejum em todos três mundos."
O Senhor Krishna
concluiu: "E assim, ó Yudhishthira,
não há local de peregrinação, nem sacrifício, nem caridade que possa conceder
mérito igual a mesmo uma décima sexta parte do mérito que um devoto fiel a Mim
obtém por observar Mohini Ekadashi. E
aquele que ouve e estuda as glórias do Mohini Ekadashi, obtém o mérito de dar
mil vacas em caridade."
Assim termina a narrativa das glórias de Vaisakha-sukla
Ekadasi, ou Mohini Ekadasi, do Kurma Purana.
Notas:
(1) Se o sagrado jejum
cair no Dvadashi, ainda assim é chamado de Ekadashi nas literaturas
védicas. Além do mais, no Garuda Purana 1.125.6 o Senhor Brahma
declara para Narada Muni: "ó brahmana, este jejum deve ser observado
quando há um Ekadashi pleno, uma mistura de Ekadashi e Dvadashi, ou mistura de
três (Ekadashi, Dvadashi e Trayodashi), mas nunca no dia quando houver mistura
de Dashami e Ekadashi."
13 APARA
EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Janardana, qual é o nome
do Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do mês de Jyeshtha (mai/jun)? Desejo ouvir as glórias deste dia
sagrado. Por favor narra-me tudo."
O Senhor Sri Krishna
disse: "ó rei, tua indagação é
maravilhosa porque a resposta irá beneficiar toda sociedade humana. Este Ekadashi é tão sublime e meritório que
até mesmo os maiores pecados podem ser apagados por sua potência. ó grande rei, o nome deste ilimitadamente
meritório Ekadashi é Apara Ekadashi.
Quem quer que jejue neste dia sagrado se torna famoso em todo
universo. Mesmo tais pecados como matar
um brahmana, uma vaca, ou um embrião;
blasfêmia; ou ter sexo com a esposa de outro homem são completamente
erradicados por observar Apara Ekadashi.
ó rei, pessoas que dão
falso testemunho são muito pecaminosas.
Uma pessoa que glorifica falsa ou sarcasticamente outra; quem engana
enquanto pesa algo numa balança; quem deixa de executar os deveres de seu varna ou ashrama (um homem desqualificado que posa como brahmana, por exemplo, ou uma pessoa que recita os Vedas erroneamente); quem inventa suas
próprias escrituras; quem engana os outros; quem é astrólogo charlatão,
contador trapaceiro, ou falso médico ayurvédico
- todos estes certamente são tão maus quanto uma pessoa que dá falso
testemunho, e estão destinados ao inferno.
Mas simplesmente por obervar Apara Ekadashi, todos estes pecadores se
tornam completamente livres de suas reaçöes pecaminosas.
Guerreiros que caem de
seu kshatriya-dharma e fogem do campo
de batalha vão para um inferno bárbaro.
Porém, ó Yudhishthira, mesmo tal kshatriya
caído, se observar jejum no Apara Ekadashi, se liberta desse grande pecado e
vai para o céu.
É o maior pecado o
discípulo que, após receber uma devida educação espiritual de seu mestre
espiritual, vira-se e o blasfema. Esse
assim-chamado discípulo sofre ilimitadamente.
Mas até ele, se simplesmente observar Apara Ekadashi, pode alcançar o
mundo espiritual. Ouça, ó rei, enquanto
descrevo mais as glórias deste Ekadashi.
O mérito obtido por
quem realiza todos seguintes atos de piedade é igual ao mérito obtido por quem
observa Apara Ekadashi: tomar banho três
vezes ao dia em Pushkara-kshetra (1) durante Kartika (out/nov); tomar banho em
Prayag no mês de Magha (jan/fev) quando o sol está no zodíaco; prestar serviço
ao Senhor Shiva em Varanasi durante Shiva-ratri; oferecer oblaçöes aos
antepassados da pessoa em Gaya; tomar banho no sagrado Rio Gautami quando
Júpiter transita em Leão; obter darshana
do Senhor Shiva em Kedaranatha; ver o Senhor Badrinatha quando o sol transita
no signo de Aquário; e tomar banho na época do eclipse solar em Kurukshetra e
dar vacas, elefantes, e ouro em caridade ali.
Todo mérito que se recebe por realizar estes atos piedosos é obtido por
uma pessoa que observa este jejum de Apara Ekadashi. Também, o mérito obtido por quem doa uma vaca
prenha, junto com ouro e terra fértil, é obtido por quem jejua neste dia.
Em outras palavras,
Apara Ekadashi é um machado que corta a árvore plenamente madura dos atos
pecaminosos; é um incêndio florestal que queima pecados como se fossem lenha; é
o sol que arde diante de nossos obscuros maus atos, e é o leão espreitando a
mansa corça da impiedade. Portanto, ó
Yudhishthira, quem quer que verdadeiramente tenha medo de seus pecados do
passado e presente deve observar Apara Ekadashi mui estritamente. Quem não observa este jejum deve nascer
novamente no mundo material, assim como uma bolha entre milhöes numa enorme
expansão d'água, ou como uma pequena formiga entre todas outras espécies. (2)
Portanto devemos
observar fielmente o sagrado Apara
Ekadashi e adorar a Suprema Personalidade de Deus, Sri Trivikrama. Quem faz isto é libertado de todos seus
pecados e promovido à morada do Senhor Vishnu.
ó Bharata, para
benefício de toda humanidade, descrevi assim para ti a importância do sagrado
Apara Ekadashi. Qualquer um que ouça ou leia
esta descrição certamente se livra de todos tipos de pecados, ó rei."
Assim termina a narrativa das glórias de Jyeshtha-krsna
Ekadasi, ou Apara Ekadasi, do Brahmanda Purana.
Notas:
(1) Pushkara-kshetra,
na India ocidental, é realmente o único local na terra onde se encontra um
templo fidedigno do Senhor Brahma.
(2) Os Vedas declaram narah budhuda samah: "A
forma humana de vida é tal como uma bolha na água." Na água, muitas bolhas se formam e então
repentinamente estouram alguns segundos depois.
Assim se uma pessoa não utiliza seu raro corpo humano para servir a
Suprema Personalidade de Deus, Sri Krishna, sua vida não tem mais valor ou
permanência que uma bolha na água.
Portanto, como o Senhor recomenda aqui, devemos serví-Lo por jejuar no
Hari-vasara ou Ekadashi.
Neste sentido, Srila
Prabhupada escreve no Srimad-Bhagavatam
2.1.4, significado: "O grande
oceano da natureza material está se agitando com as ondas do tempo, e as
assim-chamadas condiçöes de vida são algo como as bolhas espumantes, que
aparecem diante de nós como o eu corpóreo, esposa, filhos, sociedade,
conterrâneos, etc. Devido a uma falta de
conhecimento do eu, nos tornamos vitimados pela força da ignorância e assim
estragamos a valiosa energia da vida humana numa busca vã atrás de condiçöes de
vida permanentes, que é impossível neste mundo material."
14 NIRJALA EKADASHI
Certa vez Bhimasena,
irmão mais novo de Maharaja Yudhishthira, perguntou ao grande sábio Srila
Vyasadeva, avô dos Pandavas, se é possível retornar ao mundo espiritual sem ter
observado as regras e regulaçöes dos jejuns de Ekadashi.
Bhimasena disse: "ó mui inteligente avô, meu irmão
Yudhishthira, minha querida mãe Kunti, e minha amada esposa Draupadi, bem como
Arjuna, Nakula e Sahadeva, jejuam completamente no Ekadashi e seguem
estritamente todas regras e regulaçöes desse dia sagrado. Sendo muito religiosos, sempre me dizem que
também devo jejuar nesse dia. Mas, ó
avô, eu lhes digo que não consigo viver sem comer, porque a fome é intolerável
para mim. Dou bastante caridade e adoro
completamente Sri Keshava, mas não consigo jejuar no Ekadashi. Por favor diga-me como posso obter o mesmo
resultado sem jejuar."
Ouvindo estas
palavras, Srila Vyasadeva respondeu:
"Se desejas ir para os planetas celestiais e evitar os planetas
infernais, deves de fato observar um jejum tanto no Ekadashi iluminado como no
obscuro."
Bhima disse: "ó avô muito inteligente, por favor ouça
minha súplica. ó maior dos munis, como
não consigo viver se apenas comer uma vez por dia, como conseguirei viver se
jejuar completamente? Dentro de meu
estômago arde um fogo especial chamado vrka,
o fogo da digestão. (1) Só quando como
até ficar completamente satisfeito é que esse fogo em meu estômago também fica
satisfeito. ó grande sábio, talvez
conseguisse jejuar apenas uma vez, portanto imploro-te que me digas qual
Ekadashi inclui todos outros Ekadashis.
Observarei fielmente esse jejum e espero que assim me torne qualificado
para liberação."
Srila Vyasadeva
respondeu: "ó rei, ouviste de mim
sobre vários tipos de deveres ocupacionais, tais como cerimônias védicas
elaboradas. Na Kali-yuga, entretanto,
ninguém irá conseguir observar todos esses deveres ocupacionais corretamente. Por isso contarei agora, como sem quase nenhuma
despesa, se pode aguentar uma pequena austeridade e conseguir o maior benefício
e resultante felicidade. A essência do
que está escrito nas literaturas védicas conhecidas como os Puranas é que não se deve comer nem no
Ekadashi da quinzena iluminada e nem no da obscura. (2) Quem jejua no Ekadashi é salvo de ir para
planetas infernais."
Ouvindo as palavras de
Vyasadeva, Bhimasena, o mais forte de todos guerreiros, ficou com medo e
começou a tremer como uma folha numa árvore banyan com vento forte. O assustado Bhimasena disse: "ó avô, que devo fazer? Sou completamente incapaz de jejuar duas
vezes por mês o ano todo! Por favor
conte-me sobre algum dia de jejum que possa conceder-me o maior
benefício!"
Vyasadeva
respondeu: "Sem beber nem mesmo
água, deves jejuar no Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara do mês de
Jyeshtha (mai/jun), quando o sol transita pelo signo de Gêmeos e Touro. Segundo as personalidades sábias, nesse dia
se pode tomar banho e realizar acamana
para purificação. Mas enquanto se
realiza acamana se pode tomar apenas
aquela quantidade de água igual a uma gota de ouro, ou a quantidade que pode
submergir apenas uma semente de mostarda.
Só essa quantidade de água deve ser colocada na palma em forma de orelha
de vaca. Se bebermos mais água que isso,
seria como se tivessemos bebido vinho.
Certamente não se deve
comer nada, pois assim fazendo quebra-se o jejum. Este jejum rígido com efeito vai do nascer do
sol no Ekadashi até o nascer do sol de Dvadashi. Se uma pessoa tenta observar esse grande
jejum mui estritamente, facilmente consegue os resultados de observar todos
vinte e quatro jejuns de Ekadashi pelo ano todo.
No Dvadashi o devoto
deve tomar banho cedo de manhã. Então,
conforme as regras e regulaçöes prescritas, e dependendo de sua capacidade,
deve dar algum ouro e água a um brahmana
digno. Finalmente, deve honrar prasadam alegremente com um brahmana.
ó Bhimasena, aquele
que consegue jejuar neste Ekadashi especial desta maneira, colhe o benefício de
ter jejuado em todos Ekadashis durante o ano.
Não há dúvida quanto a isso. ó
Bhima, agora ouça o mérito específico que se consegue por jejuar neste
Ekadashi. O Supremo Senhor Keshava, que
segura uma concha, disco, maça, e lótus, contou pessoalmente para mim: "Todos devem refugiar-se em Mim e seguir
Minhas instruçöes." Então Ele me
contou que quem jejua neste Ekadashi sem beber água ou comer, se torna livre de
todas reaçöes pecaminosas, e quem observa esse difícil jejum nirjala no Jyeshtha-sukla Ekadashi
verdadeiramente colhe o benefício de todos outros jejuns de Ekadashi.
ó Bhimasena, na
Kali-yuga, a era da discórdia e hipocrisia, quando todos princípios dos Vedas terão sido destruídos ou
grandemente minimizados, e em que não haverá a devida caridade ou observância
dos antigos princípios védicos e cerimônias, como haverá algum meio de
purificar o eu? Mas existe a
oportunidade de jejuar no Ekadashi e ficar livre de todos pecados passados.
ó filho de Vayu, que
mais posso dizer-te? Não deves comer durante
os Ekadashis iluminado e obscuro, e deves até mesmo deixar de tomar água no dia
particularmente auspicioso de Jyeshtha-sukla Ekadashi. ó Vrkodara, quem quer que jejue neste
Ekadashi recebe os méritos de tomar banho em todos lugares de peregrinação, dar
todo tipo de caridade, e jejuar em todos Ekadashis claros e escuros. Quanto a isso não há dúvida. ó tigre entre os homens, quem quer que jejue
neste Ekadashi verdadeiramente se torna uma grande pessoa e obtém toda fortuna,
lucros, força, e sáude. E no
atemorizante momento da morte, os terríveis Yamadutas, cuja tez é amarela e
negra, e que brandem grandes maças e giram no ar místicas cordas pasha, recusar-se-ão a se
aproximar. Em vez disso, tal alma fiel
será imediatamente levada para a morada suprema do Senhor Vishnu pelos
Vishnudutas, cujas formas trascendentalmente belas vestem maravilhosas roupas
amareladas e que seguram um disco, maça, concha e lótus em suas quatro
mãos. É para obter todos esses benefícios
que se deve certamente jejuar neste mui importante Ekadashi, até mesmo de
água."
Quando os outros
Pandavas ouviram sobre os benefícios a serem obtidos por seguir Jyeshtha-sukla
Ekadashi, resolveram observá-lo exatamente como Srila Vyasadeva o havia
explicado a seu irmão Bhimasena. Todos
Pandavas observaram-no evitando comer ou beber qualquer coisa, e assim até o
dia de hoje é conhecido como Pandava-nirjala Ekadashi. (3)
Srila Vyasadeva
continuou: "ó Bhima, portanto deves
observar este importante jejum para remmover todas tuas reaçöes pecaminosas
passadas. Deves orar à Suprema
Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna, desta maneira: "ó Senhor de todos semideuses, ó Suprema
Personalidade de Deus, hoje vou observar Ekadashi sem tomar qualquer água. ó ilimitado caridade
durante este Ekadashi, se por alguma razão ou outra não puder, então deverá dar
a algum brahmana qualificado um
tecido ou um pote cheio d'água. De fato,
o mérito obtido por dar só água iguala aquele obtido por dar ouro dez milhöes
de vezes por dia.
ó Bhima, o Senhor
Krishna disse que quem quer que observe este Ekadashi deve tomar um banho
sagrado, dar caridade a uma pessoa digna, cantar os santos nomes do Senhor num japa-mala, e realizar algum tipo de
sacrifício recomendado, pois por fazer estas coisas neste dia se recebe benefícios
imperecíveis. Não há necessidade de
realizar qualquer outro tipo de dever religioso. Observância só deste jejum de Ekadashi promove a pessoa à suprema morada de
Sri Vishnu. ó melhor dos Kurus, se
doarmos ouro, tecido ou qualquer outra coisa neste dia, o mérito que se obtém é
imperecível.
Lembra-te, quem quer
que coma grãos no Ekadashi se torna contaminado pelo pecado e na verdade come
apenas pecado. Com efeito, já se tornou
um comedor de cachorros, e após a morte irá sofrer uma existência infernal. Mas aquele que observa este sagrado
Jyeshtha-sukla Ekadashi e dá algo em caridade certamente obtém a liberação do
ciclo de repetidos nascimentos e morte e alcança a morada suprema. Observar este Ekadashi, que vem junto com
Dvadashi, liberta a pessoa do horrível pecado de matar um brahmana, beber bebida alcoólica e vinho, ter inveja do próprio
mestre espiritual, e ignorar suas instruçöes, e continuamente contar mentiras.
Além do mais, ó melhor
dos seres, qualquer homem ou mulher que observa este jejum devidamente e adora
o Senhor Supremo Jalashayi (Aquele que dorme sobre a água), e que no dia
seguinte satisfaz um brahmana
qualificado com doces agradáveis e uma doação de vacas e dinheiro - tal pessoa
certamente agrada ao Supremo Senhor Vasudeva, tanto que cem geraçöes anteriores
em sua família indubitavelmente vão para a morada do Senhor Supremo, muito
embora possam ter sido muito pecaminosos, ou de mau caráter, e culpados de
suicídio. De fato, quem observa este
Ekadashi andará num glorioso aeroplano celestial (vimana) até aquela morada.
Quem nesse dia dá a um
brahmana um pote d'água, uma
sombrinha, ou calçados certamente vai para o céu. De fato, aquele que simplesmente ouve estas
glórias também alcança a morada transcendental do Senhor Supremo, Sri
Vishnu. Quem quer que realize a
cerimônia shraddha para os
antepassados no dia da lua obscura chamado amavasya,
particularmente se ocorre na época do eclipse solar, indubitavelmente obtém
grande mérito. Mas este mesmo mérito é
obtido por quem simplesmente ouve esta sagrada narrativa - tão poderoso e tão
querido pelo Senhor é este Ekadashi.
Deve-se limpar os
dentes devidamente e, sem comer ou beber, observar este Ekadashi para agradar o
Supremo Senhor Keshava. No dia depois de
Ekadashi se deve adorar a Suprema Personalidade de Deus em Sua forma como
Trivikrama oferecendo a Ele água, flores, incenso, e uma luminosa lamparina
acesa. Então o devoto deve orar de
coração: "ó Senhor dos senhores, ó
salvador de todos, ó Hrsikesha, senhor dos sentidos, tenha a bondade de
conceder-me a dádiva da liberação, embora não te possa oferecer nada mais que
este humilde pote cheio d'água."
Então o devoto deve doar o pote d'água a um brahmana.
ó Bhimasena, após
observar este jejum de Ekadashi e doar os artigos recomendados conforme sua
capacidade, o devoto deve alimentar brahmanas
e depois disso honrar prasadam
silenciosamente.
Srila Vyasadeva
concluiu: "Recomendo grandemente
que jejues neste auspicioso, purificante Dvadashi devorador de pecados, da maneira
como descrevi. Assim ficarás
completamente livre de todos pecados e alcançarás a morada suprema."
Assim termina a narrativa das glórias de Jyeshtha-sukla
Ekadasi, ou Bhimaseni-nirjala Ekadasi, do Brahma-vaivarta Purana.
(1) Agni, o deus do
fogo, descende do Senhor Vishnu através de Brahma, de Brahma a Angirasa, de
Angirasa a Brhaspati, e de Brhaspati a Samyu, que era pai de Agni. Ele é o porteiro encarregado de Nairrtti, a
direção sudeste. Ele é um dos oito
elementos materiais, e tal como Parikshit Maharaja, é muito perito em examinar
coisas. Examinou Maharaja Sibi uma vez
virando um pombo. (Para mais informação
vide Srimad-bhagavatam de Srila
Prabhupada 1.12.20 significado).
Agni se divide em três
categorias: Davagni, o fogo na madeira;
Jatharagni, o fogo da digestão no estômago; e Vadavagni, o fogo que cria
neblina quando correntes quentes e frias se misturam no oceano. Outro nome para o fogo da digestão é
Vrka. Era este poderoso fogo que residia
no estômago de Bhimasena.
2. Conforme declarado
no Srimad-bhagavatam 12.13.12 e 15, o
próprio Bhagavatam é a essência de
toda filosofia Vedanta (sara-vedanta-saram),
e a mensagem inequívoca do Bhagavatam
é plena rendição ao Senhor Krishna e a prestação de serviço devocional amoroso
a Ele. Observar Ekadashi estritamente é
um grande auxílio neste processo e aqui Srila Vyasadeva está simplesmente
sublinhando para Bhima a importância do Ekadashi.
3. Embora
astrologicamente o jejum caia no Dvadashi, na civilização védica ainda é
conhecido como Ekadashi.
15 YOGINI EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Senhor Supremo, ouvi as
glórias do Nirjala Ekadashi, que ocorre durante a quinzena clara do mês de
Jyeshtha. Agora desejo ouvir sobre o Ekadashi
que ocorre durante a parte obscura do mês de Ashadha (jun/jul). Tenha a bondade de descrevê-lo para mim em
detalhe, ó matador do demônio Madhu."
O Senhor Supremo, Sri
Krishna, respondeu: "ó rei, vou
contar sobre o melhor dos dias de jejum, o Ekadashi que vem durante a parte
obscura do mês de Ashadha. Famoso como
Yogini Ekadashi, remove todos tipos de reaçöes pecaminosas e concede a
liberação suprema.
ó melhor dos reis,
este Ekadashi salva pessoas que estão se afogando no vasto oceano da existência
material e as transporta para a margem do mundo espiritual. Em todos três mundos, é o principal entre os
sagrados dias de jejum. Vou revelar esta
verdade a ti narrando a história recontada nos Puranas.
O rei de Alakapuri -
Kuvera, o tesoureiro dos semideuses - era um devoto firme do Senhor Shiva. Empregava um servo chamado Hemamali como seu
jardineiro pessoal. Hemamali, um Yaksha,
tinha muita atração luxuriosa por sua deslumbrante esposa, Svarupa-vati, que
tinha grandes olhos encantadores.
O dever diário de
Hemamali era visitar o Lago Manasarovara e trazer de volta flores para seu
patrão Kuvera, que então eram usadas para adorar o Senhor Shiva. Certo dia, após colher as flores, Hemamali
foi ter com sua esposa em vez de retornar diretamente ao seu patrão e cumprir
com seu dever. Absorto em assuntos
amorosos com sua esposa, esqueceu que tinha que retornar à morada de Kuvera.
ó rei, enquanto
Hemamali estava desfrutando com sua esposa, Kuvera começou a adorar o Senhor
Shiva em seu palácio e em breve descobriu que não havia flores prontas para o puja do meio-dia. A falta de um artigo tão importante irou o
grande semideus, e ele perguntou a um mensageiro Yaksha: "Porque aquele Hemamali de coração
imundo não veio com a oferenda diária de flores? Vai descobrir a razão exata e na volta reporte-se
a mim pessoalmente." O Yaksha
retornou e contou para Kuvera: "ó
caro senhor, Hemamali está desfrutando livremente de sexo com sua esposa."
Kuvera ficou
extremamente irado quando ouviu isso e imediatamente intimou o baixo Hemamali a
vir diante dele. Sabendo que fossa
remisso e que fizera hora sem cumprir com o dever, Hemamali se aproximou do
patrão em grande temor. O jardineiro
primeiro prestou suas reverências e depois ficou de pé perante seu senhor,
cujos olhos haviam se tornado vermelhos de raiva e cujos lábios tremiam. Irado, Kuvera gritou para Hemamali: "ó patife pecaminoso! ó destruidor dos princípios religiosos! És uma ofensa aos semideuses! Por isso te amaldiçôo a sofrer de lepra
branca e separar-te de tua amada esposa!
Só grande sofrimento é o que mereces!
ó tolo de nascimento baixo, deixa este local imediatamente e vai-te para
os planetas inferiores!"
E assim Hemamali
imediatamente caiu de Alakapuri e se tornou doente com a terrível aflição da
lepra branca. Acordou numa densa e
assustadora floresta, onde não havia
nada para comer ou beber. Assim passava
seus dias na miséria, incapaz de dormir à noite devido à dor. Sofria tanto no verão quanto no inverno, mas
porque continuava a adorar o Senhor Shiva fielmente, sua consciência permanecia
pura e constante. Embora implicado em
grande pecado e suas reaçöes concomitantes, lembrava de sua vida passada devido
a sua piedade.
Após vagar durante
algum tempo aqui e ali, por montanhas e planícies, Hemamali eventualmente
chegou à vasta cadeia do Himalaia. Ali
teve a boa fortuna de encontrar com o grande santo Markandeya Rishi, o melhor
dos ascetas, cuja duração de vida, dizem, se estende a sete dias de Brahma.
(1) Markandeya estava sentado
pacificamente em seu ashrama,
parecendo tão refulgente quanto um segundo Brahma. Hemamali, sentindo-se muito pecaminoso, ficou
a certa distância do magnífico sábio e ofereceu suas humildes reverências e
oraçöes. Sempre interessado no bem-estar
dos outros, Markandeya viu o leproso e clamou:
"ó tu, que espécie de atos pecaminosos realizaste para merecer esta
horrível aflição?"
Ouvindo isso, Hemamali
respondeu: "Caro senhor, sou um
servo Yaksha do Senhor Kuvera, e meu nome é Hemamali. Era meu serviço diário pegar flores do Lago
Manasarovara para a adoração de meu patrão ao Senhor Shiva, mas certo dia
atrasei na hora de voltar com a oferenda porque fui tomado de paixão por minha
bela esposa. Quando meu patrão descobriu
que estava atrasado, amaldiçôou-me com muita ira. Assim agora estou sem casa, esposa, e
serviço. Mas afortunadamente encontrei
com o senhor, e agora espero receber sua auspiciosa benção, pois sei que
devotos do Senhor Supremo sempre trazem o interesse dos outros bem no alto de
seus coraçöes. Essa é sua grande
natureza. ó melhor dos sábios, por favor
ajude-me!" (2)
Markandeya Rishi
respondeu: "Porque me contaste a
verdade, vou contar-te sobre um dia de jejum que irá beneficiar-te
grandemente. Se jejuares no Ekadashi que
vem durante a quinzena obscura do mês de Ashadha, irás certamente ficar livre
desta terrível maldição." Ao ouvir
estas abençoadas palavras do conhecido sábio, Hemamali caiu ao solo em completa
gratidão e ofereceu suas humildes reverências.
Mas Markandeya ficou de pé e levantou Hemamali, enchendo-o de
inexprimível felicidade.
Assim, como o sábio o
instruíra, Hemamali fielmente observou o jejum de Ekadashi, e por sua
influência novamente se tornou um belo Yaksha.
Então retornou para casa, onde viveu feliz com sua esposa."
O Senhor Krishna
concluiu: "Assim, como podes
prontamente ver, ó Yudhishthira, esse jejum no Yogini Ekadashi é muito poderoso
e auspicioso. Qualquer mérito que se
obtenha por alimentar quarenta e oito mil piedosos brahmanas também é obtido por simplesmente observar um jejum
estrito no Yogini Ekadashi. Para quem
jejua neste sagrado Ekadashi, montes de reaçöes pecaminosas passadas são
destruídas e ele faz com que a pessoa se torne piedosa. ó rei, assim explique-te a pureza do Yogini
Ekadashi."
Assim termina a narrativa das glórias de Ashadha-krsna
Ekadasi, ou Yogini Ekadasi, do Brahma-vaivarta Purana.
Notas:
(1) Um dia de Brahma (doze horas) é dito durar
mil ciclos das quatro yugas - Satya,
Treta, Dvapara, e Kali. Como estas
quatro eras duram 4.320.000 anos, um dia de 24 horas completas de Brahma é de
aproximadamente 60.480.000.000 anos.
Este é o espantoso tempo de vida de Markandeya, o mais longo da terra.
(2) A literatura
védica declara:
pibanti nadya svayam eva na jalam
svayam na khadhanti phalani vrksha
nadanti sashyam khalu parivaha
paropakaraya satam vibhutayah
"Assim como os
rios não bebem sua própria água mas fluem para benefício dos outros, assim como
as árvores frutíferas não comem seu próprio fruto mas produzem-no para os
outros, e assim como as nuvens não bebem sua própria chuva mas chovem para os
outros, também os santos vivem simplesmente para os outros."
Chanakya Pandita diz:
sadhunam darshanam punyam
tirtha-bhutar
hi sadhavah
kalena phalate tirtha
sadyah sadhu-samagamah
"Meramente ver um
devoto puro de Krishna é mais purificante que visitar um local de peregrinação
sagrado, pois enquanto um lugar santo pode purificar depois de longo tempo, a
vista de um devoto puro purifica imediatamente."
(3) Porque Hemamali
desejou retornar aos planetas celestiais e sua esposa, sua observância do
Ekadashi resultou na obtenção de sua meta material. Mas um devoto de Krishna observa Ekadashi
apenas com o desejo de aumentar sua devoção pelo Senhor e assim ele obtém um
resultado espiritual.
16 PADMA EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Keshava, qual o nome do
Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara do mês de Ashadha (jun/jul)? Qual é a Deidade adorável para esse dia
auspicioso, e qual o processo de observá-lo?"
O Senhor Sri Krishna
respondeu: "ó zelador deste planeta
terreno, de bom grado contar-te-ei uma maravilhosa história que o Senhor Brahma
certa vez narrou a seu filho Naradaji.
Certo dia Narada
perguntou a seu pai: "Qual o nome
do Ekadashi que vem durante a parte clara do mês de Ashadha? Por gentileza conta-me como posso observar
este Ekadashi e assim agradar o Senhor Supremo, Vishnu."
O Senhor Brahma
respondeu: "ó grande orador, ó
melhor de todos sábios, ó mais puro devoto do Senhor Vishnu, tua pergunta é
excelente. Não há nada melhor que
Ekadashi, o dia do Senhor Hari, neste ou em qualquer outro mundo. Ele nulifica até mesmo os piores pecados se
observado corretamente. Por esta razão
vou contar-te sobre Ashadha-sukla Ekadashi.
Jejuar neste Ekadashi
nos purifica de todos pecados e realiza todos nossos desejos. Portanto, quem quer que deixe de obserar este
sagrado dia de jejum é um bom candidato a entrar no inferno. Ashadha-sukla Ekadashi também é famoso como
Padma Ekadashi. Só para agradar a
Hrshikesha, o senhor dos sentidos, deve-se jejuar neste dia. Ouça cuidadosamente, ó Narada, enquanto
relato para ti uma história maravilhosa das escrituras sobre este
Ekadashi. Apenas por ouvir este relato
já se destroem todos tipos de pecados, junto com todos obstáculos na senda da
perfeição espiritual.
ó filho, certa vez
havia um rei santo na dinastia solar cujo nome era Mandhata. Porque sempre defendia a verdade, foi nomeado
imperador. Cuidava de seus súditos como
se fossem seus próprios filhos. Devido a
sua piedade e grande religiosidade, não havia pestilência, seca, ou doença de
qualquer tipo em seu reino. Todos seus súditos não só estavam livres de todos
tipos de perturbaçöes mas também eram muito ricos. O tesouro do próprio rei estava livre de
dinheiro ganho por meios não-recomendados, e assim ele governou felizmente por
muitos anos.
Certa vez entretanto,
devido a algum pecado em seu reino, houve seca durante três anos. Os súditos
viram-se atormentados pela fome. A falta
de grãos alimentícios tornava impossível para eles realizarem os sacrifícios
védicos, oferecer oblaçöes a seus antepassados e semideuses, realizarem
adoração ritualística, ou até mesmo estudar as literaturas védicas. Finalmente, todos vieram diante do amado rei
numa grande assebléia e disseram:
"ó rei, sempre tratas de nosso bem-estar, portanto humildemente
imploramos vossa assistência agora. Todo
mundo e tudo neste mundo precisa de água.
Sem água, quase tudo se torna inútil ou morto. Os Vedas
chamam a água de nara, e porque a
Suprema Personalidade de Deus dorme sobre a água, Seu nome é Narayana. Deus faz Sua própria morada na água e ali faz
Seu descanso. (1) Na Sua forma como as
nuvens, o Senhor Supremo está presente pelo céu afora e derrama a chuva, da
qual crescem os grãos que mantém toda entidade viva.
ó rei, a severa seca
causou uma falta de valiosos grãos; assim estamos sofrendo, e a população está diminuindo. ó melhor governante da terra, por favor
encontre alguma solução para este problema e traga-nos uma vez mais a paz e
prosperidade."
O rei respondeu: "Falais a verdade, pois os grãos são
como Brahman, a Verdade Absoluta, que vive dentro dos grãos e assim sustenta
todos seres. De fato, é por causa dos
grãos que o mundo inteiro vive. Agora,
porque está havendo uma terrível seca no nosso reino? As escrituras sagradas discutem este assunto
mui profundamente. Se um rei é
irreligioso, tanto ele como seus súditos sofrem. Meditei na causa de nosso problema durante
muito tempo, mas após examinar meu caráter passado e atual, honestamente posso
dizer que não encontro pecado. Ainda
assim, para o bem de todos vós súditos, tentarei remediar a situação."
Pensando assim, o Rei
Mandhata reuniu seu exército e séquito, prestou suas reverências a Mim, e
depois entrou na floresta. Vagou por
aqui e por ali, buscando grandes sábios em seus ashramas e indagando sobre como resolver a crise em seu reino. Afinal encontrou o ashrama de um de Meus outros filhos, Angira Muni, cuja refulgência
iluminava todas direçöes. Sentado em seu
eremitério, Angira parecia um segundo Brahma.
O rei Mandhata estava muito feliz por ver esse exaltado sábio, cujos
sentidos estavam completamente sob controle.
O rei imediatamente
desmontou de seu cavalo e ofereceu suas respeitosas reverências aos pés de
lótus de Angira Rishi. Então o rei
juntou suas palmas e orou por suas bençãos.
Aquela pessoa santa reciprocou abençoando o rei com mantras sagrados, depois perguntou-lhe sobre o bem-estar dos sete
membros de seu reino. (2)
Após contar ao sábio
como iam os sete membros de seu reino, o rei Mandhata perguntou sobre a
felicidade do próprio sábio. Então
Angira Rishi perguntou ao rei porque empreendera tão difícil jornada na
floresta, e o rei contou-lhe sobre a aflição que seu reino estava
passando. O rei disse: "ó grande sábio, estou governando e
mantendo meu reino enquanto sigo as injunçöes védicas, e assim não sei qual o
motivo da seca. Para resolver este
mistério, aproximei-me de ti para tua ajuda.
Por favor ajuda-me a aliviar o sofrimento de meus súditos."
Angira Rishi disse
para o rei: "A presente era,
Satya-yuga, é a melhor de todas eras, pois nessa era o Dharma se apoia nas quatro
pernas. (3) Nesta era todos respeitam brahmanas como os membros mais elevados
da sociedade. Também, todos cumprem com
seus deveres ocupacionais, e apenas brahmanas
duas-vezes nascidos podem realizar austeridades védicas e penitências. Embora isto seja o padrão, ó leão entre os
reis, há um shudra que ilegalmente
realiza os ritos da austeridade e penitência em teu reino. É por isso que não há chuva no teu país. Por isso deves castigar este trabalhador com
a morte, pois por assim fazer removerás a contaminação e restituirás a paz aos
teus súditos."
O rei replicou: "Como posso matar um realizador de
austeridades sem ofensa? Por favor dá-me
alguma solução espiritual."
O grande sábio Angira
disse: "ó rei, deves observar um
jejum no Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara do mês de Ashadha. Este dia auspicioso se chama Padma Ekadashi,
e por sua influência abundantes chuvas certamente retornarão a teu reino. Este Ekadashi confere a perfeição tanto aos
fiéis observadores, como remove todo tipo de maus elementos, e destrói todos
obstáculos na senda da perfeição. ó rei,
tu, teus parentes e teus súditos devem todos observar este sagrado jejum de
Ekadashi. Então tudo em vosso reino irá
indubitavelmente retornar ao normal."
Ao ouvir estas
palavras, o rei ofereceu suas reverências e depois retornou a seu palácio. Quando chegou Padma Ekadashi, o rei Mandhata
reuniu todos os brahmanas, kshatriyas,
vaishyas e shudras em seu reino e
instruiu-os a observarem estritamente este importante dia de jejum. Depois que o haviam observado, caíram as
chuvas, assim como o sábio havia predito, e no devido tempo houve colheitas
fartas e uma rica safra de grãos. Pela
misericórdia do Senhor Supremo Hrishikesha, o senhor de todos sentidos, todos
súditos do rei Mandhata se tornaram extremamente felizes e prósperos.
Portanto, ó Narada,
todos devem observar este jejum de Ekadashi mui estritamente, pois confere toda
sorte de felicidade, bem como a liberação final, ao devoto fiel."
O Senhor Sri Krishna
concluiu: "Meu querido
Yudhishthira, Padma Ekadashi é tão poderoso que se pode simplesmente ler ou
ouvir suas glórias e ficar completamente sem pecado. ó Pandava, quem deseja agradar-Me deve
observar estritamente este Ekadashi, que também é conhecido como Deva-shayani
Ekadashi. (1) ó leão entre os reis, quem
quer que queira liberação deve regularmente jejuar neste Ekadashi, que também é
o dia em que o jejum de Chaturmasya principia."
Assim termina a narrativa das glórias de Ashadha-sukla
Ekadasi, ou Padma Ekadasi, do Bhavishya-uttara Purana.
Notas:
(1) Dizem que três
coisas não podem existir sem água:
pérolas, seres humanos, e farinha.
A qualidade essencial de uma pérola é seu brilho, e isso é devido à
água. A essência de um homem é seu
sêmen, cujo principal componente é água.
E sem água, não se pode transformar farinha em massa para depois cozinhar e comer. As vezes a água é chamada de jala narayana, o Senhor Supremo na forma
da água.
(2) Os sete membros do
domínio de um rei são o próprio rei, seus ministros, seu tesouro, suas forças
armadas, seus aliados, os brahmanas,
os sacrifícios realizados em seu reino, e as necessidades de seus súditos.
(3) As quatro pernas
do Dharma são veracidade, austeridade, misericórdia e limpeza.
(4) Deva-shayani ou
Vishnu-shayani, indica o dia em que o Senhor Vishnu vai dormir com todos
semideuses. É dito que depois desse dia
não se deve realizar quaisquer novas cerimônias até Devotthani Ekadashi, que
ocorre durante o mês de Kartika (out/nov), porque os semideuses, estando
adormecidos, não podem ser convidados para a arena sacrificial e porque o sol
está viajando no curso meridional.
17 KAMIKA EKADASHI
Maharaja Yudhisthira
disse: "ó Senhor Supremo, ouvi de
ti as glórias de jejuar no Deva-shayani Ekadashi, que ocorre durante a parte
clara do mês de Ashadha. Agora gostaria
de ouvir sobre o Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do mês de
Shravana (jul/ago). ó Govinda, por favor
seja misericordioso para comigo e explique suas glórias. ó Vasudeva, ofereço minhas humildes
reverências a Ti."
O Senhor Supremo, Sri
Krishna, respondeu: "ó rei, por
favor ouça atentamente enquanto descrevo a influência auspiciosa deste sagrado
dia de jejum, que remove todos pecados.
Narada Muni certa vez perguntou ao Senhor Brahma sobre este mesmo
tópico: "ó regente de todos"
disse Naradaji, "ó ser que sentas sobre um trono de lótus, por favor
conta-me o nome do Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do mês de
Shravana. Por favor também conta-me qual
Deidade é adorada neste sagrado dia, qual processo se deve seguir para
observá-lo, e que mérito concede."
O Senhor Brahma
respondeu: "Meu querido filho
Narada, para benefício de toda humanidade, de bom grado contarei tudo que
desejas saber, pois apenas ouvir as glórias de Kamika Ekadashi confere mérito
igual ao obtido por quem realiza um sacrifício de cavalo. Certamente, grande mérito é obtido por quem
adora, e também medita nos pés de lótus do Senhor Gadadhara de quatro braços,
que segura uma concha, disco, maça e lótus em Suas mãaos e que também é
conhecido como Sridhara, Hari, Vishnu, Madhava, e Madhusudana. E as bençãos obtidas por uma pessoa que adora
o Senhor Vishnu exclusivamente são bem maiores que aquelas obtidas por quem
toma um banho sagrado no Ganges em Kashi (Varanasi), na floresta de
Naimisharanya, ou em Pushkara, onde sou adorado. (1) Mas quem observa Kamika Ekadashi e também
adora o Senhor Sri Krishna obtém maior mérito do que quem obtém darshana do Senhor Kedaranatha nos
Himalayas, ou quem se banha em Kurukshetra durante um eclipse solar, ou quem
doa a Terra toda como caridade, inclusive suas florestas e oceanos, ou quem se
banha nos Rios Gandaki ou Godavari num dia de lua cheia que caia numa segunda-feira
quando Leão e Júpiter estão em conjunção.
Observar Kamika
Ekadashi confere o mesmo mérito que doar uma vaca leiteira e seu bezerro, junto
com a alimentação deles. Neste dia, quem
quer que adore o Senhor Sridhara-deva, Vishnu, é glorificado pelos semideuses,
Gandharvas, Pannagas, e Nagas.
Aqueles que tem medo
de seus pecados passados e estão completamente imersos na vida material
pecaminosa, devem observar este melhor dos Ekadashis segundo sua capacidade e
assim obter liberação. Este Ekadashi é o
mais puro de todos dias e o mais poderoso para remover pecados, ó Narada. O próprio Senhor Sri Hari certa vez disse
sobre este Ekadashi: "Quem jejua no
Kamika Ekadashi obtém muito mais mérito que quem estuda todas literaturas
espirituais."
Quem quer que jejue
neste dia em particular, e permaneça acordado noite afora, nunca irá
experimentar a ira de Yamaraja, a morte personificada. Quem quer que observe Kamika Ekadashi não
terá de sofrer nascimentos futuros, e no passado muitos yogis que jejuaram neste dia foram ao mundo espiritual. Portanto deve-se seguir nos passos
auspiciosos deles e observar estritamente um jejum neste Ekadashi.
Quem quer que adore o
Senhor Hari com folhas de tulasi se
liberta de toda implicação em pecado. De
fato, vive intocado pelo pecado, assim como a folha de lótus, embora estando na
água, não é tocada por ela. Quem quer
que ofereça a Sri Hari ainda que uma só folha de uma árvore tulasi obtém tanto mérito quanto alguém
que dá em caridade duzentas gramas de ouro e oitocentas gramas de prata. A Suprema Personalidade de Deus fica mais
satisfeito com quem oferece a Ele uma única folha de tulasi que por alguém que O adore com pérolas, rubis, topázios,
diamantes, lápis-lazuli, safiras, gemas gomeda
e olho-de-gato, e coral. Quem oferecer
ao Senhor Keshava manjaris
recém-brotados da sagrada planta tulasi
se livra de todos pecados que cometeu durante esta e outras vidas
pretéritas. De fato, o mero darshana de tulasi no Kamika Ekadashi remove todos pecados, e meramente tocá-la
e orar a ela remove todos tipos de doença.
Quem agua tulasi nunca precisa
temer o senhor da morte. Quem planta ou
transplanta tulasi eventualmente irá
residir com o Senhor Krishna em Sua própria morada. Portanto para Srimati Tulasi-devi, que concede
liberação em serviço devocional, devemos oferecer diariamente nossas plenas
reverências.
Mesmo Citragupta,
secretário de Yamaraja, não consegue calcular o mérito obtido por quem oferecce
a Srimati Tulasi-devi uma lamparina perpetuamente acesa. Esse Ekadashi é tão querido pela Suprema
Personalidade de Deus que todos antepassados de quem oferece uma luminosa
lamparina de ghee ao Senhor Krishna neste dia, ascendem aos planetas celestiais
e ali bebem néctar. Quem quer que
ofereça seja uma lamparina de ghee, ou de óleo de gergelim para Sri Krishna
neste dia, se liberta de todos seus pecados e entra na morada de Surya, o deus
do sol, com um corpo tão brilhante como dez milhöes de lamparinas." (2)
"ó
Yudhishthira" concluiu o Senhor Sri Krishna, "estas foram as palavras
faladas pelo Senhor Brahma para Narada Muni sobre as incalculáveis glórias do
Kamika Ekadashi, que remove todos pecados.
Este sagrado dia nulifica até mesmo o pecado de matar um brahmana ou matar uma criança
não-nascida no ventre, e promove a pessoa ao mundo espiritual por torná-la
supremamente meritória. (2) Quem quer
que ouça estas glórias de Kamika Ekadashi com fé se torna livre de todos
pecados e retorna ao lar, de volta para Vishnu-loka."
Assim termina a narrativa das glórias de Shravana-krsna
Ekadasi, ou Kamika Ekadasi, do Brahma-vaivarta Purana.
Notas:
(1) Em
Pushkara-kshetra fica o único templo na terra em que se adora o Senhor Brahma
formalmente.
(2) Este Ekadashi é
tão poderoso que se quem não pode jejuar simplesmente seguir as práticas aqui
mencionadas, será elevado aos planetas celestiais, junto com seus antepassados.
(3) Quem mata um brahmana, etc. e depois ouve as glórias
do Kamika Ekadashi será aliviado da reação a seu pecado. Contudo, não se deve pensar de ante-mão que se pode matar um brahmana e depois passar sem castigo
simplesmente por observar este Ekadashi.
Cometer pecado sabendo disto é uma abominação.
18 PUTRADA EKADASHI
Yudhishthira Maharaja disse: "ó Madhusudana, ó matador do demônio
Madhu, por favor seja misericordioso para comigo e descreve para mim o Ekadashi
que ocorre durante a quinzena clara do mês de Shravana (jul/ago)." O Supremo Senhor Sri Krishna respondeu: "Sim, ó rei, de bom grado narrarei suas
glórias para ti, pois apenas por ouvir sobre este sagrado Ekadashi já se obtém
o mérito de realizar um sacrifício de cavalo.
No alvorecer da
Dvapara-yuga, vivia um rei chamado Mahijita, que governava o reino de
Mahismati-puri. Porque não tinha filho,
seu reino inteiro parecia sem graça para ele.
Um homem casado que não tem filho não tem felicidade nesta vida ou na
próxima. (1) Durante longo tempo este
rei tentou mui arduamente obter um herdeiro, sem sucesso. Vendo os anos avançando, o Rei Mahijita
tornou-se cada vez mais ansioso. Certo
dia disse para uma assembléia de seus conselheiros: "Não cometi nenhum pecado nesta vida, e
não há nenhuma riqueza ilícita em meu tesouro.
Nunca usurpei as oferendas aos semideuses ou brahmanas. Quando fiz guerra
e conquistei reinos, segui as regras e regulaçöes da arte militar, e protegi
meus súditos como se fossem meus próprios filhos. Puni até mesmo meus próprios parentes se
transgredissem a lei, e se meu inimigo era gentil e religioso, dava-lhe as
boas-vindas. ó almas duas-vezes
nascidas, embora eu seja religioso e fiel seguidor dos padröes védicos, ainda
assim meu lar está sem filho. Por
gentileza me contem a razão disso."
Ouvindo isso, os
conselheiros brahmanas do rei
discutiram o assunto entre si, e com a meta de beneficiarem o rei visitaram os
varios ashramas dos grandes
sábios. Afinal chegaram a um sábio que
era austero, puro, e auto-satisfeito, e que estava observando estritamente um
voto de jejum. Seus sentidos estavam
completamente sob controle, havia conquistado sua ira, e era perito em realizar
seu dever ocupacional. De fato, este
grande sábio era perito em todas conclusöes dos Vedas, e tinha aumentado seu tempo de vida até o do próprio Senhor
Brahma. Seu nome era Lomasa Rishi, e conhecia
o passado, presente e futuro. Depois que
cada kalpa passava, caía um pelo de
seu corpo. (2) Todos os conselheiros brahmanas do rei aproximaram-se muito
contentes, um a um, para oferecer seus humildes respeitos.
Cativados por esta
grande alma, os conselheiros do Rei Mahijita ofereceram suas reverências a ele
e disseram mui respeitosamente:
"Apenas por nossa grande boa fortuna tivemos permissão, ó sábio, de
poder ver-te."
Lomasa Rishi os viu
prestando-lhe reverências e respondeu:
"Por gentileza, digam porque vieram até aqui. Porque estão me louvando? Preciso fazer tudo que puder para resolver
seus problemas, pois sábios como eu só possuem um interesse: ajudar os outros. Não duvidem disso." (3)
Os representantes do
rei disseram: "Viemos ver-te, ó
exaltado sábio, para pedir tua ajuda para resolver um problema sério. ó sábio, és como o Senhor Brahma. De fato, não há melhor sábio no mundo
inteiro. Nosso rei, Mahijita, está sem
filho, embora tenha nos mantido e protegido como se fossemos seus filhos. Vendo-o assim tão infeliz devido a não ter
filhos, ficamos muito tristes, ó sábio,
e portanto entramos na floresta para realizar severas austeridades. Por nossa boa fortuna encontramos
contigo. Os desejos e atividades de
todos tem sucesso só por teu darshana. Assim humildemente pedimos que conte como
nosso bondoso rei pode obter um filho."
Ouvindo esta súplica
sincera, Lomasa Rishi absorveu-se em profunda meditação por um momento e de
imediato compreendeu a vida pretérita do rei.
Então disse: "Seu governante
era um mercador na vida passada, e achando seus bens insuficientes, cometeu
atos pecaminosos. Viajou a muitos
vilarejos para trocar suas mercadorias.
Uma vez, ao meio-dia depois do Ekadashi que vem durante a parte clara do
mês de Jyeshtha, ficou com sede enquanto viajava de lugar em lugar. Chegou numa linda lagoa nas cercanias de um
vilarejo, mas assim que estava para beber da lagoa, chegou ali uma vaca com seu
bezerro recém-nascido. Ambas criaturas
também estavam muito sedentas devido ao calor, mas quando a vaca e o bezerro
começaram a beber, o mercador grosseiramente empurrou-os para o lado e
egoistamente saciou sua própria sede.
Esta ofensa contra uma vaca e seu bezerro resultou no fato de seu rei
não ter filhos agora. Mas os bons atos
que realizou em sua vida anterior lhe proporcionaram o governo sobre um reino
sem perturbação."
Ouvindo isso, os
conselheiros do rei responderam: "ó
famoso rishi, ouvimos que os Vedas dizem que se pode nulificar os
efeitos de nossos pecados anteriores, adquirindo mérito. Por gentileza, nos dê alguma instrução
através da qual os pecados de nosso rei poderão ser destruídos; por favor dê
sua misericórdia a ele, para que nasça um príncipe em sua família."
Lomasa Rishi
disse: "Existe um Ekadashi chamado
Putrada, que vem durante a quinzena clara do mês de Shravana. Neste dia todos vocês, inclusive seu rei,
devem jejuar e ficar acordados a noite inteira, seguindo estritamente as regras
e regulaçöes. Então devem dar ao rei
qualquer mérito que tenham obtido por este jejum. Se seguirem estas minhas instruçöes, ele
certamente será abençoado com um bom filho."
Todos conselheiros do
rei ficaram muito contentes ao ouvirem estas palavras de Lomasa Rishi, e todos
ofereceram suas gratas reverências.
Então, com seus olhos brilhando de felicidade, retornaram para casa.
Quando o mês de
Shravana chegou, os conselheiros do rei lembraram do conselho de Lomasa Rishi,
e sob orientação deles, todos cidadãos de Mahismati-puri, bem como o rei,
jejuaram no Ekadashi. E no dia seguinte,
Dvadashi, os cidadãos fielmente ofereceram seu mérito acumulado a ele. Pela força de todo esse mérito, a rainha
ficou grávida e eventualmente deu a luz um filho muito lindo.
"ó
Yudhishthira", concluiu o Senhor Krishna, "O Ekadashi que vem durante
a quinzena clara do mês de Shravana portanto com razão ficou famoso como
Putrada ("que concede filhos").
Quem quer que deseje felicidade neste mundo e no próximo deve certamente
jejuar de todos grãos e legumes neste dia sagrado. De fato, quem quer que simplesmente ouça as
glórias de Putrada Ekadashi se torna completamente livre de todos pecados, será
abençoado com um filho, e certamente ascende ao céu após a morte."
Assim termina a narrativa das glórias de Shravana-sukla
Ekadasi, ou Putrada Ekadasi, do Bhavishya-uttara Purana.
Notas:
(1) A palavra sânscrita para "filho" é putra.
Pu é o nome de determinado
inferno, e tra singifica
"salvar". Assim a palavra putra significa "pessoa que salva
do inferno chamado Pu". Portanto
todo homem casado deve produzir pelo menos um filho e treiná-lo devidamente;
então o pai será salvo de uma condição infernal de vida. Mas esta injunção não se aplica aos devotos
sérios do Senhor Vishnu ou Krishna, pois o próprio Senhor Se torna seu filho,
pai, e mãe.
Além do mais Chanakya
Pandita diz:
satyam mata pita jnanam
dharmo bhrata daya sakha
shantih patni kshama putrah
sadete mama vandhavah
"A verdade é
minha mãe, o conhecimento é meu pai, meu dever ocupacional é meu irmão, a
bondade minha amiga, tranquilidade minha esposa, e o perdão meu filho. Estes seis são membros de minha
família." Entre as vinte e seis
qualidades de um devoto do Senhor, o perdão é o máximo. Portanto os devotos devem fazer um esforço
extra para desenvolver esta qualidade.
Aqui Chanakya diz: "Perdão é
meu filho" e assim o devoto do Senhor, embora possa estar na senda da
renúncia, pode observar Putrada Ekadashi e orar por obter este tipo de
"filho".
(2) Um kalpa
ou doze horas do Senhor Brahma, igualam 4.320.000.000 anos.
(3) Lomasa Rishi tinha
todas boas qualidades porque era um devoto do Senhor. Conforme declara o Srimad-Bhagavatam 5.18.12:
yasyasti bhaktir bhagavaty akincana
sarvair
gunais tatra samasate surah
harav abhaktasya kuto mahad-guna
manorathenasati dhavato bahih
"Na pessoa cujo
serviço devocional a Krishna é inabalável, todas boas qualidades de Krishna se
manifestam consistentemente. Contudo,
aquele que não possui devoção pela Suprema Personalidade de Deus não tem
nenhuma qualificação boa porque através da
criação mental se ocupa na existência material, que é a característica
externa do Senhor."
19 AJA
OU ANNADA EKADASI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Janardana, protetor de
todas entidades vivas, por favor diga-me o nome do Ekadasi que ocorre durante a
quinzena obscura do mês de Bhadrapada (ago/set)."
O Senhor Supremo, Sri
Krishna, respondeu: "ó rei, ouça
com atenção. O nome deste Ekadashi que
remove pecados é Aja ou Annada. Qualquer
pessoa que jejue completamente neste dia e adore Hrsikesha, o senhor dos
sentidos, torna-se livre de todas reaçöes a seus pecados. Até quem apenas ouve sobre este Ekadashi se
livra de seus pecados passados. ó rei,
não há dia melhor que este em todos mundos terrenos ou celestiais. Isto sem dúvida é verdade.
Uma vez vivia um
famoso rei chamado Harishchandra, que era imperador do mundo e pessoa muito
veraz e íntegra. O nome de sua esposa
era Chandramati, e tinha um filho chamado Lohitashva. Pela força do destino, entretanto,
Harishchandra perdeu seu grande reino e vendeu sua esposa e filho. O próprio rei piedoso tornou-se servente
doméstico de um comedor de cachorros,
que o fazia guardar um crematório. No
entanto, mesmo fazendo um trabalho tão baixo, não abandonou sua veracidade e
bom caráter, assim como o soma-rasa,
quando misturado com algum outro líquido, não perde sua capacidade de conferir
imortalidade.
O rei passou muitos
anos nessa condição. Então certo dia
pensou: "Que farei? Onde devo ir?
Como posso ser salvo desta sina?"
Desta forma ele estava sosobrando num oceano de ansiedade e sofrimento.
Certo dia um grande
sábio calhou de passar por ali, e quando o rei o viu pensou contente: "Ah, o Senhor Brahma criou brahmanas só para ajudar os
outros." Harishchandra prestou suas
respeitosas reverências ao sábio, cujo nome era Gautama Muni. De palmas unidas, o rei postou se de pé
diante de Gautama e narrou sua lamentável história. Gautama Muni ficou surpreso ao ouvir a triste
estória do rei. Pensou: "Como esse rei foi reduzido a coletar
roupas dos mortos!" Gautama teve
muita compaixão por Harishchandra e instruiu-o no processo de jejuar para
purificação.
Gautama Muni
disse: "ó rei, durante a quinzena
obscura do mês de Bhadrapada ocorre um Ekadashi especialmente meritório,
chamado Aja ou Annada, que remove todos pecados. De fato, este Ekadashi é tão auspicioso que
se simplesmente jejuares nesse dia e não realizares mais nenhuma austeridade,
todos teus pecados serão nulificados.
Por tua boa fortuna está chegando a data daqui a sete dias. Portanto induzo-te a jejuar nesse dia e
permanecer acordado durante a noite. Se
o fizeres, todas reaçöes de teus pecados passados chegarão ao fim. ó Harishchandra, vim aqui por causa de teus
atos piedosos passados. Agora, toda boa
fortuna a ti no futuro!" Dizendo
isto, o grande sábio Gautama imediatamente desapareceu.
O rei Harishchandra
seguiu as instruçöes de Gautama com relação a jejuar no sagrado dia de Aja
Ekadashi. ó Yudhishthira, porque o rei
jejuou nesse dia, as reaçöes a seus
pecados passados foram completamente
destruídas imediatamente. ó leão entre
os reis, veja só a influência desse Ekadashi!
Ele imediatamente vence quaisquer misérias que se esteja sofrendo como
resultado de atividades pecaminosas anteriores. Assim, todas misérias de
Harishchandra foram aliviadas. Apenas
pelo poder desse maravilhoso Ekadashi ele foi reunido com sua esposa e filho, que tinham morrido
porém agora voltavam à vida. No céu os
semideuses começaram a tocar seus tímbales celestiais e choviam flores em
Harishchandra, sua rainha e seu filho.
Pelas bençãos do jejum de Ekadashi, ele recuperou seu reino sem
dificuldade. Além do mais, quando o rei
Harishchandra deixou este planeta, seus parentes e todos seus súditos foram com
ele para o mundo espiritual.
ó Pandava, quem quer
que jejue no Aja Ekadashi certamente se liberta de todos seus pecados e ascende
ao mundo espiritual. E quem ouve e
estuda as glórias deste Ekadashi consegue o mérito auferido por realizar um
sacrifício de cavalo."
Assim termina a narrativa das glórias do Bhadrapada
Ekadashi ou Aja Ekadashi do Brahma-vaivarta Purana.
20 PARIVARTINI,
PARSVA OU VAMANA EKADASHI
Yudhisthira Maharaja
perguntou ao Senhor Sri Krishna:
"Qual o nome do Ekadashi que ocorre durante a parte iluminada do
mês de Bhadrapada (agosto/setembro)?
Quem é a Deidade adorável para esse Ekadashi, e que mérito se obtém por
observá-lo? Tenha a bondade de
revelar-me tudo isso."
O Senhor Supremo, Sri
Krishna, respondeu: "Esse Ekadashi,
ó Yudhishthira, se chama Vamana Ekadashi ou ainda Parivartini Ekadashi, e
concede grande mérito e liberação final do enredamento material. Portanto, porque remove todas reaçöes
pecaminosas da pessoa, também se chama de Jayanti Ekadashi. Apenas ouvir as glórias deste Ekadashi já
liberta de todos maus atos passados.
Este jejum é tão auspicioso que observá-lo confere o mesmo mérito que de
realizar um sacrifício de cavalo. Não há
melhor Ekadashi que esse, porque concede a liberação tão facilmente. Portanto, a pessoa que deseja verdadeiramente
libertar-se do mundo material, deve jejuar no Vamana Ekadashi.
Enquanto observa este
jejum, o Vaisnava deve amorosamente adorar o Senhor Supremo em Sua forma de
Vamanadeva, a encarnação anã, cujos olhos são como pétalas de lótus. Assim fazendo, estará adorando todas outras
deidades também, inclusive Brahma, Vishnu, e Shiva, e na hora da morte sem
dúvida irá para a morada do Senhor Hari.
Em todos três mundos não existe jejum mais importante para
observar. O motivo porque esse Ekadashi
é tão auspicioso é que ele celebra o dia
quando o Senhor em Seu sono Se vira sobre Seu outro lado; por isso também é
chamado de Parivartini Ekadashi."
Maharaja Yudhisthira
então perguntou ao Senhor: "ó
Janardana, por favor resolve uma questão que tenho. Como é que o Senhor Supremo dorme e então Se
vira sobre Seu lado? ó Senhor, quando
estás dormindo, que acontece com todas outras entidades vivas? Por favor também conta-me como amarraste o
rei dos demônios, Bali Maharaja, além de como se pode satisfazer os brahmanas. Como se observa Chaturmasya?* Por gentileza seja misericordioso para comigo
e responda estas perguntas."
* Quem tiver interesse
em observar o jejum de Chaturmasya deve consultar o capítulo
Chaturmasya-mahatmya do Bhavisya-uttara Purana.
A Suprema
Personalidade de Deus replicou: "ó
Yudhishthira, leão entre os reis, de bom grado relatarei um evento histórico
que, simplesmente por ser ouvido, erradica todas reaçöes pecaminosas da pessoa.
Na Treta-yuga vivia um
rei chamado Bali. Embora nascido duma
dinastia demoníaca, era muito devotado a Mim.
Cantava muitos hinos védicos para Mim e realizava o ritual de homa só para satisfazer-Me. Respeitava os brahmanas duas-vezes nascidos e ocupava-os em realizar sacrifícios
diariamente. Esta grande alma teve uma
discussão com Indra no entanto, e eventualmente derrotou-o numa batalha. Bali assumiu todo seu reino celestial
inteirinho, que Eu mesmo dera para Indra. Por isso Indra e todos outros semideuses,
junto com muitos grandes sábios, aproximaram-se de Mim e reclamaram de Bali
Maharaja. Curvando suas cabeças até ao
chão e oferecendo muitas oraçöes sagradas dos Vedas, adoraram-Me e ao mestre espiritual deles, Brhaspati. Assim concordei em aparecer a favor deles
como o anão Vamanadeva, Minha quinta encarnação."
O rei Yudhishthira
perguntou: "ó Senhor, como é possível que vencestes tal demônio poderoso
com um mero corpo de anão? Por favor
explica isso claramente, pois sou Seu devoto fiel."
O Senhor Supremo, Sri
Krishna, replicou: "Embora um anão,
Eu era um brahmana, e aproximei-Me de
Bali Maharaja para pedir-lhe doaçöes em forma de terras. Disse:
"ó Bali, por favor dá-Me apenas três passos de terra como caridade. Um pedaço tão pequeno de terra valerá para
mim como se fosse os três mundos."
Bali concordou em atender Meu pedido sem maiores consideraçöes. Mas assim que prometeu dar-Me a terra, Meu
corpo começou a Se expandir numa forma transcendental gigantesca. Cobri a terra inteira com Meus pés, e toda
Bhuvarloka com Minhas coxas, os céus de Svarga com Minha cintura, Maharloka com
Meu estômago, Janaloka com Meu peito, Tapoloka com Meu pescoço, e Satyaloka com
Minha cabeça e face. Cobri toda criação
material. Na verdade, todos planetas do
universo, inclusive o sol e a lua, foram abarcados pela Minha forma gigantesca.
Vendo este Meu
passatempo espantoso, todos semideuses, inclusive Indra e Shesha, o rei das
serpentes, começaram a cantar hinos védicos e oferecer oraçöes a Mim. Então peguei Bali pela mão e disse-lhe: "ó Ser sem pecados, cobri toda a terra
com apenas um passo e todos planetas celestiais com o segundo. Agora onde irei colocar Meu pé para a
terceira passada de terra que Me prometeste?"
Ao ouvir isto, Bali
Maharaja curvou-se e ofereceu-Me sua cabeça.
ó Yudhishthira, coloquei Meu pé em sua cabeça e mandei o para
Patalaloka. Vendo-o assim humilhado,
fiquei muito satisfeito com ele e disse para Bali que dali em diante Eu
residiria permanentemente no palácio dele.
A partir de então, no Parivartini Ekadashi, que ocorre durante a parte
iluminada do mês de Bhadra, Bali, o filho de Virocana, instalou uma forma de
Minha Deidade em sua residência.
ó rei, até Haribodhini
Ekadashi, que ocorre durante a parte iluminada do mês de Kartika, Eu continuo a
dormir no oceano de leite. O mérito que
se acumula durante esse período é particularmente poderoso. A pessoa deve, portanto, observar Parivartini
Ekadashi cuidadosamente. Em verdade é
especialmente purificante e assim elimina todas reaçöes pecaminosas. Nesse dia o devoto fiel deve adorar o Senhor
Trivikrama, Vamanadeva, que é o pai supremo, porque nesse dia Eu Me viro para
dormir sobre Meu outro lado.
Se possível, nesse dia
se deve dar a uma pessoa qualificada uma porção de iogurte misturado com arroz,
bem como alguma prata, e então permanecer em vigília a noite toda. Esta simples observância libertará do
condicionamento material. Quem observar
este sagrado Parivartini Ekadashi desta maneira acima descrita certamente
obterá todo tipo de felicidades neste mundo e no reino de Deus na vida
futura. Quem simplesmente ouve esta
narrativa com devoção irá para a morada dos semideuses e ali brilhará como a
própria lua, tão poderoso é observar este Ekadashi. De fato, é tão poderoso quanto realizar mil
sacrifícios de cavalos."
Assim terminam as glórias do Parivartini Ekadashi ou
Vamana Ekadashi, que ocorre durante a parte clara do mês de Bhadrapada,
conforme o Brahma-vaivarta Purana.
21 INDIRA EKADASHI
Yudhisthira Maharaja
disse: "ó Madhusudana, ó matador do
demônio Madhu, qual o nome do Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do
mês de Asvhina (set/out)? Por favor descreva suas glórias para mim."
O Senhor Supremo, Sri
Krishna, respondeu: "Este dia santo
é chamado Indira Ekadashi. Se uma pessoa
jejua nesse dia, todos seus pecados são erradicados e seus antepassados que
caíram no inferno são liberados. ó
melhor dos reis, quem simplesmente ouve sobre este Ekadashi obtém o mérito
acumulado por realizar um sacrifício de cavalo.
Na Satya-yuga vivia um
rei chamado Indrasena, que era tão poderoso que destruiu todos seus
inimigos. O glorioso e altamente
religioso Rei Indrasena cuidava bem de seus súditos, e portanto era rico de
filhos, netos, ouro e grãos. Era muito
devotado a Sri Vishnu também. Gostava
especialmente de cantar Meu nome, clamando "Govinda! Govinda!" Desta maneira o Rei Indrasena
sistematicamente se dedicava à vida espiritual pura e passava muito tempo
meditando na Verdade Absoluta.
Certo dia, enquanto o
Rei Indrasena alegre e tranquilamente presidia sobre sua assembléia, o orador
perfeito, Narada Muni, foi visto descendendo do céu. O rei ofereceu a Devarishi Narada, o santo
entre os semideuses, grande respeito, saudando-o com as palmas juntas,
convidando-o ao palácio, oferecendo-lhe um assento confortável, lavando seus
pés, e falando palavras doces de boas-vindas.
Então Narada Muni disse para Maharaja Indrasena: "ó rei, as sete partes de vosso reino
estão prosperando? Vossa mente está
absorvida em pensar como podeis realizar vosso dever ocupacional? E estais ficando mais e mais devotado ao
Senhor Supremo, Sri Vishnu?"
O rei respondeu: "Por tua bondosa graça, ó maior dos
sábios, tudo vai bastante bem. Hoje, só pela tua presença todos sacrifícios em
meu reino tem sucesso! Por favor
mostra-me misericórdia e explique a razão para tua visita até aqui."
Sri Narada, o sábio
entre os semideuses, então disse:
"ó leão entre os reis, ouvi minhas espantosas palavras. Quando descendi de Brahmaloka a Yamaloka, o
Senhor Yamaraja louvou-me mui afavelmente e ofereceu-me um excelente
assento. Enquanto eu glorificava sua
veracidade e maravilhoso serviço ao Senhor Supremo, notei vosso pai na assembléia
de Yamaraja. Embora fora muito
religioso, porque quebrou um jejum de Ekadashi prematuramente, teve que ir para
Yamaloka. Vosso pai deu-me uma mensagem
para vos entregar. Disse: "Em Mahishmati vive um rei chamado
Indrasena. Por favor conte-lhe sobre
minha situação aqui - que devido a meus atos pecaminosos passados de alguma
maneira fui forçado a residir no reino de Yamaraja. Por favor dê a ele esta minha mensagem: "ó filho, tenha a bondade de observar
Indira Ekadashi e dar muita caridade para que eu possa me elevar ao céu."
(2)
Narada continuou: "Só para entregar esta mensagem, ó rei,
vim até aqui. Deveis ajudar vosso pai
observando este jejum de Indira Ekadashi.
Pelo mérito acumulado, vosso pai irá para o céu."
O Rei Indrasena
perguntou: "ó grande Naradaji, por
favor seja misericordioso e me diga especificamente como observar um jejum no
Indira Ekadashi, e também conte em que mês e que dia ocorre."
Narada Muni
respondeu: "ó rei, por favor ouvi
enquanto vos descrevo
o processo completo de
observar Indira Ekadashi. Este Ekadashi
ocorre durante a quinzena obscura do mês de Ashvina. No Dashami, o dia antes do Ekadashi, acordai
cedo pela manhã, tomai banho, e depois façai algum serviço para Deus com plena
fé. Ao meio-dia, tomai banho novamente
em água corrente e depois oferecei oblaçöes a vossos antepassados com fé e
devoção. Certificai-vos de não comer
mais que uma vez naquele dia, e à noite dormi no chão.
Quando acordardes na
manhã do Ekadashi, limpai vossa boca e dentes esmeradamente, e depois com
profunda devoção pelo Senhor fazei este voto sagrado: "Hoje irei jejuar completamente e
abandonar todos tipos de gozo dos sentidos.
ó Suprema Personalidade de Deus, infalível e de olhos de lótus, por
favor conceda-me refúgio a Teus pés de lótus." Ao meio-dia, postai-vos de pé diante de Sri
Shalagrama-shila (3) e adorai-O fielmente, seguindo todas regras e regulaçöes,
depois oferecei oblaçöes a vossos antepassados.
Em seguida, alimentai brahmanas
qualificados e oferecei-lhes alguma caridade conforme vossos meios. Agora tomai o alimento oferecido aos vossos
antepassados, cheirai-o, e depois oferecei-o a uma vaca. Em seguida, adorai o Senhor Hrshikesha com
incenso e flores, e finalmente, permanecei acordado a noite toda perto da
Deidade de Sri Keshava.
Cedo na manhã do dia
seguinte, Dvadashi, adorai Sri Hari com grande devoção e convidai brahmanas para um suntuoso
banquete. Então alimentai vossos
parentes, e finalmente tomai vossa refeição em silêncio. ó rei, se observardes estritamente um jejum
no Indira Ekadashi desta maneira, com os sentidos controlados, vosso pai
certamente será elevado à morada do Senhor Vishnu." Após dizer isso, Devarishi Narada imediatamente
desapareceu.
O Rei Indrasena seguiu
as instruçöes do grande santo perfeitamente, observando o jejum na associação
de seus parentes e servos. Ao quebrar o
jejum no Dvadashi, flores caíram do céu.
O mérito que Indrasena ganhou por observar este jejum salvou seu pai do
reino de Yamaraja e fez com que obtivesse um corpo completamente
espiritual. De fato, Indrasena o viu
subir para a morada do Senhor Hari no dorso de Garuda. O próprio Indrasena foi capaz de governar seu
reino sem quaisquer obstáculos, e em tempo entregou o reino para seu filho e
também foi para Vaikuntha.
ó Yudhishthira, estas
são as glórias do Indira Ekadashi, que ocorre durante a quinzena obscura do mês
de Ashvina. Quem quer que ouça ou leia
esta narrativa certamente desfrutará da vida neste mundo, será libertado de
todos seus pecados passados, e na morte retorna ao lar, de volta para Deus,
onde vive eternamente."
Assim terminam as glórias do Ashvina-krsna Ekadashi ou
Indira Ekadashi, do Brahma-vaivarta Purana.
Notas:
(1) As sete partes do
domínio de um rei são o próprio rei, seus ministros, seu tesouro, suas forças
militares, seus aliados, os brahmanas,
os sacrifícios realizados em seu reino, e as necessidades de seus súditos.
(2) Toda entidade viva
é um indivíduo, e individualmente todos tem que praticar consciência de Krishna
para retornar a Deus. Conforme declarado
no Garuda Purana, quem está sofrendo
no inferno não consegue praticar consciência de Krishna, porque isto requer paz
metal, que as torturas do inferno tornam impossíveis. Se um parente de um pecador sofrendo no
inferno der alguma caridade em nome do pecador, este pode deixar o inferno e
entrar nos planetas celestiais. Mas se o
parente do pecador observar este jejum de Ekadashi em prol de seu familiar
sofredor, este vai diretamente para o mundo espiritual, conforme declara este
capítulo.
(3) Sri
Shalagrama-shila é uma Deidade do Senhor Vishnu na forma de uma pedra lisa,
redonda e escura. Devotos adoram-No para
obter liberação. A origem de
Shalagrama-shila é descrita no Padma
Purana, Uttara Khanda.
22 PAPANKUSHA
OU PASHANKUSHA EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Madhusudana, qual o nome
do Ekadashi que ocorre durante a quinzena luminosa do mês de Ashvina
(setembro/outubro)? Por favor seja
misericordioso e conta-me algo sobre isso."
O Senhor Supremo, Sri
Krishna, respondeu: "ó rei, por
favor escute enquanto explico as glórias desse Ekadashi - Papankusha Ekadashi -
que remove todos pecados. Neste dia se
deve adorar a Deidade de Padmanabha, o Senhor do umbigo de lótus, segundo as
regras e regulaçöes. Assim fazendo, se
consegue quaisquer prazeres celestiais que se deseje neste mundo e afinal se
obtém liberação. Simplesmente por
oferecer humildes reverências ao Senhor Vishnu, que cavalga Garuda, se pode
obter o mesmo mérito que se consegue por realizar grandes penitências durante
longo tempo com os sentidos completamente controlados. Embora uma pessoa possa ter cometido
ilimitados pecados, ainda assim poderá escapar do inferno apenas por prestar
suas reverências ao Senhor Hari, que remove todos pecados.
Os méritos obtidos por
realizar peregrinação a tirthas desse
planeta terráqueo também podem ser obtidos simplesmente por cantar os santos
nomes do Senhor Vishnu (1). Quem cantar
esses sagrados nomes - como Rama, Vishnu, Janardana, ou Krishna - especialmente
no Ekadashi, nunca vê a morada de Yamaraja.
Tampouco aquele que jejua no Papankusha Ekadashi, que Me é muito
querido, verá essa morada.
Tanto o Vaisnava que
critica o Senhor Shiva quanto o Shivaísta que Me critica certamente vão para o inferno. O mérito obtido por realizar mil sacrifícios
de cavalo e cem sacrifícios Rajasuya não se iguala nem mesmo à décima sexta
parte do mérito que uma pessoa obtém por jejuar no Ekadashi. Não existe mérito superior que se possa
alcançar, que este obtido por jejuar no Ekadashi. De fato, nada nos três mundos é tão agradável
ou tão capaz de purificar-nos do pecado como o Ekadashi, o dia do Senhor de
umbigo de lótus, Padmanabha.
ó rei, até que a
pessoa observe um jejum do dia do Senhor Padmanabha (chamado Papankusha
Ekadashi), ela permanece pecaminosa, e as reaçöes de suas atividades
pecaminosas passadas nunca a deixam. Não
há mérito nos três mundos que se iguale ao mérito obtido por observar jejum
nesse Ekadashi. Quem quer que o observe
fielmente, nunca tem de ver a morte personificada, o Senhor Yamaraja. Quem deseja liberação, o paraíso, boa saúde,
lindas mulheres, fortuna, e grãos alimentícios deve simplesmente jejuar nesse
Ekadashi. ó Rei, nem o Ganges, Gaya,
Kashi, nem Pushkara, nem mesmo o sagrado local de Kurukshetra, podem conceder
tanto mérito como Papankusha Ekadashi.
ó Yudhisthira,
protetor da terra, após observar Ekadashi durante o dia, o devoto deve
permanecer acordado pela noite adentro, pois assim fazendo facilmente obtém a
morada do Senhor Supremo, Sri Vishnu. Dez geraçöes de antepassados por parte da
mãe, dez por parte do pai, e dez por parte da esposa são todos liberados por
uma só vez observar o jejum neste Ekadashi.
Todos esses antepassados obtém suas formas originais transcendentais, de
quatro braços. Portando vestes amarelas
e lindas guirlandas, cavalgam ao mundo espiritual no dorso de Garuda, o inimigo
das serpentes. Essa é a benção que Meu
devoto recebe simplesmente por observar um Papankusha Ekadashi devidamente.
ó melhor dos reis,
quer sejamos crianças, jovens, ou velhos, jejuar no Papankusha Ekadashi livra
de pecados e torna imune ao sofrimento de renascer infernalmente. Quem observa um jejum neste Ekadashi se torna
livre de todos seus pecados e retorna à morada do Senhor Hari. Quem doar ouro, sementes de gergelim, terra
fértil, vacas, grãos, água potável, um guarda-chuva, ou par de calçados nesse
mais santificado dos dias nunca terá de visitar a morada de Yamaraja, que
sempre pune pecadores. Porém se um
habitante da terra deixa de realizar atos espirituais, especialmente observar
um jejum em dias sagrados como Ekadashi, é dito que sua respiração não é melhor
que o bafo do fole do ferreiro.
ó melhor dos reis,
especialmente no Papankusha Ekadashi, mesmo os pobre devem primeiro tomar banho
e depois dar alguma caridade e realizar outras atividades auspiciosas de acordo
com sua habilidade.
Quem quer que realize
sacrifícios ou construa lagoas públicas, locais de descanso, jardins, ou casas
não sofre as puniçöes de Yamaraja. De
fato, deve-se compreender que tal pessoa deve ter realizado tais atividades
piedosas assim, em sua vida passada, caso tenha vida longa, saúde, riqueza,
nascimento elevado ou esteja livre de todas doenças. Mas uma pessoa que observa Papankusha
Ekadashi vai para a morada do Senhor Supremo."
O Senhor Krishna
concluiu: "Portanto, ó santo
Yudhishthira, narrei-lhe as glórias de Papankusha Ekadashi. Por favor questione-Me mais se deseja ouvir
ainda mais sobre Ekadashi."
Assim terminam as glórias do Papankusha Ekadashi ou
Ashvina-sukla Edadashi,do Brahma-vaivarta Purana.
Notas:
(1) Segundo o
Srimad-Bhagavatam, Vishnu é uma encarnação purusha
da expansão quádrupla do Senhor Sri Krishna.
23 RAMA EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Janardana, ó protetor de
todos seres, qual é o nome do Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do
mês de Kartika (out/nov)? Por favor
transmita este sagrado conhecimento a mim."
O Senhor Supremo, Sri
Krishna, respondeu: "ó leão entre
os reis, por favor ouça: O Ekadashi que
ocorre durante a parte obscura do mês de Kartika se chama Rama Ekadashi. É muito auspicioso, pois erradica de imediato
os maiores pecados e concede passagem para a morada espiritual. Vou narrar sua história e glórias para ti.
Uma vez vivia um
famoso rei chamado Mucukunda, que tinha amizade com o Senhor Indra, o rei do
céu, bem como com Yamaraja, Varuna e Vibhishana, o irmão piedoso do demônio
Ravana. Mucukunda sempre falava a
verdade e constantemente prestava serviço devocional a Mim. Porque governava segundo os princípios
religiosos, não havia distúrbios em seu reino.
A filha de Mucukunda
se chamava Chandrabhaga, como o rio sagrado, e o rei a deu em casamento a
Shobhana, o filho de Chandrasena.
Certo dia, Shobhana
visitou o palácio de seu sogro no dia auspicioso de Ekadashi. Esta visita provocou ansiedade na esposa de
Shobhana, Chandrabhaga, porque ela sabia que seu marido estava fisicamente
muito enfraquecido e incapaz de suportar a austeridade de um jejum de dia
inteiro. Ela disse-lhe: "Meu pai é muito estrito quanto a seguir
o Ekadashi. No Dashami, o dia antes do
Ekadashi, ele golpeia um grande tambor timbale e anuncia: "Ninguém deve comer no Ekadashi, o dia
do Senhor Hari!"
Quando Shobhana ouviu
o som do timbale, disse para sua esposa:
"ó minha linda, que farei agora?
Por favor diga-me como poderei salvar minha vida e obedecer as
restriçöes ao mesmo tempo!"
Chandrabhaga
replicou: "Meu querido marido, na
casa de meu pai ninguém - nem mesmo elefantes e cavalos, sem falar em seres
humanos - come no Ekadashi. De fato,
nenhum dos animais recebe sua ração de grãos, folhas ou palha - nem mesmo água!
- no Ekadashi, o dia do Senhor Hari.
Portanto como poderás escapar de jejuar?
Meu amado, se tiveres que comer algo, então deves sair daqui
imediatamente. Agora, com firme
convicção decida o que fazer."
O Príncipe Shobhana
respondeu: "Decidi jejuar no
sagrado dia de Ekadashi. Qualquer que
seja meu destino, certamente haverá de acontecer."
Decidindo assim, Shobhana
tentou jejuar naquele Ekadashi, mas ficou intoleravelmente perturbado pela fome
e sede excessiva. Eventualmente o sol se
pôs no oeste, e a chegada da noite auspiciosa fez a felicidade de todos
Vaisnavas. ó Yudhishthira, todos os
devotos gostaram de adorar o Senhor Hari e permanecer acordados noite adentro,
mas para o Príncipe Shobhana aquela noite se tornou absolutamente
intolerável. Na verdade, quando o sol se
levantou no Dvadashi, Shobhana estava morto.
O Rei Mucukunda
observou o funeral de seu genro, ordenando que se fizesse uma grande pilha de
madeira para o fogo, mas instruiu sua filha Chandrabhaga a não juntar-se a seu
marido na pira funerária. Assim
Chandrabhaga, após realizar todos processos purificatórios honrando seu marido
falecido, continou a viver na casa de seu pai."
O Senhor Krishna
continuou: "ó melhor dos reis,
embora Shobhana morresse por ter observado Rama Ekadashi, o mérito que acumulou
capacitou-o depois da morte, a ser o governante de um reino no alto do pico da
Montanha Mandaracala. Este reino era
como uma cidade de semideuses: muito brilhante, com ilimitadas jóias
incrustadas nas paredes de seus prédios.
Os pilares eram feitos de rubis, e o ouro cravejado de diamantes
rebrilhava por todo lugar. Enquanto o
Rei Shobhana ficava sentado num trono sob um dossel branco puro, servos
abanavam-no com abanos de rabo de iaque.
Uma estupenda coroa descansava sobre sua cabeça, lindos brincos
adornavam suas orelhas, um colar ornava seu pescoço, roximando, imediatamente levantou de seu
trono e deu-lhe as boas-vindas. Depois
que Shobhana prestara suas respeitosas reverências, perguntou ao brahmana sobre seu bem-estar e sobre a
saúde de seu sogro Mucukunda, sua esposa, e todos residentes da cidade.
Somasharma
respondeu: "ó rei, todos súditos
estão bem no reino de seu sogro, e Chandrabhaga e teus outros membros
familiares também estão bastante bem.
Mas, ó rei, estou espantado de encontrar-te aqui! Por favor conte-me sobre ti. Ninguém jamais viu cidade tão bela como
esta! Tenha a bondade de me contar como
a obteve."
O Rei Shobhana
disse: "Porque observei Rama
Ekadashi, recebi esta esplêndida cidade para governar. Mas apesar de toda sua grandiosidade, é
apenas temporária. Imploro-te que faças
algo para corrigir esta deficiência.
Podes ver, isto é apenas uma cidade efêmera. Como poderei tornar suas belezas e glórias
permanentes? Por favor instrua-me."
O brahmana perguntou:
"Por que este reino é instável, e como poderá se tornar
estável? Por favor explique isso para
mim, e tentarei ajudá-lo."
Shobhana
respondeu: "Porque jejuei no
Ekadashi sem qualquer fé, este reino é impermanente. Agora ouça como poderá se tornar
permanente. Por favor retorne a
Chandrabhaga, a linda filha do Rei Mucukunda, e diga a ela o que viste e
compreendeste sobre este lugar e sobre mim.
Certamente, se contares isto a ela, minha cidade em breve se tornará
permanente."
Assim o brahmana retornou a sua cidade e relatou
o episódio inteiro a Chandrabhaga, que ficou surpresa e muito feliz por ouvir
esta notícia. Disse ela: "ó brahmana,
isto é um sonho que tiveste, ou realmente é um fato?"
Somasharma
replicou: "ó princesa, de fato vi
teu marido falecido cara a cara naquele maravilhoso reino, que se assemelha a
um dos reinos dos semideuses. Mas ele
diz que o reino inteiro é instável e pode desaparecer no ar a qualquer
momento. Portanto ele espera que possas
encontrar algum meio de torná-lo permanente."
Chandrabhaga
disse: "ó sábio entre os brahmanas, por favor leve-me até meu marido
imediatamente, pois desejo muito vê-lo novamente! Certamente tornarei seu reino permanente com
o mérito que adquiri jejuando em cada Ekadashi durante minha vida toda. Por favor reuna-nos novamente. É dito que quem reune pessoas separadas obtém
mérito muito grande."
O brahmana Somasharma então guiou Chandrabhaga até o refulgente reino
de Shobhana. Antes de alcançá-lo,
entretanto, pararam no sopé do Monte Mandaracala, no sagrado ashrama de Vamadeva. Ao ouvir a história deles, Vamadeva cantou
hinos dos Vedas e borrifou água
sagrada em Chandrabhaga. Pela influência
dos ritos daquele grande rishi, o
mérito que ela acumulou por jejuar por tantos Ekadashis tornou o corpo dela
transcendental. Extática, seus olhos
irradiando maravilhados, Chandrabhaga continuou sua jornada.
Quando Shobhana viu
sua esposa se aproximando dele no alto da Montanha Mandaracala, foi tomado de
alegria e chamou-a em voz alta, com grande felicidade. Depois que ela havia chegado, sentou-a à sua
esquerda e ela lhe disse: "ó querido,
por favor ouça enquanto te conto uma coisa que irá beneficiar-te
grandemente. Desde que tinha oito anos
sempre jejuei fiel e regularmente a cada Ekadashi. Se eu transferir a ti todo o mérito que assim
acumulei, teu reino certamente se tornará permanente, e tua prosperidade irá
crescer e crescer até a vinda da grande inundação!"
O Senhor Krishna
continuou: "ó Yudhishthira, desta
maneira Chandrabhaga, que estava belamente decorada com os mais finos
ornamentos e tinha um corpo transcendental de rara beleza, afinal gozou da paz
e felicidade com seu marido. Pela
potência de Rama Ekadashi, Shobhana verificou que seu reino nos picos do Monte
Mandaracala podia realizar todos seus desejos e conceder-lhe felicidade sempiterna,
tal como aquela obtida da vaca Kama-dhenu.
ó maior dos reis,
assim narrei a ti as glórias do Rama Ekadashi.
Quem quer que observe
o sagrado Ekadashi durante as quinzenas clara e obscura de cada mês,
indubitavelmente se liberta das reaçöes do pecado de matar um brahmana. Não se deve diferenciar entre Ekadashis da
parte iluminada ou obscura do mês.
Conforme vimos, ambos podem conceder prazer neste mundo e liberar até
mesmo as almas mais pecaminosas e caídas.
Assim como vacas negras e brancas dão leite de qualidade igual, os
Ekadashis da quinzena clara e obscura conferem o mesmo grau elevado de mérito e
eventualmente liberam a pessoa do ciclo de nascimento e morte. Quem quer que simplesmente ouça as glórias
deste sagrado dia, Rama Ekadashi, se liberta de todos tipos de pecado e obtém a
morada suprema do Senhor Vishnu."
Assim terminam as glórias do Rama Ekadashi ou
Kartika-krsna Edadashi, do Brahma-vaivarta Purana.
24 HARIBODHINI
OU DEVOTTHANI EKADASHI
O Senhor Brahma disse
a Narada Muni: "Querido filho, ó
melhor dos sábios, vou narrar-te as glórias do Haribodhini Ekadashi, que
erradica toda sorte de pecados e confere grande mérito, e no final a liberação,
para as pessoas que se rendem ao Senhor Supremo.
ó melhor dos brahmanas, os méritos adquiridos por
tomar banho no Ganges permanecem significantes enquanto Haribodhini Ekadashi
não chega. Este Ekadashi, que ocorre
durante a quinzena luminosa do mês de Kartika, é muito mais purificante que um
banho no oceano, num local de peregrinação ou num lago. Este sagrado Ekadashi é mais poderoso para
nulificar pecados que mil sacrificios Ashvamedha e cem Rajasuya."
Narada Muni, o santo
entre os semideuses, indagou: "ó
pai, por favor descreva os méritos relativos de jejuar completamente no
Ekadashi, jantar (sem grãos ou feijöes), ou comer apenas uma vez ao meio-dia
(sem grãos ou feijöes)."
O Senhor Brahma
respondeu: "Se uma pessoa come uma
vez ao meio-dia no Ekadashi, os pecados de seus nascimentos anteriores são
apagados, se comer apenas o jantar, os pecados adquiridos durante seus dois nascimentos
anteriores são removidos, e se jejuar completamente, os pecados acumulados
durante seus sete nascimentos anteriores são erradicados.
ó filho, tudo aquilo
que só raramente é obtido nos três mundos, é obtido por aquele que observa
estritamente Haribodhini Ekadashi. Uma
pessoa cujos pecados se igualam em volume ao Monte Sumeru os vê reduzidos a
nada por simplesmente jejuar no Papaharini Ekadashi (outro nome para
Haribodhini Ekadashi). Os pecados que
uma pessoa tenha acumulado em mil nascimentos anteriores são queimados até
cinzas se não só jejuar mas também permanecer acordada durante a noite de
Ekadashi, assim como uma montanha de algodão pode ser queimada até cinzas se
acendermos um pequeno fogo nela.
ó melhor dos sábios, Naradaji,
uma pessoa que observa estritamente este jejum alcança os resultados que
mencionei. Mesmo se a pessoa fizer uma
pequena quantidade de serviço piedoso nesse dia, seguindo as regras e
regulaçöes, a pessoa irá acumular mérito igual ao Monte Sumeru em volume;
contudo, uma pessoa que não segue as regras e regulaçöes dadas nas escrituras
poderá realizar atividade piedosa igual ao Monte Sumeru em volume, mas não irá
ganhar nem mesmo uma pequena quantidade de mérito. Quem não canta o Gayatri mantra três vezes ao
dia, que não considera os dias de jejum, que não acredita em Deus, que critica
as escrituras védicas, que pensa que os Vedas
só trazem ruina para quem segue suas injunçöes, que desfruta da esposa de
outrem, que é totalmente tolo e malvado, que não aprecia qualquer serviço que
lhe tenha sido prestado, ou que engana outros - tal pessoa pecaminosa, ó filho,
nunca poderá realizar qualquer atividade religiosa efetivamente. Seja um brahmana
ou shudra, quem tentar desfrutar da
esposa de outrem, especialmente a esposa de alguém duas vezes nascido, é dito
não ser melhor que um comedor de cachorros.(1)
ó melhor dos sábios,
qualquer brahmana que desfruta de
sexo com uma viúva ou senhora brahmana
casada com outro homem, traz ruína para si e para sua família. Qualquer brahmana
que goza de sexo ilícito não terá filhos em sua próxima vida, e qualquer mérito
anterior que possa ter acumulado estará arruinado. De fato, se tal pessoa demonstra qualquer
arrogância para com um brahmana duas
vezes nascido ou um mestre espiritual, perde todo seu avanço imediatamente, bem
como sua fortuna e filhos.
Estes três tipos de
homens arruinam seus méritos adquiridos:
aquele cujo caráter é imoral, aquele que tem sexo com a mulher de um
comedor de cachorros, e aquele que aprecia a associação de vagabundos. Quem se associa com pessoas pecaminosas e
visita seus lares sem um propósito espiritual irá diretamente para a morada do
Senhor Yamaraja, o superintendente da morte.
E se alguém come em tal lar, seu mérito adquirido é destruído, junto com
sua fama, duração de vida, filhos, e felicidade.
Qualquer patife
pecaminoso que insulta uma pessoa santa brevemente perde sua religiosidade,
desenvolvimento econômico, e gratifação dos sentidos, e afinal arderá no fogo
do inferno. Qualquer um que goste de
ofender pessoas santas, ou que não interrompe quem está insultando pessoas
santas, é considerado como não sendo melhor que um asno. Tal homem malvado vê sua dinastia destruída
diante de seus próprios olhos.
Uma pessoa cujo
caráter é impuro, que é vagabunda ou tratante, ou que encontra defeitos nos
outros, não alcança um destino mais elevado após a morte, mesmo que dê caridade
generosamente ou realize outros atos auspiciosos. Portanto devemos nos refrear de realizar atos
inauspiciosos e realizar apenas os piedosos, pelos quais acumularemos mérito e
evitaremos sofrimento.
Contudo, os pecados de
quem, após a devida consideração, decide jejuar no Haribodhini Ekadashi, são
apagados de cem vidas anteriores, e quem jejua e permanece acordado a noite
toda neste Ekadashi alcança ilimitado mérito e após a morte vai para a morada
suprema do Senhor Vishnu, e dez mil de seus ancestrais, parentes e descendentes
também alcançam essa morada. Mesmo se os
antepassados estiverem implicados em muitos pecados e estiverem sofrendo no
inferno, ainda assim obtém corpos espirituais lindamente ornamentados e
felizes, vão para a morada de Vishnu.
ó Narada, mesmo quem
tenha cometido o pecado hediondo de matar um brahmana se liberta de toda mácula em seu caráter por jejuar no
Haribodhini Ekadashi e permanecer acordado naquela noite. O mérito que não pode ser obtido por tomar
banho em todos lugares de peregrinação, realizar um sacrifício de cavalo, ou
dar vacas, ouro ou terra fértil como caridade, pode facilmente ser alcançado
por jejuar nesse dia sagrado e permanecer acordado durante a noite.
Quem quer que observe
Haribodhini Ekadashi é celebrado como sendo altamente qualificado e torna sua
dinastia famosa. Como a morte é certa,
assim também é certo perder a riqueza.
Sabendo disso, ó melhor dos sábios, devemos observar um jejum nesse dia
tão querido por Hari, Sri Haribodhini Ekadashi.
Todos locais de
peregrinação nos três mundos imediatamente vem residir na casa da pessoa que
jejua nesse Ekadashi. Portanto, para agradar
o Senhor, que segura um disco em Sua mão, devemos abandonar todos compromissos,
render-nos, e observar este jejum de Ekadashi.
Quem jejua nesse dia de Haribodhini é reconhecido como um homem sábio,
um verdadeiro yogi, um asceta, e alguém cujos sentidos estão verdadeiramente
sob controle. Só ele desfruta
devidamente deste mundo, e certamente alcançará a liberação. Este Ekadashi é muito querido pelo Senhor
Vishnu e portanto é a própria essência da religiosidade. Mesmo uma só observância já confere a
recompensa máxima em todos três mundos.
ó Naradaji, quem quer
que jejue nesse Ekadashi definitivamente não entra num ventre novamente, e
assim devotos fiéis do Supremo Deus abandonam todas variedades de religião e
simplesmente se rendem a jejuar neste Ekadashi.
Para essa grande alma que honra esse Ekadashi jejuando e permanecendo
acordado durante a noite, o Senhor Supremo, Sri Govinda, pessoalmente acaba com
as reaçöes pecaminosas que essa alma tenha adquirido pelas açöes de sua mente,
corpo e palavras.
ó filho, para quem se
banha num local de peregrinação, dá caridade, canta os santos nomes do Senhor
Supremo, se submete a austeridades e realiza sacrifícios para Deus no
Haribodhini Ekadashi, o mérito assim acumulado se torna imperecível. Um devoto que adora o Senhor Madhava nesse
dia com parafernália de primeira classe, se torna livre dos grandes pecados de
cem vidas.
Uma pessoa que observa
este jejum e adora o Senhor Vishnu devidamente se liberta de grande perigo.
Este jejum de Ekadashi
agrada tanto ao Senhor Jagannatha que Ele leva a pessoa que o observa de volta
para Sua morada, e enquanto vai para lá o devoto ilumina as dez direçöes
universais. Quem deseja beleza e
felicidade deve tentar honrar Haribodhini Ekadashi, especialmente se cair no
Dvadasi. Os pecados de cem nascimentos
anteriores - os pecados cometidos durante a infância, juventude, e velhice em
todas essas vidas, quer sejam pecados secos ou molhados - são nulificados pelo
Supremo Senhor Govinda se jejuarmos no Haribodhini Ekadashi com devoção.(2)
Haribodhini Ekadashi é
o melhor Ekadashi. Nada é impossível de
obter ou raro neste mundo para quem jejua nesse dia, pois ele dá grãos
alimentícios, grande fortuna, e mérito elevado, bem como erradica todo pecado,
o terrível obstáculo à liberação. Jejuar
nesse Ekadashi é mil vezes melhor que dar caridade no dia do eclipse solar ou
lunar. Novamente lhe digo, ó Naradaji,
qualquer mérito que se tenha obtido por tomar banho num local de peregrinação,
dar caridade, cantar japa, recitar
mantras védicos, realizar sacrifícios, e estudar os Vedas é apenas um décimo de milionésimo do mérito adquirido pela
pessoa que jejua apenas uma vez no
Haribodhini Ekadashi. Qualquer mérito
que se tenha adquirido em sua vida por algumas atividades piedosas se torna completamente
infrutífero se não observarmos o jejum de Ekadashi e adorarmos o Senhor Vishnu
no mês de Kartika. Portanto, ó Narada,
deves sempre adorar o Senhor Supremo, Janardana, e prestar serviço para Ele. Assim obterás a meta desejada, a mais alta
perfeição.
No Haribodhini
Ekadashi, um devoto do Senhor não deve comer na casa de outro ou comer alimento
cozido por um não-devoto. Se o fizer,
apenas alcança o mérito de jejuar num dia de lua cheia. Discussöes filosóficas das escrituras no mês de
Kartika agradam Sri Vishnu mais que se doarmos elefantes e cavalos como
caridade ou realizarmos um custoso sacrifício. Quem quer que cante ou ouça
descriçöes das qualidades e passatempos do Senhor Vishnu, mesmo que apenas
metade ou um quarto de verso, obtém o maravilhoso mérito derivado por dar cem
vacas a um brahmana. ó Narada, durante o mês de Kartika se deve
abandonar toda sorte de deveres comuns e dedicar todo tempo e energia,
especialmente enquanto se jejua, a discutir os passatempos transcendentais do
Senhor Supremo. Tal glorificação de Sri
Hari no dia tão querido pelo Senhor, Ekadashi, libera cem geraçöes
anteriores. Quem passa seu tempo
desfrutando de tais discussöes, especialmente no mês de Kartika, obtém os
resultados de realizar dez mil sacrifícios de fogo e queima todos seus pecados
até cinzas.
Aquele que ouve as
maravilhosas narrativas concernentes ao Senhor Vishnu, particularmente durante
o mês de Kartika, automaticamente acumula o mesmo mérito como de uma pessoa que
doa cem vacas como caridade. ó grande
sábio, uma pessoa que canta as glórias do Senhor Hari no Ekadashi obtém o
mérito acumulado por doar sete ilhas."
Narada Muni perguntou
a seu glorioso pai: "ó senhor
universal, ó melhor dos semideuses, por favor conta-me como observar esse mais
sagrado Ekadashi. Que tipo de mérito ele
confere aos fiéis?"
O Senhor Brahma
respondeu: "ó filho, uma pessoa que
quer observar esse Ekadashi deve acordar cedo na manhã de Ekadashi, durante o
horário de brahma-muhurta (uma hora e
meia antes do sol nascer até cinquenta minutos antes do alvorecer). Deve então limpar os dentes e tomar banho num
lago, rio, lagoa ou poço, ou em sua própria casa, conforme a situação
permitir. Após adorar o Senhor Sri
Keshava, deve ouvir cuidadosamente as sagradas descriçöes do Senhor. Deve orar assim ao Senhor: "ó Senhor Keshava, vou jejuar neste dia,
que Lhe é tão querido, e amanhã honrarei Tua sagrada prasadam. ó Senhor de olhos
de lótus, ó infalível, és meu único refúgio.
Por bondade, proteja-me."
Tendo falado esta
solene oração diante do Senhor com grande amor e devoção, deve-se jejuar
alegremente. ó Narada, quem permanecer
acordado a noite toda neste Ekadashi, cantando lindas cançöes glorificando o
Senhor, dançando em êxtase, tocando deliciosa música instrumental para o prazer
transcendental Dele, e recitando os passatempos do Senhor Krishna conforme
registrados na literatura védica fidedigna - tal pessoa certamente residirá
muito além dos três mundos, no reino eterno, espiritual de Deus.
No Haribodhini Ekadashi
se deve adorar Sri Krishna com cânfora, frutas, e flores aromáticas,
especialmente a flor amarela agaru. Não devemos nos absorver em ganhar dinheiro
neste dia importante. Em outras
palavras, devemos trocar a cobiça pela caridade. Este é o processo para transformar perdas em
ilimitado mérito. Devemos oferecer
muitos tipos de frutas ao Senhor e banhá-Lo com água de uma concha. Cada uma dessas práticas devocionais, quando
realizada no Haribodhini Ekadashi, é dez milhöes de vezes mais benéfica que
tomar banho em todos locais de peregrinação e dar todas formas de caridade.
Mesmo o Senhor Indra
junta suas palmas e oferece suas reverências ao devoto que adora o Senhor
Janardana com flores agasthya nesse
dia. O Supremo Senhor Hari fica muito
satisfeito quando Ele é decorado com belas flores agastya. ó Narada, eu dou
liberação a quem devotadamente adora o Senhor Krishna neste Ekadashi no mês de
Kartika com folhas da árvore bel. E para quem
adora o Senhor Janardana com folhas frescas de tulasi e flores fragrantes durante este mês, ó filho, queimo
pessoalmente até cinzas todos pecados que tenha cometido por dez mil
nascimentos.
Quem meramente vê
Tulasi Maharani, toca nela, medita nela, narra sua história, oferece
reverências a ela, ora por sua graça, planta ela, adora ela, ou rega ela, vive
eternamente na morada do Senhor Hari. ó
Narada, quem serve Tulasi devi destas nove maneiras alcança felicidade no mundo
superior por tantos milhares de yugas
quanto há raízes e sub-raízes crescendo de uma planta tulasi madura. Quando uma
planta tulasi adulta produz sementes,
muitas plantas crescem destas sementes e estendem seus galhos, galhinhos e
flores, e estas flores produzem numerosas sementes. Por tantos kalpas quanto houver sementes produzidas desta maneira, os antepassados
de quem serve tulasi destes nove modos viverão na morada do Senhor Hari. (3)
Aqueles que adoram o
Senhor Keshava com flores kadamba,
que são muito agradáveis a Ele, conseguem Sua misericórdia e não vêem a morada
de Yamaraja, a morte personificada. Qual
o sentido de adorar outra pessoa se todos desejos podem ser realizados por
satisfazer o Senhor Hari? Por exemplo,
um devoto que oferece a Ele flores bakula,
ashoka e patali se livra da
miséria e sofrimento pelo tempo que o sol e a lua existirem neste universo, e
afinal alcança liberação. ó melhor dos brahmanas, uma oferenda de flores kannera ao Senhor Jagannatha traz tanta
misericórdia ao devoto quanto a que se acumula ao adorar o Senhor Keshava por
quatro yugas. Quem oferece flores de tulasi (manjaris) a Sri Krishna durante o mês de Kartika, recebe
mais mérito do que pode ser obtido por doar dez milhöes de vacas. (4) Mesmo uma
oferenda devocional de brotos de grama recém-plantados traz consigo cem vez o
benefício obtido por adoração ritualística comum ao Supremo Senhor.
Quem adora o Senhor
Vishnu com as folhas da árvore samika
se liberta das garras de Yamaraja, o senhor da morte. Quem adora Vishnu durante a estação chuvosa
com flores de champaka ou jasmim,
nunca retorna ao planeta terra novamente.
Quem adora o Senhor com apenas uma só flor de kumbhi, alcança a benção de doar um pala de ouro (duzentas gramas).
Se um devoto oferece uma só flor amarela de ketaki, ou maça-silvestre, para o Senhor Vishnu, que cavalga
Garuda, ele se liberta dos pecados de dez milhöes de nascimentos. Além do mais, quem oferece ao Senhor
Jagannatha flores e também cem folhas ungidas com pasta vermelha e amarela de
sândalo certamente virá a residir em Svetadvipa, muito além da cobertura desta
criação material.
ó maior dos brahmanas, Sri Narada, após assim adorar
no Haribodhini Ekadashi o Senhor Keshava, Aquele que concede toda felicidade
material e espiritual, deve-se levantar cedo na manhã seguinte, tomar banho num
rio, cantar japa (5) dos santos nomes
de Krishna, e prestar serviço devocional amoroso ao Senhor em casa, o melhor
que se puder. Para quebrar o jejum, o
devoto deve primeiro oferecer alguma prasadam
a brahmanas e só depois, com a
permissão deles, comer alguns grãos.
Depois disso, para agradar o Supremo Senhor, o devoto deve adorar seu
mestre espiritual, o devoto mais puro do Senhor, e oferecer-lhe alimento
suntuoso, bom tecido, ouro, e vacas, segundo suas posses. Isso certamente agradará o Senhor Supremo,
que segura o disco.
Em seguida o devoto
deve doar uma vaca a um brahmana, e
se o devoto negligenciou seguir algumas regras e regulaçöes da vida espiritual,
deve confessá-las diante dos devotos brahmanas
do Senhor. Então o devoto deve oferecer a eles algum dakshina (dinheiro). ó rei,
aqueles que comeram jantar no Ekadashi devem alimentar um brahmana no dia seguinte.
Isso agrada muito à Suprema Personalidade de Deus.
ó filho, se um homem
jejuou sem pedir permissão a seu sacerdote, ou se uma mulher jejuou sem pedir
permissão a seu marido, ele ou ela deve doar um touro a um brahmana. Mel e iogurte
também são presentes adequados para um brahmana. Quem só comeu frutas no Ekadashi deve doar
frutas no dia seguinte. Quem jejuou de
óleo, deve doar ghee em caridade, quem jejuou de ghee deve doar leite, e quem
jejuou de grãos deve doar arroz; quem dormiu no chão deve doar um catre com uma
colcha, quem comeu numa folha a guiza de prato deve doar um pote de ghee, quem
permaneceu em silêncio deve doar um sino, e quem jejuou de gergelim deve doar
ouro em caridade e alimentar um casal brahmana
com alimento suntuoso. Um homem que
queira prevenir calvície deve doar um espelho a um brahmana, quem tem sapatos de segunda mão deve doar sapatos, e quem
jejuou do sal deve doar algum açúcar para um brahmana. Durante este mês
todos devem regularmente oferecer uma lamparina de ghee ao Senhor Vishnu ou a
Srimati Tulasi-devi num templo.
Um jejum de Ekadashi é
completo quando se oferece a um brahmana
qualificado um pote de ouro ou cobre cheio de ghee e mechas de ghee, junto com
oito potes d'água contendo algum ouro e coberto por panos. Quem não pode custear tais presentes deve ao
menos oferecer a um brahmana algumas
palavras doces. Quem assim fizer
certamente alcançará o pleno benefício de jejuar no Ekadashi.(6)
Após oferecer
reverências e implorar permissão, o devoto deve comer sua refeição. Nesse Ekadashi, finda o Chaturmasya, portanto
aquilo que se evitou durante o Chaturmasya agora deve ser doado aos brahmanas. Quem segue esse processo de Chaturmasya
recebe ilimitado mérito, ó rei dos reis, e retorna à morada do Senhor Vasudeva
após a morte. ó rei, quem observa este
Chaturmasya completo sem uma falha atinge felicidade eterna e não recebe outro
nascimento. Mas se a pessoa quebra o
jejum, se torna ou um cego ou um leproso.
Assim narrei o
processo completo para observar Haribodhini Ekadashi. Quem ler ou ouvir sobre este Ekadashi alcança
o mérito obtido por doar vacas a um brahmana
qualificado."
Assim termina a narrativa das glórias de Kartika-shukla
Ekadashi - também conhecido como Haribodhini Ekadashi ou Devothani Ekadashi -
conforme o Skanda Purana.
Notas:
(1) Os Vedas declaram:
shudrannam shudra-samparkam
shudra stri-maithunam vatha
iha janmani shudratvam
chandalah shata janmanam
"Quem come na
casa de um shudra, faz amizade com um
shudra, ou tem sexo com uma mulher shudra já se torna um shudra nesta vida. Seus cem nascimentos seguintes serão nas
casas de comedores de cachorros."
(2) O Padma Purana declara, namno balad yasya hi papa-buddhir na vidyate
tasya yamair hi suddhih. "Se
uma pessoa comete pecados sabendo, baseando-se na força do cantar do santo nome
do Senhor, não há meio de purificar-se.
Pecados cometidos sabendo são chamados de "molhados", enquanto
os cometidos sem saber se chamam de "secos". Aqui o Senhor Brahma diz que por observar
Haribodhini Ekadashi se pode erradicar todos pecados, tanto molhados como
secos.
(3) Um kalpa, que é doze horas do Senhor
Brahma, dura 4.320.000.000 anos. Como o
Senhor Krishna diz no Bhagavad-gita 8.21
que "quem chega até Minha morada nunca retorna ao mundo material",
entende-se que durante o bilhão de kalpas
em que o devoto reside na morada do Senhor Vishnu, ele realizará serviço
devocional e assim se tornará qualificado para permanecer lá eternamente.
(4) Manjaris oferecidos ao Senhor devem ser
recém-brotados e muito suaves. Manjaris mais velhos e duros não se deve
oferecer ao Senhor.
(5) No Bhagavad-gita 10.25 o Senhor Krishna
diz: yajnanam
japa yajna 'smi, "Entre os sacrifícios sou a japa, o cantar dos santos nomes". O Kali
Shantarana Upanishad declara que na Kali-yuga o cantar do Hare Krishna maha-mantra, que consiste de dezesseis
palavras, é o melhor meio de salvação.
As dezesseis palavras no Hare Krishna mantra, que Sri Chaitanya
Mahaprabhu pregava, são Hare Krishna, Hare Krishna, Krishna Krishna, Hare Hare
/ Hare Rama, Hare Rama, Rama Rama, Hare Hare.
(6) Para um Vaisnava,
caridade significa dar consciência de Krishna, especialmente o cantar do Hare
Krishna mantra. Como disse Sri Chaitanya
Mahaprabhu, eka ban to mukhe hari bol
bhai... ei matra bhiksha chai.
"ó irmão, por favor cante Hare Krishna apenas uma vez... Isto é a
única doação que peço." Se um
devoto chefe-de-família puder custeá-lo, deve dar algumas sementes de gergelim,
roupas ou alimento como caridade a uma pessoa digna, mas isso não é
obrigatório.
25 PADMINI EKADASHI
Suta Goswami
disse: "Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Janardana, qual o nome do
Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara do mês extra no ano bisexto? Como observá-lo corretamente? Por favor narra-me isso."
A Suprema
Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna, respondeu: "ó Pandava, o Ekadashi meritório que
ocorre durante a quinzena clara do mês extra do ano bisexto se chama Padmini. É muito auspicioso. A alma afortuna
nto narro para ti o
processo de jejuar no Padmini Ekadashi, o que raramente é feito até mesmo pelos
grandes sábios.
Deve-se começar seu
jejum no Dashami, o dia antes de Ekadashi, não comendo qualquer urad dhal, dhal róseo, grão-de-bico,
espinafre, mel, ou sal marinho (1), e também não comendo na casa dos outros ou
em pratos de metal de sino. Estas oito
coisas devem ser evitadas. Deve-se comer
apenas uma vez no Dashami, dormir no chão, e permanecer em celibato. No Ekadashi o devoto deve levantar cedo pela
manhã mas não deve escovar seus dentes.
Então deve tomar banho esmeradamente - num local de peregrinação, se
possível. Enquanto canta hinos sagrados
dos Vedas, deve esfregar seu corpo
com excremento de vaca misturado com barro, pasta de gergelim, grama kusha, e pó de frutas amalaki.
Então o devoto deve tomar outro banho caprichado, depois do quê deve
cantar as seguintes oraçöes:
"ó barro sagrado,
foste criado pelo Senhor Brahma, purificado por Kashyapa Muni, e levantado pelo
Senhor Krishna em Sua forma como Varaha, a encarnação de javali. ó barro, por favor purifica minha cabeça,
olhos, e outras partes. ó barro, ofereço
minhas reverências a ti. Tenha a bondade
de purificar-me para que eu possa adorar o Senhor Supremo, Hari.
ó excremento de vaca,
possuis qualidades medicinais e antissépticas porque vieste direto do estômago
de tua mãe universal, a vaca. Podes
purificar o planeta terra inteiro. Por favor
aceita minhas humildes reverências e purifica-me.
ó frutas amalaki, por favor aceitem minhas
humildes reverências. Nascesteis da
saliva do Senhor Brahma, e assim por vossa própria presença o planeta inteiro é
purificado. Por gentileza limpai e purificai
minhas partes corpóreas.
ó Supremo Senhor
Vishnu, ó deus dos deuses, ó senhor do universo, ó ser que segura a concha,
disco, maça e lótus, por favor permita-me tomar banho em todos locais sagrados
de peregrinação."
Recitando estas
excelentes oraçöes, cantando mantras
para o Senhor Varuna, e meditando em todos locais de peregrinação localizados
nas margens do Ganges, deve-se tomar banho em qualquer corpo d'agua
disponível. Então, ó Yudhishthira, o
devoto deve esfregar seu corpo, assim purificando sua boca, peito, braços e
cintura como prelúdio para adorar o Senhor Supremo, que usa brilhantes vestes
amarelas e dá prazer a todas criaturas.
Assim fazendo, o devoto irá destruir todos seus pecados. Depois, deve cantar o sagrado Gayatri mantra, oferecer oblaçöes a seus
antepassados, e então entrar num templo de Vishnu para adorar Narayana, o
marido de Lakshmi-devi.
Se possível, o devoto
deve então fazer murtis de
Radha-Krishna ou Shiva-Parvati em ouro e oferecer-lhes boa adoração
devocional. Deve encher um pote de cobre
ou barro com água pura misturada com perfumes, e depois deve cobrir o pote com
uma tampa de pano e uma de ouro ou prata, assim preparando a asana na qual murtis Radha-Krishna ou Shiva-Parvati poderão sentar para a
adoração. Conforme sua capacidade, o
devoto deve então adorar estas murtis
com incenso fragrante, uma brilhante lamparina de ghee, e pasta de sândalo,
junto com cânfora, almíscar, kunkuma,
e outros aromas, bem como flores aromáticas selecionadas como os lótus brancos
e outras flores de estação, e também alimentos muito bem preparados. Neste Ekadashi especial o devoto deve dançar
e cantar extáticamente diante da Deidade.
Deve evitar prajalpa a todo
custoe não deve falar com ou tocar em pessoas de baixo nascimento ou mulheres
no período menstrual. Neste dia deve ter
cuidado especial em falar a verdade e não deve criticar ninguém diante da
Deidade do Senhor Vishnu, dos brahmanas,
ou do mestre espiritual. Em vez disso,
com outros devotos ele deve ouvir os Vaisnavas ler as glórias do Senhor Vishnu
dos Puranas. Não se deve beber ou mesmo tocar água em seus
lábios neste Ekadashi, e quem não for capaz de realizar esta austeridade deve
beber apenas água ou leite. Senão,
considera-se quebra do jejum. Deve-se
permanecer acordado naquela noite, cantando e tocando instrumentos musicais
para o prazer transcendental da Pessoa Suprema.
Durante o primeiro
quarto da noite de Ekadashi, o devoto deve oferecer um pouco de carne de côco a
sua murti adorável, durante a segunda
parte deve oferecer fruta bel,
durante a terceira parte uma laranja, e conforme a noite se aproxima do final,
um pouco de noz de betel. Permanecer
acordado durante a primeira parte do Ekadashi concede ao devoto o mesmo mérito
como aquele obtido por realizar Agnistoma-yajna. Ficar acordado durante a segunda parte da
noite confere o mesmo mérito como o obtido por realizar Vajapeya-yajna. Ficar acordado durante a terceira parte
confere o mesmo mérito que o obtido por realizar Ashvamedha-yajna. E quem permanece acordado a noite toda recebe
todos méritos acima-mencionados, bem como o grande mérito de ter realizado
Rajasuya-yajna. Assim não há melhor dia
de jejum no ano que o Padmini Ekadashi.
Nada se compara em matéria de dar mérito, seja sacrifício de fogo,
conhecimento, educação, ou austeridade.
De fato, quem quer que observe este sagrado jejum de Ekadashi recebe
todo mérito obtido por tomar banho em todos locais de peregrinação no mundo.
Após permanecer
acordado durante a noite toda, o devoto deve tomar banho ao alvorecer do sol e
então Me adorar bem. Deve depois
alimentar um brahmana qualificado e
respeitosamente dar-lhe a murti do
Senhor Keshava e o pote cheio de água pura perfumada. Este presente garantirá ao devoto sucesso
nesta vida e liberação na próxima.
ó Yudhishthira sem
pecado, conforme pediste, descrevi as regras e regulaçöes, bem como os
benefícios relativos ao Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara do mês
adicional do ano bisexto. Jejuar neste
dia de Padmini confere mérito igual ao obtido por jejuar em todos outros
Ekadashis. O Ekadashi que ocorre durante
a parte obscura do mês extra, que é conhecido como Parama Ekadashi, é tão
poderoso para remover pecado quanto este de Padmini. Agora por favor ouça enquanto narro para ti o
fascinante relato ligado a este sagrado dia.
Pulastya Muni certa vez recitou esta história para Naradaji.
Pulastya Muni uma vez
teve a oportunidade de salvar Ravana da prisão de Kartaviryarjuna, e ao ouvir
sobre este evento, Narada Muni perguntou a seu amigo: "ó melhor dos sábios, como Ravana derrotou
todos semideuses, inclusive o Senhor Indra, como Kartaviryarjuna pode derrotar
Ravana, que era tão perito no combate?"
Pulastya Muni
replicou: "ó grande Narada, durante
a Treta-yuga Kartavirya (pai de Kartaviryarjuna) nasceu na dinastia Haihaya, Sua capital era Mahishmati, e tinha mil
rainhas, que amava muito. Nenhuma delas,
contudo, fora capaz de dar-lhe o filho que tanto queria. Realizou sacrifícios e adorou os semideuses e
antepassados, mas devido à maldição de alguns sábios ele foi incapaz de gerar
um filho - e sem um filho, um rei não pode desfrutar de seu reino, assim como
um homem com fome nunca realmente desfruta de seus sentidos.
O Rei Kartavirya
considerou sua sina cuidadosamente e então decidiu realizar severas
austeridades para alcançar sua meta.
Assim ele vestiu uma tanga feita de casca de árvore, deixou o cabelo
crescer sem pentear, e passou as rédeas de seu reino para seus ministros. Uma de suas rainhas, Padmini - que havia
nascido na dinastia Iksvaku, que era a melhor de todas mulheres, e que era
filha do Rei Harishchandra - viu o rei saindo.
Ela achava que, como era uma esposa casta, seu dever era seguir os
passos de seu amado marido. Removendo todos
ornamentos reais de seu belo corpo e vestindo apenas um corte de pano, ela
assim seguiu seu marido na floresta.
Afinal Kartavirya
chegou ao topo do Monte Gandhamadana, onde realizou severas austeridades e
penitências durante dez mil anos, meditando e orando ao Senhor Gadadhara, que
maneja uma clava. Mas ainda assim não
gerou um filho. Vendo seu querido marido
definhar até virar pele e osso, Padmini pensou numa solução para o
problema. Foi até a casta
Anusuya.(2) Com grande reverência,
Padmini disse: "ó grande senhora,
meu querido marido, Kartavirya, tem realizado austeridades durante os últimos
dez mil anos, mas o Senhor Keshava, único que pode remover nossos pecados
passados e dificuldades presentes, ainda não ficou satisfeito com ele. ó mais afortunado ser, por favor conta-me que
dia de jejum poderemos observar e assim agradar ao Senhor Supremo com nossa
devoção, tanto assim que Ele nos abençoe com um bom filho que mais tarde
governe o mundo como imperador."
Ao ouvir estas
palavras de Padmini, que era muito casta e profundamente devotada a seu marido,
a grande Anusuya respondeu-lhe num humor muito alegre: "ó linda senhora de olhos de lótus,
usualmente existem doze meses num ano, mas após cada trinta e dois meses se
adiciona mais um mês extra, e os dois Ekadashis que ocorrem durante esse mês se
chamam Padmini Ekadashi e Parama Ekadashi.
Caem nos Dvadashis da parte clara e obscura do mês, respectivamente.
(3) Deves jejuar nestes dias e
permanecer acordada durante a noite. Se
assim fizerdes, a Suprema Personalidade de Deus, Hari, irá abençoar-te com um
filho."
ó Narada, desta
maneira Anusuya, a filha do sábio Kardama, explicou a potência destes Ekadashis
especiais. Ouvindo isso, Padmini
fielmente seguiu as instruçöes para realizar seu desejo por um filho. Padmini jejuou completamente, até de água, e
permaneceu acordada toda a noite, cantando as glórias do Senhor e dançando em
êxtase. O Senhor Keshava assim ficou
muito satisfeito com sua devoção e apareceu diante dela, cavalgando o dorso do
grande Garuda. O Senhor disse: "ó lindo ser, Me agradaste muito neste
Ekadashi especial do mês extra. Por
favor peça-Me uma benção."
Ouvindo estas sublimes
palavras do supervisor do universo inteiro, Padmini ofereceu ao Senhor Supremo
oraçöes devocionais e pediu-Lhe a benção desejada por seu marido. O Senhor Sri Krishna foi levado a
responder: "ó gentil senhora, estou
muito contente contigo, pois não há mês mais querido para mim que este, e os
Ekadashis que ocorrem durante este mês para Mim são os mais queridos de todos
Ekadashis. Seguiste as instruçöes de
Anusuya perfeitamente, e portanto farei o que irá agradar-te. Tereis o filho tu e teu marido
desejais."
O Senhor, que remove o
sofrimento do mundo, então falou para o Rei Kartavirya: "ó rei, por favor peça-Me qualquer
benção que irá realizar o desejo de teu coração, pois tua querida esposa Me
satisfez grandemente."
O rei ficou muito
feliz ao ouvir isso. Naturalmente ele
pediu um filho como desejava há tanto tempo.
"ó senhor do universo, ó matador do demônio Madhu, tenha a bondade
de dar-me um filho que nunca será conquistado por semideuses, seres humanos,
serpentes, demônios, ou duendes, mas que só tu poderás derrotar!" O Senhor Supremo imediatamente
respondeu: "Que assim seja!" e
desapareceu.
O rei ficou muito
satisfeito com sua esposa e retornou a seu palácio na companhia dela. Padmini em breve ficou grávida e
Kartaviryarjuna de braços poderosos, apareceu como seu filho. Era a pessoa mais forte em todos três mundos,
e assim mesmo Ravana de dez cabeças não podia derrotá-lo no combate. Exceto o Senhor Narayana, que porta uma maça,
disco e outros símbolos em suas mãos, ninguém podia vencê-lo. Pelo mérito que resultou da estrita e fiel
observância do Padmini Ekadashi por sua mãe, ele pode derrotar até o temido
Ravana. Isso não é de todo
surpreendente, ó Naradaji, pois Kartaviryarjuna era a realização da benção da
Suprema Personalidade de Deus." Com
estas palavras, Pulastya Muni partiu."
O Senhor Supremo, Sri
Krishna, concluiu: "ó Yudhishthira
sem pecado, conforme indagaste, expliquei-te o poder deste Ekadashi
especial. ó melhor dos reis, quem quer
que observe este jejum certamente alcançará Minha morada pessoa. E similarmente, se quiseres ter todos teus
desejos realizados, deves fazer o mesmo."
Ouvindo estas palavras
de seu amado Keshava, Dharmaraja (Yudhishthira) ficou cheio de alegria, e
quando chegou a época observou fielmente Padmini Ekadashi."
Suta Goswami
concluiu: "ó sábio Shaunaka,
expliquei para ti tudo sobre este Ekadashi meritório. Quem quer que jejue devotadamente nos
Ekadashis que ocorrem durante os mêses extra do ano bisexto, cuidadosamente
seguindo todas regras, se torna glorioso e alegremente retorna a Deus. E quem quer que meramente ouça ou leia sobre
estes Ekadashis também obterá grande mérito e afinal entrará na morada do
Senhor Hari."
Assim termina a narrativa das glórias de Padmini Ekadashi,
o Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara do mês extra do ano bisexto,
conforme o Skanda Purana.
Notas:
(1) Segundo as
escrituras, nos dias de jejum se deve evitar sal marinho porque Agastya Muni certa
vez bebeu o oceano e o eliminou como urina.
Ordinariamente o sal-gema é permitido.
(2) Anusuya é a esposa
do grande sábio Atri e mãe de Dattatreya, a forma de três cabeças de Brahma,
Vishnu e Shiva combinados.
(3) Sempre que há um
mês extra, as quinzenas deste mês são divididas e adicionadas aos meses
normais.
26 PARAMA EKADASHI
Yudhishthira Maharaja
disse: "ó Senhor Supremo, qual o
nome do Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do mês extra no ano
bisexto? E ainda, ó senhor de todos universos, qual o processo para observá-lo
corretamente? Por favor narra-me tudo
isso."
A Suprema
Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna, respondeu: "ó Yudhishthira, este dia meritório se
chama Parama Ekadashi. Confere a grande
benção de uma vida agradável e afinal a liberação do nascimento e morte. O processo para observá-lo é similar àquele
para observar o Ekadashi que ocorre durante a quinzena clara do mês extra do
ano bisexto. Isto é, neste Ekadashi a
pessoa deve adorar a Mim, o melhor de todos seres, com pleno amor e
devoção. Com relação a isso agora
contarei uma história maravilhosa, assim como ouvi dos grandes sábios na cidade
de Kampilya.
Uma vez um brahmana muito piedoso chamado Sumedha
residia em Kampilya com sua esposa, Pavitra, que era extremamente casta e
devotada a seu marido. Devido a ter
cometido algum pecado numa vida anterior, Sumedha estava sem dinheiro ou grãos
alimentícios, e mesmo embora mendigasse de muitas pessoas para ter alimento,
não conseguia obter qualquer quantidade substancial. Praticamente não tinha alimento adequado,
vestes, ou abrigo para si e sua bela e jovem esposa, que tinha caráter tão
excelente que continuava a servir Sumedha fielmente apesar da pobreza. Quando vinham convidados na casa deles,
Pavitra lhes dava seu próprio alimento, e embora frequentemente ficasse com
fome, seu belo rosto semelhante a um lótus nunca desbotava. Este jejuar tornou a fraca, mas sua afeição
por Sumedha permanecia inquebrantável.
Vendo tudo isso, e
lamentando sua má sorte, Sumedha certo dia disse para Pavitra: "Minha querida esposa, ó mais bela,
mendigo doaçöes dos ricos mas mal ganho algumas sobras. Que devo fazer? Que possível alívio haverá para nossa
sina? Onde devo ir para ter alívio? ó mais obediente e amorosa esposa, sem
suficiente bens, os assuntos domésticos nunca são bem sucedidos. (1) Portanto por favor permita-me para o exterior
e obter alguns bens. Se eu fizer tal
esforço, certamente obterei a fortuna que me estiver destinada. Sem fazer algum esforço a pessoa não consegue
satisfazer seus desejos ou atender a suas necessidades. Assim os sábios disseram que o esforço
entusiasmado sempre é auspicioso. (2)"
Ao ouvir seu marido
falar estas palavras, Pavitra juntou as palmas de suas mãos e, olhos
transbordando lágrimas, falou para ele com grande respeito e afeição: "Penso que não há ninguém maior ou mais
sábio que tu, meu querido. Quem, embora
na miséria, está interessado no bem-estar dos outros, fala assim como
falaste. Contudo, as escrituras declaram
que qualquer fortuna que a pessoa obtenha nesta vida é devido a ter dado
caridade em vidas anteriores, e que se não se deu caridade nas vidas prévias,
então mesmo que se sente num monte de ouro do tamanho do Monte Sumeru, ainda se
permanece pobre. (3) Qualquer caridade
que a pessoa dê na forma de educação, dinheiro, terra fértil, e semelhantes,
lhe é devolvida numa vida futura.
Recebemos o que demos. De fato,
aquilo que o Senhor do destino, o criador, escreveu como nossa fortuna
certamente irá acontecer. Ninguém obtém
riqueza sem ter dado caridade numa vida prévia.
ó melhor dos brahmanas, como
agora estamos pobres, em nossas vidas prévias nem tu nem eu devemos ter dado
qualquer caridade a pessoas dignas.
Portanto, ó gracioso marido, deves permanecer aqui comigo. Sem ti não consigo viver sequer por um
momento.
Sem seu marido uma
esposa não é bem-vinda por seu pai, mãe, irmão, sogro, ou qualquer membro
familiar. Todos dirão: "Perdeste teu marido; és má sorte!"
Desta maneira serei severamente criticada! (4)
Por favor, portanto, fica aqui comigo e satisfaz-te com quaisquer bens
obtenhamos. O que estiver destinado,
obteremos no devido curso do tempo e desfrutaremos aqui em perfeita
felicidade."
Tendo ouvido estas
plangentes palavras de sua esposa, Sumedha decidiu permanecer no vilarejo natal
deles. Certo dia o grande sábio
Kaundinya chegou na casa deles, e ao vê-lo o brahmana Sumedha e sua esposa ficaram de pé diante dele e
ofereceram suas respeitosas reverências.
Com sua cabeça curvada, Sumedha deu as boas-vindas: "Somos muito afortunados por vê-lo aqui
hoje, ó mais sábio dos sábios. Minha
vida se tornou bem-sucedida, e me sinto muito obrigado a ti."
Sumedha ofereceu a
Kaundinya Muni um assento confortável e louvou muito suas austeridades e
erudição. "Só por ter seu darshana hoje" disse Sumedha,
"me tornei muito afortunado."
O pobre casal brahmana
alimentou o sábio tão suntuosamente
quanto podiam, e depois Pavitra perguntou ao mendicante: "ó mais sábio ser, que processo devemos
seguir para sermos aliviados de nossa pobreza?
Como pode uma pessoa que não deu qualquer caridade em sua vida anterior
para conseguir boa família, muitos bens, e uma boa educação nesta vida? Meu marido quer deixar-me aqui e ir para o
exterior mendigar donativos, mas implorei-lhe sinceramente que ficasse aqui
comigo. Disse-lhe humildemente que se
faltam bens na vida atual, é por não ter dado suficiente caridade em vidas
pretéritas. E assim ele consentiu em
ficar aqui. É só devido a minha grande
fortuna que misericordiosamente vieste aqui hoje. Agora é certo que breve veremos o fim de
nossa pobreza.
ó melhor dos brahmanas, por favor conte-nos como
poderemos ser libertados desta perpétua miséria provocada pela pobreza. ó ser misericordioso, por gentileza descreva
algum meio - um local de peregrinação que possamos visitar, ou uma austeridade
que possamos realizar - pela qual nossa má fortuna termine para sempre."
Ouvindo esta sincera
súplica daquela paciente senhora, o grande sábio Kaundinya refletiu
silenciosamente por um momento e depois disse:
"Existe um dia de jejum muito querido pela Suprema Personalidade de
Deus, o Senhor Hari. Jejuar neste dia
nulifica todo tipo de pecados e remove todas misérias causadas pela pobreza. Este dia de jejum, que ocorre durante a
quinzena obscura do mês extra do ano bisexto, é conhecido como Parama
Ekadashi. É o maior dia do Senhor
Vishnu. Este Ekadashi do mês extra na
quinzena obscura concede todas necessidades de vida, tais como dinheiro e grãos
alimentícios, e afinal dá liberação.
Quando vem a noite deste dia, deve-se começar a cantar as glórias do
Senhor e dançar em êxtase, e deve-se continuar pela noite toda.
Este sagrado jejum
certa vez foi observado fielmente pelo Senhor Kuvera. Quando o Senhor Shiva viu quão estritamente
ele jejuara, Shiva ficou muito satisfeito e tornou Kuvera tesoureiro do
céu. Também o Rei Harishchandra jejuou
neste Ekadashi depois que sua querida esposa e filho tinham sido vendidos, e o
rei pode reavê-los. Depois disso ele
governou seu reino sem mais nenhum impedimento.
Portanto, ó senhora de grandes olhos, deves observar este sagrado jejum
de Parama Ekadashi, seguindo todas regras e regulaçöes apropriadas e
permanecendo acordada toda a noite."
O Senhor Krishna
continuou: "ó Yudhishthira, filho
de Pandu, desta maneira Kaundinya Muni misericordiosa e afetuosamente instruiu
Pavitra sobre o jejum de Parama Ekadashi.
Depois falou para Sumedha:
"No Dvadashi, o dia após Ekadashi, deves fazer voto de observar
jejum de Pancharatrika conforme as regras e regulaçöes. Após tomar banho cedo de manhã, tu e tua boa
esposa, junto com teus pais e os dela, devem jejuar por cinco dias de acordo
com sua capacidade. Então vos tornareis
todos qualificados para retornar para casa, para a morada do Senhor Vishnu.
Uma pessoa que
simplesmente se utiliza apenas de um assento durantee estes cinco dias vai para
os planetas celestiais. Quem quer que
alimente bem brahmanas qualificados
nesses cinco dias de fato alimentou todos semideuses, todos seres humanos, e
mesmo todos os demônios. Quem quer que
doe um pote de água potável a um brahmana
duas-vezes nascido durante este período de cinco dias de jejum obterá mérito
igual a doar o planeta inteiro como caridade.
Quem quer que dê para uma pessoa erudita um pote cheio de sementes de
gergelim reside no céu por tantos anos quanto haja sementes no pote. Quem doa um pote cheio de ghee dourado
certamente irá para a morada do deus do sol após gozar plenamente dos prazeres
deste planeta terreno. Quem quer que
permaneça celibatário durante estes cinco dias obterá felicidade celestial e
desfrutará com as donzelas de Indraloka.
Portanto ambos - Sumedha e Pavitra - deveis jejuar durante estes cinco
dias de Pancaratrika a fim de serdes recompensados com amplos grãos e bens para
o resto de vossas vidas neste planeta. O
mundo espiritual será vossa morada depois disso."
Ouvindo este sublime
conselho, o casal brahmana, Sumedha e
Pavitra, observaram devidamente Parama Ekadashi e o jejum de Pancaratrika, e
dentro em breve viram um belo príncipe se aproximando deles vindo do palácio
real. Sob ordens do Senhor Brahma, o
príncipe lhes deu uma bela casa finamente mobiliada e os convidou a viver nela. Louvando sua austeridade e paciência, também
lhes deu um vilarejo inteiro para seu sustento.
Então ele retornou ao palácio.
Assim Sumedha e sua esposa gozaram de todo tipo de facilidades neste
mundo e afinal foram para a morada de Vishnu.
Quem quer que observe
um jejum no Parama Ekadashi e também o jejum de Pancaratrika, se liberta de
todos seus pecados, e depois de desfrutar da vida aqui retorna a Vishnuloka,
como fizeram o brahmana Sumedha e sua
fiel esposa Pavitra. É impossível, ó
Yudhishthira, calcular a extensão do mérito que se obtém por jejuar no Parama
Ekadashi, pois tal observância é igual a tomar banho em local de peregrinação
como o Lago de Pushkara e o Rio Ganges, dar vacas em caridade, e realizar toda
sorte de outras atividades religiosas.
Quem jejua neste dia também completou as oferendas de oblaçöes a seus
antepassados em Gaya. Com efeito, jejuou
em todos outros dias auspiciosos.
Como na ordem social o
brahmana é considerado o melhor, como
entre as criaturas de quatro pernas a vaca é a melhor, e como entre semideuses
o Senhor Indra é o melhor, assim entre os meses o mês extra do ano bisexto é o
melhor. O jejum Pancaratrika - o jejum
de cinco dias no mês extra do ano bisexto - dizem remover todos tipos de
pecados abomináveis. Mas o jejum
Pancaratrika, junto com os jejuns no Parama e Padmini Ekadashis, destrói todos
pecados da pessoa. Se uma pessoa é
incapaz de jejuar em todos esses dias, deve observar os jejuns durante o mês
extra conforme sua capacidade. Uma
pessoa que, tendo recebido um nascimento humano, não toma um devido banho
durante este mês extra e depois observa estes Ekadashis, que são muito queridos
pelo Senhor Hari, comete suicídio e sofre no ciclo de 8.400.000 espécies. O raro nascimento humano destina-se a
acumular mérito e afinal atingir a liberação.
Portanto deve-se de qualquer maneira observar jejum neste auspicioso
Parama Ekadashi."
O Senhor Sri Krishna
concluiu: "ó Yudhishthira sem
pecado, conforme pediste, descrive para ti o maravilhoso mérito que se pode
obter por jejuar no Ekadashi chamado Parama, que ocorre durante a parte obscura
do mês extra do ano bisexto. Deves
observar este jejum se é de todo possível."
O Rei Yudhishthira fez
exatamente como o Senhor Krishna havia instruído, e assim também fizeram todos
seus irmãos e sua esposa, Draupadi. Após
desfrutar prazeres raramente obtidos neste mundo material, retornaram ao lar,
de volta para Deus. Quem quer que, após
tomar o devido banho, observe um jejum nestes dois Ekadashis do mês extra irá para o céu e finalmente obterá a morada
de Sri Vishnu, e enquanto viaja para lá será louvado e receberá oraçöes de
todos semideuses.
Assim termina a narrativa das glórias de Parama Ekadashi,
o Ekadashi que ocorre durante a quinzena obscura do mês extra do ano bisexto,
conforme o Skanda Purana.
Notas:
(1) Chanakya Pandita
diz na vandhu madhye dhanahina jivanam: "Sem bens, a vida de um chefe-de-família
é inútil."
(2) As escrituras reveladas declaram udyoginah singham upaiti lakshmi daivena
deyati ka purushah vadanti:
"Quem se esforça entusiasticamente certamente obterá sucesso, mas
quem meramente diz "Aceito minha sorte na vida" é um homem
preguiçoso."
(3) As escrituras védicas declaram:
purva-janmarjitam vidya
purva-janmarjitam dhanam
purva-janmarjitam kanya
agre dhavati dhavatih
"Conhecimento
transcendental, educação espiritual, bens satisfatórios, e agradar membros
familiares é o que adquire a pessoa que deu profusa caridade. Qualquer bem que a pessoa faça retorna para
ela multiplicado."
No Manu-miti, Manu Maharaja diz bhagyam phalanti sarvatra na ca vidya na ca
paurusham: "O que estiver
predestinado por Viddhata, aquele que faz a fortuna, certamente irá
acontecer. Nossa assim-chamada boa
educação, habilidade, e entusiasmo não trarão sucesso."
(4) O Niti-shastra diz vinya ashraye na tishthanti panditah vanita latah: "Sem o devido abrigo e apoio
r
austeridade. Se seu marido estiver
satisfeito, ela pensa que o Senhor Supremo e todos semideuses estão contentes. O Senhor Supremo inclui todos os
semideuses."
SOBRE O AUTOR
Krishna Balaram Swami
(Balaram Sharma) nasceu numa família de Vaisnavas em 1º de julho, 1956 em
Vrndavana, o local mais sagrado da India.
Apareceu numa esclarecida família Gauda-brahmana descendente de Kashyapa Muni (um dos sete filhos mentais
de Brahma) especializada no Yajur Veda. O local de nascimento de Balaram Sharma
ficava à sombra de um antigo templo de Krishna-Balarama em Nandagram, principal
vilarejo de Vrndavana e local onde o Senhor Krishna desfrutou de Seus primeiros
passatempos infantis há uns cinco mil anos atrás.
Balaram e seus quatro
irmãos mais novos trouxeram grande alegria ao pai deles, Sri Hare Krishna
Pandeya, que era um brahmana ortodoxo
e renomado estudioso e astrólogo, bem como mestre espiritual de centenas de
pessoas na área de Vrndavana. Tendo
calculado o horóscopo de Balaram, Sri Hare Krishna Pandeya começou a anunciar
para os convidados visitantes:
"Este filho será o primeiro em nossa família a pregar cultura védica
no idioma inglês." E a mãe de
Balaram também fez uma previsão, após ler sua palma da mão: "Este menino se tornará um distinto sannyasi (renunciante)". Ambas
previsöes se cumpriram.
Mesmo antes de ter
idade escolar, Balaram foi levado pela India afora por seu pai quando visitou
os mais importantes centros espirituais e templos. Em Vrndavan Balaram exibiu atração espontânea
por tocar o tambor mrdanga e karatalas (címbalos) durante Krishna bhajans e kirtanas. Frequentemente
acompanhava seu pai durante suas visitas regulares aos famosos templos de
Krishna e outros locais sagrados em Vrndavana, tais como o bhajan kutir de Lokanatha
Goswami no Radha-kunda.
Sri Hare Krishna
Pandeya não queria que Balaram fosse influenciado pelo materialismo nas escolas
públicas, portanto ensinava Balaram pessoalmente em casa, dando especial
atenção a treiná-lo na memorização de versos sânscritos do dicionário Amara-kosha que tratavam das muitas
escolas de filosofia indiana. Quando
Balaram completou oito anos, seu pai matriculou-o na conhecida Nimbarka
Maha-vidyalaya de sânscrito, onde ele aprendeu as principais matérias em apenas
seis anos e se tornou proficiente em gramática sânscrita e literatura. Após transferir-se para uma faculdade
inglesa, Balaram obteve pleno comando do idioma inglês e completou sua educação
em 1973.
Antes de deixar a
faculdade, leu muitos dos livros de Srila Prabhupada, inclusive Sri Ishopanishad, Néctar da Devoção,
Bhagavad-gita Como Ele É. Atraído e
impressionado por estes livros, Balaram decidiu juntar-se a recém-aberta filial
da ISKCON em Vrndavana. Enquanto ainda
frequentava a faculdade, mudou-se para a rústica residência no local da
construção do templo Krishna-Balaram, na tranquila área de Ramana-Reti de
Vrndavana.
Em 1975, na grande inauguração
do templo Krishna-Balaram, Srila Prabhupada aceitou formalmente Balaram como
seu discípulo, dando-lhe o nome de Krishna Balaram dasa. Após receber a segunda iniciação pouco depois
disso, Krishna Balaram começou a pregar consciência de Krishna pela India
afora, e em 1977, por ordem de Srila Prabhupada, viajou para Sri Lanka para
divulgar a ciência de Krishna ali.
Realizando a profecia
de seu pai e os desejos de seu mestre espiritual eterno, Srila Prabhupada,
Krishna Balaram tem continuado a disseminar os ensinamentos de Krishna pela
Europa, Canadá, e Estados Unidos. Seu
esmerado conhecimento das escrituras, aliado à sua pureza espiritual, seu
"encanto de Vrndavana", e seu colorido porém claramente compreensível
inglês, tem atraído novatos para a sociedade ISKCON de Srila Prabhupada.
Depois que Krishna
Balaram recebeu iniciação de sannyasa
em 1983, muitos devotos estudiosos o encorajaram a traduzir obras Vaisnavas do
sânscrito para inglês. Esperamos que
este primeiro livro, Ekadashi - o dia do Senhor
Hari, agrade à comunidade dos Vaisnavas e encoraje os não-devotos que o
lerem a embarcar na senda do serviço devocional puro ao Senhor Krishna, a
Suprema Personalidade de Deus.
GLOSSARIO
Acamana - ritual de purificação no qual se sorve água
e simultaneamente se canta os santos nomes do Senhor Supremo.
Acharya - um mestre espiritual que ensina pelo
exemplo.
Agastya Muni - um grande sábio autor de muitos hinos e
escritos védicos sobre medicina ayurvédica. O filho de Mitra e Varuna, nasceu de uma
jarra d'água. Certa vez engoliu o oceano
e forçou a cadeia montanhosa Vindhya a prostrar-se diante dele.
Agni - semideus do fogo.
Atua como a língua do Senhor Krishna nos sacrifícios de fogo.
Agnistoma - sacrifício realizado por uma pessoa que
quer ir para o céu. Requer-se um mínimo
de dezesseis sacerdotes para este sacrifício, que dura cinco dias.
Agrahayana - nome do mês de Margashirsha (nov/dez). No Vaisnavismo contemporâneo é conhecido como
o mês de Keshava.
Alakapuri - residência de Kuvera, tesoureiro dos
semideuses. Fica num pico nos Himalayas.
Amalaki - árvore que Narada Muni trouxe do mundo
espiritual para o reino material para agradar o Senhor Supremo. Seus frutos são muito ricos em vitamina C.
Amarakosha - dicionário de sânscrito e pequena
enciclopédia largamente utilizado no ensino do sânscrito.
Amaravati - capital da morada celestial de Indra. Possui o poder de aumentar muito o tempo de
vida de seus residentes.
Amavasya - a noite da lua nova, ou lua negra, quando
vários sacrifícios são oferecidos tanto aos semideuses como aos demônios.
Angira Rishi - um dos sete sábios do primeiro manvantara, todos os quais nasceram
diretamente do Senhor Brahma. Um dos
Prajapatis, é o autor dos escritos védicos sobre astronomia.
Anusuya - esposa de Atri Muni, o sábio dentre os
semideuses. É a mãe do Senhor Dattatreya
de três cabeças.
Apsara - linda mulher na sociedade dos planetas celestiais.
Arca-murti - forma autorizada da Deidade que é adorada
formalmente. Pode ser feita em pedra,
metal, terra, areia, madeira, tinta, ou jóias, ou até na mente.
Arjuna - um dos cinco irmãos Pandavas e amigo chegado de
Krishna. O Senhor falou o Bhagavad-gita para ele.
Ashoka - árvore com longas folhas pontiagudas. A Deusa Sita foi colocada sob uma árvore ashoka após ser raptada por Ravana.
Ashrama - casa do mestre espiritual, ou residência
utilizada para propósitos espirituais por estudantes celibatários,
chefes-de-família, reclusos, ou renunciantes.
Astavakra - fundador da filosofia Mayavada, que declara
que a refulgência espiritual (Brahman) é a causa de todas causas.
Ashvamedha-yajna - sacrifício de cavalo. Um dos oito recomendados pelas escrituras
védicas, é realizado por reis.
Ashvina - terceiro mês do jejum de quatro meses,
Chaturmasya.
Atharva Veda - quarto Veda,
consistindo primordialmente de fórmulas e cantos destinados a contrariarem os
efeitos da doença e calamidade.
Atri Rishi - um dos sete sábios. É o marido de Anusuya e pai de
Dattatreya. Contibuiu para o
conhecimento da astronomia.
Ayurveda - ciência da medicina transmitida pelo Senhor
Danvantari, encarnação do Senhor Supremo como médico. Nasceu do oceano de leite quando este foi batido
pelos demônios e semideuses na Satya-yuga.
Expôs as três categorias da medicina.
Badarikashrama - local sagrado de peregrinação nos
Himalayas. É a morada do Senhor
Nara-Narayana, que sentou sob uma árvore badari
(ameixeira) para realizar austeridades.
Bakula - flor fragrante muito agradável ao Senhor Krishna.
Bel-phala - fruto da árvore bel. É especialmente querido
pelo Senhor Shiva e tem grande valor medicinal.
Sua polpa é muito suavizante.
Bhagavad-gita - os ensinamentos sagrados da Suprema
Personalidade de Deus, o Senhor Sri Krishna, falados para Seu amigo Arjuna no
campo de batalha de Kurukshetra. A
tradução inglesa de Srila Prabhupada com comentários se chama Bhagavad-gita Como Ele É.
Bhagavan - a Suprema Personalidade de Deus, que possui
plenamente as opulências de riqueza, beleza, força, conhecimento, fama, e
renúncia.
Bhakti-sandarbha - um dos seis tratados sobre a ciência do
serviço devocional escrito por Sri Jiva Goswami.
Bharata-varsha - nome da Terra (agora India), derivado do Rei
Bharata, um grande rei que era filho mais velho do Senhor Rishabhadeva.
Bhavishya Purana - um dois dezoito Puranas. Foi falado pelo
Senhor Brahma e trata de eventos futuros e ritos e observâncias religiosas.
Bhavishya-uttara Purana - última seção do Bhavishya Purana.
Bhishmadeva - avô dos Pandavas, e mais poderoso e
venerável guerreiro no campo de batalha de Kurukshetra. Foi reconhecido como um dos doze mahajanas, autoridades no serviço
devocional ao Senhor.
Brahma - primeiro ser criado no universo. Doze de suas horas equivalem a 4.320.000.000
anos terráqueos, e seu tempo de vida é mais do que 311 trilhöes de nossos anos.
Brahmachari - estudante celibatário; membro da primeira
ordem de vida espiritual.
Brahma-muhurta - período auspicioso de uma e meia horas até
cinquenta minutos antes do alvorecer.
Brahmana - pessoa duas-vezes nascida e líder das
ordens sociais na sociedade; perito em conhecimento védico e consciência de
Deus.
Brahmanda Purana - um dos dezoito Puranas. Foi revelado pelo
Senhor Brahma e contém conhecimento sobre este brahmanda ou universo esférico, e futuros milênios.
Brahmani - esposa de um brahmana.
Brahma-vaivarta Purana - um dos dezoito Puranas. Contém oraçöes e
invocaçöes dirigidas ao Senhor Sri Krishna, bem como descriçöes de Seus
passatempos transcendentais com Srimati Radharani e as outras pastorinhas de
Vrndavana.
Chaithanya-charitamrta - biografia do Senhor Chaitanya
Mahaprabhu por Srila Krishnadasa Kaviraja Goswami. Escrita em Bengali, com muitos versos
sânscritos também, é considerado o livro mais autorizado sobre a vida e
ensinamentos do Senhor Chaitanya.
Chaitanya Mahaprabhu - Senhor Krishna no aspecto de Seu
próprio devoto. Descendeu para ensinar o
amor puro por Deus por meio do sankirtana,
canto congregacional dos santos nomes de Deus.
Chakora - pássaro que só bebe água do Shvati
Nakshatra.
Champaka-pushpa - flor amarelada e muito fragrante da árvore champaka. Esta flor é muito querida por Krishna.
Chanakya - conselheiro brahmana do Rei Chandragupta, que reverteu a invasão da India por
Alexandre o Grande.
Chaturdasi - décimo quarto dia da lua minguante e
crescente.
Cintamani - jóia espiritual encontrada no reino
transcendental. Realiza todos desejos de
quem a possui.
Citragupta - secretário pessoal de Yamaraja, que é
senhor da morte. Ele registra os atos
piedosos e maus das entidades vivas.
Citrasena - filho de Vishva-vasu e líder dos
Gandharvas, músicos do céu.
Cyavana - filho de Bhrgu Muni e autor de um texto sobre
astronomia. Ele é um dos sete grandes
sábios do segundo manvantara.
Dal - sementes comestíveis de vários legumes. Ervilhas, feijöes, e lentilhas são
exemplos. Exceto o dal rosa, todos são comidos pelos devotos de Krishna.
Dakshina - presente dado ao mestre espiritual no ato
da iniciação.
Dalbhya Muni - sábio antigo e gramático.
Damodara - nome de Sri Krishna significando
"alguém amarrado na cintura por uma corda". Este nome refere-se ao passatempo do Senhor
de permitir que mãe Yashoda O amarrasse.
Dandavat - reverência prostrada oferecida a uma
personalidade elevada, tal como o mestre espiritual ou a Suprema Personalidade
de Deus. A palavra literalmente
significa "como uma vara".
Vide também Sastanga-pranama.
Darshana - ato de ver e ser visto pela Deidade no
templo ou uma pessoa espiritualmente avançada.
Dashami - dia antes de Ekadashi, quando nos
preparamos para observar o sagrado jejum.
Dattatreya - encarnação combinada de Brahma, Vishnu, e
Shiva. Nasceu de Anusuya com Atri Muni.
Davanala - incêndio florestal; frequentemente se
refere ao fogo auto-engendrado da existência material.
Devaki - mãe do Senhor Krishna.
Era filha do Rei Devaka e esposa de Vasudeva.
Devarishi - um sábio entre os semideuses; geralmente se
refere a Narada Muni.
Devashayani - o Ekadashi que ocorre quando os semideuses
vão dormir.
Devotthani - o Ekadashi que ocorre quando os semideuses
acordam do sono.
Dhananjaya - nome de Arjuna significando "aquele
que obtém grande riqueza através da conquista". Este nome se refere ao fato de Arjuna ter
coletado grande riqueza para o sacrifício Rajasuya de Yudhishthira.
Dharmaraja - nome de Yudhishthira, primeiro filho de
Pandu, ou para Yamaraja, o senhor da morte.
Significa "rei da religiosidade".
Dilipa - filho de Ansuman e pai de Bhagiratha. Nasceu na dinastia solar e foi ancestral do
Senhor Ramachandra.
Dosha - um dos três constituintes do corpo, segundo o Ayurveda. São kapha
(muco), pitta (bílis), e vayu (ar).
Dvadashi - dia seguinte ao Ekadashi, quando se quebra
o jejum por comer grãos.
Gadadhara - nome da Personalidade de Deus significando
"aquele que maneja uma maça (numa de Suas quatro mãos)."
Gandhamadana - montanha situada a leste do Monte
Meru. Conhecida por suas fragrantes
florestas, forma o limite entre Ilavrta-varsha e Bharata-varsha.
Garuda - filho de Aditi e Kashyapa que toma a forma de uma
águia, eterna montaria do Senhor Vishnu.
Gautama Muni - um dos sete filhos nascidos da mente do
Senhor Brahma. Pertence à família de
Angira Rishi e é o autor do Nyaya-shastra,
a ciência da lógica, que explica que a combinação dos átomos é a causa de tudo.
Gaya - a cidade, agora no estado de Bihar, onde o Senhor
Buddha obteve nirvana. Este é um dos quatro locais na India onde
muitos peregrinos vem para oferecer oblaçöes a ancestrais falecidos.
Gayatri - mantra
sagrado que um brahmana canta
silenciosamente três vezes ao dia.
Ghee - manteiga clarificada.
Usada na cozinha, na realização de sacrifícios, e para outras atividades
de adoração.
Goloka - planeta mais elevado no reino de Deus. Também conhecido como Krishnaloka.
Goswami - pessoa que tem seus sentidos plenamente sob
controle; título da pessoa na ordem renunciada de vida, sannyasa.
Govinda - nome do Senhor Krishna que significa "Aquele
que dá prazer aos sentidos, aos brahmanas,
às vacas, e à Terra."
Hanuman - macaco que era grande devoto do Senhor
Ramachandra. Décima primeira porção de
Rudra, apareceu como o filho de Vayu, deus do ar, e Anjana, filha de Gautama
Rishi.
Hari - nome da Suprema Personalidade de Deus significando
"Aquele que remove os obstáculos do nosso progresso espiritual".
Haridvara (Hardwar) - famoso local de peregrinação no norte, ao
pé dos Himalayas. Foi para onde Ajamila
foi para se purificar, onde Prajapati Daksha realizou seu sacrifício e perdeu
sua filha Sati, e onde algumas gotas de néctar caindo da mão de Mohini-murti, a
encarnação do Senhor como mulher, caíram.
Por que essas gotas de néctar caíram, há um Kumbha-mela aqui a cada doze
anos. Hoje em dia a cidade é conhecida
como Haradwara, significando "portão para o Senhor Shiva".
Harishchandra - vigésimo oitavo rei na Treta-yuga. Apareceu na dinastia do sol como o filho de
Trishanku, e é celebrado no Markandeya
Purana como o rei piedoso que satisfez Vishvamitra Muni sacrificando seu
reino, esposa e filho.
Hrshikesha - nome do Senhor Supremo significando
"senhor dos sentidos".
Iksvaku - filho do deus do sol, Vivasvan, e primeiro
rei do planeta Terra.
Indra - rei do céu. É o
filho de Aditi e principal semideus administrativo.
Isha - a Suprema Personalidade de Deus.
Jagannatha - o Senhor do Universo, que aparece em
madeira na forma da Deidade em Puri, India.
Jaimini - propagador da filosofia Karma-mimamsa. Teorizava que se a atividade fruitiva for bem
executada, então Deus é obrigado a dar os resultados.
Jambira - fruta cítrica com numerosas sementes.
Janardana - nome para a Suprema Personalidade de Deus
significando "Aquele que é a morada original e protetor de todos seres
vivos".
Japa - cantar os santos nomes do Senhor baixinho em contas.
Jatayu - devoto do Senhor Rama que era rei dos abutres, filho de
Aruna, e irmão de Sampati. Lutou com o
demônio Ravana, quando este último raptou Sita, a consorte do Senhor
Ramachandra.
Jnanagamya - nome da Suprema Personalidade de Deus
significando "Aquele que compreendeu através do conhecimento dos Vedas".
Kabandha - filho de Sri. Indra certa vez apertou suas pernas e cabeça
para dentro de sua barriga como punição.
Indra previu que até que seus longos braços fossem cortados pelo Senhor
Rama (o que mais tarde aconteceu), Kabandha não conseguiria ter paz.
Kali-yuga - a era atual, última e mais curta das quatro
eras cíclicas do universo. Nesta era da
hipocrisia e discórdia, o Senhor Supremo advém na forma do Senhor Chaitanya e
do Santo Nome.
Kanada - propagador da filosofia Vaisheshika, que declara que os
átomos são a causa original da criação.
Kashyapa Muni - um dos sete filhos mentais do Senhor
Brahma.
Kunkuma - pó vermelho usado por mulheres casadas para
decorar suas testas.
Kunti-devi - mãe dos Pandavas e tia do Senhor Krishna.
Kurma Purana - um dos dezoito Puranas. Descreve os
passatempos da encarnação de tartaruga do Senhor.
Kurukshetra - campo de batalha a noventa milhas ao norte
de Nova Delhi onde o Senhor Krishna falou o Bhagavad-gita
e foi travada uma grande guerra. É um
local de peregrinação.
Lakshmana - irmão mais jovem do Senhor
Ramachandra. Encarnação de Shankarshana,
acompanhou Rama e Sita em Seu exílio.
Lanka - a cidade dourada de Ravana, situada apenas a oitocentas
milhas ao sul da India.
Loka-pala - termo genérico para a deidade que preside
sobre uma das direçöes: Indra no leste,
Agni no sudeste, Yama no sul, Surya no sudeste, Varuna no oeste, Vayu no noroeste,
Kuvera no norte, e Chandra no nordeste.
Madhava - nome da Suprema Personalidade de Deus
significando "Aquele que apareceu na dinastia Madhu". Também é um nome para a dinastia Yadu.
Maha-dvadasi - dia após Ekadashi, celebrado em vez do
Ekadashi devido à coincidência
astrológica. O Senhor Krishna chama-o de
Ekadashi se um jejum for observado
naquele dia.
Maha-maya - natureza material; potência externa do
Senhor Supremo, que confunde as entidades vivas condicionadas. É personificada como Durga-devi.
Maha-prasadam - alimento santificado que consiste de restos
do prato oferecido diretamente ao Senhor.
Maharaja - termo de tratamento para um rei ou pessoa
na ordem renunciada.
Mahashakti - potência interna do Senhor Supremo.
Malyavan - um grande demônio.
Manasarovara - lago ao norte da India, perto do Monte
Kailasha.
Mandaracala - montanha usada pelos semideuses e demônios
para bater o oceano de leite e assim extrair o néctar.
Manjari - flor da planta tulasi. Manjaris, junto com
folhas de tulasi, são oferecidos
apenas para a Suprema Personalidade de Deus.
Devem ser frescos.
Manjughosha - senhora da sociedade dos planetas
celestiais.
Mantra - vibração sonora pura que, quando repetida seguidamente,
libera a mente da contaminação material.
Manu - Svayambhuva Manu, o pai original e legislador da raça
humana; também, nome genérico para qualquer dos governantes universais que
aparecem a cada dia do Senhor Brahma.
Seus nomes: 1. Svayambhuva 2.
Svarocisha 3. Uttama 4. Tamasa 5. Raivata 6. Cakshusha 7. Vaivasvata 8. Savarni
9. Daksha-savarni 10. Brahma-savarni 11. Dharma-savarni 12. Rudra-savarni 13.
Deva-savarni 14. Indra-savarni.
Markandeya Rishi - antigo sábio que narrou o Markandeya Purana, que descreve a
natureza de Krishna. Contemplou o Senhor
deitando numa folha de banyan durante o período da devastação universal.
Maruts - deuses do ar.
São 49 e filhos de Diti.
Mata Saci - mãe do Senhor Sri Chaitanya Mahaprabhu e
esposa de Nilambara Chakravarti.
Math - templo do Senhor com uma residência anexa para brahmacharis (estudantes celibatários) e
sannyasis (renunciantes) viverem.
Mayavada - Vide Astavakra.
Mimamsa - Vide Jaimini.
Mohini - encarnação do Senhor Supremo como mulher. Distribuiu o néctar produzido pelo bater do
oceano de leite. Também foi assediada
pelo Senhor Shiva.
Mrttika - barro derivado da terra molhada.
Mukunda - nome da Suprema Personalidade de Deus
significando "salvador das almas caídas".
Naga - serpente.
Shesha-naga é a encarnação do Senhor Shankarshana, ou Baladeva.
Nagapatni - esposa de uma serpente.
Nagara - uma cidade.
Naimisharanya - floresta onde dezoito Puranas foram falados e que dizem ser o cubo da roda do
universo.
Nakshatra - um
asterismo. Na astrologia védico há 27
asterismos.
Nakula - mangusto, inimigo das serpentes. Também, o quarto irmão Pandava.
Nandana-kanana - linda floresta no mundo celestial onde o
Senhor Indra se diverte com sua esposa e onde há música e dança celestiais.
Nara - a raça humana ou ser humano.
Narada Muni - devoto puro do Senhor que viaja pelo
universo divulgando a ciência de bhakti. É um dos filhos do Senhor Brahma, nascido de
sua deliberação.
Narakeshvara - nome do Senhor Supremo, bem como de
Yamaraja, significando "Aquele que está encarregado das regiöes
infernais".
Narayana - nome da Suprema Personalidade de Deus
significando "Aquele que é a fonte e meta de todas entidades vivas".
Navami - nono dia da lua minguante ou crescente.
Nirjala - jejuar completamente, até de água.
Nrshimha Purana - um dos dezoito Puranas. Descreve os
passatempos do Senhor Supremo em sua encarnação meio-homem, meio-leão.
Nyaya - vide Gautama.
Padmanabha - nome da Suprema Personalidade de Deus
significando "Aquele que tem uma flor de lótus brotando de Seu
umbigo" ou "Aquele cujo umbigo parece um lótus".
Padma Purana - um dos dezoito Puranas. Consiste de uma
conversa entre o Senhor Shiva e sua esposa Parvati.
Pancali - Draupadi, esposa dos Pandavas.
Pancaratrika - processo de adorar a Deidade, conforme explicado
por Narada Muni. Também um jejum de
cinco dias, conforme explicado por Kaundinya Rishi.
Pandavas - os cinco irmãos kshatriyas Yudhishthira,
Bhima, Arjuna, Nakula, e Sahadeva.
Eram amigos íntimos do Senhor Krishna e herdaram a liderança do mundo
quando de sua vitória sobre os Kurus na batalha de Kurukshetra.
Pandu - pai dos cinco irmãos Pandavas.
Papaharini - nome do Ekadashi que ocorre durante a parte
obscura do mês de Caitra. Significa
"aquilo que leva embora o pecado".
Outro nome para esse dia, com o mesmo significado, é Papamocani.
Papankusha - nome do Ekadashi que ocorre durante a parte
clara do mês de Ashvina. Significa
"aquilo que tem o poder de trespassar o pecado personificado."
Parijata - extraordinária flor branca cheirosa que o
Senhor Krishna trouxe dos planetas celestiais para Sua esposa Rukmini.
Parvata Muni - grande sábio que é companheiro constante de
Narada Muni.
Parvati - Sati, consorte do Senhor Shiva. Renasceu como filha de Himalaya depois de
auto-imolar-se num fogo místico na arena sacrificial de Daksha.
Pasha - laço místico usado para capturar Bali Maharaja.
Patala - sétima camada dos sistemas planetários inferiores, onde
reina Bali Maharaja.
Patanjali - propagador do yoga místico. Imaginava a forma da Verdade Absoluta em
tudo.
Pishacha - duende seguidor de Shiva.
Prabodhini - vide Devotthani.
Prajalpa - conversa fiada sobre assuntos mundanos.
Prashadam - alimento santificado. Vide também Maha-prasadam.
Prayaga - nome original de Allahabad. Um Magha-mela e um Kumbha-mela são celebrados
ali. Nessas ocasiöes milhöes se banham
na confluência de três rios sagrados - o Ganges, o Yamuna, e o Sarasvati.
Prtha - mãe dos Pandavas e tia do Senhor Krishna. Vide também Kunti-devi.
Pundarikaksha - nome da Suprema Personalidade de Deus
significando "Aquele cujos olhos são como o lótus avermelhado."
Punya-karma - atividades piedosas, que ajudam a
liberar-nos do ciclo de nascimentos e morte no mundo material.
Purana - relato histórico das atividades do Senhor Supremo e de
Seus devotos.
Purusha-shukta - hino sagrado glorificando a Superalma do
universo.
Purushottama - nome da Suprema Personalidade de Deus
significando "a pessoa mais exaltada".
Purvashadha - um dos 27 asterismos na astrologia védica.
Pushkara - lago na India ocidental querido pelo Senhor
Brahma. Neste local de peregrinação fica
o único templo autorizado do Senhor Brahma no mundo.
Pushpadanta - nome da Suprema Personalidade de Deus
significando "Aquele cujos dentes são brancos como uma flor de
jasmim". Também, um devoto do
Senhor Shiva conhecido por seu talento poético.
Radharani - a personificação da potência de prazer do
Senhor Krishna. Apareceu neste mundo
como filha do Rei Vrshabhanu e Kirti-devi e é Rainha de Vrndavana.
Radhashtami - aniversário de aparecimento de Srimati
Radharani.
Raghava - O Senhor Ramachandra, que apareceu na
dinastia Raghu, a dinastia solar.
Rajasuya-yajna - sacrifício elaborado que estabelece quem é
o imperador do mundo. Foi realizado por
Maharaja Yudhishthira antes da batalha de Kurukshetra.
Ramachandra - a encarnação da Suprema Personalidade de
Deus como filho de Maharaja Dasaratha e matador de Ravana.
Rama Navami - aniversário de aparecimento do Senhor
Ramachandra.
Ravana - um grande demônio morto pelo Senhor Ramachandra. O passatempo é descrito no poema épico Ramayana, pelo sábio Valmiki.
Rtvik - aquele que atua representando seu preceptor.
Saci-devi - mãe de Sri Chaitanya Mahaprabhu.
Sahadeva - quarto irmão Pandava e gêmeo de Nakula.
Sahasra-shirsha - nome da Suprema Personalidade de Deus
significando "Aquele que tem mil cabeças".
Shivaísta - quem adora Shiva como o Senhor Supremo.
Shivaísmo - filosofia da Shiva-sampradaya, a sucessão discipular descendente do Senhor
Shiva.
Shaka - vegetal folhoso favorito do Senhor Chaitanya.
Shala - árvore de madeira nobre enontrada no norte da India.
Shalagrama-shila - Deidade adorável do Senhor na forma de uma
pedra redonda. É descrita em detalhe no
canto final do Padma Purana.
Sama Veda - terceiro dos quatro Vedas. Explica a ciência
marcial.
Sanatana-dharma- literalmente, a "eterna atividade da
alma."
Shankoddhara - local onde o Senhor matou Shankasura.
Sankranti - dia quando termina o mês bengali. Também a passagem do sol ou qualquer outro
planeta de um signo zodiacal para outro.
Sarva-kamada - nome da Suprema Personalidade de Deus
significando "Aquele que realiza os desejos de Seus devotos."
Sashtanga-pranama - respeitosa reverência executada
prostrando-se as oito partes do corpo (coxas, pés, mãos, peito, pensamentos ou
devoção, cabeça, voz e olhos fechados).
Vide também Dandavat.
Shastra - escritura.
Sat-sandarbha - seis tratados sobre a ciência do serviço
devocional por Srila Jiva Goswami. São o
Tattva-sandarbha, Krishna-sandarbha,
Bhagavat-sandarbha, Paramatma-sandarbha, Bhakti-sandarbha e Priti-sandarbha.
Shaunaka - um dos principais sábi s
inúmeros universos da manifestação cósmica se equilibram tal como tantas e
tantas sementes de mostarda.
Sita - a amada consorte do Senhor Ramachandra. Apareceu na casa de Janaka Maharaja, uma das
doze principais autoridades espirituais no universo.
Shiva-linga - representação pétrea dos genitais do Senhor Shiva frequentemente adorada pelos
shivaístas.
Shiva-puja - adoração do linga do Senhor Shiva. Vide
também Shiva-linga.
Shiva-ratri - dia do aparecimento do Senhor Shiva,
celebrando seu advento a partir das sobrancelhas do Senhor Brahma.
Skanda Purana - um dos dezoito Puranas. Descreve
extensamente Kali-yuga.
Soma - deidade que preside a lua.
Sri-kantha - nome do Senhor Shiva significando
"aquele cujo pescoço é de um lindo azul".
Srila Prabhupada - fundador-acharya da International Society for Krishna Consciousness (ISKCON)
e renomado autor de mais de setenta livros sobre a ciência do puro bhakti-yoga, consciência de Krishna sem
misturas. Suas principais obras são
traduçöes com comentários para o inglês do Srimad-Bhagavatam,
Sri Chaitanya-charitamrta, Bhagavad-gita.
Srila Suta Goswami - filho de Romaharshana. Foi o grande sábio que relatou o discurso
entre Parikshit Maharaja e Sukadeva Goswami, que forma a base do Srimad-Bhagavatam. Vide também Naimisharanya.
Srimad-Bhagavatam - principal dos dezoito Puranas. Foi glorificado por
Sri Chaitanya Mahaprabhu como amalam
puranam, "o Purana mais
puro". Foi escrito por Srila
Vyasadeva como seu comentário ao Vedanta-sutra,
e lida exclusivamente com tópicos referentes à Suprema Personalidade de Deus (o
Senhor Krishna), e Seus devotos. Srila
Prabhupada deu seus comentários Bhaktivedanta em inglês e o apresentou
maravilhosamente ao mundo moderno.
Shudra - membro da quarta ordem social no tradicional sistema
védico. Destina-se a prestar serviço às
três classes superiores, ou seja brahmanas,
kshatriyas, e vaishyas.
Sumeru - grande montanha situada no centro do universo. É a
calota da quadriga do sol.
Surya - o deus do sol.
Dizem ser o olho direito do Senhor Supremo.
Tamala - árvore cuja cor se assemelha à de Krishna. Encontrada mais em Vrndavana, India.
Tamo-guna - modo da ignorância, ou escuridão,
controlado pelo Senhor Shiva.
Tantra - hinos especiais para conjurar magias ou produzir
efeitos místicos.
Tilaka - marcas de argila colocadas na testa e outras partes do
corpo para nos designar como seguidores de Vishnu, Rama, Shiva, etc.
Tirtha - local de peregrinação.
Trayodasi - décimo terceiro dia após a lua nova ou
cheia.
Treta-yuga - geralmente a terceira, mas neste milênio a
segunda das quatro eras do universo, seguindo a Satya-yuga. Nesta era o Senhor Ramachandra apareceu. Pessoas nesta era viviam dez mil anos. Dura 1.296.000 anos solares.
Trivikrama - nome do Senhor Supremo indicando Sua
encarnação como o brahmana anão
Vamanadeva. Significando literalmente
"Aquele que deu três grandes passos", este nome lembra o passatempo
do Senhor em que estendeu Seu pé através das coberturas do universo material e
para dentro do Oceano Causal.
Triyugi - nome da Suprema Personalidade de Deus
significando "Aquele que aparece nas três yugas" ou seja Satya, Treta, e Dvapara. O Senhor apareceu numa encarnação disfarçada
na Kali-yuga, como Sri Chaitanya Mahaprabhu.
Tulasi - alfavaca sagrada
muito querida por Sri Krishna. Vide
também Manjari.
Urad Dal - lentilha branca rica em proteína.
Urugaya - nome da Suprema Personalidade de Deus
significando "Aquele que recebe muitas oraçöes".
Vaikuntha - o reino transcendental, que fica além das
coberturas do universo material.
Literalmente, "o local sem ansiedade".
Vaisheshika - Vide Kanada.
Vaishnava - devoto de Vishnu, ou Krishna.
Vaishnavismo - a ciência de bhakti-yoga, serviço devocional a Vishnu, ou Krishna.
Vamadeva - grande sábio que competia com Gautama
Rishi. Foi o secretário de Dasaratha
Maharaja, pai do Senhor Rama.
Vamanadeva - encarnação do Senhor Supremo como anão brahmana. Vide também: Trivikrama.
Varanasi - um dos mais velhos e mais famosos
lugares de peregrinação na India; também conhecido como Kashi e Benares. É um centro de filosofia impersonalista ou
Mayavada. Aqui foi onde o Senhor
Chaitanya derrotou Prakashananda Sarasvati, líder Mayavadi de sua época.
Varnashrama-dharma - sistema de quatro ordens sociais e espirituais
estabelecido nas escrituras védicas e discutido por Sri Krishna no Bhagavad-gita.
Varuna - semideus que preside todos corpos
d'água.
Vasishtha - grande sábio que era rival de
Vishvamitra Muni. Era o sacerdote
familiar de Maharaja Dasharatha, pai do Senhor Ramachandra.
Vasudeva - devoto que fez papel de pai do Senhor
Krishna.
Vasundhara - nome da mãe terra que significa
"aquela que possui ilimitada fortuna e solo fértil".
Vayu - deidade que preside o ar.
Veda - literalmente, "conhecimento". O sistema de sabedoria eterna compilado por
Srila Vyasadeva, a encarnação literária do Senhor Supremo, para a gradual
elevação de toda humanidade do estado de enredamento ao estado de liberação.
Vedanta-darshana - filosofia de Srila Vyasadeva, que culmina
em bhakti-yoga.
Vibhishana - neto de Pulastya Muni e irmão piedoso de
Ravana. Foi ferrenho devoto do Senhor
Rama, que Lhe ofereceu o reino de Sri Lanka por quatro yugas. É uma das oito
personalidades que vive por mais que um ciclo de quatro yugas.
Vimana - aeroplano.
Vindhyacala - cadeia montanhosa a oeste dos
Himalayas. Vide também Agasthya Muni.
Vishnu - a Suprema Personalidade de Deus em Sua
expansão de quatro braços.
Vishnu-dutas - servos pessoais do Senhor Vishnu; de
aparência muito semelhante à Dele.
Vishnuloka - Vide Vaikuntha.
Vishnu-murti - a forma da Deidade do Senhor adorada no
templo.
Vivasvan - o deus do sol.
Vrkodara - nome para Bhimasena significando
"aquele que tem apetite voraz".
Vyasadeva - encarnação literária de Deus. Filho de Parasara, era um grande filósofo da
antiguidade e compilador das escrituras védicas originais, inclusive os dezoito
Puranas, Mahabharata, e Upanishads.
Yadava - nome da Suprema Personalidade de Deus
significando "Aquele que aparece na dinastia Yadu".
Yajna - sacrifício védico; também, nome do
Senhor Supremo significando "personificação do sacrifício".
Yajur Veda - primeiro dos quatro Vedas. Descreve extensamente
vários procedimentos médicos.
Yaksha - membro da classe de seres semidivinos
que são seguidores de Kuvera, tesoureiro dos semideuses. Nasceram dos pés do Senhor Brahma.
Yamaraja - semideus encarregado da punição de
entidades vivas pecaminosas. É o filho
do deus do sol e irmão do sagrado rio Yamuna.
Yoga-maya - a energia interna, espiritual do Senhor
Supremo, à qual a energia externa, maha-maya,
se subordina.
Yogi - transcendentalista que pratica uma das
muitas formas autorizadas de yoga, ou
processos de purificação espiritual.
Yogina - nome da Suprema Personalidade de Deus
significando "senhor de todos yogis
e espiritualistas".
Yojana - medida védica padrão igual a oito
milhas.
Yudhishthira - filho de Dharmaraja (Yamaraja) e mais
velho dos irmãos Pandavas. A disputa
sobre seu sucessor ao trono na India é que levou à batalha de Kurukshetra.
Yuga - uma das quatro eras universais. Vide também Satya-yuga, Treta-yuga,
Dvapara-yuga e Kali-yuga.
* * *
ADENDO PELA TRADUTORA
UM CONTO SOBRE
EKADASHI...
Bhadrashila
Havia um sábio chamado
Galava que vivia às margens do rio Narmada.
O filho de Galava se chamava Bhadrashila e era um jatismara. Bhadrashila era
devotado a Vishnu. Mesmo na infância,
tinha o hábito de fazer templos para Vishnu feitos de barro e adorava Vishnu. Contava a todo mundo sobre as virtudes de
observar um vrata no ekadashi tithi (décimo primeiro dia da
quinzena lunar).
Galava de fato estava
muito feliz por seu filho ser devoto.
Mas também se sentia ligeiramente mistificado. Disse para Bhadrashila: "Sou afortunado por ter um filho
devoto. Teu caráter está além de
qualquer censura e és devotado a Vishnu.
Observas fielmente todos vratas. Como é que chegaste a adquirir estes
traços?"
"Isso é porque
lembrei das experiências de minhas vidas passadas" respondeu
Bhadrashila. "Sou um jatismara. Lembro do que Yama me contou."
"Quem eras na
outra vida?" perguntou Galava.
"E o que foi que Yama te contou?"
Bhadrashila recontou a
história.
Bhadrashila era um rei
chamado Dharmakirti, nascido na dinastia lunar.
Seu guru era o sábio
Dattatreya. Por nove mil anos
Dharmakirti governou a terra, realizando bons atos bem como más açöes. Mas perto do fim, atraiu-se pelo mal e
cometia apenas pecados. Associava-se com
pessoas más e seu punya acumulado
gradualmente se esgotou. Dharmakirti
abandonou a realização de yajnas;
desviou-se do caminho prescrito pelos Vedas. Sugestionados por seu rei, os súditos também
se tornaram maus. Um rei tem direito a
um sexto dos proventos de seus súditos.
Assim, Dharmakirti também recebeu o crédito por um sexto dos pecados de
seus súditos.
Certo dia, o rei
empreendeu uma caçada na floresta. Matou
muitos veados e ficou com fome e sede. O
rio Reva fluía através da floresta e Dharmakirti se banhou no rio. Mas não havia nenhum alimento. Enquanto isso, alguns peregrinos também
chegaram até ali e estes estavam observando um vrata de ekadashi tithi. Os ritos envolviam jejuar e ficar acordado de
noite. Junto com os peregrinos, Dharmakirti
também jejuou e ficou acordado de noite.
Porém o rei estava virtualmente morrendo de inanição por falta de
alimento. Quando a madrugada raiou ele
morreu de fome.
Os servos de Yama
chegaram para levar Dharmakirti até Yama.
Seus rostos eram terríveis. A
jornada até a morada de Yama levou vários dias, porém eventualmente Dharmakirti
chegou até lá e foi levado diante de Yama.
Chitragupta mantém um
registro de todas boas açöes e pecados.
Yama chamou Chitragupta e disse:
"Dharmakirti foi levado até aqui.
Conta-me qual o punya que
acumulou e os pecados (papa) que
cometeu."
"Este homem tem
sido realmente mau" respondeu Chitragupta.
"Contudo, acabou jejuando num ekadashi
tithi. Seus pecados portanto, foram
todos perdoados."
Yama convocou seus
servos e começou a repreendê-los:
"Que fizeram vocês?" reclamou.
"Como ousam trazer uma pessoa tão santa diante de mim? Vocês já sabem que não é para trazer para
punição pessoas que observam ekadashi
vrata. Tampouco devem trazer aqueles
que oram a Vishnu. Tais pessoas vão
direto para o céu. Tragam para cá apenas
os pecadores."
Yama repetiu para
Dharmakirti o que dissera para seus servos e o rei se tornou penitente por seus
maus atos anteriores. Tinha, no entanto,
acumulado bastante punya devido a
observar ekadashi vrata. Portanto começou a passar boa parte do tempo
no céu, antes de nascer novamente como brahmana. É porque lembrava de todos esses incidentes
que Bhadrashila era tão devoto.
Compreendeu que como se podia obter tanto punya por observar inconscientemente o ekadashi vrata, então realmente seria grande o punya obtido por observar o rito conscientemente.
Galava considerava-se
excessivamente afortunado por ser pai de tal filho maravilhoso.
(extraído do Narada Purana
por Vyasadeva)
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